Maureen Bissiliat expõe Alma Preta em Paraty

São 30 fotografias que compõem um painel, como se fosse um mosaico. Assim é  Pele Preta” um recorte, ou talvez, melhor dizendo, um capítulo da exposição “Maureen Bissiliat Fotógrafias”, organizada pelo Instituto Moreira Salles, que abriu no começo do ano em Sáo Paulo, seguindo depois para o Rio de Janeiro. A escolha destas imagens foi feita pela própria fotógrafa, cujo acervo de mais de 16 mil imagens foi incorporado ao acervo do Instituto Moreira Salles em 2003.

Curiosamente, este é um dos primeiros ensaios feitos por Maureen, e um dos primeiros que ela trouxe a público em 1966 no Museu de Arte Moderna de Sáo Paulo. Retratos de personagens aparentemente anônimos, mas que crescem e se impõem por meio de seus olhares, mas especialmente por meio do olhar de Maureeen. Mas a novidade daquele trabalho, naquela época, estava  na estética que ela conseguiu criar, no domínio absoluto do chiaro/escuro. Técnicas que possivelmente, que ela, nascida na Inglaterra, desenvolveu durante seus estudos com o pintor André Lothe em Paris, em 1955 ou no Art Students League em Nova York (1957), antes de se fixar definitivamente com a família no Brasil

Apresentava-se ali o início de sua trajetória como fotógrafa que inspiraria muitos fotógrafos documentaristas brasileiros, que embora tendo como referência a “realidade” sempre a registraram com uma poética diferenciada.

Nas fotografias de Maureen  transparece a busca pela cultura brasileira. Uma forma de entender, uma maneira de mostrar. Talvez por isso seu apego á literatura. Mas não só. Maureen Bisilliat, muito antes da palavra se tornar moda, já era uma artista multimídia. Há mais de vinte anos trabalha com vídeo, com textos, monta recorta, reapresenta seu acervo.

Inquieta, sempre um busca de novos desafios. Nesta edição do Paraty ela traz algo inédito que será mostrado durante a palestra na noite desta quinta-feira, dia 16: “não gosto de ficar só falando e projetar meus trabalhos não faz muito sentido para mim”, conta por telefone Maureen, “durante a exposição em Sáo Paulo, junto com o fotógrafo e cineastas, Lucio Kodato, filmamos a exposição em filme 35mm”. Para tanto usaram um grua para sobrevoar as várias salas da mostra: “o filme é curto, apenas 8 minutos, mas é como se o espectador estivesse fazendo uma viagem fluvial, deslizando pela mostra”.

Náo surpreende Maureen ter feito um filme sobre sua mostra. Ao olharmos seus ensaios, suas reportagens, percebemos sempre a necessidade de pensar em sequência, um pensamento fílmico: “gosto  de trabalhar com equipe, de juntar saberes, de vários conhecimentos que contribuem para formular uma obra, gosto quando uma imagem se alia á escrita.”

Interessada em discutir e pensar a fotografia contemporânea, Maureen espera neste encontro de Paraty poder ouvir e falar sobre a nova forma de entender a fotografia: “quando comecei  a fotografia falava por si, agora ela fala através de um autor”. Este discurso sobre o fazer imagético é que a impulsiona a produzir mais.

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“Utilizo a fotografia para me aproximar da pintura

George Rousse abandonou a faculdade de Medicina para se dedicar à fotografia. Suas influências passam por profissionais como Ansel Adams, Edward Steichen e Alfred Stieglitz – fotógrafos formalistas, bem centrados no fazer fotográfico, clássicos. Mesmo assim, Rousse, nascido em Paris, em 1947, quebrou todas as regras de seus mestres e desde os anos 1980 inclui na sua construção imagética o desenho, a pintura o jogo óptico. Ele trabalha com intervenções urbanas em lugares abandonados, onde se apropria do espaço criando uma nova função que se perpetua na fotografia. Sim, a intervenção só existe na sua fotografia por meio de jogos ópticos e de luzes que causam estranhamento ao olhar. São imagens que se colocam dentro da experimentação contemporânea, dentro da pluralidade da criação e deixam evidente que toda fotografia é resultado de uma construção. Cada época tem sua representação. George Rousse é filho de seu tempo, um tempo que começa a questionar o conceito da imagem. Ele vem ao Brasil participar da 6ª edição do Paraty em Foco e esta não é sua primeira vez no País. Desde 2006 ele tem participado de exposições por aqui. De Paris, onde trabalha e vive, Rousse falou por telefone com o Estado.

Por que a escolha de espaços vazios e abandonados para suas intervenções?

Na base existe um protesto contra uma sociedade capaz de destruir aquilo que construiu, simplesmente por questões econômicas. Mas num segundo momento, o que me interessa é reviver esse espaço que foi abandonado no sentido de lhe dar novas funções e minha intervenção é transformar essa construção em uma obra de arte.

Se a intervenção já é uma expressão artística, por que a necessidade da fotografia?

Não, a obra é a fotografia. Ela é capaz de memorizar o lugar e o trabalho que realizo. É um jogo óptico que só existe quando eu me aproprio e fotografo. A obra só se realiza por meio da fotografia, não existe sem ela.

Você fotografa e em seguida faz intervenções digitais na imagem ou literalmente ocupa o espaço com seus desenhos?

Não, não trabalho com projeções digitais. Pesquiso, seleciono e fotografo locais abandonados. Em seguida desenho a intervenção que, acredito, vai combinar com o espaço e construo uma maquete lá no lugar. Crio uma forma que o que você vê na imagem é um momento único, só pode ser vista de ângulo específico, capaz de ser capturado pela lente fotográfica. Trabalho no chão, nas paredes e organizo tudo a partir da óptica fotográfica. Crio uma ideia de tridimensionalidade a partir da bidimensionalidade. Mas tudo depende do aparelho fotográfico. É isso que me interessa, a foto final.

Você fará uma intervenção em Paraty. Como será o processo?

Em Paraty será diferente. O pessoal da organização me enviou fotos de um mercado local. Neste momento estou trabalhando exatamente nesse projeto, desenhando a intervenção. Gosto de eu mesmo fotografar o lugar, mas desta vez não foi possível. Então, agora é um desafio: preciso imaginar como transformar o local que ainda não vi pessoalmente.

Há muito você trabalha na pluralidade fotográfica, entrando no mercado da arte. Hoje temos fotógrafos tentando fazer arte e artistas se apropriando da fotografia. Como vê esse movimento?

Sou favorável a todas as ações fotográficas. Minha visão é clássica, mas usei a fotografia para me aproximar da pintura. Foi assim que cheguei às intervenções, trabalhando ao mesmo tempo fotografia e pintura. Ainda assim acredito que o resultado de meu trabalho é fotográfico.

Pode-se dizer que seu trabalho se assemelha à arte pré-histórica ou a um grafite?

Com certeza, acho que parte do meu trabalho pode ser definido como arqueologia, arqueologia de uma sociedade atual. E procuro, apesar de tudo, registrar a presença humana nesses lugares, deixar marcas de ocupação.

Ao mesmo tempo você brinca com a ilusão…

Não brinco com a ilusão, uso recursos fotográficos. A fotografia como objeto é bidimensional, mas o espaço que fotografo é tridimensional. Procuro trazer essa sensação usando a fotografia. Em geral, esses locais não são abertos ao público, não podem ser visitados. Na verdade, eu os torno visíveis. É isso!

Radiografia do Planeta Terra

foto: Francesco Zizola: integrante do Noor Image

Inventários da Terra é o tema central desta 6.ª edição do Paraty em Foco, que ocorre de 15 a 19 de setembro. O festival tem-se firmado como um dos mais importantes do País e a cada ano se aprofunda na reflexão do papel da fotografia na sociedade contemporânea, discutindo de que forma estamos retratando ou interpretando nosso planeta, que imagens estamos criando. Sua função plural – assim como também é o festival – será discutida nas exposições, palestras e workshops durante os cinco dias na cidade fluminense de Paraty.

Este ano a ênfase é nos jovens expoentes, como o argentino Alejandro Chaskielberg, mas sem deixar de criar um paralelo com artistas que há mais de 20 anos já discutem em suas obras o papel da imagem e sua ressignificação na atualidade. É o caso de fotógrafos como o francês George Rousse ou do italiano Olivo Barbieri , que fazem da arquitetura da cidade seu tema de interesse, criando jogos e brincadeiras ópticas que nos levam a indagar a criação imagética. O paradoxo desses trabalhos é a ênfase na arte tecnológica, onde o “truque” fica às vezes mais interessante do que o conteúdo.

Coletivos. É o uso e abuso dos recursos técnicos que, por outro lado, são inerentes à linguagem fotográfica. Mas não só. Da Holanda chega a agência fotográfica Noor, que traz a exposição Consequence, apresentando sob o ponto de vista dos nove fotógrafos afiliados o impacto e as consequências da ação humana sobre o planeta. A exposição foi exibida oficialmente no fim do ano passado em Copenhague. Outro coletivo que também se apresenta é o português Kameraphoto: “Conhecemos muito pouco da fotografia portuguesa, e esta é uma forma de nos reaproximarmos de Portugal”, comenta por telefone Iatã Cannabrava, coordenador de programação do Festival.

Serão dez mostras nacionais e internacionais, 20 workshops, 14 entrevistas ao vivo, mais noites de projeções e leilão de fotos. Uma exposição de fotos de Maureen Bisilliat também está prevista para a Galeria Zoom. O Brasil está presente ainda nos trabalhos de Bob Wolfenson, Anderson Schneider (DF), Jonne Roriz (SP), Francilins (MG), Rubens Mano (SP), André Vieira (RJ) e Cris Bierrenbach (SP).

O diferencial deste ano é a apropriação de espaços públicos pelos artistas: “Paraty não possui muitos locais para exposições. Criamos, então, a oportunidade de quatro espaços públicos serem ocupados por artistas, abrindo assim uma forma alternativa de mostrar a fotografia na cidade”, comenta Iatã. Coincidentemente, num momento em que se produz muito, se vê pouco e se fala menos ainda, os workshops que discutem o papel da fotografia, fotografia-arte, edição e curadoria são os que já estão esgotados. A programação do Festival poderá ser acompanhada diretamente no site do Paraty Em Foco: http://www.paratyemfoco.com.

Pierre Jahan, fotógrafo surrealista e de publicidade

Uma das exposições que mais gostei em Arles, foi a do fotógrafo francês Pierre Jahan (1909-2003) um dos expoentes da fotografia surrealista e da fotografia publicitária. Para os que ainda (sic!) tem preconceitos em relação à fotografia publicitária  e/ou de moda, lembro que os primeiros fotógrafos destas modalidades foram justamente os pictorialistas, dadaístas, surrealistas. Ou seja, aqueles que acreditavam na fotografia construída, pensada e os que queriam dar à fotografia o status de expressão autônoma. A exposição foi montada no Musée Réattu, que conserva algumas obras do autor.

Pierre, não quis se ligar a grupo nenhum e andou com total liberdade – coisa aliás comum naquela época – nas mais variadas linguagens fotográficas: fotógrafo surrealista, publicitário e até fotojornalista. Para lembrar uma de suas imagens foi exposta no MAM-SP, na mostra “Olhar e Fingir”.

Mas o que mais me chamou a atenção foi seu trabalho publicitário. Era o início desta linguagem fotográfica que – como já disse acima – estava ligada muito ao surrealismo, já que foram eles ou este movimento que percebei que a fotografia era índice, era rastro, mas que convencia graças ao fato de estar colada em seu referente.  Lindas e sensuais suas fotos sobre o nú, sobre o amor. Imagens estas que foram usadas para ilustrar um poema de Jean Cocteau. Começou a fotografar nos anos 30, época em que chegou a Paris, cidade onde morou a vida toda. Independente, fotografava por prazer. Livre, fez sempre o que quis. Apaixonado pela experimentação, ousou sempre que pode. Defensor dos direitos dos fotógrafos ajudou na fundação da Federação Francesa da Associaçãos dos Fotógrafos.

 

 

Blanco, um ensaio de Stefano de Luigi

Sempre acreditei que uma das melhores coisas dos Festivais de Fotografia são os encontros que fazemos. Foi assim com Stefano de Luigi, fotógrafo da VII, cujo trabalho já conhecia, mas não a ele. Seu trabalho é excelente! Venceu por três vezes o World Press Photo (1998,2007 e 2009). Ótimo fotógrafo com uma delicadez incrível em se aproximar do assunto que fotografa. Mesmo quando o tema é pornografia, como é o caso de seu livro “Pornoland”, premiado em 2005. Não existe julgamento no olho de Stefano, mas constatação de uma situação. Uma vontade de narrar a história.

Seu ensaio Blanco, sobre cegueira, levou 5 anos para ser concluído. Ele viajou pelo mundo para registrar a situação. O resultado um livro, lançado neste ano,  e uma projeção (esta decididamente a assumidamente uma homenagem ao livro “Ensaio sobre a cegueira” de Saramago e ao filme do mesmo nome de Fernando Meirelles). Como escrevi no post anterior, foi a projeção aplaudida pelo público durante sua exibição na” Nuit de l’Année”, em Arles. Lindo e emocionante. Acho que o nome de Stefano de Luigi, deveria ser lembrado pelos organizadores de festivais fotográficos no Brasil.

Assista ao vídeo Blanco aqui.

 

Os encontros da fotografia em Arles

Passei 9 dias em Arles acompanhando a edição deste ano dos “Les Rencontres d’Arles Photographie”. Foi muito bom. Vi muitas exposições, participei de quase todas as palestras e segui com atenção redobrada o seminário do ano: “Fotografia: colecionar, expor, ensinar”. O tema do ano  “Du lourd et du Piquant”, teve como símbolo um rinocerente rosa choque: nas exposições (centradas a maioria em fotojornalismo) a questão de memória, identidade, reconhecimento. Os homenageados do ano: os argentinos que trouxeram lindas exposições. A melhor de todas porém, sem dúvida, foi a de um artista plástico que usa a fotografia Léon Ferrari. Genial! E imperdível!.

Na Europa, questões como arte e fotografia nem se colocaram – pelo menos não neste simpósio. Uma questãio para eles – e deveria ser também para nós – já ultrapassada. Mas discutiu-se muito  o fazer fotográfico, coleções de fotografia, fotografia e multimídia, transformação de visualidade.

Um dos embates mais legais foi sem dúvida entre a editora de fotografia da Time Magazine, Kira Pollack, uma garota empolgadíssima com as novas tecnologias e a vedete do momento o Ipad. Mostrou um vídeo promocional (diga-se de passagem, muito bom”!) da transformação da Time e falava de forma entusiasmada do novo jornalismo/fotojornalismo. Não convenceu os europeus que se mantém firmes em sua defesa da fotografia pura. Ouvi de um fotojornalista: “agora eles querem que sejamos cineastas. Não faço cinema, faço fotografia. Filmar com a câmara não nos interessa”.

Na noites de projeção, sem dúvida o destaque foi o trabalho “Blanco”, de Stefano de Luigi (falarei sobre este ensaio nos próximos post). Dos que eu assisti foi o único aplaudido após a projeção. De uma delicadez ímpar!.

O calor estava insuportável. Arles, cidade de pedra e, no verão, muito pouco verde – por isso mesmo tem ótimos vinhos e azeites – me fez refletir profundamente sobre como encaramos a fotografia aqui no Brasil.

No debate estratégias para entrar no mercado, quem brilhou foi o polêmico fotógrafo argentino (ele faz questão de ser definido assim) Marcos López que, diante da fala assumidamente comercial de Paolo Woods que defendia a universalidade da imagem e a importância de fazer o que as galerias querem retrucou -“não sou universal, sou argentino e fotografo problemas e questões argentinas. Estratégia comercial não combina com arte. Não entendo desta maneira o fazer fotográfico. Minha fotografia não é universal, é argentina”. Foi aplaudido.

Outro momento para mim impactante, foi na Arena, quando três curadores defenderam a escolha dos selecionados para o prêmio Revelação Luma. Havia já visto a exposição e achado absolutamente péssima. Mas meu espanto foi quando a Arena vaiou os curadores. De  tal forma que o diretor geral dos encontros pediu a palavra e pediu calma. Afinal o próprio público votaria, no melhor trabalho. Um dos curadores disse: “vocês estão errados”. Levou uma vaia maior e ouviu “o errado e completamente equivocado é você!”. 

Nos próximos post vou apresentar cada uma das exposições que eu achei mais interessante (desculpem, mas assim é) e falar um pouco também do seminário.

Voltei cheia de idéias, projetos, fiz contatos excelentes, conheci pessoas maravilhosas. Vi muita porcaria também….

Mas isso é um outro assunto.

 

Fotografia Brasileira se une, se fortalece e se torna realmente nacional

Neste último final de semana, 120 produtores culturais da fotografia brasileira se reuniram em Brasília no intuíto de discutir entre si  e com o Minc idéias e projetos que possam criar uma rede do fazer fotográfico brasileiros. Foram 9 os grupos de trabalhos criados: 

GT1 – Políticas públicas para fomento, pesquisa e difusão da fotografia

GT2 – Meios de difusão e canais de comunicação

GT3 – Ensino da fotografia: instituições de ensino e cursos livres

GT4 – Relações internacionais

GT5 – Formato da Rede

GT6A – Direito autoral e direito de imagem

GT6B – A questão fiscal

GT7 – Memória da produção contemporânea

GT8 – Modelos de gestão de rede, encontros e festivais

GT9 – Projetos socioculturais

Foi um sucesso que culminou na manhã de domingo com palestra do próprio ministro da cultura Juca Ferreira. Infelizmente eu não pude estar presente. Por isso deixo a quem esteve a narrativa do que aconteceu.

Vocês podem seguir diretamente no blog do Clício Barroso: um dos pilares desta idéia junto com Iatã Cannabrava.

Os textos vocês lêem aqui, aqui, aqui e aqui

As fotos podem ser vistas aqui.