Diário do front por um herói da câmera

Matéria minha no Estadão de hoje.

Sai no Brasil registro da 2ª Guerra pelo fotógrafo húngaro Robert Capa

18 de abril de 1945. Robert Capa acompanha soldados americanos que estão à procura de atiradores alemães: mesmo tendo se especializado na sua cobertura, era crítico ferrenho da guerra

Simonetta Persichetti

Robert Capa (1913-1954) queria ser escritor e, se tivesse seguido este seu primeiro impulso, provavelmente seria um cronista brilhante. Por acaso, se tornou fotógrafo e inscreveu seu nome na história do fotojornalismo mundial. Mas não esqueceu das letras e resolveu escrever um diário de sua passagem pela Segunda Guerra Mundial. O diário se tornou livro: Ligeiramente Fora de Foco, ilustrado com suas imagens feitas durante a Segunda Guerra e publicado pela primeira vez em 1947 e agora no Brasil pela Cosac Naify. 

Com excelente bom humor, a narrativa que vai intermediar revelações de suas bebedeiras, romances (fuga deles), jogos de pôquer, articulações para conseguir se tornar um correspondente de guerra, todo um panorama das décadas 1930-1940 se desenvolve diante de nossos olhos. Como se tomássemos emprestado o seu olhar que, apesar de ter se tornado conhecido pela sua cobertura de guerra – foi sempre um crítico contumaz dela. 

Robert Capa inventou a si mesmo: nascido Endré Erno Friedmann, em 22 de outubro de 1913 em Budapeste é obrigado por seus ideais marxistas a deixar a Hungria. Vai para Berlim, onde estuda ciências sociais e é na Alemanha que inicia, em 1931, sua carreira como fotojornalista na agência Dephot, a mais importante da época. 

A ascensão do nazismo o obriga a deixar Berlim e ir para Paris. É lá, juntamente com a também fotógrafa e sua mulher Gerda Taro, que em 1934 ele cria Robert Capa repórter mítico nascido nos Estados Unidos. Ele se torna seu próprio representante. 

O fotógrafo que ninguém conhecia fica célebre rapidamente e se assume como tal. Em 1936, parte com Gerda para a Espanha para cobrir a Guerra Civil Espanhola. Gerda morre durante a cobertura no ano seguinte. 

Espanha. Ele inicia seu trabalho como fotógrafo de conflitos. É na Espanha que realiza sua talvez mais lembrada e contestada foto, a do miliciano no momento de sua morte. Muitos afirmam que foi forjada. Seu biógrafo Richard Whelan sempre negou. Debates sobre este assunto são sempre acirrados. Nada, por enquanto, foi demonstrado. Mas, sem dúvida, esta é uma das imagens que ajudaram a reforçar a lenda Capa.

É por intermédio de seus olhos que aprendemos que a guerra nem sempre está na batalha, mas nos olhares das vítimas, daquelas que sofrem as consequências de algo sobre o qual não tiveram nenhuma chance de opinar. 

Ele não gostava da guerra. Isso fica claro em seus escritos. Muitas vezes se nega a fotografar. Respeita momentos, pessoas. Baixa a câmera. Em outros instantes sabe que aquela é a imagem certa e sua divulgação pela mídia (a maior parte de suas imagens da guerra foram publicadas na revista Life) faria a diferença. 

Ligeiramente Fora de Foco é o título que ele tira de uma de suas experiências de quando estava em Argel. Ele foi picado por vários percevejos e como reação ficou com os olhos inchados e sem conseguir abri-los direito diz: “Estava com meus olhos fora de foco.” Retoma esse mesmo conceito ao falar de suas inesquecíveis fotos do desembarque da Normandia, em 1944: “Ligeiramente fora de foco, um pouco subexpostas e a composição não é nenhuma obra de arte.” 

Robert Capa – quase como uma catarse – desfaz o mito que ele mesmo ajudou a criar. Como escreve o também fotógrafo e jornalista Hélio Campos Mello na contracapa do livro: “Numa prosa que cativa pela simplicidade, pelo humor e pelo brilhante relato histórico, ele mostra sua fase desconhecida. E, no movimento de desconstrução do mito, surge um homem inteligente, fascinante e que – suprema qualidade – se levava muito pouco a sério.” É isso. 

Na Sicília. Hilariante a narrativa de seu primeiro pulo de paraquedas na Sicília: “…menos de um minuto depois aterrissei numa árvore no meio de uma floresta. Durante o resto da noite fiquei ali pendurado. Quando amanheceu, três paraquedistas me encontraram e cortaram as cordas. Eu me despedi da minha árvore. Nossas relações tinham sido íntimas, mas um pouco prolongadas demais.”

Robert Capa nos conta de seus medos, de suas angústias, de sua vontade de abandonar tudo, mas também da adrenalina de seu ofício. Refinado e bon vivant, gostava de tomar champanhe, comer ostras e discutir com seus amigos escritores como John Steinbeck, com o qual realizou um trabalho na Rússia (leia abaixo) e Ernest Hemingway, para ele seu mentor que carinhosamente chamava de Papa. Não podemos esquecer que ele estava às vésperas de completar 30 anos quando escreveu esse livro. 

Ironicamente, a mitologia supera sua criatura. Robert Capa morreu muito cedo, aos 41 anos, na Indochina, ao pisar numa mina (medo que ele descreve no livro quando ao chegar a Argel e se afastar do carro se encontrou no meio de um campo minado). Onze anos depois, ele também se afasta do carro, mas desta vez pisa na mina. Diz a lenda que ele morreu sem deixar cair sua câmera. Não se sabe. Mas sua morte prematura ajudou a confirmar o mito e esse livro agora o reforça, já que se sabe que ele nunca se colocou como protagonista de suas imagens, afinal esse lugar sagrado era dos personagens que retratava.

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Novos Cursos no MAM_SP

Começam na semana que vem mais dois cursos meus no MAM-SP. O de História da Fotografia, com duração de três meses, sempre às quintas-feiras, das 20.15 às 22.15; o curso de Fotografia e Simbologia, apenas três aulas, no sábado das 10.30 às 12.30h.

O de História da Fotografia, com  início no dia 11 de março, pretende discutir a importância da fotografia na transformação do olhar e visualidade. Como sua invenção transformou o pensamento. Estudar esse fenômeno a partir dos grandes movimentos fotográficos como sua discussão com o jornalismo,  as artes plásticas, a antropologia, e a fotografia artística na época contemporânea.

Já o da Fotografia e Simbologia, com início no dia 13 demarço,  vai estudar a fotografia a partir da definição dos conceitos de mito, símbolo e arquétipos. Passaremos por mitos, contos de fada, obras de ficção, tendo sempre como pano de fundo a imagem.

Informações pelo: 50851312

Espero vocês!

Encontro entre criador e criatura

Foi publicado hoje no caderno Cultura, doEstado de S.Paulo minha resenha do livro “O pintor de batalhas”, um dos livros que gostei de ler na virada do ano. Reproduzo abaixo:

capaO fotógrafo de guerra André Faulques acreditou, ou quis acreditar, que, ao se esconder numa torre e deixar o falso realismo fotográfico para dedicar-se à representação pictórica, estaria livre dos horrores que durante 30 anos fotografou ao mesmo tempo que poderia entender o ser humano e pintar o que não conseguiu fotografar. Mas é nessa metáfora (a torre) que ele encontra seus piores demônios, que se caracterizam pela chegada de um desconhecido ao seu refúgio.

Esse é o mote inicial do livro O Pintor de Batalhas, do espanhol Arturo Pérez-Reverte. A princípio, pode parecer banal, ou mesmo clichê, mas durante a leitura, o autor, ele mesmo um ex-fotógrafo de guerra, coloca questões fundamentais que deveriam ser pensadas. A primeira, sem dúvida, é a questão da ética ou, se quisermos, a ligação entre ética e estética. A segunda questão é a de representação e como as imagens são recebidas pela sociedade contemporânea: tanto a pintura como a fotografia. Os diálogos são densos, profundos, com cortes quase fotográficos. O essencial está dito. Não tem mais, não tem menos. O livro é sobre a guerra, mas usa como pano de fundo a imagem.

Ao criar um mural em sua torre – e o engraçado é que o termo fotografia documentária deriva dos murais mexicanos, na época bastante realistas e que contavam a história da revolução mexicana nos muros -, Faulques reescreve sob sua interpretação os horrores das guerras que fotografou como jornalista, mas ao pintar, ele faz de uma guerra todas as guerras. Suas certezas são questionadas, porém, quando recebe em seu refúgio, onde vive escondido e, portanto, cria na cidade uma onda de mistério a seu respeito, a visita de um ex-soldado croata que foi imortalizado pelas lentes de Faulques.

O primeiro diálogo já é hilário: obviamente o fotógrafo não reconhece o visitante, só depois que o mesmo se apresenta mostrando a capa da revista onde seu rosto foi publicado: “Vira uma infinidade de rostos na vida, a maioria através do visor de uma câmera. Alguns ele havia guardado, muitos, esquecidos: uma visão fugaz, um clique do disparador, um negativo na folha de contato, que só vez por outra merecia o círculo de caneta que o salvaria de ser relegado aos arquivos.” O autor aqui entra no campo dos simulacros e de como a sociedade contemporânea não consegue mais vivenciar as coisas e muitas vezes só as conhece por imagem, ou seja, simulacro. De como nos acostumamos a um conhecimento mediado pela mídia.

A foto em questão teve consequências fundamentais na vida do ex-soldado e na do próprio fotógrafo. E é sobre isso que o livro discorre: um encontro entre criador e criatura. Já que o soldado não é a foto dele estampada na revista. E é a partir de uma fotografia, essa mesma fotografia que o fotógrafo se torna internacionalmente conhecido.

A contemporaneidade do romance se dá no fato de que todas as questões são colocadas por meio de imagens: tanto as fotográficas como as pictóricas e as mentais. Uma conversa sobre imagem e imaginação, narrativa e memória, sobre a busca estética de um autor para contar ou narrar horrores.

Por meio das imagens realizadas e de quadros de batalhas o livro é uma grande discussão sobre a guerra em si. Mas é também uma grande lição sobre o tão comentado poder da imagem. Poder que lhe é conferido pela própria sociedade que se autorretrata compulsivamente. E que gosta de sua representação imagética e quer ser vista ou conhecida da forma como aparece representado.

Um belo texto, um belo romance, embora cheio de citações, de nomes de pintores e fotógrafos. O próprio autor não nega notas biográficas ao texto, mas isso pouco importa. A citação de nomes tenta legitimar uma narrativa, assim como a fotografia, para muitos, confere veracidade a um fato. Arturo Pérez-Reverte, neste livro que ultrapassa as questões da fotografia – não é um texto sobre história da fotografia, mas sobre guerra – nos lembra, porém, que ninguém é igual frente a uma imagem, nem quem a faz nem quem a olha. A intencionalidade está no olhar, assim como a ética e a estética estão nos olhos de quem decodifica uma fotografia.

“Ele era o Tolstói da Fotografia…” Richard Avedon

cartier_bresson_olhar_seculo14  Acabo de ler a biografia do Bresson, escrita pelo jornalista Pierre Assouline, que durante 5 anos conversou, entrevistou, escarafunchou os arquivos dos fografo. Fiquei meio receosa de ler o livro, quando o primeiro capítulo vem com o título: “O herói que virou amigo”, mas a leitura é fascinanete. Nas mais de 300 páginas (e além da exaustiva pesquisa do autor), a vida de Cartier-Bresson flui por nós da mesma maneira como sabemos que ele fotografava. Leve, tornando-se muitas vezes invisível, registrando obsessivamente o dia todo. Como ele próprio dizia, usando a sua Leica, suas fotografias como um diário de anotações. Fantástico saber – isso sim todo fotojornalista deveria fazer, ou ter possibilidade de fazer – que ele escrevia as legendas e exigia que as imagens fossem publicadas com as legendas que ele havia preparado. Seguir o Bresson por suas viagens, suas dúvidas, seus relacionamentos com personalidades, fatos, a forma como ele nos ensinou a ver o mundo é mágica. Pierre Assouline, se coloca como narrador, como a voz de Bresson, não critica, não analisa, não julga. A impressão que eu tive ao ler o livro – e é claro, que pode ser só minha – era e de que eu mesma estava sentada ouvindo as histórias contadas pelo próprio fotógrafo. Seu fascínio e repulsa pelos surrealistas, embora suas fotos não fossem surrealistas, como ele mesmo diz.Suas conversas com Capa, que lhe sugere sempre de fugir dos rótulos, o nascimento da Magnum, no pós-guerra, a ligação do fotógrafo com a Ásia, mas acima de tudo como Cartier-Bresson entendia a fotografia e sua função. Seu caráter irrascível e muitas vezes autoritário, e ao mesmo tempo sua capacidade de ficar quieto para não atrapalhar o pintor Matisse. Seu papel como fotojornalista, e – para botar mais lenha na fogueira no texto abaixo – como fotografava as guerras, de lado, do outro lado, mas mostrando por meio de rostos e expressões os horrores. É disso que se trata. Sua dor pela perda dos amigos, em especial do Robert Capa e sua decisão de abandonar a Magnum nos anos 60.

Aliás, ri muito quando li o texto escrito em 1961, por Elliot Erwitt, em 1961.Reproduzo:

“Por que estamos na Magnum?

Sera porque é cômodo e porque todos ficaremos ricos? Será porque queremos que nossos nomes constem ao lado de HCB? Será por hobby? Será por hábito? Será por simples preguiça? será pelo valor do nosso nome como simples moeda de troca? Será pela glória da nossa imagem? Será porque podemos vencer mais como grupo do que como indivísuos na selva da fotografia? Será porque nossa paixão pelo futuro da fotografia é desinteressado? Será o golpe dos “historiadores do nosso tempo”?…”

O texto é irônico, mas ainda hoje ouvimos isso por aí, não em relação à Magnum, é claro…..

“Cartier-Bresson, o olhar do século”, foi a bela leitura do começo de 2009. Recomendo!

Uma boa leitura!

Nesta segunda-feira, finalmente, consegui terminar a leitura do livro “O Instante contínuo – uma história particular da fotografia”, do romancista inglês Geoff Dyer.  Disse finalmente porque comecei há algum tempo a ler o livro. Em geral leio muito rápido, mas achei o livro tão bom que fui degustando devagar. Geoff Dyer não é fotógrafo e nem fotografa, mas fez uma super, hiper pesquisa de história da fotografia. Claro que sua visão sobre o assunto é dele e particular (como qualquer outra, afinal), mas eu adorei o que li. Agora vou resenhar para o Estadão. Mas a visão de Geoff me entusiasmou para pensar uma série de artigos e novas pensatas sobre a fotografia. Como eu sempre disse, o estudo aprofundado da história da fotografia, a vasta leitura que ele fez dos fotógrafos, suas biografias, o ler e desvendar suas fotos o levaram para um caminho, no mínimo interessante! É uma passei pela leituras de imagens. Ele escolhe alguns temas que se reptem nas imagens nos mais diferentes fotógrafos: cegos, espelhos, portas, barbearias, interiores, postos de gasolina, etc. A partir destes temas recorrentes ele vai desenvolvendo e trabalhando possibilidades imagéticas. Uma leitura que eu aconselho a todos!    

Fotógrafos na Literatura

Na semana passada acabei de ler “O livro das emoções” de João Almino. Para falar a verdade ainda não sei muito bem se gostei do livro ou não, mas isso se deve ao viés que dei para minha leitura. Explico: o livro é na verdade um diário de um fotógrafo cego que ajudado por uma assistente revive momentos importantes de sua vida – muito mais a pessoal do que a profissional – a partir de algums fotografias que fez enquanto ainda enxergava e ganhava a vida como fotojornalista. A história toda se passa entre o Rio de Janeiro e Brasília. Ao começar minha leitura fiquei prestando mais atenção às descrições da fotografia do que ao enredo e muito mais nas semelhanças com alguns fotógrafos conhecidos e que o autor descreve. Isso não quer dizer que ele estivesse descrevendo alguém, mas eu, por conta da minha imaginação, reencontrei em suas descrições algumas figurinhas conhecidas. Um erro fazer uma leitura dessas e, fã que sou do Umberto Eco, deveria ter aprendido com ele que isso não se faz! Aliás ele, (Eco) deixa isso bem claro em seu livro “Limites da Interpretação” : “um texto ‘aberto’ continua mesmo assim sendo um texto, e um texto pode suscitar uma infinidade de leituras sem contudo permitir uma leitura qualquer. É impossível dizer qual a melhor interpretação de um texto, mas é possível dizer quais as interpretações erradas”. Sem dúvida, a minha foi errada, mas muito divertida! Mesmo assim, João Almino levanta algumas questóes fundamentais em relação ao fazer da imagem fotográfica hoje em dia, chegando inclusive a criar um personagem que se torna famoso só por fazer grandes ampliações e fotografias desfocadas. O nome deste personagem? Escadinha! Nada a ver com o personagem da vida real, mas tudo a ver com um cara que usou uma “escada” para a partir do nada se tornar famoso. Será que minha leitura foi tão errada assim? Sei lá!

As últimas….

Ontem a noite foi um sucesso! Muita gente no lançamento do livro da Ella Dürst  ( volume 14 da Coleção Sena de Fotografia) na Livraria Cultura. Veja no César Giobbi. Sim, agora aparecemos nas colunas sociais. E as próximos dias também prometem: hoje começa  o Photo Image Brazil, a feira de negócios fotográficos, mas que também traz convidados e palestras com fotógrafos estrangeiros e nacionais. Na quinta-feira abre a 20º Bienal Internacional do Livro de São Paulo e, na próxima segunda-feira, dia 18, começa a Semana Epson FNAC da Fotografia, em São Paulo. Ou seja, uma grande maratona literário-fotográfica. Depois, alguns dias para respirar e logo teremos o Paraty em Foco!

Ou seja, não faltam oportunidades para falar, ver e ler fotografia!