Almas reveladas e ampliadas

Este texto saiu no Caderno2 no dia 10 de novembro. Tentamos uma entrevista com o Steve Mccurry, mas infelizmente as respostas chegaram depois do fechamento da matéria. Abaixo então o texto publicado e em seguida a entrevista que não saiu no jornal.

Monges rezando, Kyaitko, 1994

São 30 anos andando pelo mundo com o único propósito de conhecer a humanidade e narrar, ou pelo menos tentar, sua história. Imagens que não se cansam de ser vistas, que nos sensibilizam pelas cores, pela delicadeza , mas com o peso da uma fotografia jornalística. São assim as fotografias de Steve Mccurry, conhecido através de suas reportagens na revista National Geographic e membro da agência Magnum desde 1986.

Steve Mccurry esteve presente em momentos cruciais de vários países como o Afeganistão, Líbano, Camboja, Índia e Tibete. Também fotografou o atentado do 11 de setembro em Nova York.  Como ele mesmo já disse em várias entrevistas , um dos aspectos importantes do fotojornalismo é poder mostrar para as pessoas o que está acontecendo.

Suas fotografias chegam agora em São Paulo por meio da mostra “Steve Mccurry – alma revelada” organizada em parceria com a Galeria Babel e que abre nesta quinta –feira no Instituto Tomie Ohtake. São cerca de 100 imagens que passeiam pelos inúmeros lugares por onde Mccurry passou. Inúmeras situações que ele fotografou: imagens de rituais, guerras, tradições pessoas. Geografias pessoais de um mundo que nem sempre temos a possibilidade de conhecer ou vislumbrar na imprensa diária. Cenas que procuram sair do senso comum.  Isso só se torna possível porque ele não precisa necessariamente se preocupar somente com o factual com a notícia em si, mas pode aliar a isso um certo mistério e incerteza que cerca a fotografia. Suas imagens não são decifráveis à primeira vista requerem um tempo de contemplação, de dialogo.

Procissão, Burma, 1994

Mas sem dúvida nenhuma falar de Steve Mccurry é falar também da imagem que se tornou um dos ícones do século: a da menina afegã, Sharbat Gula, fotografada em 1984 e que foi capa da National Geographic. Uma imagem impactante conhecida no mundo todo e que levou o fotografo a tentar encontrá-la novamente. Isso só foi possível 20 anos depois. O rosto já não era o mesmo, mas os olhos não perderam a intensidade e a profundidade do verde.

Mas é claro que Steve Mccurry não é fotógrafo de uma imagem só. Na exposição nos deparamos com várias de suas fotografias que narram as últimas décadas do mundo, trazendo à tona as marcas geopolíticas, as cicatrizes das guerras, a sutileza de uma prece de monges. Um do destaque da mostra é a inclusão de seis fotografias feitas durante o ataque às Torres Gêmeas, em setembro de 2001, em Nova York. Imagens diferenciadas, já que acostumado à cobrir conflito em outros países, Mccurry  se deparou com o fato de ter que registrar um ataque ao seu próprio país. Imagens que agora ao lado das outras reforçam o olhar que ele tem sobre o mundo.

Mas uma curiosidade também se faz presente. A indústria fotografia que dirigiu seu olhar para as inovações tecnológicas digitais acabou por tirar do mercado o filme kodackrome, na época do analógico um dos preferidos dos profissionais. Criado pela Kodak em 1935 deixou de ser fabricado em 2009. Coube a Steve fotografar o último rolo de filme e as fotos que fez são agora apresentadas nesta mostra, como uma homenagem a uma película que fez parte de sua vida neste quase 30 anos de fotografia. Na época em que a Kodak anunciou o fim do filme em várias partes do mundo realizaram-se experiências parecidas – fotografar o último kodachrome, mas no caso de Steve, foi a própria Kodak que entregou o filme ao fotografo.

Ao fim da exposição o que resta é a visão de um fotografo que está de acordo com a tradição mais refinada do documentarismo na busca de traçar uma possível história da humanidade.

Nova York, 11/09/2001

 Entrevista:

1. Uma mostra com mais de cem imagens. Podemos dizer que é uma retrospectiva?

     Não acredito que seja uma retrospectiva embora esta mostra reuna meus melhores trabalhos. Uma retrospectiva deveria compreender não parte do seu trabalho, ma o resumo de uma carreira.

2. O que é mais importante numa fotografia?

      Existem vários tipos de imagens, mas para mim o mais importante é poder contar uma história, despertar emoções. Óbvio que a luz e a composição são importantes, mas o contexto de uma história é o fundamental.

3. Fale do projeto o último Kodachrome. Como escolheu o tema a ser fotografado?

     O Kodachrome é um filme ícone. Provavelmene o melhor filme que j;a existiu. Quis fazer alguns retratos começando com Robert de Niro, fotografar uma tribo de nomades na Índia; atores indianos e é claro as ruas de Nova York onde vivo.

4. Você fotografou conflitos no mundo todo. Como foi fotografar um ataque me seu próprio país. Estou me referindo ao 11 de setembro?

      Como você disse eu acompanhei o horror da guerra em vários países, mas o 11 de setembro aconteceu na soleira da minha porta. Inicialmente fotografei do telhado da minha casa e em seguida andei pelos escombros e passei a noite fotografando. Tinhamos pouquissimas informações e não podíamos – no momento – calcular o tamanho da tragédia até chegar ao marco zero. Não dava para acreditar, parecia um pesadelo, ao mesmo tempo me dei conta que nossas vidas tinham mudado a partir daquele momento para sempre.

Exposição no Instituto Tomie Ohtake

Av. Faria Lima, 201.

Até 29/01

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Uma aula de fotojornalismo

Estou lendo um livro sensacional: “Get the Picture: una storia personale del fotogiornalismo”, um relato do John G. Morris um dos mais importantes editores de fotografia. Foi editor da Life, durante a segunda guerra mundial, do Ladie’s Home Journal, onde teve a idéia de criar uma série “Um dia em família”que interessou muito o Edward Steichen e acabou dando origem a fantástica exposição no Moma “The Family of Man”nos anos 50. Em seguida ele foi  diretor da Magnum, trabalhou para o Washington Post e editor do New York Times. Desde 1983 vive em Paris. O livro é delicioso pois conta de forma informal de como é editar um jornal, suas relações com os fotógrafos e acima de tudo nos narra os bastidores do fotojornalismo. Um livro seminal que espero seja logo traduzido para o português! De qualquer forma também pode ser encontrado em língua inglesa:”Get a Picture; a personal history” . Na capa uma
foto do James Nachtwey , na minha opinão, o melhor fotojornalista do mundo, em ação em 1994. Uma leitura imperdível!

Diário do front por um herói da câmera

Matéria minha no Estadão de hoje.

Sai no Brasil registro da 2ª Guerra pelo fotógrafo húngaro Robert Capa

18 de abril de 1945. Robert Capa acompanha soldados americanos que estão à procura de atiradores alemães: mesmo tendo se especializado na sua cobertura, era crítico ferrenho da guerra

Simonetta Persichetti

Robert Capa (1913-1954) queria ser escritor e, se tivesse seguido este seu primeiro impulso, provavelmente seria um cronista brilhante. Por acaso, se tornou fotógrafo e inscreveu seu nome na história do fotojornalismo mundial. Mas não esqueceu das letras e resolveu escrever um diário de sua passagem pela Segunda Guerra Mundial. O diário se tornou livro: Ligeiramente Fora de Foco, ilustrado com suas imagens feitas durante a Segunda Guerra e publicado pela primeira vez em 1947 e agora no Brasil pela Cosac Naify. 

Com excelente bom humor, a narrativa que vai intermediar revelações de suas bebedeiras, romances (fuga deles), jogos de pôquer, articulações para conseguir se tornar um correspondente de guerra, todo um panorama das décadas 1930-1940 se desenvolve diante de nossos olhos. Como se tomássemos emprestado o seu olhar que, apesar de ter se tornado conhecido pela sua cobertura de guerra – foi sempre um crítico contumaz dela. 

Robert Capa inventou a si mesmo: nascido Endré Erno Friedmann, em 22 de outubro de 1913 em Budapeste é obrigado por seus ideais marxistas a deixar a Hungria. Vai para Berlim, onde estuda ciências sociais e é na Alemanha que inicia, em 1931, sua carreira como fotojornalista na agência Dephot, a mais importante da época. 

A ascensão do nazismo o obriga a deixar Berlim e ir para Paris. É lá, juntamente com a também fotógrafa e sua mulher Gerda Taro, que em 1934 ele cria Robert Capa repórter mítico nascido nos Estados Unidos. Ele se torna seu próprio representante. 

O fotógrafo que ninguém conhecia fica célebre rapidamente e se assume como tal. Em 1936, parte com Gerda para a Espanha para cobrir a Guerra Civil Espanhola. Gerda morre durante a cobertura no ano seguinte. 

Espanha. Ele inicia seu trabalho como fotógrafo de conflitos. É na Espanha que realiza sua talvez mais lembrada e contestada foto, a do miliciano no momento de sua morte. Muitos afirmam que foi forjada. Seu biógrafo Richard Whelan sempre negou. Debates sobre este assunto são sempre acirrados. Nada, por enquanto, foi demonstrado. Mas, sem dúvida, esta é uma das imagens que ajudaram a reforçar a lenda Capa.

É por intermédio de seus olhos que aprendemos que a guerra nem sempre está na batalha, mas nos olhares das vítimas, daquelas que sofrem as consequências de algo sobre o qual não tiveram nenhuma chance de opinar. 

Ele não gostava da guerra. Isso fica claro em seus escritos. Muitas vezes se nega a fotografar. Respeita momentos, pessoas. Baixa a câmera. Em outros instantes sabe que aquela é a imagem certa e sua divulgação pela mídia (a maior parte de suas imagens da guerra foram publicadas na revista Life) faria a diferença. 

Ligeiramente Fora de Foco é o título que ele tira de uma de suas experiências de quando estava em Argel. Ele foi picado por vários percevejos e como reação ficou com os olhos inchados e sem conseguir abri-los direito diz: “Estava com meus olhos fora de foco.” Retoma esse mesmo conceito ao falar de suas inesquecíveis fotos do desembarque da Normandia, em 1944: “Ligeiramente fora de foco, um pouco subexpostas e a composição não é nenhuma obra de arte.” 

Robert Capa – quase como uma catarse – desfaz o mito que ele mesmo ajudou a criar. Como escreve o também fotógrafo e jornalista Hélio Campos Mello na contracapa do livro: “Numa prosa que cativa pela simplicidade, pelo humor e pelo brilhante relato histórico, ele mostra sua fase desconhecida. E, no movimento de desconstrução do mito, surge um homem inteligente, fascinante e que – suprema qualidade – se levava muito pouco a sério.” É isso. 

Na Sicília. Hilariante a narrativa de seu primeiro pulo de paraquedas na Sicília: “…menos de um minuto depois aterrissei numa árvore no meio de uma floresta. Durante o resto da noite fiquei ali pendurado. Quando amanheceu, três paraquedistas me encontraram e cortaram as cordas. Eu me despedi da minha árvore. Nossas relações tinham sido íntimas, mas um pouco prolongadas demais.”

Robert Capa nos conta de seus medos, de suas angústias, de sua vontade de abandonar tudo, mas também da adrenalina de seu ofício. Refinado e bon vivant, gostava de tomar champanhe, comer ostras e discutir com seus amigos escritores como John Steinbeck, com o qual realizou um trabalho na Rússia (leia abaixo) e Ernest Hemingway, para ele seu mentor que carinhosamente chamava de Papa. Não podemos esquecer que ele estava às vésperas de completar 30 anos quando escreveu esse livro. 

Ironicamente, a mitologia supera sua criatura. Robert Capa morreu muito cedo, aos 41 anos, na Indochina, ao pisar numa mina (medo que ele descreve no livro quando ao chegar a Argel e se afastar do carro se encontrou no meio de um campo minado). Onze anos depois, ele também se afasta do carro, mas desta vez pisa na mina. Diz a lenda que ele morreu sem deixar cair sua câmera. Não se sabe. Mas sua morte prematura ajudou a confirmar o mito e esse livro agora o reforça, já que se sabe que ele nunca se colocou como protagonista de suas imagens, afinal esse lugar sagrado era dos personagens que retratava.

Exposição Linha de Frente se despede de São Paulo

Você tem ainda hoje e amanhã para ver ou rever a mostra Linha de Frente de Francesco Zizola(leia aqui) um dos fundadores da Noor Images que está no Território da Foto (Rua Mateus Grou, 580). Trabalhos que apresentam as andanças de Zizola pelo mundo durante seus mais de 25 anos de fotografia. Imagens de conflitos, de encontros e desencontros de respeito pela dignidade do ser humano. A tragédia humana contada por meio da vida, da esperança e da possibilidade de resistir. Mas suas imagens também não deixam de apontar nossas responsabilidades pelo mundo que estamos criando. Um olhar agudo, de perto, próximo, muito próximo, mas que não deixa de lado a sensibilidade de Zizola frente a dor. Uma poética delicada mas não por isso menos contundente. Um olhar sobre o mundo.

A onda carioca de Francesco Zizola

Depois da exposição “Modos de Olhar” em Recife e “Linha de Frente”em São Paulo, agora é a vez do Rio. A exposição “Onda Carioca” abre nesta sexta-feira, dia 29 no Ateliê da Imagem (Av. Pasteur, 453 – Urca), na Urca a partir das 19h.

Se em Modos de Olhar, Francesco Zizola apresentou seu olhar mais autoral e sua visão particular do mundo e em Linha de Frente nos mostrou seu trabalho como fotojornalista, em Onda Carioca, ele apresenta sua visão de convivência nas praias cariocas, como escreve no catálogo da mostra a crítica de fotografia, Claudia Buzzetti:

“A geografia da Cidade Maravilhosa parece ter sido criada para privilegiar a praia: sem dúvida alguma ela é o centro em torno do qual acontece grande parte da vida dos cidadãos. Para entender isto basta passear pela orla e observar todas as atividades que lá acontecem. Ela não é um lugar muito especial só para os moradores dos bairros próximos, mas para todos os habitantes da cidade, e representa um espaço democrático, sem diferença de classe social, cultura ou cor da pele. No Brasil, um dos países com litoral mais extenso do mundo, as praias não podem ser privatizadas. O olhar rápido e esperto de Francesco Zizola captou as diversas cenas que encontramos nelas, e mostra como o Rio de Janeiro e suas praias se tornam em instantes cenários de filme perfeitos”.

Se você ainda não viu, não deixe de ver:

“Modos de Olhar”- Arte Plural Galeria – Rua da Moeda, 40 – até 21/11, Recife


“Linha de Frente”- Território da Foto – Rua Mateus Grou, 580 – São Paulo


Mega evento de Francesco Zizola no Brasil

Minha empresa “Arte em Foco”está trazendo para o Brasil um mega-evento envolvendo o premiado fotojornalista italiano Francesco Zizola, reconhecido internacionalmente e um dos membros fundadores da Noor Image.


Apresentamos a  trajetória deste fotojornalista nos seus 25 anos de carreira, trazendo  visões diversificadas sobre lugares, pessoas e paisagens que ele acompanhou, na maioria das vezes com a função de nos apresentar fatos que não poderíamos presenciar. Nem por isso, mesmo nas situações mais adversas, ele deixou de imprimir poética por meio de seu olhar crítico.O projeto é uma concepção curatorial de Simonetta Persichetti e Francesco Zizola e pretende anteceder o início do ano Itália no Brasil, que ocorrerá em 2011.

Serão apresentadas três exposições diferentes, porém simultâneas, em três galerias do Brasil: Recife (Modos de Olhar), São Paulo (Linha de Frente) e Rio de Janeiro (Onda Carioca).

Mas a idéia não apenas mostrar imagens, mas trazer todo um trabalho curatorial que vai envolver workshops e lançamentos de livros.

Abaixo você pode acompanhar a programação:

Exposições:

Dia 20 de outubro – Recife – Modos de olhar – ARTE PLURAL GALERIA

Dia 21 de outubro – São Paulo – Linha de Frente – TERRITÓRIO DA FOTO

Dia 29 de outubro – Rio de Janeiro – Onda Carioca – ATELIÊ DA IMAGEM

No dia da abertura de cada  exposição Hélio Campos Mello, da revista Brasileiros, entrevistará Francesco Zizola.

ATIVIDADES COMPLEMENTARES

Workshops

Recife:

Dias 15 e 16 de outubro. Informações:

arteplural@artepluralgaleria.com.br

São Paulo:

Dias 22 e 23 de outubro. Informações:

atendimento@territoriodafoto.com.br

Rio de Janeiro:

Dias 27 e 28 de outubro. Informações:

info@ateliedaimagem.com.br

NOITE DE AUTÓGRAFOS

Dia 25/10 – Fnac/Pinheiros – São Paulo – 19 h.

Praça Omaguás, 34

Dia 26/10 – Barra Shopping – Rio – 19 h.

Av. das Américas, 4666 – Barra da Tijuca                      A

Contamos para a realização do projeto com a ajuda de vários interessados na fotografia:

Ipsis, Gráfica e Editora que patrocinou a publicação do catálogo

Fnac Brasil, que importou o livro “Born Somewhere”,

Institutos Italianos de Cultura Rio de Janeiro e São Paulo que possibilitaram a vinda de  Francesco Zizola ao Brasil,

10b Phtotography, responsável pelo tratamento e impressão das fotografias.

Brasileiros por sua ajuda na curadoria e divulgação do projeto.

Nas redondezas do perigo estão as melhores imagens

Autor de uma das mais marcantes imagens do século 20, participa de workshop e palestra na cidade

Simonetta Persichetti, especial para O Estado

Steve McCyrry

Steve McCyrry

Foto da menina afegã Sharbat Gula, que foi capa da ‘national Geografic’ – um clássico de Curry

SÃO PAULO – Esperar o momento certo para fotografar. Não ter pressa e ao mesmo tempo agir de forma certeira. Parece ser esta a tônica do fotógrafo Steve McCurry, que virá a São Paulo a convite do SP Photo Fest e da revista Fotografe Melhor para workshop e palestra no Museu da Imagem e do Som (MIS), entre os dias 20 e 23 de maio. Também está prevista, a exposição Desassossego da Cor no dia 25 na Galeria Babel. A exposição tem curadoria de Eder Chiodetto e de Jully Fernandes.

McCurry que já esteve presente nos maiores conflitos do mundo tornou-se conhecido nos anos 1980 ao fotografar uma menina afegã, Sharbat Gula. Os olhos verdes que nos fixavam diretamente fizeram a volta ao mundo na capa da National Geographic.

Mas suas fotos também nos trazem os conflitos de lugares como o Iraque, da ex-Iugoslávia, do Líbano e, é claro do Afeganistão. E foi no próprio Afeganistão que sua carreira de fotojornalista passou a ser reconhecida. Vestido com roupas locais, atravessou a fronteira com o Paquistão logo após a invasão soviética no final de 1979. Publicou as primeiras imagens do conflito. Também andou pela Índia, onde aprendeu, segundo ele, a ver e esperar, Tibete, Burma e fotografando os templos de Angkor Wat, assim como o ataque às Torres Gêmeas, nos Estados Unidos em 2001.

Seu trabalho está inserido dentro da mais tradicional escola do fotodocumentarismo. Uma fotografia humanista que se aproxima do sujeito fotografado com o respeito e com vontade de narrar histórias. Cada imagem é uma imagem que se sustenta por si própria, mas que consegue crescer quando editada ao lado de outras criando uma narrativa jornalística. Usa a cor como forma de linguagem, de poética. Um trabalho delicado, mas não por isso menos eficiente e contundente. De sua casa nos Estados Unidos, ele concedeu entrevista exclusiva por e-mail para o Estado.

Quase todos os fotojornalistas que fazem coberturas de guerra não gostam de se definir como fotógrafos de guerra. O senhor também não gosta. Por quê? E por que, então, estão sempre em áreas de conflito?

Eu sou um fotógrafo documentarista. Quero contar histórias com as minhas fotografias. Nos últimos 30 anos andei pelo mundo todo fotografando momentos cruciais de vários países como a Afeganistão, Líbano, Camboja, Índia e Tibete. Algumas pessoas são simplesmente levadas para a linha de frente por sua história particular. Querem ser testemunhas daquelas situações, ver por si próprias em primeira mão. É difícil de explicar, mas de certa forma esta motivação faz parte do DNA. Enquanto algumas pessoas fogem das cenas, outros estão indo ao seu encontro. Como fotógrafo documental me sinto compelido a contar estas histórias. Em muitos casos, as pessoas que você está fotografando não são capazes de contar sua própria história e, informar o mundo por meio dos jornais, revistas, rádio e televisão, é a melhor chance que elas têm de obter visibilidade e ajuda. Creio que cobrir áreas em conflito é importante. O drama humano destes lugares não pode ser subestimado e eu creio que conseguir transmitir estas emoções por meio de fotografias seja nobre. Fotógrafos querem estar perto do perigo porque é lá que as imagens estão.

Imagem feita no Tibete: para Steve McCurry, é preciso esperar o momento certo para fotografar

Depois de tantos anos registrando conflitos, como o senhor vê a humanidade?

Desempenhamos papéis diferentes, mas somos parte da mesma raça humana. Somos iguais, mas fazemos coisas diferentes. Comemos comidas diferentes, vivemos em casas diferentes, falamos diversos idiomas. Sinto curiosidade e empatia pelo ser humano e cada criatura viva é fundamental para minha fotografia. Humanidade e preocupação com a vida neste planeta é o que me guia para conhecer pessoas e culturas.

 

Impossível não perguntar sobre a menina afegã, Sharbat Gula, que o senhor fotografou em 1984. Esta sua imagem, é talvez, um dos grandes ícones fotográficos do século 20. Por que decidiu procurá-la 20 anos depois?

A imagem desta menina foi reconhecida no mundo inteiro. Recebi várias cartas e e-mails até que decidi tentar encontrá-la. Muitos queriam conhecer sua história. Quando a achamos foram feitos vários testes científicos que comprovassem que era realmente ela. Mas nós não tínhamos dúvidas. O documentário que fizemos para encontrá-la teve um impacto muito forte em minha vida. Mas o melhor da história foi o fato de sermos capazes de reencontrá-la, ajudá-la e fazer sua vida melhor.

 

Qual a função do fotojornalismo para o senhor?

Gosto de homenagear pessoas, lugares e culturas por meio das minhas imagens. Também gosto de contar as histórias desses personagens com a minha fotografia – especialmente daqueles que mostrei em áreas de conflitos. Acho que esse é um aspecto importante do fotojornalismo – mostrar pessoas, o que está acontecendo.

Fazer uma reportagem fotográfica para um jornal diário ou revista semanal de informação é diferente de fotografar para uma revista como a National Geographic. Como é isso?

Fotografar para os jornais é bom porque te ensina muito sobre jornalismo e deadlines, sobre histórias e fotografia. O único senão é que existe um certo tipo de edição, que privilegia o impacto. Isso acaba por diminuir o mistério e a incerteza que muitas vezes é tão maravilhoso na fotografia: ser capaz de interpretar, cada um a sua maneira, o sentido de uma imagem. Raramente este tipo de ambiguidade tem espaço no mundo do jornalismo.

 

Existe mesmo um excesso de imagens no mundo hoje em dia? Como saber se a eficiência da imagem continua? Como manter a credibilidade de uma matéria?

A única tática que eu tenho é ser respeitoso, aberto, e ter consideração com as pessoas que eu fotografo. Não me canso de afirmar o quão importante é demonstrar respeito e delicadeza para com todas as pessoas. Problemas no mundo acontecem quando nos sentimos desrespeitados, não vistos e colocados de lado.

Quais suas expectativas para esse encontro aqui em São Paulo?

Espero aprender e trabalhar com fotógrafos e estudantes e também espero ter ótimas discussões durante a palestra. E também espero, como já te disse acima, fazer um belo ensaio explorando novos lugares de São Paulo e do Brasil.

Palestra

Quando: 20 de Maio (Quinta-Feira)

Onde: MIS. Auditório (170 Pessoas). Av. Europa, 158, 2117 4777. Quando: 20 de maio, 19h30. Quanto: grátis – Ingressos distribuídos 1h antes da palestra

 

Exposição Desassossego da Cor

Onde: Galeria Babel. Rua Dr. Virgilio de Carvalho Pinto, 422, Pinheiros.

Quando: 25 de maio, 18 horas.

Quanto: Grátis