Almas reveladas e ampliadas

Este texto saiu no Caderno2 no dia 10 de novembro. Tentamos uma entrevista com o Steve Mccurry, mas infelizmente as respostas chegaram depois do fechamento da matéria. Abaixo então o texto publicado e em seguida a entrevista que não saiu no jornal.

Monges rezando, Kyaitko, 1994

São 30 anos andando pelo mundo com o único propósito de conhecer a humanidade e narrar, ou pelo menos tentar, sua história. Imagens que não se cansam de ser vistas, que nos sensibilizam pelas cores, pela delicadeza , mas com o peso da uma fotografia jornalística. São assim as fotografias de Steve Mccurry, conhecido através de suas reportagens na revista National Geographic e membro da agência Magnum desde 1986.

Steve Mccurry esteve presente em momentos cruciais de vários países como o Afeganistão, Líbano, Camboja, Índia e Tibete. Também fotografou o atentado do 11 de setembro em Nova York.  Como ele mesmo já disse em várias entrevistas , um dos aspectos importantes do fotojornalismo é poder mostrar para as pessoas o que está acontecendo.

Suas fotografias chegam agora em São Paulo por meio da mostra “Steve Mccurry – alma revelada” organizada em parceria com a Galeria Babel e que abre nesta quinta –feira no Instituto Tomie Ohtake. São cerca de 100 imagens que passeiam pelos inúmeros lugares por onde Mccurry passou. Inúmeras situações que ele fotografou: imagens de rituais, guerras, tradições pessoas. Geografias pessoais de um mundo que nem sempre temos a possibilidade de conhecer ou vislumbrar na imprensa diária. Cenas que procuram sair do senso comum.  Isso só se torna possível porque ele não precisa necessariamente se preocupar somente com o factual com a notícia em si, mas pode aliar a isso um certo mistério e incerteza que cerca a fotografia. Suas imagens não são decifráveis à primeira vista requerem um tempo de contemplação, de dialogo.

Procissão, Burma, 1994

Mas sem dúvida nenhuma falar de Steve Mccurry é falar também da imagem que se tornou um dos ícones do século: a da menina afegã, Sharbat Gula, fotografada em 1984 e que foi capa da National Geographic. Uma imagem impactante conhecida no mundo todo e que levou o fotografo a tentar encontrá-la novamente. Isso só foi possível 20 anos depois. O rosto já não era o mesmo, mas os olhos não perderam a intensidade e a profundidade do verde.

Mas é claro que Steve Mccurry não é fotógrafo de uma imagem só. Na exposição nos deparamos com várias de suas fotografias que narram as últimas décadas do mundo, trazendo à tona as marcas geopolíticas, as cicatrizes das guerras, a sutileza de uma prece de monges. Um do destaque da mostra é a inclusão de seis fotografias feitas durante o ataque às Torres Gêmeas, em setembro de 2001, em Nova York. Imagens diferenciadas, já que acostumado à cobrir conflito em outros países, Mccurry  se deparou com o fato de ter que registrar um ataque ao seu próprio país. Imagens que agora ao lado das outras reforçam o olhar que ele tem sobre o mundo.

Mas uma curiosidade também se faz presente. A indústria fotografia que dirigiu seu olhar para as inovações tecnológicas digitais acabou por tirar do mercado o filme kodackrome, na época do analógico um dos preferidos dos profissionais. Criado pela Kodak em 1935 deixou de ser fabricado em 2009. Coube a Steve fotografar o último rolo de filme e as fotos que fez são agora apresentadas nesta mostra, como uma homenagem a uma película que fez parte de sua vida neste quase 30 anos de fotografia. Na época em que a Kodak anunciou o fim do filme em várias partes do mundo realizaram-se experiências parecidas – fotografar o último kodachrome, mas no caso de Steve, foi a própria Kodak que entregou o filme ao fotografo.

Ao fim da exposição o que resta é a visão de um fotografo que está de acordo com a tradição mais refinada do documentarismo na busca de traçar uma possível história da humanidade.

Nova York, 11/09/2001

 Entrevista:

1. Uma mostra com mais de cem imagens. Podemos dizer que é uma retrospectiva?

     Não acredito que seja uma retrospectiva embora esta mostra reuna meus melhores trabalhos. Uma retrospectiva deveria compreender não parte do seu trabalho, ma o resumo de uma carreira.

2. O que é mais importante numa fotografia?

      Existem vários tipos de imagens, mas para mim o mais importante é poder contar uma história, despertar emoções. Óbvio que a luz e a composição são importantes, mas o contexto de uma história é o fundamental.

3. Fale do projeto o último Kodachrome. Como escolheu o tema a ser fotografado?

     O Kodachrome é um filme ícone. Provavelmene o melhor filme que j;a existiu. Quis fazer alguns retratos começando com Robert de Niro, fotografar uma tribo de nomades na Índia; atores indianos e é claro as ruas de Nova York onde vivo.

4. Você fotografou conflitos no mundo todo. Como foi fotografar um ataque me seu próprio país. Estou me referindo ao 11 de setembro?

      Como você disse eu acompanhei o horror da guerra em vários países, mas o 11 de setembro aconteceu na soleira da minha porta. Inicialmente fotografei do telhado da minha casa e em seguida andei pelos escombros e passei a noite fotografando. Tinhamos pouquissimas informações e não podíamos – no momento – calcular o tamanho da tragédia até chegar ao marco zero. Não dava para acreditar, parecia um pesadelo, ao mesmo tempo me dei conta que nossas vidas tinham mudado a partir daquele momento para sempre.

Exposição no Instituto Tomie Ohtake

Av. Faria Lima, 201.

Até 29/01

2X Alexandre

Abre na próxima quarta-feira, dia 19, na Arte Plural, em Recife, a exposição 2x Alexandre que reúne os trabalhos do Alexandre Sequeira e do Alexandre Severo. A curadoria é minha!

Um é Sequeira, o outro é Severo. O primeiro é de Belém, o segundo é de Recife. O Sequeira é um artista plástico que  – com muita competência – trabalha com a fotografia; o Severo traz em suas imagens a mais tradicional e forte escola do fotojornalismo.

c. Alexandre Sequeira

Aparentemente separados, os dois olhares destes profissionais se encontram quando o discurso é a poética imaginária.  Nestes dois ensaios que apresentamos agora ambos trabalharam a memoria, identidade .

Durante dois anos Alexandre Sequeira elaborou o trabalho Nazare de Mocajuba, numa ilha de pescadores, ao nordeste do Pará. Lá encontrou pessoas que nunca haviam sido fotografadas. Passou a registrá-los e mais, para criar uma maior intimidade passou a imprimir as imagens nas toalhas, lençois dos moradores. O resultado, uma trabalho delicado, bonito e emocionante.

 c. Alexandre Sequeira

Para comemorar o centenário de Canudos, Alexandre Severo, resolveu retratar o sertanejo. Dar-lhe visibilidade por meio da fotografia, torná-lo reconhecido e reconhecível. Rostos num fundo branco descontextualizados, que nos olham de frente, conversam conosco. Mas no meio do trabalho – muitas vezes isso acontece – as imagens do entorno, da montagem do estúdio a céu aberto se sobrepuseram ao retrato tradicional. Não seria possível descontextualizar. O homem e o meio ambiente eram um só. O resultado, cenas surpreendentes, desconcertantes.

c. Alexandre Severo

Um trabalhou com pescadores, o outro com sertanejos. Um a delicadeza do pano, o outro a firmeza da lona.

c. Alexandre Severo

Um ensaio tão semelhante ao outro. Dois Alexandres que ajudam a construir a memoria de nossa gente e por meio dos retratos os inserem de forma definitiva na nossa sociedade.

A onda carioca de Francesco Zizola

Depois da exposição “Modos de Olhar” em Recife e “Linha de Frente”em São Paulo, agora é a vez do Rio. A exposição “Onda Carioca” abre nesta sexta-feira, dia 29 no Ateliê da Imagem (Av. Pasteur, 453 – Urca), na Urca a partir das 19h.

Se em Modos de Olhar, Francesco Zizola apresentou seu olhar mais autoral e sua visão particular do mundo e em Linha de Frente nos mostrou seu trabalho como fotojornalista, em Onda Carioca, ele apresenta sua visão de convivência nas praias cariocas, como escreve no catálogo da mostra a crítica de fotografia, Claudia Buzzetti:

“A geografia da Cidade Maravilhosa parece ter sido criada para privilegiar a praia: sem dúvida alguma ela é o centro em torno do qual acontece grande parte da vida dos cidadãos. Para entender isto basta passear pela orla e observar todas as atividades que lá acontecem. Ela não é um lugar muito especial só para os moradores dos bairros próximos, mas para todos os habitantes da cidade, e representa um espaço democrático, sem diferença de classe social, cultura ou cor da pele. No Brasil, um dos países com litoral mais extenso do mundo, as praias não podem ser privatizadas. O olhar rápido e esperto de Francesco Zizola captou as diversas cenas que encontramos nelas, e mostra como o Rio de Janeiro e suas praias se tornam em instantes cenários de filme perfeitos”.

Se você ainda não viu, não deixe de ver:

“Modos de Olhar”- Arte Plural Galeria – Rua da Moeda, 40 – até 21/11, Recife


“Linha de Frente”- Território da Foto – Rua Mateus Grou, 580 – São Paulo


Mega evento de Francesco Zizola no Brasil

Minha empresa “Arte em Foco”está trazendo para o Brasil um mega-evento envolvendo o premiado fotojornalista italiano Francesco Zizola, reconhecido internacionalmente e um dos membros fundadores da Noor Image.


Apresentamos a  trajetória deste fotojornalista nos seus 25 anos de carreira, trazendo  visões diversificadas sobre lugares, pessoas e paisagens que ele acompanhou, na maioria das vezes com a função de nos apresentar fatos que não poderíamos presenciar. Nem por isso, mesmo nas situações mais adversas, ele deixou de imprimir poética por meio de seu olhar crítico.O projeto é uma concepção curatorial de Simonetta Persichetti e Francesco Zizola e pretende anteceder o início do ano Itália no Brasil, que ocorrerá em 2011.

Serão apresentadas três exposições diferentes, porém simultâneas, em três galerias do Brasil: Recife (Modos de Olhar), São Paulo (Linha de Frente) e Rio de Janeiro (Onda Carioca).

Mas a idéia não apenas mostrar imagens, mas trazer todo um trabalho curatorial que vai envolver workshops e lançamentos de livros.

Abaixo você pode acompanhar a programação:

Exposições:

Dia 20 de outubro – Recife – Modos de olhar – ARTE PLURAL GALERIA

Dia 21 de outubro – São Paulo – Linha de Frente – TERRITÓRIO DA FOTO

Dia 29 de outubro – Rio de Janeiro – Onda Carioca – ATELIÊ DA IMAGEM

No dia da abertura de cada  exposição Hélio Campos Mello, da revista Brasileiros, entrevistará Francesco Zizola.

ATIVIDADES COMPLEMENTARES

Workshops

Recife:

Dias 15 e 16 de outubro. Informações:

arteplural@artepluralgaleria.com.br

São Paulo:

Dias 22 e 23 de outubro. Informações:

atendimento@territoriodafoto.com.br

Rio de Janeiro:

Dias 27 e 28 de outubro. Informações:

info@ateliedaimagem.com.br

NOITE DE AUTÓGRAFOS

Dia 25/10 – Fnac/Pinheiros – São Paulo – 19 h.

Praça Omaguás, 34

Dia 26/10 – Barra Shopping – Rio – 19 h.

Av. das Américas, 4666 – Barra da Tijuca                      A

Contamos para a realização do projeto com a ajuda de vários interessados na fotografia:

Ipsis, Gráfica e Editora que patrocinou a publicação do catálogo

Fnac Brasil, que importou o livro “Born Somewhere”,

Institutos Italianos de Cultura Rio de Janeiro e São Paulo que possibilitaram a vinda de  Francesco Zizola ao Brasil,

10b Phtotography, responsável pelo tratamento e impressão das fotografias.

Brasileiros por sua ajuda na curadoria e divulgação do projeto.

Os encontros da fotografia em Arles

Passei 9 dias em Arles acompanhando a edição deste ano dos “Les Rencontres d’Arles Photographie”. Foi muito bom. Vi muitas exposições, participei de quase todas as palestras e segui com atenção redobrada o seminário do ano: “Fotografia: colecionar, expor, ensinar”. O tema do ano  “Du lourd et du Piquant”, teve como símbolo um rinocerente rosa choque: nas exposições (centradas a maioria em fotojornalismo) a questão de memória, identidade, reconhecimento. Os homenageados do ano: os argentinos que trouxeram lindas exposições. A melhor de todas porém, sem dúvida, foi a de um artista plástico que usa a fotografia Léon Ferrari. Genial! E imperdível!.

Na Europa, questões como arte e fotografia nem se colocaram – pelo menos não neste simpósio. Uma questãio para eles – e deveria ser também para nós – já ultrapassada. Mas discutiu-se muito  o fazer fotográfico, coleções de fotografia, fotografia e multimídia, transformação de visualidade.

Um dos embates mais legais foi sem dúvida entre a editora de fotografia da Time Magazine, Kira Pollack, uma garota empolgadíssima com as novas tecnologias e a vedete do momento o Ipad. Mostrou um vídeo promocional (diga-se de passagem, muito bom”!) da transformação da Time e falava de forma entusiasmada do novo jornalismo/fotojornalismo. Não convenceu os europeus que se mantém firmes em sua defesa da fotografia pura. Ouvi de um fotojornalista: “agora eles querem que sejamos cineastas. Não faço cinema, faço fotografia. Filmar com a câmara não nos interessa”.

Na noites de projeção, sem dúvida o destaque foi o trabalho “Blanco”, de Stefano de Luigi (falarei sobre este ensaio nos próximos post). Dos que eu assisti foi o único aplaudido após a projeção. De uma delicadez ímpar!.

O calor estava insuportável. Arles, cidade de pedra e, no verão, muito pouco verde – por isso mesmo tem ótimos vinhos e azeites – me fez refletir profundamente sobre como encaramos a fotografia aqui no Brasil.

No debate estratégias para entrar no mercado, quem brilhou foi o polêmico fotógrafo argentino (ele faz questão de ser definido assim) Marcos López que, diante da fala assumidamente comercial de Paolo Woods que defendia a universalidade da imagem e a importância de fazer o que as galerias querem retrucou -“não sou universal, sou argentino e fotografo problemas e questões argentinas. Estratégia comercial não combina com arte. Não entendo desta maneira o fazer fotográfico. Minha fotografia não é universal, é argentina”. Foi aplaudido.

Outro momento para mim impactante, foi na Arena, quando três curadores defenderam a escolha dos selecionados para o prêmio Revelação Luma. Havia já visto a exposição e achado absolutamente péssima. Mas meu espanto foi quando a Arena vaiou os curadores. De  tal forma que o diretor geral dos encontros pediu a palavra e pediu calma. Afinal o próprio público votaria, no melhor trabalho. Um dos curadores disse: “vocês estão errados”. Levou uma vaia maior e ouviu “o errado e completamente equivocado é você!”. 

Nos próximos post vou apresentar cada uma das exposições que eu achei mais interessante (desculpem, mas assim é) e falar um pouco também do seminário.

Voltei cheia de idéias, projetos, fiz contatos excelentes, conheci pessoas maravilhosas. Vi muita porcaria também….

Mas isso é um outro assunto.

 

Nas redondezas do perigo estão as melhores imagens

Autor de uma das mais marcantes imagens do século 20, participa de workshop e palestra na cidade

Simonetta Persichetti, especial para O Estado

Steve McCyrry

Steve McCyrry

Foto da menina afegã Sharbat Gula, que foi capa da ‘national Geografic’ – um clássico de Curry

SÃO PAULO – Esperar o momento certo para fotografar. Não ter pressa e ao mesmo tempo agir de forma certeira. Parece ser esta a tônica do fotógrafo Steve McCurry, que virá a São Paulo a convite do SP Photo Fest e da revista Fotografe Melhor para workshop e palestra no Museu da Imagem e do Som (MIS), entre os dias 20 e 23 de maio. Também está prevista, a exposição Desassossego da Cor no dia 25 na Galeria Babel. A exposição tem curadoria de Eder Chiodetto e de Jully Fernandes.

McCurry que já esteve presente nos maiores conflitos do mundo tornou-se conhecido nos anos 1980 ao fotografar uma menina afegã, Sharbat Gula. Os olhos verdes que nos fixavam diretamente fizeram a volta ao mundo na capa da National Geographic.

Mas suas fotos também nos trazem os conflitos de lugares como o Iraque, da ex-Iugoslávia, do Líbano e, é claro do Afeganistão. E foi no próprio Afeganistão que sua carreira de fotojornalista passou a ser reconhecida. Vestido com roupas locais, atravessou a fronteira com o Paquistão logo após a invasão soviética no final de 1979. Publicou as primeiras imagens do conflito. Também andou pela Índia, onde aprendeu, segundo ele, a ver e esperar, Tibete, Burma e fotografando os templos de Angkor Wat, assim como o ataque às Torres Gêmeas, nos Estados Unidos em 2001.

Seu trabalho está inserido dentro da mais tradicional escola do fotodocumentarismo. Uma fotografia humanista que se aproxima do sujeito fotografado com o respeito e com vontade de narrar histórias. Cada imagem é uma imagem que se sustenta por si própria, mas que consegue crescer quando editada ao lado de outras criando uma narrativa jornalística. Usa a cor como forma de linguagem, de poética. Um trabalho delicado, mas não por isso menos eficiente e contundente. De sua casa nos Estados Unidos, ele concedeu entrevista exclusiva por e-mail para o Estado.

Quase todos os fotojornalistas que fazem coberturas de guerra não gostam de se definir como fotógrafos de guerra. O senhor também não gosta. Por quê? E por que, então, estão sempre em áreas de conflito?

Eu sou um fotógrafo documentarista. Quero contar histórias com as minhas fotografias. Nos últimos 30 anos andei pelo mundo todo fotografando momentos cruciais de vários países como a Afeganistão, Líbano, Camboja, Índia e Tibete. Algumas pessoas são simplesmente levadas para a linha de frente por sua história particular. Querem ser testemunhas daquelas situações, ver por si próprias em primeira mão. É difícil de explicar, mas de certa forma esta motivação faz parte do DNA. Enquanto algumas pessoas fogem das cenas, outros estão indo ao seu encontro. Como fotógrafo documental me sinto compelido a contar estas histórias. Em muitos casos, as pessoas que você está fotografando não são capazes de contar sua própria história e, informar o mundo por meio dos jornais, revistas, rádio e televisão, é a melhor chance que elas têm de obter visibilidade e ajuda. Creio que cobrir áreas em conflito é importante. O drama humano destes lugares não pode ser subestimado e eu creio que conseguir transmitir estas emoções por meio de fotografias seja nobre. Fotógrafos querem estar perto do perigo porque é lá que as imagens estão.

Imagem feita no Tibete: para Steve McCurry, é preciso esperar o momento certo para fotografar

Depois de tantos anos registrando conflitos, como o senhor vê a humanidade?

Desempenhamos papéis diferentes, mas somos parte da mesma raça humana. Somos iguais, mas fazemos coisas diferentes. Comemos comidas diferentes, vivemos em casas diferentes, falamos diversos idiomas. Sinto curiosidade e empatia pelo ser humano e cada criatura viva é fundamental para minha fotografia. Humanidade e preocupação com a vida neste planeta é o que me guia para conhecer pessoas e culturas.

 

Impossível não perguntar sobre a menina afegã, Sharbat Gula, que o senhor fotografou em 1984. Esta sua imagem, é talvez, um dos grandes ícones fotográficos do século 20. Por que decidiu procurá-la 20 anos depois?

A imagem desta menina foi reconhecida no mundo inteiro. Recebi várias cartas e e-mails até que decidi tentar encontrá-la. Muitos queriam conhecer sua história. Quando a achamos foram feitos vários testes científicos que comprovassem que era realmente ela. Mas nós não tínhamos dúvidas. O documentário que fizemos para encontrá-la teve um impacto muito forte em minha vida. Mas o melhor da história foi o fato de sermos capazes de reencontrá-la, ajudá-la e fazer sua vida melhor.

 

Qual a função do fotojornalismo para o senhor?

Gosto de homenagear pessoas, lugares e culturas por meio das minhas imagens. Também gosto de contar as histórias desses personagens com a minha fotografia – especialmente daqueles que mostrei em áreas de conflitos. Acho que esse é um aspecto importante do fotojornalismo – mostrar pessoas, o que está acontecendo.

Fazer uma reportagem fotográfica para um jornal diário ou revista semanal de informação é diferente de fotografar para uma revista como a National Geographic. Como é isso?

Fotografar para os jornais é bom porque te ensina muito sobre jornalismo e deadlines, sobre histórias e fotografia. O único senão é que existe um certo tipo de edição, que privilegia o impacto. Isso acaba por diminuir o mistério e a incerteza que muitas vezes é tão maravilhoso na fotografia: ser capaz de interpretar, cada um a sua maneira, o sentido de uma imagem. Raramente este tipo de ambiguidade tem espaço no mundo do jornalismo.

 

Existe mesmo um excesso de imagens no mundo hoje em dia? Como saber se a eficiência da imagem continua? Como manter a credibilidade de uma matéria?

A única tática que eu tenho é ser respeitoso, aberto, e ter consideração com as pessoas que eu fotografo. Não me canso de afirmar o quão importante é demonstrar respeito e delicadeza para com todas as pessoas. Problemas no mundo acontecem quando nos sentimos desrespeitados, não vistos e colocados de lado.

Quais suas expectativas para esse encontro aqui em São Paulo?

Espero aprender e trabalhar com fotógrafos e estudantes e também espero ter ótimas discussões durante a palestra. E também espero, como já te disse acima, fazer um belo ensaio explorando novos lugares de São Paulo e do Brasil.

Palestra

Quando: 20 de Maio (Quinta-Feira)

Onde: MIS. Auditório (170 Pessoas). Av. Europa, 158, 2117 4777. Quando: 20 de maio, 19h30. Quanto: grátis – Ingressos distribuídos 1h antes da palestra

 

Exposição Desassossego da Cor

Onde: Galeria Babel. Rua Dr. Virgilio de Carvalho Pinto, 422, Pinheiros.

Quando: 25 de maio, 18 horas.

Quanto: Grátis

Novos Cursos no MAM_SP

Começam na semana que vem mais dois cursos meus no MAM-SP. O de História da Fotografia, com duração de três meses, sempre às quintas-feiras, das 20.15 às 22.15; o curso de Fotografia e Simbologia, apenas três aulas, no sábado das 10.30 às 12.30h.

O de História da Fotografia, com  início no dia 11 de março, pretende discutir a importância da fotografia na transformação do olhar e visualidade. Como sua invenção transformou o pensamento. Estudar esse fenômeno a partir dos grandes movimentos fotográficos como sua discussão com o jornalismo,  as artes plásticas, a antropologia, e a fotografia artística na época contemporânea.

Já o da Fotografia e Simbologia, com início no dia 13 demarço,  vai estudar a fotografia a partir da definição dos conceitos de mito, símbolo e arquétipos. Passaremos por mitos, contos de fada, obras de ficção, tendo sempre como pano de fundo a imagem.

Informações pelo: 50851312

Espero vocês!

As fantásticas imagens de Maureen Bisilliat

Ontem à noite fui ver a exposição “Fotografias” . Imagens da Maureen Bisilliat que hoje pertencem ao acervo do Instituto Moreira Salles. Fiquei maravilhada com tudo: uma verdadeira aula de curadoria, fotografia, impressão, cenografia. Um percurso que  vamos percorrendo poéticamente onde olhares e poesias de Guimarães Rosa, Jorge Amado se encontram  com as imagens das caranguejeiras, o cortejo luminoso dos vaqueiros, a terra do xingu. Uma exposição regada à generosidade, generosidade de Maureen que abre todos seus acervos, fotos, imagens.

Uma trajetória de mais de 50 anos que inicio, aqui no Brasil,  nas revistas Quatro Rodas e Realidade e continuou por muitos anos. Maureen escreve com os olhos, capta momentos coloridos, férteis, inovadores. Num percurso de mais de 200 imagens editadas e selecionadas por ela mesma (e isso se percebe, caminha-se pela exposição como se estivessemos caminhando por seus livros, por suas fotografias, usando os mesmos olhos que ela usou para fotografar) conhecemos lugares novos, não pela geografia, mas pela maneira como ela os apresenta.

Um presente para todos que gostam de fotografia. Essa, para mim, é uma daquelas exposições que são imperdíveis. Por ocasião da mostra também foi lançado o livro “Fotografias: Maureen Bissiliat”, uma trajetória de mais de 50 anos na fotografia.

Vale a pena!

O lugar: Galeria de Arte do Sesi, na Avenida Paulista 1313, o prédio da Fiesp!.

Flagrantes de duas cidades em transformação

Matéria  que saiu no Estadão de ontem

Fotos revelam São Paulo dos anos 30, feitas por Hildegard Rosenthal, e Buenos Aires no apogeu, por Horacio Coppola

Simonetta Persichetti, ESPECIAL PARA O ESTADO]

A cidade é sempre fascinante para olhares atentos. Um detalhe de uma janela, a fachada de um prédio, as pessoas que a habitam. Que dizer então quando olhares conseguem acompanhar o desenvolvimento e o crescimento dessas cidades que aos poucos, cada uma à sua maneira, vão se constituindo no hábitat, no centro das relações humanas, na certeza de pertencer a algum lugar.
Com esse intuito, as imagens de dois fotógrafos que na mesma época registram, ou melhor, retratam cada um ao seu modo duas importantes cidades da América Latina: São Paulo e Buenos Aires. Uma fotógrafa alemã que descobre um novo lugar, Hildegard Rosenthal (1913-1990), considerada uma das pioneiras do fotojornalismo brasileiro, e Horacio Coppola (1906), que documenta sua cidade natal, Buenos Aires, no momento de seu apogeu, quando ela se constitui da maneira como a conhecemos hoje.
Imagens diversas, que se distinguem na intencionalidade, mas se reencontram na forma: visões que procuram entender a cidade, a metrópole que começa a se apresentar à sua frente. Em São Paulo, a cidade vista por uma fotógrafa alemã que chega ao Brasil nos anos 30 fugindo do nazismo e já fotógrafa de profissão. Ao chegar aos poucos, até como forma de conhecer a cidade, ela começou a fotografá-la, a desvendá-la procurando ângulos inusitados, curvas, linhas, geometria. Não à toa, percebe-se em suas imagens influência da escola alemã Bauhaus. Mesmo assim, em seu olhar curioso, o retratar a cidade vai se desvendando, chamando sua atenção para o não conhecido, mas sem ser exótico. A câmara fotográfica como forma de conhecer, de se aproximar e, por que não dizer, de integração social. Uma São Paulo dos anos 1930, uma São Paulo da garoa, da moças comendo melancia no meio da rua, dos bondes, dos senhores engravatados, dos trabalhadores. Uma cidade em construção, uma metrópole que está por vir. Um olhar livre de uma fotojornalista que, sem pretensão nenhuma, procura trazer uma centelha de novidade ao que os nossos olhos estão habituados a ver. Não um registro oficial, mas um olhar jornalístico sem deixar de lado uma forma poética do descobrimento.
Conversando com as imagens de Hildegard, o também fotojornalista Horacio Coppola fotografa sua cidade natal. Se ele não tem o descortinar do desconhecido, tem a vontade de mostrar ângulos inusitados que fogem ao déjà vu. O momento no qual Buenos Aires cresce e se coloca como cidade. Assim como sua colega, Coppola também registra a presença humana, já que sem ela a cidade não existe. As vitrines, os outdoors, o homem transformando e sendo transformado pela cidade. O fotógrafo que registra aquele momento que é seu, único e poético. Que deixa inscrita sua visão particular, seu retrato de uma cidade.
Os dois têm em comum sua influência da escola alemã da Bauhaus, uma escola que procurava encontrar novas significações para o já conhecido. Os dois têm trabalhos semelhantes, aliás magistralmente representados nos dois livros publicados pelo Instituto Moreira Salles: o do Horário Coppola, Visões de Buenos Aires, lançado em 2007, e Metrópole, de Hildegard Rosenthal, lançado na abertura da exposição, no dia 20.
Um olhar que ainda acompanha as vanguardas artísticas do início do século 20, que procuram quebrar os cânones do estabelecido e nos ajudam a ver o mesmo sob um novo ângulo. Sim, existe uma influência do novo olhar nas imagens de Hildegard Rosenthal e Horacio Coppola, mas existe uma influência visível da escola de um fotógrafo francês do início do século 20, Eugene Atget (1856-1927), parisiense que fotografou as ruas de Paris e talvez tenha sido o primeiro fotógrafo a olhar a rua não como registro, mas como cenário de uma história. Atget quase nunca fotografava a presença humana, diferença com os dois fotógrafos da exposição, mas foi sem dúvida ele, Atget, que iniciou a fotografar o banal, o não fotografável, o cotidiano, as cenas que aparentemente não mereceriam sem imortalizadas. Horacio Coppola e Hildegard Rosenthal seguem essa escola. O nome da exposição: Profissão: Fotógrafo não poderia ser mais acertado. Um olhar que ainda não cedeu ao espetáculo, à banalização da imagem, à estética que supera o conteúdo. É um olhar que quer narrar, e por isso mesmo se encontra na forma, mesmo que respeitando suas diferenças de entender e compreender o fazer fotográfico.

Serviço
Profissão: Fotógrafo. Museu Lasar Segall. R. Berta, 111, Vila Mariana, tel. 5574-7322. De 3.ª a sáb., das 14 h às 19 h; dom. e feriados, das 14 h às 18 h. Até 4/4

Imagens sem Fronteiras

Este texto não é novo. Saiu no Caderno 2 do Estadão no final do ano passado, mais precisamente no dia 28 de dezembro. Eu mesma, só vi o texto quando voltei ao Brasil. Mesmo assim eu gostei e acho que vale a pena transcrevê-lo aqui já que é uma análise dos eventos fotográficos do ano passado. Portanto lá vai:

O reconhecimento do valor cultural da fotografia é algo ainda relativamente novo no campo das expressões e das ciências humanas. Tratada muitas vezes como suporte, como estudo, ela se viu transformada nos últimos anos em protagonista e também matéria-prima do fazer e das discussões em relação à imagem contemporânea.

Neste ano, pudemos ver isso de forma prática e não apenas na literatura ou nos campos acadêmicos. Nos últimos 20 anos, tem sido foco de discussão e reapresentação ou ressignificação de sua própria ontologia. Isso fica evidente quando ela – que sempre fez parte dos acervos museológicos como ferramenta objetiva ou de informação da modernidade – passa a fazer parte das galerias, das feiras de arte, como expressão que não representa, mas apresenta conceitos e significados que vão além da superfície bidimensional.

Dessa forma, pudemos apreciar exposições que retomaram o que se considera a imagem clássica como a do mestre da fotografia francês Henri Cartier-Bresson (1908-2004), reconhecido por suas imagens jornalísticas, mas que apresentadas como retrospectiva do autor – e pela sua própria edição – provaram muito mais a evolução de seu olhar, do seu pensamento imagético, do que propriamente uma narrativa de mundo. O mesmo pode ser dito da exposição de retratos de fotojornalistas do Estado, que inaugurava a entrada da SP-Arte/Foto, evento que reuniu 17 galerias e mais de 300 imagens. Os retratos, editados pelo jornalista Antonio Gonçalves Filho, privilegiavam o olhar autoral de cada artista, ou, melhor dizendo, repórter-fotográfico, na citação clara de que pensar que fotojornalismo não tem estética é mais uma falácia em torno da pequena-grande história da fotografia. Outra mostra que trouxe à tona essa discussão é a de Walker Evans (1903-1975), conhecido por seu trabalho durante a depressão americana da década de 1930.

Pensar a fotografia como objeto e não como ferramenta, obviamente não é novo, nem fruto do século 21. Considerada a expressão moderna por excelência, foi tomada de assalto pelos artistas vanguardistas, das primeiras décadas do século 20, que dela se apropriaram justamente por causa de sua funcionalidade, e aqui devemos destacar, com mais ênfase, dadaístas e surrealistas. As questões hoje são outras, falar da funcionalidade da fotografia já se tornou uma não-questão. Mas outras problemáticas acabam surgindo como a da sociedade do entretenimento, na qual quase todas as imagens se destacam não pelo seu conteúdo, mas por uma estética vazia, que transforma imagens em espetáculo no que de pior tem esta palavra.

E embora tenhamos visto excelentes mostras neste ano, a quantidade de fotos em cada uma – 150, 200, 300 – demonstra uma vontade de assombrar sem nada acrescentar. Caso por exemplo da exposição de Vik Muniz, uma mostra midiática em que se confunde o fazer artístico com o fazer espetáculo. Grandes produções, belos shows. Na contramão desse tipo de evento, no Itaú Cultural, a mostra A Invenção de Um Mundo, recorte do acervo da Maison Européenne de la Photographie, com curadoria de Eder Chiodetto e Jeal-Luc Monterosso, nos apresenta a imagem contemporânea pensada a partir da subjetividade de seu autor. A escolha dos curadores, bastante definida e dirigida, nos exibe artistas que por parábolas e metáforas acabam por questionar essa falta de profundidade a que temos assistido repetidamente. Como se a fotografia, ou a imagem, se bastasse por si. Seguindo essa linha da reflexão cognitiva e não do reflexo-espelho, tivemos as imagens de Robert Polidori, fotógrafo canadense trazido ao Brasil pelo Instituto Moreira Salles. E adota o grande formato como uma forma de evidenciar a passagem do tempo. Suas fotografias trazem as marcas do caos urbano causado pelo homem ou pela natureza.

Mas não foi só nas exposições que a fotografia foi protagonista neste ano. Na área editorial também houve belas publicações. Ainda pelo Instituto Moreira Salles, tivemos os belos livros de Maureen Bisilliat e Marcel Gautherot (1910-1996). A Companhia das Letras publicou o Elogiemos os Homens Ilustres, uma matéria elaborada pelo jornalista James Rufus Agee e pelo fotógrafo Walker Evans. Outro ponto alto do ano para o segmento foram, sem dúvida, os festivais em Porto Alegre, Rio, São Paulo e Paraty, onde a discussão se fez presente nas várias entrevistas com autores de estéticas completamente diferenciadas.

Mas se tudo foi brilho neste ano para a fotografia aqui no Brasil, tivemos também duas perdas bastante relevantes. Morrem Otto Stupakoff (1935-2009), o primeiro fotógrafo de moda brasileiro que fez vida e carreira nos Estados Unidos, mas havia retornado ao Brasil; e Mario Cravo Neto (1947-2009), um artista que sempre se destacou pela força de seu trabalho, retratando de forma bastante singular a cultura brasileira, em especial, a baiana. Otto teve bela exposição organizada pelo IMS e Mario Cravo Neto, a mostra Eternamente Agora: Um Tributo a Mario Cravo Neto, com curadoria de Paulo Herkenhoff e Christian Cravo.

Foi um ano de pensar a fotografia, de discutir as imagens sem impor barreiras ou fronteiras. Um ano que parece ser a preparação para uma nova década que se inicia não só no fazer, mas, acima de tudo, no pensar a fotografia. O espaço conseguido parece ser irreversível. Cada vez mais ouviremos falar sobre ela.