Pierre Jahan, fotógrafo surrealista e de publicidade

Uma das exposições que mais gostei em Arles, foi a do fotógrafo francês Pierre Jahan (1909-2003) um dos expoentes da fotografia surrealista e da fotografia publicitária. Para os que ainda (sic!) tem preconceitos em relação à fotografia publicitária  e/ou de moda, lembro que os primeiros fotógrafos destas modalidades foram justamente os pictorialistas, dadaístas, surrealistas. Ou seja, aqueles que acreditavam na fotografia construída, pensada e os que queriam dar à fotografia o status de expressão autônoma. A exposição foi montada no Musée Réattu, que conserva algumas obras do autor.

Pierre, não quis se ligar a grupo nenhum e andou com total liberdade – coisa aliás comum naquela época – nas mais variadas linguagens fotográficas: fotógrafo surrealista, publicitário e até fotojornalista. Para lembrar uma de suas imagens foi exposta no MAM-SP, na mostra “Olhar e Fingir”.

Mas o que mais me chamou a atenção foi seu trabalho publicitário. Era o início desta linguagem fotográfica que – como já disse acima – estava ligada muito ao surrealismo, já que foram eles ou este movimento que percebei que a fotografia era índice, era rastro, mas que convencia graças ao fato de estar colada em seu referente.  Lindas e sensuais suas fotos sobre o nú, sobre o amor. Imagens estas que foram usadas para ilustrar um poema de Jean Cocteau. Começou a fotografar nos anos 30, época em que chegou a Paris, cidade onde morou a vida toda. Independente, fotografava por prazer. Livre, fez sempre o que quis. Apaixonado pela experimentação, ousou sempre que pode. Defensor dos direitos dos fotógrafos ajudou na fundação da Federação Francesa da Associaçãos dos Fotógrafos.

 

 

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Imagens contam uma década de história

Clube de Colecionadores do MAM abre exposição no seu aniversário

 

Simonetta Persichetti – O Estado de S.Paulo

   

De Thomaz Farkas. Da década de 40, registro simples e revelador da infraestrutura de uma São Paulo em transformação

            Na última década, uma efervescência vem tomando conta do mercado fotográfico de forma geral. O tema está sempre na pauta das discussões sobre a arte contemporânea, festivais têm se multiplicado pelo Brasil e nossa produção cresce em progressão geométrica, assim como as coleções representativas em vários museus. 

O Clube de Colecionadores de Fotografia do MAM (Museu de Arte Moderna de São Paulo) é prova disso. Criado em 2000 pelo então curador do museu Tadeu Chiarelli, que já havia formado o Clube de Colecionadores de Gravura, e pela curadora-assistente Rejane Cintrão, ele só tem crescido. Já tem 55 obras e uma fila de espera para poder se associar. Para comemorar os dez anos do clube, o MAM organizou uma exposição, que será aberta hoje para convidados, na qual é possível acompanhar a trajetória da fotografia brasileira por meio de trabalhos de profissionais como Claudia Andujar, Maureen Bisilliat, Thomaz Farkas, German Lorca, Fernando Lemos, Luiz Braga, Rafael Assef, Rosângela Rennó, só para citar alguns nomes.

Como a finalidade da instituição é incentivar no Brasil o hábito de colecionar fotografias, antes da abertura da mostra haverá a palestra Ciclo de Colecionismo do Programa de Sócios MAM-SP, com mediação do curador Eder Chiodetto e participação de Tadeu Chiarelli e de Antonio Luiz, um dos primeiros associados do clube e colecionador de imagens.

Desde o início, a proposta foi a de representar uma produção mais experimental que se inicia no Brasil a partir dos anos 1990: “Este momento é, na verdade, uma retomada do experimentalismo trazido por profissionais como German Lorca, Thomaz Farkas e Geraldo de Barros, no fim da década de 1940 e início de 1950”, explica em entrevista ao Estado Eder Chiodetto, que desde 2006 é o curador do clube coordenado por Fátima Pinheiro. Momento em que a fotografia paulista quebra com as regras vigentes da produção muito mais ligada a uma corrente pictorialista e inaugura no País a era moderna do setor.

Nos anos 1960, porém, o registro experimental perde espaço para o fotojornalismo crescente que, durante 20 anos, foi a linguagem principal da fotografia brasileira: “Fora exceções pontuais, a fotografia nacional atravessou um período de aproximadamente 20 anos distante do universo das artes plásticas. A guinada mais efetiva nessa direção se deu após o processo de abertura política, iniciado na metade dos anos 1980, que ajudou a fomentar um clima de diálogo com outras culturas, pautado por novas possibilidades de expressão e de representação, nas quais os artistas se voltaram para temas mais ligados a questões existenciais e subjetivas, em substituição às abordagens sociopolíticas”, recorda Chiodetto.

Com o mercado de colecionadores de fotografia em alta, o curador do clube dividiu a coleção em cinco frentes de pesquisas, numa forma não de catalogação, mas de mapear a diversidade da produção: Identidade Nacional, Documental Imaginário, Limites/Metalinguagem, Retrato/Autorretrato e Vanguardas Históricas.

Num momento em que voltam à tona discussões sobre o fazer fotográfico, diante da maciça presença de câmeras fotográficas em todos os eventos mundiais, dos debates sobre a banalização da imagem e o papel do fotógrafo, o clube parece que aponta exatamente para o lado oposto: “O crescente interesse pela fotografia se dá porque, com medo da banalização, as pessoas começaram a se interessar por essa arte e querem conhecer as suas diversas possibilidades narrativas”, acrescenta Eder Chiodetto. Nesse processo, uma exposição e um debate ajudam a explicar o caminhos dessa arte.

O século XX nas lentes dos Ferrez

Simonetta Perischetti, especial para o Estado

SÃO PAULO – Quatrocentas imagens inéditas do começo do século 20, feitas pelos herdeiros do Marc Ferrez (1843-1923), compõem a exposição Família Ferrez: Novas Realizações, organizada por Pedro Karp Vasquez e Julia Peregrino.

Fotografias que retratam não apenas o Rio, mas Brasil, África, países europeus e ainda nos apresentam álbuns de família, o cotidiano das casas, a vida nas ruas das cidades. Representa um diário de viagem, na aparência com um olhar descompromissado, mas totalmente bem resolvido, e a herança de um dos profissionais mais importantes do século 19, Marc Ferrez. Ele, além de fotógrafo da família imperial, teve um trabalho “solo”, viajou pelo Brasil registrando trabalhadores, escravos, a vida no país. Também foi considerado fotógrafo da Marinha imperial por suas imagens em alto-mar. Pioneiro em fotografias de interiores e na forma de retratar, ele é sem dúvida nosso principal fotógrafo.

Essa paixão pela imagem parece ter passado para seus descendentes. Na mostra, registros realizados por seus filhos Julio (1881-1946) e Luciano (1884- 1955) e por seu neto Gilberto Ferrez (1908-2000), que, além de fotógrafo, foi colecionador de foto, historiador e guardião desse imenso arquivo. Os curadores levaram mais de um ano vasculhando 8 mil negativos, além de álbuns e arquivos pessoais, reunidos hoje no Arquivo Nacional do Rio graças a uma doação da família, em 2007. “Queríamos doar para uma instituição pública brasileira. Queríamos a possibilidade de que este material fosse bem guardado e que as pessoas tivessem a chance de vê-lo”, conta por telefone Helena Ferrez, filha de Gilberto.

Riqueza. Antes da doação, porém, todo o acervo foi catalogado. Empreitada que levou dois anos para ser cumprida pela produtora Fazer Arte de Julia Peregrino (uma das curadoras da mostra) e pela própria Helena, e contou com o patrocínio da Petrobrás. Foi nessa fase que Julia se deu conta da riqueza do material iconográfico e solicitou a parceira de Pedro Karp Vasquez para a organização da mostra.

O resultado é uma profusão de imagens que foram distribuídas em três eixos principais: Nossa Terra, enfatizando trabalhos que apresentam a geografia brasileira, mas onde aparece em destaque o desmonte do Monte do Castelo no Rio. “O trabalho de documentação feito por Luciano é muito bem organizado”, diz por telefone, ao Estado, Pedro Karp Vasquez. “Lembra muito os trabalhos de Augusto Malta (1864- 1957), que foi o fotógrafo oficial da prefeitura do Rio. Como se as imagens de Luciano complementassem as de Malta.” E há também registros da Bahia, São Paulo, Alagoas, Pernambuco, Rio Grande do Sul e Minas.

Um segundo eixo é dedicado às viagens ao exterior – Outras Terras -, no qual aparecem fotos feitas por Julio e Luciano. Naquela época, para se chegar à Europa, tinha-se que fazer escala no Senegal. E de lá vêm algumas imagens que nos mostram lugares que dificilmente são fotografados, e ainda de Portugal, da Suíça e França.

Mas é, talvez, no terceiro pilar da exposição que se encontra o que foge de alguma forma da representação mais comum daquele período: Comentário Social. Neste núcleo há os registros da vida da família Ferrez, seu entorno, amigos, a elite, o povo, os negros: “Este trabalho foi realizado com mais intensidade por Julio, que se torna o cronista familiar”, explica Vasquez. Uma era em que ainda não existia a visão antropológica e os olhares de Julio e Luciano já antecipavam a busca imagética que seria seguida anos mais tarde por fotógrafos como Pierre Verger e Marcel Gautherot. Neste segmento estão também nove retratos de Marc Ferrez feitos pelos filhos.

Caminho imagético. Segundo Vasquez, a montagem da exposição procurou respeitar e seguir exatamente o caminho imagético criado pela família Ferrez. Para isso, vários álbuns foram pesquisados e alguns deles estão presentes na mostra para evidenciar como eles selecionavam suas imagens, além de seus diários de viagens e correspondências que narram um pouco da história que está sendo mostrada. Como afirma Julia Peregrino: “Esta exposição é um marco na história da fotografia brasileira.”

Gilberto Ferrez teve sete filhas. Nenhuma delas se interessou pela fotografia, mas como nos confidenciou sua filha Helena: “Uma das netas do Gilberto, que hoje mora em Nova York, se interessa muito por essa arte.” Só nos resta torcer que ela se interesse mesmo para termos mais uma geração da família Ferrez que sempre tem trazido inovações na forma de registrar os lugares e o cotidiano.

Família Ferrez: novas revelações

Patrocínio: Prefeitura de São Paulo| Secretaria Municipal de Cultura 

Galeria Olido

Avenida São João, 473

Período: de 26 de março a 23 de maio

Horário: de 3ª a sexta das 12:00h às 20:30h; sábados e  domingos, das 13h às 20.00h.

Biblioteca ampliada

Voltei da Italia cheia de livros: dos que eu trouxe (seis) dos que ganhei  quando aqui cheguei e achei em meu escritório (quatro). Agora é  o tempo para ler todos eles.  Na verdade só comprei dois. O resto ganhei mesmo.

Ainda bem. Então vamos dividir:

Livros Teóricos:

La Fotografia: una Storia Culturale e Visuale – Graham Clarke, Piccola Biblioteca Eunaidi

L’Errore fotografico : una breve storia – Clément Chéroux, Piccola Biblioteca Eunadi.

Estética da Fotografia: perda e permanência – François Soulages, Editora Senac

Livros de Fotógrafos:

Ugo Pellis, un fotografo in movimento – Societá Filologica Friulana.

Uomini e Cose, Ugo Pellis, Fotografie, Sardenha 1932-1935. Giunti

Iraq- Francesco Zizola, EGA

Born Somewhere – Francesco Zizola, Unidea

Robert Frank: The Americans, Looking In – Expanded Edition,

Bettina Rheims-Shangai, PowerHouse Books.

Hidegard Rosenthal: Métropole – IMS

Delícia, tenho leituras para mais de mês. Depois, se conseguir, faço resenha de cada um destes livros. Mas é muita coisa e todos lindos!!!

Novos Cursos no MAM_SP

Começam na semana que vem mais dois cursos meus no MAM-SP. O de História da Fotografia, com duração de três meses, sempre às quintas-feiras, das 20.15 às 22.15; o curso de Fotografia e Simbologia, apenas três aulas, no sábado das 10.30 às 12.30h.

O de História da Fotografia, com  início no dia 11 de março, pretende discutir a importância da fotografia na transformação do olhar e visualidade. Como sua invenção transformou o pensamento. Estudar esse fenômeno a partir dos grandes movimentos fotográficos como sua discussão com o jornalismo,  as artes plásticas, a antropologia, e a fotografia artística na época contemporânea.

Já o da Fotografia e Simbologia, com início no dia 13 demarço,  vai estudar a fotografia a partir da definição dos conceitos de mito, símbolo e arquétipos. Passaremos por mitos, contos de fada, obras de ficção, tendo sempre como pano de fundo a imagem.

Informações pelo: 50851312

Espero vocês!

Como nasceu o “recorta e cola”

Bela e interessate matéria da Tonica Chagas para o Estadão de hoje. Vale a pena ler.

Quem for para Nova York, vá ver.

Mostra em Nova York reúne fotocolagens das súditas da rainha Vitória, que usavam a técnica para entreter amigos e exibir status

Tonica Chagas, ESPECIAL PARA O ESTADO, NOVA YORK

Com suas tesourinhas, potinhos de cola e aquarela, senhoras e senhoritas da aristocracia britânica já criavam fotocolagens cheias de imaginação décadas antes de a vanguarda artística do início do século 20 começar a compor com essa técnica. Organizada pelo Art Institute of Chicago e em exibição no Metropolitan Museum até 9 de maio, a pequena e divertida Playing with Pictures: The Art of Victorian Photocollage lembra este fenômeno pouco conhecido da fotografia de meados do século 19. Os 48 trabalhos reunidos ali, entre eles um de autoria da princesa Alexandra (1844-1925) e cedido pela rainha Elizabeth II, mostram um aspecto da sociedade vitoriana guardado em álbuns feitos para entreter amigos, puxar conversa com pretendentes e exibir o círculo de amizades, real ou não, de suas criadoras.

Uma das coisas que estimulou aristocratas vitorianas a criar seus álbuns foi o uso das cartes de visite, os cartões de visita com retratos, que disseminou a fotografia entre a classe média e deu celebridade a gente da high society. Com uma câmera de quatro lentes, podia-se expor oito retratos com poses diferentes num único negativo em placa de vidro, barateando e multiplicando a produção. Colecionar retratos de amigos, parentes e figuras da nobreza virou, então, uma febre, a cartomania. Em vez de apenas guardar os retratos em álbuns comuns, as britânicas ricas e educadas os recortavam e colavam em cenas elaboradamente desenhadas com aquarela nos seus álbuns especiais.

Para uma súdita da rainha Vitória, desenhar e pintar demonstravam não só refinamento e talento como também eram sinal de status, de que ela tinha meios para comprar manuais e pagar aulas particulares. Na época, como era preciso muito tempo de exposição do negativo para capturar uma imagem, as pessoas posavam para a câmera como tableaux vivants e aquelas artistas produziam as colagens dos seus álbuns da mesma maneira. Uma das vantagens que tinham era representar situações impossíveis de fotografar, como pessoas passeando ao luar, por exemplo, pois ainda havia limitação técnica para capturar movimento com pouca luz.

A fantasia visual nos álbuns de Playing with Pictures demonstra também o humor de quem os criou. Composições com cartas de baralho lembram um passatempo comum da alta sociedade vitoriana, assim como o “mixed pickles”, jogo em que se formam sentenças engraçadas com palavras escritas em papeizinhos tirados ao acaso de dentro de um jarro. Outra inspiração comum eram as histórias infantis dos Irmãos Grimm, de Hans Christian Andersen e o Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, que induziam a brincar com proporções, fazer combinações surreais de cabeças humanas com corpo de animais ou armar cenários de contos de fadas com rostos de criancinhas de verdade.

Alimentados pela troca de cartes de visite, os álbuns também funcionavam como um site de relacionamento social de hoje em dia. Quanto mais figurão aparecesse em seu álbum, mais alto seria o lugar de sua dona nos escalões do “quem era quem” da sociedade vitoriana. Às vezes esse status nem vinha do berço, como era o caso de Mary Georgiana Caroline Filmer (1840-1903). Apesar de não ter título aristocrático, desde cedo ela circulou no meio político e no grand monde de Londres. Fotos dela aparecem nos álbuns da princesa Alexandra e da condessa de Yarborough e sabe-se que o príncipe de Gales, o futuro Eduardo VII e conhecido mulherengo, manteve um longo flerte com ela por meio de cartões de visita. Num de seus álbuns, numa cena de visita em sua sala de desenho, lady Filmer colocou o príncipe em lugar de destaque e colou uma foto menorzinha do marido sentado perto de um cachorro.

Os álbuns reunidos em Playing with Pictures formam um autorretrato coletivo da aristocracia vitoriana e apontam as origens da fotocolagem como arte. Enquanto a maior parte da fotografia britânica naquele período era produzida por homens, exibida em salões anuais e impressa para venda, as mulheres a usaram para o prazer particular e anteciparam movimentos artísticos tão importantes como o surrealismo e o construtivismo.

Frase do dia….

“Os textos se olham, as fotografias se lêem.”

 Arrigo Benedetti (1910-1976)  diretor de redação  e fundador da revista L’Europeo, em 1945….