Projeto mapeia livros de fotografia em 11 países e chega a 150 títulos

Esta matéria saiu no Caderno2 do Estadão no dia 24 de novembro.

Não deve ter sido fácil, mas deve ter sido fascinante. Durante quatro anos um conselho de colaboradores (Marcelo Brodsky, Iatã Cannabrava, Lesley Martin, Martin Parr e Ramón Reverté) – ajudado por fotógrafos, designers e editores de 11 países sul-americanos, e capitaneados pelo historiador de fotografia e crítico e curador espanhol Horacio Fernández – correu atrás da produção imagética latino-americana a partir do conceito de fotolivros, ou seja, publicações em que o autor é protagonista: “Um fotolivro não é um livro ilustrado por fotografias. O fotógrafo participa de toda criação e realização com um editor e um designer”, nos contou por e-mail de Madri Horacio Fernández. O resultado é o volume Fotolivros Latino-Americanos, que chega às livrarias pela Cosac Naify em coedição com a RM, Aperture e Images em Manoeuvre.

É a primeira vez que se realiza uma empreitada de tal porte que procura fazer um panorama do que já foi publicado do México até a Patagônia do começo do século 20 até o início do 21. Ao final temos mais de 150 títulos selecionados que conversam com a literatura, as artes plásticas, os momentos históricos e conturbados de nosso continente. Uma linha do tempo, dividida em nove temas: O livro do século 20, Palavra e Imagem, A cidade e os livros, Os esquecidos, Fotolivros de artistas, A imagem e o texto, Tempos difíceis, Cor, Os Contemporâneos. Temáticas que nos ajudam a pensar como identidade continental, mas ainda, talvez, não possamos falar de uma identidade estilística: “Não sei se podemos falar de um estilo latino-americano. O que podemos afirmar são algumas semelhanças. A fotografia latino-americana é culta, cosmopolita e urbana. Mas há diferenças também: por exemplo, em Cuba, os fotolivros são bem propagandísticos”, escreve Fernández. Mesmo assim, como o próprio autor anuncia na introdução do livro: “Os fotolivros nos permitem explicar as semelhanças, as influências, os estilos, tudo o que une os fotógrafos e também os separa.

Um trabalho que praticamente começou do zero, visto que nenhum levantamento desse tipo havia sido feito até então. A ideia nasceu em 2007 no 1.º Fórum Latino-Americano de Fotografia organizado por Iatã Cannabrava e Marcelo Brosky em São Paulo, no Instituto Cultural Itaú.

Durante os debates os pesquisadores, críticos e historiadores se deram conta dessa lacuna. Claro que no início sem dados e com impossibilidade de quantificar a produção não era possível prever o resultado: “Foi uma surpresa quando começamos a contabilizar os resultados e percebemos que havia publicações maravilhosas editadas nas mais diversas cidades, muito mais do que esperávamos. Viajei muito pela América Latina, visitando bibliotecas, sebos, fotógrafos. Escrevi para editores, designers, artistas, etc.”.

Surpresa maior foi a intenção de editoras como a mexicana RM, a norte-americana Aperture e a brasileira Cosac Naify de publicar a pesquisa. E, assim, em 256 páginas poderão ser vistos trabalhos de fotógrafos da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Cuba, Equador, México, Nicarágua, Peru e Venezuela.

Destaque para nomes como o dos mexicanos Manuel Álvares Bravo e Graciela Iturbide, do chileno Sergio Larrain, dos brasileiros Claudia Andujar, Maureen Bisilliat, Boris Kossoy e Miguel Rio Branco, dos argentinos Sara Facio e Horacio Coppola e Marcus López, só para citar alguns nomes no meio de tantos que são apresentados. Do ponto de vista mais histórico uma surpresa como o livro de Pierre Verger, publicado em Buenos Aires em 1945: Fiestas e Danzas en el Cuzco y los Andes, ou os livros de Augustin Victor Casasola, sobre a Revolução Mexicana. Mas muito mais do que um livro ilustrado, este volume é uma verdadeira aula de história da fotografia latino-americana, ainda tão pouco discutida e conhecida. Vozes que finalmente vem à tona, encerrando anos de silêncio e desconhecimento. Um começo promissor, um primeiro passo que esperamos abra possibilidades para outras iniciativas ou pelo menos para um segundo volume dessa série: “Claro que esta é uma possibilidade, já que seguramente novidades vão surgir nos próximos anos, em vários países. Em relação ao Brasil, ainda há fotolivros de grande qualidade além daqueles apresentados neste volume”, finaliza Fernandéz.

Uma mostra sobre este compêndio será aberta em janeiro, em Paris, e depois vai a Madri, Nova York, São Paulo e Rio. Uma chance para conhecermos imageticamente o que já é conhecido por intermédio da literatura.

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2X Alexandre

Abre na próxima quarta-feira, dia 19, na Arte Plural, em Recife, a exposição 2x Alexandre que reúne os trabalhos do Alexandre Sequeira e do Alexandre Severo. A curadoria é minha!

Um é Sequeira, o outro é Severo. O primeiro é de Belém, o segundo é de Recife. O Sequeira é um artista plástico que  – com muita competência – trabalha com a fotografia; o Severo traz em suas imagens a mais tradicional e forte escola do fotojornalismo.

c. Alexandre Sequeira

Aparentemente separados, os dois olhares destes profissionais se encontram quando o discurso é a poética imaginária.  Nestes dois ensaios que apresentamos agora ambos trabalharam a memoria, identidade .

Durante dois anos Alexandre Sequeira elaborou o trabalho Nazare de Mocajuba, numa ilha de pescadores, ao nordeste do Pará. Lá encontrou pessoas que nunca haviam sido fotografadas. Passou a registrá-los e mais, para criar uma maior intimidade passou a imprimir as imagens nas toalhas, lençois dos moradores. O resultado, uma trabalho delicado, bonito e emocionante.

 c. Alexandre Sequeira

Para comemorar o centenário de Canudos, Alexandre Severo, resolveu retratar o sertanejo. Dar-lhe visibilidade por meio da fotografia, torná-lo reconhecido e reconhecível. Rostos num fundo branco descontextualizados, que nos olham de frente, conversam conosco. Mas no meio do trabalho – muitas vezes isso acontece – as imagens do entorno, da montagem do estúdio a céu aberto se sobrepuseram ao retrato tradicional. Não seria possível descontextualizar. O homem e o meio ambiente eram um só. O resultado, cenas surpreendentes, desconcertantes.

c. Alexandre Severo

Um trabalhou com pescadores, o outro com sertanejos. Um a delicadeza do pano, o outro a firmeza da lona.

c. Alexandre Severo

Um ensaio tão semelhante ao outro. Dois Alexandres que ajudam a construir a memoria de nossa gente e por meio dos retratos os inserem de forma definitiva na nossa sociedade.

Uma aula de fotojornalismo

Estou lendo um livro sensacional: “Get the Picture: una storia personale del fotogiornalismo”, um relato do John G. Morris um dos mais importantes editores de fotografia. Foi editor da Life, durante a segunda guerra mundial, do Ladie’s Home Journal, onde teve a idéia de criar uma série “Um dia em família”que interessou muito o Edward Steichen e acabou dando origem a fantástica exposição no Moma “The Family of Man”nos anos 50. Em seguida ele foi  diretor da Magnum, trabalhou para o Washington Post e editor do New York Times. Desde 1983 vive em Paris. O livro é delicioso pois conta de forma informal de como é editar um jornal, suas relações com os fotógrafos e acima de tudo nos narra os bastidores do fotojornalismo. Um livro seminal que espero seja logo traduzido para o português! De qualquer forma também pode ser encontrado em língua inglesa:”Get a Picture; a personal history” . Na capa uma
foto do James Nachtwey , na minha opinão, o melhor fotojornalista do mundo, em ação em 1994. Uma leitura imperdível!

O século XX nas lentes dos Ferrez

Simonetta Perischetti, especial para o Estado

SÃO PAULO – Quatrocentas imagens inéditas do começo do século 20, feitas pelos herdeiros do Marc Ferrez (1843-1923), compõem a exposição Família Ferrez: Novas Realizações, organizada por Pedro Karp Vasquez e Julia Peregrino.

Fotografias que retratam não apenas o Rio, mas Brasil, África, países europeus e ainda nos apresentam álbuns de família, o cotidiano das casas, a vida nas ruas das cidades. Representa um diário de viagem, na aparência com um olhar descompromissado, mas totalmente bem resolvido, e a herança de um dos profissionais mais importantes do século 19, Marc Ferrez. Ele, além de fotógrafo da família imperial, teve um trabalho “solo”, viajou pelo Brasil registrando trabalhadores, escravos, a vida no país. Também foi considerado fotógrafo da Marinha imperial por suas imagens em alto-mar. Pioneiro em fotografias de interiores e na forma de retratar, ele é sem dúvida nosso principal fotógrafo.

Essa paixão pela imagem parece ter passado para seus descendentes. Na mostra, registros realizados por seus filhos Julio (1881-1946) e Luciano (1884- 1955) e por seu neto Gilberto Ferrez (1908-2000), que, além de fotógrafo, foi colecionador de foto, historiador e guardião desse imenso arquivo. Os curadores levaram mais de um ano vasculhando 8 mil negativos, além de álbuns e arquivos pessoais, reunidos hoje no Arquivo Nacional do Rio graças a uma doação da família, em 2007. “Queríamos doar para uma instituição pública brasileira. Queríamos a possibilidade de que este material fosse bem guardado e que as pessoas tivessem a chance de vê-lo”, conta por telefone Helena Ferrez, filha de Gilberto.

Riqueza. Antes da doação, porém, todo o acervo foi catalogado. Empreitada que levou dois anos para ser cumprida pela produtora Fazer Arte de Julia Peregrino (uma das curadoras da mostra) e pela própria Helena, e contou com o patrocínio da Petrobrás. Foi nessa fase que Julia se deu conta da riqueza do material iconográfico e solicitou a parceira de Pedro Karp Vasquez para a organização da mostra.

O resultado é uma profusão de imagens que foram distribuídas em três eixos principais: Nossa Terra, enfatizando trabalhos que apresentam a geografia brasileira, mas onde aparece em destaque o desmonte do Monte do Castelo no Rio. “O trabalho de documentação feito por Luciano é muito bem organizado”, diz por telefone, ao Estado, Pedro Karp Vasquez. “Lembra muito os trabalhos de Augusto Malta (1864- 1957), que foi o fotógrafo oficial da prefeitura do Rio. Como se as imagens de Luciano complementassem as de Malta.” E há também registros da Bahia, São Paulo, Alagoas, Pernambuco, Rio Grande do Sul e Minas.

Um segundo eixo é dedicado às viagens ao exterior – Outras Terras -, no qual aparecem fotos feitas por Julio e Luciano. Naquela época, para se chegar à Europa, tinha-se que fazer escala no Senegal. E de lá vêm algumas imagens que nos mostram lugares que dificilmente são fotografados, e ainda de Portugal, da Suíça e França.

Mas é, talvez, no terceiro pilar da exposição que se encontra o que foge de alguma forma da representação mais comum daquele período: Comentário Social. Neste núcleo há os registros da vida da família Ferrez, seu entorno, amigos, a elite, o povo, os negros: “Este trabalho foi realizado com mais intensidade por Julio, que se torna o cronista familiar”, explica Vasquez. Uma era em que ainda não existia a visão antropológica e os olhares de Julio e Luciano já antecipavam a busca imagética que seria seguida anos mais tarde por fotógrafos como Pierre Verger e Marcel Gautherot. Neste segmento estão também nove retratos de Marc Ferrez feitos pelos filhos.

Caminho imagético. Segundo Vasquez, a montagem da exposição procurou respeitar e seguir exatamente o caminho imagético criado pela família Ferrez. Para isso, vários álbuns foram pesquisados e alguns deles estão presentes na mostra para evidenciar como eles selecionavam suas imagens, além de seus diários de viagens e correspondências que narram um pouco da história que está sendo mostrada. Como afirma Julia Peregrino: “Esta exposição é um marco na história da fotografia brasileira.”

Gilberto Ferrez teve sete filhas. Nenhuma delas se interessou pela fotografia, mas como nos confidenciou sua filha Helena: “Uma das netas do Gilberto, que hoje mora em Nova York, se interessa muito por essa arte.” Só nos resta torcer que ela se interesse mesmo para termos mais uma geração da família Ferrez que sempre tem trazido inovações na forma de registrar os lugares e o cotidiano.

Família Ferrez: novas revelações

Patrocínio: Prefeitura de São Paulo| Secretaria Municipal de Cultura 

Galeria Olido

Avenida São João, 473

Período: de 26 de março a 23 de maio

Horário: de 3ª a sexta das 12:00h às 20:30h; sábados e  domingos, das 13h às 20.00h.

Biblioteca ampliada

Voltei da Italia cheia de livros: dos que eu trouxe (seis) dos que ganhei  quando aqui cheguei e achei em meu escritório (quatro). Agora é  o tempo para ler todos eles.  Na verdade só comprei dois. O resto ganhei mesmo.

Ainda bem. Então vamos dividir:

Livros Teóricos:

La Fotografia: una Storia Culturale e Visuale – Graham Clarke, Piccola Biblioteca Eunaidi

L’Errore fotografico : una breve storia – Clément Chéroux, Piccola Biblioteca Eunadi.

Estética da Fotografia: perda e permanência – François Soulages, Editora Senac

Livros de Fotógrafos:

Ugo Pellis, un fotografo in movimento – Societá Filologica Friulana.

Uomini e Cose, Ugo Pellis, Fotografie, Sardenha 1932-1935. Giunti

Iraq- Francesco Zizola, EGA

Born Somewhere – Francesco Zizola, Unidea

Robert Frank: The Americans, Looking In – Expanded Edition,

Bettina Rheims-Shangai, PowerHouse Books.

Hidegard Rosenthal: Métropole – IMS

Delícia, tenho leituras para mais de mês. Depois, se conseguir, faço resenha de cada um destes livros. Mas é muita coisa e todos lindos!!!

Novos Cursos no MAM_SP

Começam na semana que vem mais dois cursos meus no MAM-SP. O de História da Fotografia, com duração de três meses, sempre às quintas-feiras, das 20.15 às 22.15; o curso de Fotografia e Simbologia, apenas três aulas, no sábado das 10.30 às 12.30h.

O de História da Fotografia, com  início no dia 11 de março, pretende discutir a importância da fotografia na transformação do olhar e visualidade. Como sua invenção transformou o pensamento. Estudar esse fenômeno a partir dos grandes movimentos fotográficos como sua discussão com o jornalismo,  as artes plásticas, a antropologia, e a fotografia artística na época contemporânea.

Já o da Fotografia e Simbologia, com início no dia 13 demarço,  vai estudar a fotografia a partir da definição dos conceitos de mito, símbolo e arquétipos. Passaremos por mitos, contos de fada, obras de ficção, tendo sempre como pano de fundo a imagem.

Informações pelo: 50851312

Espero vocês!