Projeto mapeia livros de fotografia em 11 países e chega a 150 títulos

Esta matéria saiu no Caderno2 do Estadão no dia 24 de novembro.

Não deve ter sido fácil, mas deve ter sido fascinante. Durante quatro anos um conselho de colaboradores (Marcelo Brodsky, Iatã Cannabrava, Lesley Martin, Martin Parr e Ramón Reverté) – ajudado por fotógrafos, designers e editores de 11 países sul-americanos, e capitaneados pelo historiador de fotografia e crítico e curador espanhol Horacio Fernández – correu atrás da produção imagética latino-americana a partir do conceito de fotolivros, ou seja, publicações em que o autor é protagonista: “Um fotolivro não é um livro ilustrado por fotografias. O fotógrafo participa de toda criação e realização com um editor e um designer”, nos contou por e-mail de Madri Horacio Fernández. O resultado é o volume Fotolivros Latino-Americanos, que chega às livrarias pela Cosac Naify em coedição com a RM, Aperture e Images em Manoeuvre.

É a primeira vez que se realiza uma empreitada de tal porte que procura fazer um panorama do que já foi publicado do México até a Patagônia do começo do século 20 até o início do 21. Ao final temos mais de 150 títulos selecionados que conversam com a literatura, as artes plásticas, os momentos históricos e conturbados de nosso continente. Uma linha do tempo, dividida em nove temas: O livro do século 20, Palavra e Imagem, A cidade e os livros, Os esquecidos, Fotolivros de artistas, A imagem e o texto, Tempos difíceis, Cor, Os Contemporâneos. Temáticas que nos ajudam a pensar como identidade continental, mas ainda, talvez, não possamos falar de uma identidade estilística: “Não sei se podemos falar de um estilo latino-americano. O que podemos afirmar são algumas semelhanças. A fotografia latino-americana é culta, cosmopolita e urbana. Mas há diferenças também: por exemplo, em Cuba, os fotolivros são bem propagandísticos”, escreve Fernández. Mesmo assim, como o próprio autor anuncia na introdução do livro: “Os fotolivros nos permitem explicar as semelhanças, as influências, os estilos, tudo o que une os fotógrafos e também os separa.

Um trabalho que praticamente começou do zero, visto que nenhum levantamento desse tipo havia sido feito até então. A ideia nasceu em 2007 no 1.º Fórum Latino-Americano de Fotografia organizado por Iatã Cannabrava e Marcelo Brosky em São Paulo, no Instituto Cultural Itaú.

Durante os debates os pesquisadores, críticos e historiadores se deram conta dessa lacuna. Claro que no início sem dados e com impossibilidade de quantificar a produção não era possível prever o resultado: “Foi uma surpresa quando começamos a contabilizar os resultados e percebemos que havia publicações maravilhosas editadas nas mais diversas cidades, muito mais do que esperávamos. Viajei muito pela América Latina, visitando bibliotecas, sebos, fotógrafos. Escrevi para editores, designers, artistas, etc.”.

Surpresa maior foi a intenção de editoras como a mexicana RM, a norte-americana Aperture e a brasileira Cosac Naify de publicar a pesquisa. E, assim, em 256 páginas poderão ser vistos trabalhos de fotógrafos da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Cuba, Equador, México, Nicarágua, Peru e Venezuela.

Destaque para nomes como o dos mexicanos Manuel Álvares Bravo e Graciela Iturbide, do chileno Sergio Larrain, dos brasileiros Claudia Andujar, Maureen Bisilliat, Boris Kossoy e Miguel Rio Branco, dos argentinos Sara Facio e Horacio Coppola e Marcus López, só para citar alguns nomes no meio de tantos que são apresentados. Do ponto de vista mais histórico uma surpresa como o livro de Pierre Verger, publicado em Buenos Aires em 1945: Fiestas e Danzas en el Cuzco y los Andes, ou os livros de Augustin Victor Casasola, sobre a Revolução Mexicana. Mas muito mais do que um livro ilustrado, este volume é uma verdadeira aula de história da fotografia latino-americana, ainda tão pouco discutida e conhecida. Vozes que finalmente vem à tona, encerrando anos de silêncio e desconhecimento. Um começo promissor, um primeiro passo que esperamos abra possibilidades para outras iniciativas ou pelo menos para um segundo volume dessa série: “Claro que esta é uma possibilidade, já que seguramente novidades vão surgir nos próximos anos, em vários países. Em relação ao Brasil, ainda há fotolivros de grande qualidade além daqueles apresentados neste volume”, finaliza Fernandéz.

Uma mostra sobre este compêndio será aberta em janeiro, em Paris, e depois vai a Madri, Nova York, São Paulo e Rio. Uma chance para conhecermos imageticamente o que já é conhecido por intermédio da literatura.

Almas reveladas e ampliadas

Este texto saiu no Caderno2 no dia 10 de novembro. Tentamos uma entrevista com o Steve Mccurry, mas infelizmente as respostas chegaram depois do fechamento da matéria. Abaixo então o texto publicado e em seguida a entrevista que não saiu no jornal.

Monges rezando, Kyaitko, 1994

São 30 anos andando pelo mundo com o único propósito de conhecer a humanidade e narrar, ou pelo menos tentar, sua história. Imagens que não se cansam de ser vistas, que nos sensibilizam pelas cores, pela delicadeza , mas com o peso da uma fotografia jornalística. São assim as fotografias de Steve Mccurry, conhecido através de suas reportagens na revista National Geographic e membro da agência Magnum desde 1986.

Steve Mccurry esteve presente em momentos cruciais de vários países como o Afeganistão, Líbano, Camboja, Índia e Tibete. Também fotografou o atentado do 11 de setembro em Nova York.  Como ele mesmo já disse em várias entrevistas , um dos aspectos importantes do fotojornalismo é poder mostrar para as pessoas o que está acontecendo.

Suas fotografias chegam agora em São Paulo por meio da mostra “Steve Mccurry – alma revelada” organizada em parceria com a Galeria Babel e que abre nesta quinta –feira no Instituto Tomie Ohtake. São cerca de 100 imagens que passeiam pelos inúmeros lugares por onde Mccurry passou. Inúmeras situações que ele fotografou: imagens de rituais, guerras, tradições pessoas. Geografias pessoais de um mundo que nem sempre temos a possibilidade de conhecer ou vislumbrar na imprensa diária. Cenas que procuram sair do senso comum.  Isso só se torna possível porque ele não precisa necessariamente se preocupar somente com o factual com a notícia em si, mas pode aliar a isso um certo mistério e incerteza que cerca a fotografia. Suas imagens não são decifráveis à primeira vista requerem um tempo de contemplação, de dialogo.

Procissão, Burma, 1994

Mas sem dúvida nenhuma falar de Steve Mccurry é falar também da imagem que se tornou um dos ícones do século: a da menina afegã, Sharbat Gula, fotografada em 1984 e que foi capa da National Geographic. Uma imagem impactante conhecida no mundo todo e que levou o fotografo a tentar encontrá-la novamente. Isso só foi possível 20 anos depois. O rosto já não era o mesmo, mas os olhos não perderam a intensidade e a profundidade do verde.

Mas é claro que Steve Mccurry não é fotógrafo de uma imagem só. Na exposição nos deparamos com várias de suas fotografias que narram as últimas décadas do mundo, trazendo à tona as marcas geopolíticas, as cicatrizes das guerras, a sutileza de uma prece de monges. Um do destaque da mostra é a inclusão de seis fotografias feitas durante o ataque às Torres Gêmeas, em setembro de 2001, em Nova York. Imagens diferenciadas, já que acostumado à cobrir conflito em outros países, Mccurry  se deparou com o fato de ter que registrar um ataque ao seu próprio país. Imagens que agora ao lado das outras reforçam o olhar que ele tem sobre o mundo.

Mas uma curiosidade também se faz presente. A indústria fotografia que dirigiu seu olhar para as inovações tecnológicas digitais acabou por tirar do mercado o filme kodackrome, na época do analógico um dos preferidos dos profissionais. Criado pela Kodak em 1935 deixou de ser fabricado em 2009. Coube a Steve fotografar o último rolo de filme e as fotos que fez são agora apresentadas nesta mostra, como uma homenagem a uma película que fez parte de sua vida neste quase 30 anos de fotografia. Na época em que a Kodak anunciou o fim do filme em várias partes do mundo realizaram-se experiências parecidas – fotografar o último kodachrome, mas no caso de Steve, foi a própria Kodak que entregou o filme ao fotografo.

Ao fim da exposição o que resta é a visão de um fotografo que está de acordo com a tradição mais refinada do documentarismo na busca de traçar uma possível história da humanidade.

Nova York, 11/09/2001

 Entrevista:

1. Uma mostra com mais de cem imagens. Podemos dizer que é uma retrospectiva?

     Não acredito que seja uma retrospectiva embora esta mostra reuna meus melhores trabalhos. Uma retrospectiva deveria compreender não parte do seu trabalho, ma o resumo de uma carreira.

2. O que é mais importante numa fotografia?

      Existem vários tipos de imagens, mas para mim o mais importante é poder contar uma história, despertar emoções. Óbvio que a luz e a composição são importantes, mas o contexto de uma história é o fundamental.

3. Fale do projeto o último Kodachrome. Como escolheu o tema a ser fotografado?

     O Kodachrome é um filme ícone. Provavelmene o melhor filme que j;a existiu. Quis fazer alguns retratos começando com Robert de Niro, fotografar uma tribo de nomades na Índia; atores indianos e é claro as ruas de Nova York onde vivo.

4. Você fotografou conflitos no mundo todo. Como foi fotografar um ataque me seu próprio país. Estou me referindo ao 11 de setembro?

      Como você disse eu acompanhei o horror da guerra em vários países, mas o 11 de setembro aconteceu na soleira da minha porta. Inicialmente fotografei do telhado da minha casa e em seguida andei pelos escombros e passei a noite fotografando. Tinhamos pouquissimas informações e não podíamos – no momento – calcular o tamanho da tragédia até chegar ao marco zero. Não dava para acreditar, parecia um pesadelo, ao mesmo tempo me dei conta que nossas vidas tinham mudado a partir daquele momento para sempre.

Exposição no Instituto Tomie Ohtake

Av. Faria Lima, 201.

Até 29/01

2X Alexandre

Abre na próxima quarta-feira, dia 19, na Arte Plural, em Recife, a exposição 2x Alexandre que reúne os trabalhos do Alexandre Sequeira e do Alexandre Severo. A curadoria é minha!

Um é Sequeira, o outro é Severo. O primeiro é de Belém, o segundo é de Recife. O Sequeira é um artista plástico que  – com muita competência – trabalha com a fotografia; o Severo traz em suas imagens a mais tradicional e forte escola do fotojornalismo.

c. Alexandre Sequeira

Aparentemente separados, os dois olhares destes profissionais se encontram quando o discurso é a poética imaginária.  Nestes dois ensaios que apresentamos agora ambos trabalharam a memoria, identidade .

Durante dois anos Alexandre Sequeira elaborou o trabalho Nazare de Mocajuba, numa ilha de pescadores, ao nordeste do Pará. Lá encontrou pessoas que nunca haviam sido fotografadas. Passou a registrá-los e mais, para criar uma maior intimidade passou a imprimir as imagens nas toalhas, lençois dos moradores. O resultado, uma trabalho delicado, bonito e emocionante.

 c. Alexandre Sequeira

Para comemorar o centenário de Canudos, Alexandre Severo, resolveu retratar o sertanejo. Dar-lhe visibilidade por meio da fotografia, torná-lo reconhecido e reconhecível. Rostos num fundo branco descontextualizados, que nos olham de frente, conversam conosco. Mas no meio do trabalho – muitas vezes isso acontece – as imagens do entorno, da montagem do estúdio a céu aberto se sobrepuseram ao retrato tradicional. Não seria possível descontextualizar. O homem e o meio ambiente eram um só. O resultado, cenas surpreendentes, desconcertantes.

c. Alexandre Severo

Um trabalhou com pescadores, o outro com sertanejos. Um a delicadeza do pano, o outro a firmeza da lona.

c. Alexandre Severo

Um ensaio tão semelhante ao outro. Dois Alexandres que ajudam a construir a memoria de nossa gente e por meio dos retratos os inserem de forma definitiva na nossa sociedade.

Múltiplas lentes

Texto que saiu no Caderno Cultura do Estadão de domingo

A festa visual dos livros de fotógrafos brasileiros que chegam às estantes de olho no Natal

Simonetta Persichetti ESPECIAL PARA O ESTADO – O Estado de S.Paulo

São pelo menos quatro livros de fotógrafos brasileiros que estão previstos para serem lançados neste fim de ano. Publicações que corroboram a ideia de que essa arte tem encontrado cada vez mais espaço em nossas editoras. São autores importantes para que possamos compreender por onde anda nosso olhar e quais preocupações temos na árdua missão de documentar.

A grande lacuna agora preenchida é, sem dúvida, a obra sobre o fotógrafo de moda e publicidade Miro, que há 40 anos está no mercado (leia entrevista nesta edição, por Lilian Pacce). Um dos mais virtuosos de nossos profissionais, há tempo merecia essa homenagem, Miro – Artesão da Luz (Luste Editores, 194 págs., R$ 134), compilado e organizado por José Fujocka e Danilo Antunes, foi lançado ontem, no MIS.

O que as lentes do paulista Azemiro de Sousa captam são miríades de luz e criatividade. Mesmo trabalhando em um mercado bem delimitado, ele sempre impôs sua autoria e registrou o que quis. Como se tudo fosse apenas resultado de um momento mágico, guiado pela intuição. Um artista que busca o autoconhecimento na obra que realiza.

Em delicioso texto escrito pelo jornalista e também fotógrafo Pisco Del Gaiso, conhecemos um Miro que, por ter sido sempre avesso à badalação, pouco se deixava ver. Como se não quisesse ser protagonista e oferecesse o lugar de honra para as imagens que criava. É um mito que se desfaz no melhor sentido, pois dá origem a alguém preocupado em revelar seu processo criativo e nos fazer entender por que, mesmo em silêncio, se tornou mestre de uma geração.

Em um ano de trabalho, Pisco Del Gaiso remexeu e garimpou nos arquivos que preservam quatro décadas de fotografia. Um mergulho no desenvolvimento da moda e da publicidade brasileira a partir dos anos 1970, o olhar de um narrador de um pedaço da história cultural brasileira. Por isso, é oportuno afirmar que as lentes de Miro captam além do universo da moda e publicidade, seu talento nos mostra que ele é muito mais. Antes de tudo ele é fotógrafo.

Imagens que guardam testemunhos

Numa outra vertente e estética, mas nem por isso menos poética, Valdir Cruz, lança livro e abre a exposição Bonito – Confins do Novo Mundo (Editora Capivara, R$ 120). É com técnica precisa que Valdir Cruz constrói suas fotografias realizadas em Mato Grosso do Sul. Necessária para a sofisticação de seu trabalho, ela não cerceia, porém, a elegância do olhar do artista. Embora use sempre câmeras de grande formato e tenha sua estética voltada para a paisagem, consegue se superar e criar desafios, transformando em abstração a imagem que se oferece. Ele não a registra, mas a interpreta.

O projeto exigiu três anos de viagens ao centro-oeste brasileiro, conhecido por sua beleza e, por isso mesmo, difícil de ser captado sem cair no clichê. A historiadora Lélia Ribeiro, que assina a introdução do livro, lembra que no século 16 a região aparece como “Confins do Brasil” e é por isso mesmo que a própria Lélia insere esse subtítulo ao livro de Valdir – Confins do Novo Mundo, um espaço preservado pelos próprios habitantes e agora também pelas imagens.

E se toda fotografia é por si só documental, embora nem sempre documento, como ensina o filósofo André Rouille, vai ser em outros dois livros, ambos previstos para serem lançados no dia 7 de dezembro, que poderá ser encontrada a tradição da fotografia documentarista brasileira. De um lado está a obra de Christian Cravo, Nos Jardins do Éden (Throckmorton Fine Art, R$ 80), que será apresentada com a exposição dia 7, no Instituto Tomie Ohtake. Um trabalho que retoma ou continua a discussão buscada por Christian com o intuito de relatar as experiências ritualísticas da humanidade. Ele tenta entender quem é o ser humano e, nessa busca, passa pelos rituais de passagem.

Desta vez, ele está no Haiti, onde acompanha as cerimônias de vodu não com olhar antropológico ou estrangeiro, mas com a ideia de tentar entender o que significam certas solenidades. São imagens feitas antes do terrível terremoto que devastou o país em janeiro deste ano. Lá, realizou um pequeno vídeo de 25 minutos, Testemunhos do Silêncio. Não com um olhar sensacionalista ou espetacular, mas expressando sua enorme vontade de conhecer e entender. Ele sabe que a fotografia é conhecimento e é com ela que busca se expressar.

De outro lado está o livro do jornalista Luis Humberto: Do Lado de Fora da Minha Janela, do Lado de Dentro da Minha Porta (Editora Tempo d”Imagem, R$ 85), um legado para entender o fotojornalismo brasileiro. Ele foi o fotógrafo de uma época na qual o seu trabalho por vezes era o único portador de informações e notícias, quando os censores mais preocupados com o texto se esqueciam da imagem.

Herdeiro da tradição de Erich Salomon – o pai do fotojornalismo moderno -, Luis Humberto ensina como fazer jornalismo com a fotografia. Mas, assim como escreve no seu livro Fotografia, a Poética do Banal, ele também explica que é no cotidiano, nas registros do dia a dia, que a imagem se constrói e o olho se aprimora: “É como se fosse um livro testamento”, brinca ele, por telefone, com o Estado.

“Quero deixar como herança o que eu fiz e como fiz.” Mas não se pense que ele pendurou as chuteiras. Já tem pronto um novo projeto de inéditos: “Não posso dizer o que é, senão deixa de ser inédito”, mas aponta, ou melhor, dá uma pista: “A graça da fotografia é que não precisamos nos fixar numa só ideia.” Esses livros mostram que ele tem razão.




Exposição Linha de Frente se despede de São Paulo

Você tem ainda hoje e amanhã para ver ou rever a mostra Linha de Frente de Francesco Zizola(leia aqui) um dos fundadores da Noor Images que está no Território da Foto (Rua Mateus Grou, 580). Trabalhos que apresentam as andanças de Zizola pelo mundo durante seus mais de 25 anos de fotografia. Imagens de conflitos, de encontros e desencontros de respeito pela dignidade do ser humano. A tragédia humana contada por meio da vida, da esperança e da possibilidade de resistir. Mas suas imagens também não deixam de apontar nossas responsabilidades pelo mundo que estamos criando. Um olhar agudo, de perto, próximo, muito próximo, mas que não deixa de lado a sensibilidade de Zizola frente a dor. Uma poética delicada mas não por isso menos contundente. Um olhar sobre o mundo.

Mega evento de Francesco Zizola no Brasil

Minha empresa “Arte em Foco”está trazendo para o Brasil um mega-evento envolvendo o premiado fotojornalista italiano Francesco Zizola, reconhecido internacionalmente e um dos membros fundadores da Noor Image.


Apresentamos a  trajetória deste fotojornalista nos seus 25 anos de carreira, trazendo  visões diversificadas sobre lugares, pessoas e paisagens que ele acompanhou, na maioria das vezes com a função de nos apresentar fatos que não poderíamos presenciar. Nem por isso, mesmo nas situações mais adversas, ele deixou de imprimir poética por meio de seu olhar crítico.O projeto é uma concepção curatorial de Simonetta Persichetti e Francesco Zizola e pretende anteceder o início do ano Itália no Brasil, que ocorrerá em 2011.

Serão apresentadas três exposições diferentes, porém simultâneas, em três galerias do Brasil: Recife (Modos de Olhar), São Paulo (Linha de Frente) e Rio de Janeiro (Onda Carioca).

Mas a idéia não apenas mostrar imagens, mas trazer todo um trabalho curatorial que vai envolver workshops e lançamentos de livros.

Abaixo você pode acompanhar a programação:

Exposições:

Dia 20 de outubro – Recife – Modos de olhar – ARTE PLURAL GALERIA

Dia 21 de outubro – São Paulo – Linha de Frente – TERRITÓRIO DA FOTO

Dia 29 de outubro – Rio de Janeiro – Onda Carioca – ATELIÊ DA IMAGEM

No dia da abertura de cada  exposição Hélio Campos Mello, da revista Brasileiros, entrevistará Francesco Zizola.

ATIVIDADES COMPLEMENTARES

Workshops

Recife:

Dias 15 e 16 de outubro. Informações:

arteplural@artepluralgaleria.com.br

São Paulo:

Dias 22 e 23 de outubro. Informações:

atendimento@territoriodafoto.com.br

Rio de Janeiro:

Dias 27 e 28 de outubro. Informações:

info@ateliedaimagem.com.br

NOITE DE AUTÓGRAFOS

Dia 25/10 – Fnac/Pinheiros – São Paulo – 19 h.

Praça Omaguás, 34

Dia 26/10 – Barra Shopping – Rio – 19 h.

Av. das Américas, 4666 – Barra da Tijuca                      A

Contamos para a realização do projeto com a ajuda de vários interessados na fotografia:

Ipsis, Gráfica e Editora que patrocinou a publicação do catálogo

Fnac Brasil, que importou o livro “Born Somewhere”,

Institutos Italianos de Cultura Rio de Janeiro e São Paulo que possibilitaram a vinda de  Francesco Zizola ao Brasil,

10b Phtotography, responsável pelo tratamento e impressão das fotografias.

Brasileiros por sua ajuda na curadoria e divulgação do projeto.

Pensadores da Fotografia II no MAM-SP

Cada vez mais a fotografia é o centro das atenções e de debates no cenário internacional. Este curso volta-se para a compreensão dessa forma de expressão, a partir do pensamento dos autores: Vilém Flusser (Filosofia da Caixa Preta e O Universo das Imagens Técnicas), André Roullie(Fotografia- entre documento e arte contemporânea), Edmond Couchot (Tecnologia na Arte; fa fotografia à realidade virtual) e José de Souza Martins(Sociologia da Imagem e da Fotografia).     

São 4 aulas, aos sábados de manhã: das 10:30h. às 12.30h.

Começa dia 14 de agosto. Ainda tem vagas!

Informações aqui

Blanco, um ensaio de Stefano de Luigi

Sempre acreditei que uma das melhores coisas dos Festivais de Fotografia são os encontros que fazemos. Foi assim com Stefano de Luigi, fotógrafo da VII, cujo trabalho já conhecia, mas não a ele. Seu trabalho é excelente! Venceu por três vezes o World Press Photo (1998,2007 e 2009). Ótimo fotógrafo com uma delicadez incrível em se aproximar do assunto que fotografa. Mesmo quando o tema é pornografia, como é o caso de seu livro “Pornoland”, premiado em 2005. Não existe julgamento no olho de Stefano, mas constatação de uma situação. Uma vontade de narrar a história.

Seu ensaio Blanco, sobre cegueira, levou 5 anos para ser concluído. Ele viajou pelo mundo para registrar a situação. O resultado um livro, lançado neste ano,  e uma projeção (esta decididamente a assumidamente uma homenagem ao livro “Ensaio sobre a cegueira” de Saramago e ao filme do mesmo nome de Fernando Meirelles). Como escrevi no post anterior, foi a projeção aplaudida pelo público durante sua exibição na” Nuit de l’Année”, em Arles. Lindo e emocionante. Acho que o nome de Stefano de Luigi, deveria ser lembrado pelos organizadores de festivais fotográficos no Brasil.

Assista ao vídeo Blanco aqui.

 

Os poemas visuais de José Manuel Ballester

A cidade que se desnuda

 Simonetta Persichetti,

ESPECIAL PARA O ESTADO – O Estado de S.Paulo

São Paulo. A arquitetura serviu como paisagem de fundo para as imagens de Ballester
A primeira visão maior que o fotógrafo espanhol José Manuel Ballester teve da cidade de São Paulo, em 2007, foi a vista do alto do Edifício Copan: “Duas coisas me marcaram, a vista do alto e o canto do passarinho bem-te-vi! São as primeiras lembranças que tenho.” Foi o que bastou para se encantar com a metrópole e realizar durante três viagens realizadas em 2007, 2008 e 2010, o ensaio Fervor da Metrópole, que apresenta na Pinacoteca de São Paulo. 

A ideia, na verdade, foi construída e pensada pelo curador e pesquisador de arte Juan Manuel Bonet, que já presidiu o IVAM e o Museo Reina Sofia. Foi ele, um apaixonado pelo Brasil, e mais, pela arquitetura moderna do País, que pensou no roteiro dos lugares a serem fotografados: “Precisávamos de um fio condutor”, nos conta ele, em entrevista na Pinacoteca. “Pensei então em fotografar a arquitetura modernista do fim dos anos 20 até os anos 70.” Mas isso foi apenas o início. A arquitetura serviu como paisagem de fundo para as imagens de Ballester, considerado um dos expoentes da fotografia contemporânea, que no Brasil é representado pela Dan Galeria, desde 2006. Juan Manuel Bonet, com Diógenes Moura, curador da Pinacoteca do Estado de São Paulo, assina a curadoria da mostra.

Vazio. Imagens em grande formato, espaços vazios, onde a natureza e a intervenção do homem se fazem presentes. Num primeiro momento, a um olhar menos acurado, seus registros nos remetem ao vazio industrial tão querido à escola da fotografia alemã. Num segundo momento, percebe-se a sutileza do olhar de Ballester. Espaços vazios, criados a partir de formas e volumes, além de sua sensibilidade, deixam claro a presença do humano. Apontam para suas marcas, sua passagem: “Somos, sou latino”, diz Ballester. Talvez se encontre mais próximo do fotógrafo canadense Robert Polidori. Mas também não, Polidori fotografa a degradação causada pelo homem, Ballester a construção, a comunhão do homem com a cidade que ergueu.

E assim, os prédios de Lina Bo Bardi, Rino Levi, Vilanova Artigas, Flávio de Carvalho, Oscar Niemeyer, foram sendo interpretados e revisitados pelo fotógrafo espanhol. Para realizar este ensaio, não bastou passear pelos lugares pré-selecionados pelo curador, Ballester, como um bom viajante andou e muito pelas ruas da cidade, munido de uma pequena câmara digital, com a qual também fotografava São Paulo. E é este mesmo olhar, flaneur, este átimo do instantâneo que ele tenta reproduzir nas suas imagens de grande formato: “O que me marcou nesta cidade, é que ela tem grande potencial, mas me parece adormecida, pronta para explodir. São Paulo é fascinante. Desde a primeira vez fiquei fascinado por ela.”

Fervor da Metrópole não é o primeiro ensaio de arquitetura, ou melhor, cidade, de Ballester. Ele já havia fotografado de modo similar a China e outros espaços urbanos ao redor do mundo. Formado em artes plásticas, acabou por se especializar em restauração de pinturas, em especial da escola italiana e flamenga.

Isso lhe trouxe o conhecimento técnico e ajudou-o a se aprofundar na criação de uma obra. E foi esta ideia que ele levou para a fotografia: “Descobri a fotografia na faculdade. Com o tempo me dei conta que ao pintar fotografava e o contrário também era verdadeiro”, explica ele. “Mas num determinado momento, comecei a ficar incomodado com o fato de a pintura ser muito lenta, pelo menos aquela que eu sabia fazer. Pintava um prédio e ele acabava mais rápido do que eu conseguia pintar. A fotografia foi uma escolha de me colocar no mundo contemporâneo.”

Sem alarde, Ballester encontrou o que muitos artistas hoje buscam e não sabem colocar em suas obras, somente com as palavras. “Sou um artista comprometido com o meu tempo. Fotografo com o olhar contemporâneo, por isso gosto desse neopictorialismo que estamos vivendo. Busco sempre um diálogo entre as duas linguagens que, embora bem distintas, não são tão separadas assim. Ambas são meios que utilizo.”

Em sua visão de mundo, não quis renunciar nem às possibilidades da pintura, nem às da fotografia. Procura captar a essência por meio da luz, venha ela por meio das cores pictóricas ou da construção fotográfica. Ele acredita que a vida é uma representação teatral e a cidade, a arquitetura, é o grande cenário desse teatro que vivemos: “A paisagem urbana nos dá pistas sobre a sociedade que a criou. É isso que me fascina, é isso que busco.” Ou como escreve, no texto de apresentação, Diógenes Moura: “José Manuel Ballester “criou” uma São Paulo integrada e em grandes formatos para propor um diálogo entre o que o pensador Claude Lévi-Strauss chama de antropologia urbana e a verdade real na vida de uma cidade diariamente desafiadora, caótica e em êxtase, imunda e atraente, agonizante e silenciosa.”

Surpresas. A cidade de Ballester não é a criação de uma paisagem, nem registro do que o surpreendeu, mas a tentativa de compreender e interpretar o que se lhe apresenta. “Uma coisa é o conhecimento, outra é o descobrimento. Conhecer um lugar no papel e depois me deparar com ele foi uma experiência completamente diferente e rica.”

Com suas fotografias, o espanhol construiu poemas visuais, nos apresenta uma cidade que muitas vezes não estamos dispostos a ver, ou a reconhecer, uma cidade que se desnuda de forma generosa para ele, ou talvez seja ele que consegue vê-la com generosidade. Cronista urbano, consegue mostrar o que para ele é a essência da fotografia: “Sensibilidade sem artifício.”

 

O século XX nas lentes dos Ferrez

Simonetta Perischetti, especial para o Estado

SÃO PAULO – Quatrocentas imagens inéditas do começo do século 20, feitas pelos herdeiros do Marc Ferrez (1843-1923), compõem a exposição Família Ferrez: Novas Realizações, organizada por Pedro Karp Vasquez e Julia Peregrino.

Fotografias que retratam não apenas o Rio, mas Brasil, África, países europeus e ainda nos apresentam álbuns de família, o cotidiano das casas, a vida nas ruas das cidades. Representa um diário de viagem, na aparência com um olhar descompromissado, mas totalmente bem resolvido, e a herança de um dos profissionais mais importantes do século 19, Marc Ferrez. Ele, além de fotógrafo da família imperial, teve um trabalho “solo”, viajou pelo Brasil registrando trabalhadores, escravos, a vida no país. Também foi considerado fotógrafo da Marinha imperial por suas imagens em alto-mar. Pioneiro em fotografias de interiores e na forma de retratar, ele é sem dúvida nosso principal fotógrafo.

Essa paixão pela imagem parece ter passado para seus descendentes. Na mostra, registros realizados por seus filhos Julio (1881-1946) e Luciano (1884- 1955) e por seu neto Gilberto Ferrez (1908-2000), que, além de fotógrafo, foi colecionador de foto, historiador e guardião desse imenso arquivo. Os curadores levaram mais de um ano vasculhando 8 mil negativos, além de álbuns e arquivos pessoais, reunidos hoje no Arquivo Nacional do Rio graças a uma doação da família, em 2007. “Queríamos doar para uma instituição pública brasileira. Queríamos a possibilidade de que este material fosse bem guardado e que as pessoas tivessem a chance de vê-lo”, conta por telefone Helena Ferrez, filha de Gilberto.

Riqueza. Antes da doação, porém, todo o acervo foi catalogado. Empreitada que levou dois anos para ser cumprida pela produtora Fazer Arte de Julia Peregrino (uma das curadoras da mostra) e pela própria Helena, e contou com o patrocínio da Petrobrás. Foi nessa fase que Julia se deu conta da riqueza do material iconográfico e solicitou a parceira de Pedro Karp Vasquez para a organização da mostra.

O resultado é uma profusão de imagens que foram distribuídas em três eixos principais: Nossa Terra, enfatizando trabalhos que apresentam a geografia brasileira, mas onde aparece em destaque o desmonte do Monte do Castelo no Rio. “O trabalho de documentação feito por Luciano é muito bem organizado”, diz por telefone, ao Estado, Pedro Karp Vasquez. “Lembra muito os trabalhos de Augusto Malta (1864- 1957), que foi o fotógrafo oficial da prefeitura do Rio. Como se as imagens de Luciano complementassem as de Malta.” E há também registros da Bahia, São Paulo, Alagoas, Pernambuco, Rio Grande do Sul e Minas.

Um segundo eixo é dedicado às viagens ao exterior – Outras Terras -, no qual aparecem fotos feitas por Julio e Luciano. Naquela época, para se chegar à Europa, tinha-se que fazer escala no Senegal. E de lá vêm algumas imagens que nos mostram lugares que dificilmente são fotografados, e ainda de Portugal, da Suíça e França.

Mas é, talvez, no terceiro pilar da exposição que se encontra o que foge de alguma forma da representação mais comum daquele período: Comentário Social. Neste núcleo há os registros da vida da família Ferrez, seu entorno, amigos, a elite, o povo, os negros: “Este trabalho foi realizado com mais intensidade por Julio, que se torna o cronista familiar”, explica Vasquez. Uma era em que ainda não existia a visão antropológica e os olhares de Julio e Luciano já antecipavam a busca imagética que seria seguida anos mais tarde por fotógrafos como Pierre Verger e Marcel Gautherot. Neste segmento estão também nove retratos de Marc Ferrez feitos pelos filhos.

Caminho imagético. Segundo Vasquez, a montagem da exposição procurou respeitar e seguir exatamente o caminho imagético criado pela família Ferrez. Para isso, vários álbuns foram pesquisados e alguns deles estão presentes na mostra para evidenciar como eles selecionavam suas imagens, além de seus diários de viagens e correspondências que narram um pouco da história que está sendo mostrada. Como afirma Julia Peregrino: “Esta exposição é um marco na história da fotografia brasileira.”

Gilberto Ferrez teve sete filhas. Nenhuma delas se interessou pela fotografia, mas como nos confidenciou sua filha Helena: “Uma das netas do Gilberto, que hoje mora em Nova York, se interessa muito por essa arte.” Só nos resta torcer que ela se interesse mesmo para termos mais uma geração da família Ferrez que sempre tem trazido inovações na forma de registrar os lugares e o cotidiano.

Família Ferrez: novas revelações

Patrocínio: Prefeitura de São Paulo| Secretaria Municipal de Cultura 

Galeria Olido

Avenida São João, 473

Período: de 26 de março a 23 de maio

Horário: de 3ª a sexta das 12:00h às 20:30h; sábados e  domingos, das 13h às 20.00h.