Múltiplas lentes

Texto que saiu no Caderno Cultura do Estadão de domingo

A festa visual dos livros de fotógrafos brasileiros que chegam às estantes de olho no Natal

Simonetta Persichetti ESPECIAL PARA O ESTADO – O Estado de S.Paulo

São pelo menos quatro livros de fotógrafos brasileiros que estão previstos para serem lançados neste fim de ano. Publicações que corroboram a ideia de que essa arte tem encontrado cada vez mais espaço em nossas editoras. São autores importantes para que possamos compreender por onde anda nosso olhar e quais preocupações temos na árdua missão de documentar.

A grande lacuna agora preenchida é, sem dúvida, a obra sobre o fotógrafo de moda e publicidade Miro, que há 40 anos está no mercado (leia entrevista nesta edição, por Lilian Pacce). Um dos mais virtuosos de nossos profissionais, há tempo merecia essa homenagem, Miro – Artesão da Luz (Luste Editores, 194 págs., R$ 134), compilado e organizado por José Fujocka e Danilo Antunes, foi lançado ontem, no MIS.

O que as lentes do paulista Azemiro de Sousa captam são miríades de luz e criatividade. Mesmo trabalhando em um mercado bem delimitado, ele sempre impôs sua autoria e registrou o que quis. Como se tudo fosse apenas resultado de um momento mágico, guiado pela intuição. Um artista que busca o autoconhecimento na obra que realiza.

Em delicioso texto escrito pelo jornalista e também fotógrafo Pisco Del Gaiso, conhecemos um Miro que, por ter sido sempre avesso à badalação, pouco se deixava ver. Como se não quisesse ser protagonista e oferecesse o lugar de honra para as imagens que criava. É um mito que se desfaz no melhor sentido, pois dá origem a alguém preocupado em revelar seu processo criativo e nos fazer entender por que, mesmo em silêncio, se tornou mestre de uma geração.

Em um ano de trabalho, Pisco Del Gaiso remexeu e garimpou nos arquivos que preservam quatro décadas de fotografia. Um mergulho no desenvolvimento da moda e da publicidade brasileira a partir dos anos 1970, o olhar de um narrador de um pedaço da história cultural brasileira. Por isso, é oportuno afirmar que as lentes de Miro captam além do universo da moda e publicidade, seu talento nos mostra que ele é muito mais. Antes de tudo ele é fotógrafo.

Imagens que guardam testemunhos

Numa outra vertente e estética, mas nem por isso menos poética, Valdir Cruz, lança livro e abre a exposição Bonito – Confins do Novo Mundo (Editora Capivara, R$ 120). É com técnica precisa que Valdir Cruz constrói suas fotografias realizadas em Mato Grosso do Sul. Necessária para a sofisticação de seu trabalho, ela não cerceia, porém, a elegância do olhar do artista. Embora use sempre câmeras de grande formato e tenha sua estética voltada para a paisagem, consegue se superar e criar desafios, transformando em abstração a imagem que se oferece. Ele não a registra, mas a interpreta.

O projeto exigiu três anos de viagens ao centro-oeste brasileiro, conhecido por sua beleza e, por isso mesmo, difícil de ser captado sem cair no clichê. A historiadora Lélia Ribeiro, que assina a introdução do livro, lembra que no século 16 a região aparece como “Confins do Brasil” e é por isso mesmo que a própria Lélia insere esse subtítulo ao livro de Valdir – Confins do Novo Mundo, um espaço preservado pelos próprios habitantes e agora também pelas imagens.

E se toda fotografia é por si só documental, embora nem sempre documento, como ensina o filósofo André Rouille, vai ser em outros dois livros, ambos previstos para serem lançados no dia 7 de dezembro, que poderá ser encontrada a tradição da fotografia documentarista brasileira. De um lado está a obra de Christian Cravo, Nos Jardins do Éden (Throckmorton Fine Art, R$ 80), que será apresentada com a exposição dia 7, no Instituto Tomie Ohtake. Um trabalho que retoma ou continua a discussão buscada por Christian com o intuito de relatar as experiências ritualísticas da humanidade. Ele tenta entender quem é o ser humano e, nessa busca, passa pelos rituais de passagem.

Desta vez, ele está no Haiti, onde acompanha as cerimônias de vodu não com olhar antropológico ou estrangeiro, mas com a ideia de tentar entender o que significam certas solenidades. São imagens feitas antes do terrível terremoto que devastou o país em janeiro deste ano. Lá, realizou um pequeno vídeo de 25 minutos, Testemunhos do Silêncio. Não com um olhar sensacionalista ou espetacular, mas expressando sua enorme vontade de conhecer e entender. Ele sabe que a fotografia é conhecimento e é com ela que busca se expressar.

De outro lado está o livro do jornalista Luis Humberto: Do Lado de Fora da Minha Janela, do Lado de Dentro da Minha Porta (Editora Tempo d”Imagem, R$ 85), um legado para entender o fotojornalismo brasileiro. Ele foi o fotógrafo de uma época na qual o seu trabalho por vezes era o único portador de informações e notícias, quando os censores mais preocupados com o texto se esqueciam da imagem.

Herdeiro da tradição de Erich Salomon – o pai do fotojornalismo moderno -, Luis Humberto ensina como fazer jornalismo com a fotografia. Mas, assim como escreve no seu livro Fotografia, a Poética do Banal, ele também explica que é no cotidiano, nas registros do dia a dia, que a imagem se constrói e o olho se aprimora: “É como se fosse um livro testamento”, brinca ele, por telefone, com o Estado.

“Quero deixar como herança o que eu fiz e como fiz.” Mas não se pense que ele pendurou as chuteiras. Já tem pronto um novo projeto de inéditos: “Não posso dizer o que é, senão deixa de ser inédito”, mas aponta, ou melhor, dá uma pista: “A graça da fotografia é que não precisamos nos fixar numa só ideia.” Esses livros mostram que ele tem razão.




Anúncios

Biblioteca ampliada

Voltei da Italia cheia de livros: dos que eu trouxe (seis) dos que ganhei  quando aqui cheguei e achei em meu escritório (quatro). Agora é  o tempo para ler todos eles.  Na verdade só comprei dois. O resto ganhei mesmo.

Ainda bem. Então vamos dividir:

Livros Teóricos:

La Fotografia: una Storia Culturale e Visuale – Graham Clarke, Piccola Biblioteca Eunaidi

L’Errore fotografico : una breve storia – Clément Chéroux, Piccola Biblioteca Eunadi.

Estética da Fotografia: perda e permanência – François Soulages, Editora Senac

Livros de Fotógrafos:

Ugo Pellis, un fotografo in movimento – Societá Filologica Friulana.

Uomini e Cose, Ugo Pellis, Fotografie, Sardenha 1932-1935. Giunti

Iraq- Francesco Zizola, EGA

Born Somewhere – Francesco Zizola, Unidea

Robert Frank: The Americans, Looking In – Expanded Edition,

Bettina Rheims-Shangai, PowerHouse Books.

Hidegard Rosenthal: Métropole – IMS

Delícia, tenho leituras para mais de mês. Depois, se conseguir, faço resenha de cada um destes livros. Mas é muita coisa e todos lindos!!!

Adeus, Irving Penn!

penn_ballet

 

Morreu hoje o grande ícone da fotografia Irving Penn, aos 92 anos em Nova York. Mestre da fotografia de moda, deixa um vazio no que esta estética tinha de melhor. Iniciou a fotografar para Vogue em 1943 e, praticamente fotografou até o final da sua vida. Segundo seu assistente, ele nunca parou de fotografart. Irving Penn é um dos poucos fotógrafos, de sua época,  a estudar arte numa universidade.Seu professor de design foi Alexey Brodovitch, que em 1934, ano em que Penn entra na escola, é chamado para ser diretor de arte da Harper’s Bazaar.

penn_roses

Durante anos Irving Pen trabalha com publicidade até que decide romper com tudo e muda-se para o México, para pintar e fotografar. Fascinado por pintura, será nela que Penn buscará inspiração para suas fotos. Em suas imagens a valorização da composição formal. Além de suas fotos de moda são famosas suas imagens do lixo, como por exemplo bitucas de cigarro, ou seus retratos.

penn_findings

Penn vai redefinir o papel do fotógrafo de moda: que não é aquele que fotografa roupa mas um autor no verdadeiro sentido da palavra. Sem dúvida irving Penn marcou a história fotografia sendo um dos nossos grandes mestres.

penn_pinkface

Mais dois volumes!

978-85-7359-865-0 Flavio Damm (2)

A Coleção Senac de Fotografia continua. Mais dois volumes acabam de ser publicados. Claro que ainda faltam muitos, mas muitos e muitos fotógrafos. Mesmo assim eu e Thales Trigo tentamos aos poucos traçar um panorama da fotografia brasileira. Mesmo assim, é a primeira coleção brasileira que chega a 18 volumes. Só por isso ela merece aplausos. Já estamos preparando mais dois. Vamos ver quantos conseguimos fazer! Apalusos merece também a Editora Senac que desde 2003 aposta neste trabalho.

978-85-7359-874-2 Marcio Scavone

Verso/Reverso

Estou a caminho de Recife, que a cada dia está me conquistando. Sem dúvida, depois de Roma e São Paulo é a minha cidade preferida. Desta vez estou indo para a abertura e entrevista com o Clicio Barroso, que abre exposição na Arte Plural Galeria, com vinte fotografias onde fala deste ideal de mulher construído pela mídia. Abaixo o texto que escrevi sobre o assunto:

clicio

 

Belo é feio/Feio é belo

Os conceitos de belo e feio sempre interessaram filósofos e artistas da sociedade ocidental. Visto um em contraposição ao outro, até mesmo no âmbito moral, o belo e o feio permeiam nossos pensamentos. E aparecem agora, também aqui, nesta exposição de Clício Barroso; “Verso/Reverso”. Não são imagens artísticas, mas fotos que pertencem ao campo da mídia, da publicidade. Corpos que nos trazem algo muito caro à nossa época que é a possibilidade de “recriar” o próprio semblante. Máscaras que se apresentam da mesma forma tratadas para apresentar o belo e tratadas para nos apresentar o feio. Em discussão, um corpo mediático. Já disse o professor Ernesto Boccara (da Unicamp), no prefácio do livro “O corpo como suporte da arte”, de Beatriz Ferreira Pires: “o corpo natural, em simbiose com os sistemas naturais, condicionado exclusivamente ou prioritariamente por ciclos biológicos, não existe mais como o conhecíamos. Tornou-se signo condicionado pela dinâmica das mídias, ou seja, tornou-se construção cultural”. Rostos que a mídia foi banalizando, esculpindo, criando, busca de uma singularidade que transformou tudo em igual. Rostos que, assim como Narciso, foram condenados ao amor impossível de ser alcançado visto que nos apaixonamos por imagens.

As fotografias aqui mostradas por Clício nos remetem à beleza de consumo, como a definiu o semiólogo italiano Umberto Eco, em seu livro “História da Beleza”. Ideais de beleza propostos pelo consumo comercial. Banalização de um ideal. Não é novo este tema, visto que a bruxas criadas por Shakespeare em Macbeth já gritavam: “Belo é feio, feio é belo”.

Nas sombra de um sonho

sonhoFoi como uma bos surpresa que vi no site do Clicio comentário sobre o livro do Claudio Marra que eu trouxe para o Brasil em 2005 e a Editora Senac concordou em comprar os direitos e publicar no Brasil. Junto com o texto do Clicio encontramos também um texto da Georgia Quintas, coordenadora da faculdade de fotografia em Recife. Claro que o o Alexandre Belém também comentou no eu Olha,Vê! Que bom. Como já havia escrito aqui é um livro que veio preencher uma lacuna nos textos sobre fotografia. Bom que ele esteja sendo lido e comentado.

Cursos novos!

Nesta semana terminaram dois curso: o da Escola São Paulo: “A Importância da fotografia na sociedade conteporânea” e no MAM “Pensadores da Fotografia”.

Semana que vem começam dois workshops no MAM: “História da Fotografia de Moda” e “História do Fotojornalismo”. Às quintas-ferias das 20.15h. às 22.15h.

Nestes vamos discutir e nos aprofundar em conceitos. Apontar a possibilidade de novas estéticas! Venha discutir comigo, traga suas idéias! Vamos criar e ampliar o número de pessoas que discute e pensa fotografia! Aguardo vocês!