Almas reveladas e ampliadas

Este texto saiu no Caderno2 no dia 10 de novembro. Tentamos uma entrevista com o Steve Mccurry, mas infelizmente as respostas chegaram depois do fechamento da matéria. Abaixo então o texto publicado e em seguida a entrevista que não saiu no jornal.

Monges rezando, Kyaitko, 1994

São 30 anos andando pelo mundo com o único propósito de conhecer a humanidade e narrar, ou pelo menos tentar, sua história. Imagens que não se cansam de ser vistas, que nos sensibilizam pelas cores, pela delicadeza , mas com o peso da uma fotografia jornalística. São assim as fotografias de Steve Mccurry, conhecido através de suas reportagens na revista National Geographic e membro da agência Magnum desde 1986.

Steve Mccurry esteve presente em momentos cruciais de vários países como o Afeganistão, Líbano, Camboja, Índia e Tibete. Também fotografou o atentado do 11 de setembro em Nova York.  Como ele mesmo já disse em várias entrevistas , um dos aspectos importantes do fotojornalismo é poder mostrar para as pessoas o que está acontecendo.

Suas fotografias chegam agora em São Paulo por meio da mostra “Steve Mccurry – alma revelada” organizada em parceria com a Galeria Babel e que abre nesta quinta –feira no Instituto Tomie Ohtake. São cerca de 100 imagens que passeiam pelos inúmeros lugares por onde Mccurry passou. Inúmeras situações que ele fotografou: imagens de rituais, guerras, tradições pessoas. Geografias pessoais de um mundo que nem sempre temos a possibilidade de conhecer ou vislumbrar na imprensa diária. Cenas que procuram sair do senso comum.  Isso só se torna possível porque ele não precisa necessariamente se preocupar somente com o factual com a notícia em si, mas pode aliar a isso um certo mistério e incerteza que cerca a fotografia. Suas imagens não são decifráveis à primeira vista requerem um tempo de contemplação, de dialogo.

Procissão, Burma, 1994

Mas sem dúvida nenhuma falar de Steve Mccurry é falar também da imagem que se tornou um dos ícones do século: a da menina afegã, Sharbat Gula, fotografada em 1984 e que foi capa da National Geographic. Uma imagem impactante conhecida no mundo todo e que levou o fotografo a tentar encontrá-la novamente. Isso só foi possível 20 anos depois. O rosto já não era o mesmo, mas os olhos não perderam a intensidade e a profundidade do verde.

Mas é claro que Steve Mccurry não é fotógrafo de uma imagem só. Na exposição nos deparamos com várias de suas fotografias que narram as últimas décadas do mundo, trazendo à tona as marcas geopolíticas, as cicatrizes das guerras, a sutileza de uma prece de monges. Um do destaque da mostra é a inclusão de seis fotografias feitas durante o ataque às Torres Gêmeas, em setembro de 2001, em Nova York. Imagens diferenciadas, já que acostumado à cobrir conflito em outros países, Mccurry  se deparou com o fato de ter que registrar um ataque ao seu próprio país. Imagens que agora ao lado das outras reforçam o olhar que ele tem sobre o mundo.

Mas uma curiosidade também se faz presente. A indústria fotografia que dirigiu seu olhar para as inovações tecnológicas digitais acabou por tirar do mercado o filme kodackrome, na época do analógico um dos preferidos dos profissionais. Criado pela Kodak em 1935 deixou de ser fabricado em 2009. Coube a Steve fotografar o último rolo de filme e as fotos que fez são agora apresentadas nesta mostra, como uma homenagem a uma película que fez parte de sua vida neste quase 30 anos de fotografia. Na época em que a Kodak anunciou o fim do filme em várias partes do mundo realizaram-se experiências parecidas – fotografar o último kodachrome, mas no caso de Steve, foi a própria Kodak que entregou o filme ao fotografo.

Ao fim da exposição o que resta é a visão de um fotografo que está de acordo com a tradição mais refinada do documentarismo na busca de traçar uma possível história da humanidade.

Nova York, 11/09/2001

 Entrevista:

1. Uma mostra com mais de cem imagens. Podemos dizer que é uma retrospectiva?

     Não acredito que seja uma retrospectiva embora esta mostra reuna meus melhores trabalhos. Uma retrospectiva deveria compreender não parte do seu trabalho, ma o resumo de uma carreira.

2. O que é mais importante numa fotografia?

      Existem vários tipos de imagens, mas para mim o mais importante é poder contar uma história, despertar emoções. Óbvio que a luz e a composição são importantes, mas o contexto de uma história é o fundamental.

3. Fale do projeto o último Kodachrome. Como escolheu o tema a ser fotografado?

     O Kodachrome é um filme ícone. Provavelmene o melhor filme que j;a existiu. Quis fazer alguns retratos começando com Robert de Niro, fotografar uma tribo de nomades na Índia; atores indianos e é claro as ruas de Nova York onde vivo.

4. Você fotografou conflitos no mundo todo. Como foi fotografar um ataque me seu próprio país. Estou me referindo ao 11 de setembro?

      Como você disse eu acompanhei o horror da guerra em vários países, mas o 11 de setembro aconteceu na soleira da minha porta. Inicialmente fotografei do telhado da minha casa e em seguida andei pelos escombros e passei a noite fotografando. Tinhamos pouquissimas informações e não podíamos – no momento – calcular o tamanho da tragédia até chegar ao marco zero. Não dava para acreditar, parecia um pesadelo, ao mesmo tempo me dei conta que nossas vidas tinham mudado a partir daquele momento para sempre.

Exposição no Instituto Tomie Ohtake

Av. Faria Lima, 201.

Até 29/01

Cidades vistas do alto, como maquetes

Olivio Barbieri queria ser cineasta.  Estudou pedagogia e comunicação e acabou se tornando fotógrafo. Inicialmente,  na década de 1970, se interessa mais pela fotografia antropológica, mas em seguida passa a fotografar arquitetura, meio ambiente e relação do homem com a cidade experimentando sempre diversas técnicas fotográficas.  A partir de 1978 começa a expor no mundo todo , participou três vezes da Bienal de Veneza e é considerado um dos expoentes da fotografia contemporânea italiana. Depois dos ataques do 11 de setembro iniciou uma série chamada Site Specific onde fotografou do alto várias cidades do mundo usando uma lente de foco seletivo (tilt-shift) que faz com que as cidades pareçam cenários de brinquedo. Olivo Barbieri vem ao Paraty em Foco falar deste seu trabalho. De Milão onde vive falou ao Estado por telefone.

O que irá apresentar aqui no Paraty em Foco?

Especificamente vou projetar minha série Site Specific que realizei em várias partes do mundo. É um projeto que iniciei em 2003 e continua até hoje. São vistas aéreas de várias cidades fotografadas com uma lente a foco seletivo que dá impressão de maquetes.

Esta série começou após os atentados de 11 de setembro. Por quê? No que o atentado lhe inspirou a fazer este trabalho.

Depois do atentado parece que todos os aviões ou “objetos voadores” passaram a ser vistos muitas vezes como uma ameaça. Tentei entender o que estava acontecendo e procurei registrar o mundo do alto a partir do ponto de vista do próprio objeto voador…

O fato de usar esta tecnologia, esta lente que transforma o que se fotografa em miniaturas que parecem brinquedos. Efeito este que é usado até pela publicidade, não leva ao risco de banalizar o trabalho. Ou seja, o efeito, o truque tecnológico se torna mais importante que o conceito

Isso é verdade. Corre-se este risco onde o efeito se torna mais importante.  Mas isso vale também para pintura. Você tem razão e agora, embora continue fotografando do alto estou mudando minha estética e a forma de fazer este registro.

Você queira ser cineasta, mas não foi atraído pelo fato do trabalho em equipe e afirmou em várias entrevista que prefere a solidão do trabalho de um fotógrafo. Por que é importante trabalhar sozinho?

Para mim é uma forma de liberdade, assim como a escrita.  Para ser escritor, em tese, basta uma caneta e um pedaço de papel. A fotografia te oferece as mesmas possibilidades. Você sai por aí com sua câmera e vai escolhendo o que fotografar e como fotografar. Como você bem disse, no início estava muito interessado pelo cinema e ainda gosto. Me assustava, porém a idéia de ter que interagir com várias pessoas.. Além disso, os tempos do cinema são muito longos, a fotografia é mais imediata.

Mas seu trabalho para ser realizado requer uma equipe e suas imagens relembram cenários construídos, assim como no cinema…

É verdade neste caso a produção é muito próxima do cinema e neste projeto também filmei muita coisa. As duas formas de linguagens continuam juntas. Ainda mais hoje em dia com as câmaras fotográficas que filmam com grande qualidade.

Fotografar e filmar são dois processos bastante diferentes entre si, embora nas câmaras estejam interligados. Vamos deixar de ser fotógrafos e virar cineastas?

Este é um risco que corremos. Fotografia e cinema hoje são feitos até com o uso de celulares. Praticamente hoje todos somos cineastas e fotógrafos. Mas isso não significa nada. Somos alfabetizados, mas não por isso somos escritores.  De qualquer forma a qualidade fotográfica tem diminuído muito.

Você costuma citar uma frase do fotógrafo norte-americano Man Ray :”fotógrafo o que não consigo pintar, pinto o que não posso fotografar”. Como vê hoje a fotografia contemporânea cada vez mais inserida em galerias e no mercado de arte internacional e muitas vezes negando ser fotografia e tentando ser pintura?

Hoje a fotografia virou “moda”. Todos se interessam pela fotografia, os museus as galerias e arte. Obviamente acabam por entrar em circulação projetos ou produtos nem sempre interessantes.  E como disse antes a tecnologia favoreceu muito este interesse e a produção de coisas não tão boas.  Parece que não existe mais um controle de qualidade. Podemos até dizer que este é um processo mais democrático e come menos filtros de pessoas que dizem o que devemos ou não ver. Mas quando falamos de arte, é claro que tivemos uma decadência. Até porque a fotografia é pouco ensinada nas escolas e nas faculdades, portanto falta esta cultura.

“Utilizo a fotografia para me aproximar da pintura

George Rousse abandonou a faculdade de Medicina para se dedicar à fotografia. Suas influências passam por profissionais como Ansel Adams, Edward Steichen e Alfred Stieglitz – fotógrafos formalistas, bem centrados no fazer fotográfico, clássicos. Mesmo assim, Rousse, nascido em Paris, em 1947, quebrou todas as regras de seus mestres e desde os anos 1980 inclui na sua construção imagética o desenho, a pintura o jogo óptico. Ele trabalha com intervenções urbanas em lugares abandonados, onde se apropria do espaço criando uma nova função que se perpetua na fotografia. Sim, a intervenção só existe na sua fotografia por meio de jogos ópticos e de luzes que causam estranhamento ao olhar. São imagens que se colocam dentro da experimentação contemporânea, dentro da pluralidade da criação e deixam evidente que toda fotografia é resultado de uma construção. Cada época tem sua representação. George Rousse é filho de seu tempo, um tempo que começa a questionar o conceito da imagem. Ele vem ao Brasil participar da 6ª edição do Paraty em Foco e esta não é sua primeira vez no País. Desde 2006 ele tem participado de exposições por aqui. De Paris, onde trabalha e vive, Rousse falou por telefone com o Estado.

Por que a escolha de espaços vazios e abandonados para suas intervenções?

Na base existe um protesto contra uma sociedade capaz de destruir aquilo que construiu, simplesmente por questões econômicas. Mas num segundo momento, o que me interessa é reviver esse espaço que foi abandonado no sentido de lhe dar novas funções e minha intervenção é transformar essa construção em uma obra de arte.

Se a intervenção já é uma expressão artística, por que a necessidade da fotografia?

Não, a obra é a fotografia. Ela é capaz de memorizar o lugar e o trabalho que realizo. É um jogo óptico que só existe quando eu me aproprio e fotografo. A obra só se realiza por meio da fotografia, não existe sem ela.

Você fotografa e em seguida faz intervenções digitais na imagem ou literalmente ocupa o espaço com seus desenhos?

Não, não trabalho com projeções digitais. Pesquiso, seleciono e fotografo locais abandonados. Em seguida desenho a intervenção que, acredito, vai combinar com o espaço e construo uma maquete lá no lugar. Crio uma forma que o que você vê na imagem é um momento único, só pode ser vista de ângulo específico, capaz de ser capturado pela lente fotográfica. Trabalho no chão, nas paredes e organizo tudo a partir da óptica fotográfica. Crio uma ideia de tridimensionalidade a partir da bidimensionalidade. Mas tudo depende do aparelho fotográfico. É isso que me interessa, a foto final.

Você fará uma intervenção em Paraty. Como será o processo?

Em Paraty será diferente. O pessoal da organização me enviou fotos de um mercado local. Neste momento estou trabalhando exatamente nesse projeto, desenhando a intervenção. Gosto de eu mesmo fotografar o lugar, mas desta vez não foi possível. Então, agora é um desafio: preciso imaginar como transformar o local que ainda não vi pessoalmente.

Há muito você trabalha na pluralidade fotográfica, entrando no mercado da arte. Hoje temos fotógrafos tentando fazer arte e artistas se apropriando da fotografia. Como vê esse movimento?

Sou favorável a todas as ações fotográficas. Minha visão é clássica, mas usei a fotografia para me aproximar da pintura. Foi assim que cheguei às intervenções, trabalhando ao mesmo tempo fotografia e pintura. Ainda assim acredito que o resultado de meu trabalho é fotográfico.

Pode-se dizer que seu trabalho se assemelha à arte pré-histórica ou a um grafite?

Com certeza, acho que parte do meu trabalho pode ser definido como arqueologia, arqueologia de uma sociedade atual. E procuro, apesar de tudo, registrar a presença humana nesses lugares, deixar marcas de ocupação.

Ao mesmo tempo você brinca com a ilusão…

Não brinco com a ilusão, uso recursos fotográficos. A fotografia como objeto é bidimensional, mas o espaço que fotografo é tridimensional. Procuro trazer essa sensação usando a fotografia. Em geral, esses locais não são abertos ao público, não podem ser visitados. Na verdade, eu os torno visíveis. É isso!

Radiografia do Planeta Terra

foto: Francesco Zizola: integrante do Noor Image

Inventários da Terra é o tema central desta 6.ª edição do Paraty em Foco, que ocorre de 15 a 19 de setembro. O festival tem-se firmado como um dos mais importantes do País e a cada ano se aprofunda na reflexão do papel da fotografia na sociedade contemporânea, discutindo de que forma estamos retratando ou interpretando nosso planeta, que imagens estamos criando. Sua função plural – assim como também é o festival – será discutida nas exposições, palestras e workshops durante os cinco dias na cidade fluminense de Paraty.

Este ano a ênfase é nos jovens expoentes, como o argentino Alejandro Chaskielberg, mas sem deixar de criar um paralelo com artistas que há mais de 20 anos já discutem em suas obras o papel da imagem e sua ressignificação na atualidade. É o caso de fotógrafos como o francês George Rousse ou do italiano Olivo Barbieri , que fazem da arquitetura da cidade seu tema de interesse, criando jogos e brincadeiras ópticas que nos levam a indagar a criação imagética. O paradoxo desses trabalhos é a ênfase na arte tecnológica, onde o “truque” fica às vezes mais interessante do que o conteúdo.

Coletivos. É o uso e abuso dos recursos técnicos que, por outro lado, são inerentes à linguagem fotográfica. Mas não só. Da Holanda chega a agência fotográfica Noor, que traz a exposição Consequence, apresentando sob o ponto de vista dos nove fotógrafos afiliados o impacto e as consequências da ação humana sobre o planeta. A exposição foi exibida oficialmente no fim do ano passado em Copenhague. Outro coletivo que também se apresenta é o português Kameraphoto: “Conhecemos muito pouco da fotografia portuguesa, e esta é uma forma de nos reaproximarmos de Portugal”, comenta por telefone Iatã Cannabrava, coordenador de programação do Festival.

Serão dez mostras nacionais e internacionais, 20 workshops, 14 entrevistas ao vivo, mais noites de projeções e leilão de fotos. Uma exposição de fotos de Maureen Bisilliat também está prevista para a Galeria Zoom. O Brasil está presente ainda nos trabalhos de Bob Wolfenson, Anderson Schneider (DF), Jonne Roriz (SP), Francilins (MG), Rubens Mano (SP), André Vieira (RJ) e Cris Bierrenbach (SP).

O diferencial deste ano é a apropriação de espaços públicos pelos artistas: “Paraty não possui muitos locais para exposições. Criamos, então, a oportunidade de quatro espaços públicos serem ocupados por artistas, abrindo assim uma forma alternativa de mostrar a fotografia na cidade”, comenta Iatã. Coincidentemente, num momento em que se produz muito, se vê pouco e se fala menos ainda, os workshops que discutem o papel da fotografia, fotografia-arte, edição e curadoria são os que já estão esgotados. A programação do Festival poderá ser acompanhada diretamente no site do Paraty Em Foco: http://www.paratyemfoco.com.

Nas redondezas do perigo estão as melhores imagens

Autor de uma das mais marcantes imagens do século 20, participa de workshop e palestra na cidade

Simonetta Persichetti, especial para O Estado

Steve McCyrry

Steve McCyrry

Foto da menina afegã Sharbat Gula, que foi capa da ‘national Geografic’ – um clássico de Curry

SÃO PAULO – Esperar o momento certo para fotografar. Não ter pressa e ao mesmo tempo agir de forma certeira. Parece ser esta a tônica do fotógrafo Steve McCurry, que virá a São Paulo a convite do SP Photo Fest e da revista Fotografe Melhor para workshop e palestra no Museu da Imagem e do Som (MIS), entre os dias 20 e 23 de maio. Também está prevista, a exposição Desassossego da Cor no dia 25 na Galeria Babel. A exposição tem curadoria de Eder Chiodetto e de Jully Fernandes.

McCurry que já esteve presente nos maiores conflitos do mundo tornou-se conhecido nos anos 1980 ao fotografar uma menina afegã, Sharbat Gula. Os olhos verdes que nos fixavam diretamente fizeram a volta ao mundo na capa da National Geographic.

Mas suas fotos também nos trazem os conflitos de lugares como o Iraque, da ex-Iugoslávia, do Líbano e, é claro do Afeganistão. E foi no próprio Afeganistão que sua carreira de fotojornalista passou a ser reconhecida. Vestido com roupas locais, atravessou a fronteira com o Paquistão logo após a invasão soviética no final de 1979. Publicou as primeiras imagens do conflito. Também andou pela Índia, onde aprendeu, segundo ele, a ver e esperar, Tibete, Burma e fotografando os templos de Angkor Wat, assim como o ataque às Torres Gêmeas, nos Estados Unidos em 2001.

Seu trabalho está inserido dentro da mais tradicional escola do fotodocumentarismo. Uma fotografia humanista que se aproxima do sujeito fotografado com o respeito e com vontade de narrar histórias. Cada imagem é uma imagem que se sustenta por si própria, mas que consegue crescer quando editada ao lado de outras criando uma narrativa jornalística. Usa a cor como forma de linguagem, de poética. Um trabalho delicado, mas não por isso menos eficiente e contundente. De sua casa nos Estados Unidos, ele concedeu entrevista exclusiva por e-mail para o Estado.

Quase todos os fotojornalistas que fazem coberturas de guerra não gostam de se definir como fotógrafos de guerra. O senhor também não gosta. Por quê? E por que, então, estão sempre em áreas de conflito?

Eu sou um fotógrafo documentarista. Quero contar histórias com as minhas fotografias. Nos últimos 30 anos andei pelo mundo todo fotografando momentos cruciais de vários países como a Afeganistão, Líbano, Camboja, Índia e Tibete. Algumas pessoas são simplesmente levadas para a linha de frente por sua história particular. Querem ser testemunhas daquelas situações, ver por si próprias em primeira mão. É difícil de explicar, mas de certa forma esta motivação faz parte do DNA. Enquanto algumas pessoas fogem das cenas, outros estão indo ao seu encontro. Como fotógrafo documental me sinto compelido a contar estas histórias. Em muitos casos, as pessoas que você está fotografando não são capazes de contar sua própria história e, informar o mundo por meio dos jornais, revistas, rádio e televisão, é a melhor chance que elas têm de obter visibilidade e ajuda. Creio que cobrir áreas em conflito é importante. O drama humano destes lugares não pode ser subestimado e eu creio que conseguir transmitir estas emoções por meio de fotografias seja nobre. Fotógrafos querem estar perto do perigo porque é lá que as imagens estão.

Imagem feita no Tibete: para Steve McCurry, é preciso esperar o momento certo para fotografar

Depois de tantos anos registrando conflitos, como o senhor vê a humanidade?

Desempenhamos papéis diferentes, mas somos parte da mesma raça humana. Somos iguais, mas fazemos coisas diferentes. Comemos comidas diferentes, vivemos em casas diferentes, falamos diversos idiomas. Sinto curiosidade e empatia pelo ser humano e cada criatura viva é fundamental para minha fotografia. Humanidade e preocupação com a vida neste planeta é o que me guia para conhecer pessoas e culturas.

 

Impossível não perguntar sobre a menina afegã, Sharbat Gula, que o senhor fotografou em 1984. Esta sua imagem, é talvez, um dos grandes ícones fotográficos do século 20. Por que decidiu procurá-la 20 anos depois?

A imagem desta menina foi reconhecida no mundo inteiro. Recebi várias cartas e e-mails até que decidi tentar encontrá-la. Muitos queriam conhecer sua história. Quando a achamos foram feitos vários testes científicos que comprovassem que era realmente ela. Mas nós não tínhamos dúvidas. O documentário que fizemos para encontrá-la teve um impacto muito forte em minha vida. Mas o melhor da história foi o fato de sermos capazes de reencontrá-la, ajudá-la e fazer sua vida melhor.

 

Qual a função do fotojornalismo para o senhor?

Gosto de homenagear pessoas, lugares e culturas por meio das minhas imagens. Também gosto de contar as histórias desses personagens com a minha fotografia – especialmente daqueles que mostrei em áreas de conflitos. Acho que esse é um aspecto importante do fotojornalismo – mostrar pessoas, o que está acontecendo.

Fazer uma reportagem fotográfica para um jornal diário ou revista semanal de informação é diferente de fotografar para uma revista como a National Geographic. Como é isso?

Fotografar para os jornais é bom porque te ensina muito sobre jornalismo e deadlines, sobre histórias e fotografia. O único senão é que existe um certo tipo de edição, que privilegia o impacto. Isso acaba por diminuir o mistério e a incerteza que muitas vezes é tão maravilhoso na fotografia: ser capaz de interpretar, cada um a sua maneira, o sentido de uma imagem. Raramente este tipo de ambiguidade tem espaço no mundo do jornalismo.

 

Existe mesmo um excesso de imagens no mundo hoje em dia? Como saber se a eficiência da imagem continua? Como manter a credibilidade de uma matéria?

A única tática que eu tenho é ser respeitoso, aberto, e ter consideração com as pessoas que eu fotografo. Não me canso de afirmar o quão importante é demonstrar respeito e delicadeza para com todas as pessoas. Problemas no mundo acontecem quando nos sentimos desrespeitados, não vistos e colocados de lado.

Quais suas expectativas para esse encontro aqui em São Paulo?

Espero aprender e trabalhar com fotógrafos e estudantes e também espero ter ótimas discussões durante a palestra. E também espero, como já te disse acima, fazer um belo ensaio explorando novos lugares de São Paulo e do Brasil.

Palestra

Quando: 20 de Maio (Quinta-Feira)

Onde: MIS. Auditório (170 Pessoas). Av. Europa, 158, 2117 4777. Quando: 20 de maio, 19h30. Quanto: grátis – Ingressos distribuídos 1h antes da palestra

 

Exposição Desassossego da Cor

Onde: Galeria Babel. Rua Dr. Virgilio de Carvalho Pinto, 422, Pinheiros.

Quando: 25 de maio, 18 horas.

Quanto: Grátis

Obsessão pela beleza

Simonetta Persichetti, ESPECIAL PARA O ESTADO – O Estadao de S.Paulo

“Eu me interesso pela beleza humana e o fascínio que ela inspira é absolutamente primordial.” Esta frase, escrita pelo fotógrafo Alair Gomes (1921-1992) em seu “diário” A New Sentimental Journey, no qual ele conta suas impressões durante uma viagem feita pela Europa em 1983, retrata bem o que buscava em suas narrativas fotográficas. Nos três meses que perambulou entre Inglaterra, França, Suíça e Itália, produziu mais de 700 imagens. Sua obsessão pela beleza, em especial a masculina, é procurada entre as obras clássicas da pintura. Alair Gomes foi um esteta. Suas imagens buscam em estátuas a perfeição formal do olhar que fica fascinado diante da estátua do David de Michelangelo em Florença, ou que escreve uma ode a um dos personagens das Prigioni, estátuas que foram iniciadas por Michelangelo, mas abandonadas antes do término, dando a impressão de que os personagens estão aprisionados. Parte dessas imagens foram selecionadas por outro esteta, o fotógrafo Miguel Rio Branco, que tem em comum com Alair Gomes a busca pela construção de uma obra. O resultado são dípticos e trípticos, imagens sequenciais que foram livremente montadas pelo curador: “Conheço o trabalho do Alair desde os anos 1970 e sei que ele, assim como eu, tinha esta preocupação da construção, do sequenciamento, da narrativa cinematográfica”, conta por telefone Miguel Rio Branco ao Estado. É assim que a mostra se constitui: 130 imagens inéditas que foram encontradas por acaso nos arquivos conservados pela irmã de Alair. A exposição que foi mostrada originalmente na Maison Européene de la Photographie em Paris, e em seguida no Paço Imperial no Rio de Janeiro, no ano passado, pode ser vista em São Paulo na Galeria Bergamin, até 10 de abril. Por ocasião da mostra, a editora Cosac Naify e a MEP promovem o livro Alair Gomes: A New Sentimental Journey, segundo Miguel Rio Branco. A leitura, ou melhor dizendo, as conexões que Miguel Rio Branco criou entre as imagens nos apresentam o cerne da preocupação artística de Alair: “A imagem isolada não é o bastante para representar o seu pensamento, prefere agrupá-las de modo a criar cadências, significados e ritmos”, escreve a curadora Márcia Mello, relembrando que desde o início de sua carreira Alair Gomes optou pela narrativa cinematográfica com suas fotografias. É essa narrativa e sua busca pela beleza por meio do corpo masculino que também é lembrada pelo curador Miguel Rio Branco, durante a entrevista. Embora fique clara sua reverência a Eros: “As fotografias explicitam a cosmovisão existencialista de Alair, cujo ponto de partida é o Eros, entendido pelo autor como a essência, indistinta do divino e do estético, e consubstanciadas na imagem do corpo masculino”, escreve o editor Fabio Settimi, no prefácio do livro, podemos destacar também uma homenagem a Apolo, o deus supremo da beleza e elegância. Para mostrar o encontro das duas essências, Alair se aproxima do objeto fotografo, procura desvendá-lo em ângulos inusitado, seu olhar se move com o respeito de quem se depara com o divino. E assim por meio da fotografia o reverencia. Nietzsche (1844-1900) ao falar de arte traçou paralelo entre Apolo, que para ele representava o lado luminoso da existência, e Dionísio, que representava a transgressão de todos os limites. Segundo o filósofo, os dois se completavam e eram símbolos intuitivos da nossa existência. O que ele traçou em linhas Alair fotografou, substituindo Dionísio por Eros. E é este encontro que reencontramos nesta mostra.

Flagrantes de duas cidades em transformação

Matéria  que saiu no Estadão de ontem

Fotos revelam São Paulo dos anos 30, feitas por Hildegard Rosenthal, e Buenos Aires no apogeu, por Horacio Coppola

Simonetta Persichetti, ESPECIAL PARA O ESTADO]

A cidade é sempre fascinante para olhares atentos. Um detalhe de uma janela, a fachada de um prédio, as pessoas que a habitam. Que dizer então quando olhares conseguem acompanhar o desenvolvimento e o crescimento dessas cidades que aos poucos, cada uma à sua maneira, vão se constituindo no hábitat, no centro das relações humanas, na certeza de pertencer a algum lugar.
Com esse intuito, as imagens de dois fotógrafos que na mesma época registram, ou melhor, retratam cada um ao seu modo duas importantes cidades da América Latina: São Paulo e Buenos Aires. Uma fotógrafa alemã que descobre um novo lugar, Hildegard Rosenthal (1913-1990), considerada uma das pioneiras do fotojornalismo brasileiro, e Horacio Coppola (1906), que documenta sua cidade natal, Buenos Aires, no momento de seu apogeu, quando ela se constitui da maneira como a conhecemos hoje.
Imagens diversas, que se distinguem na intencionalidade, mas se reencontram na forma: visões que procuram entender a cidade, a metrópole que começa a se apresentar à sua frente. Em São Paulo, a cidade vista por uma fotógrafa alemã que chega ao Brasil nos anos 30 fugindo do nazismo e já fotógrafa de profissão. Ao chegar aos poucos, até como forma de conhecer a cidade, ela começou a fotografá-la, a desvendá-la procurando ângulos inusitados, curvas, linhas, geometria. Não à toa, percebe-se em suas imagens influência da escola alemã Bauhaus. Mesmo assim, em seu olhar curioso, o retratar a cidade vai se desvendando, chamando sua atenção para o não conhecido, mas sem ser exótico. A câmara fotográfica como forma de conhecer, de se aproximar e, por que não dizer, de integração social. Uma São Paulo dos anos 1930, uma São Paulo da garoa, da moças comendo melancia no meio da rua, dos bondes, dos senhores engravatados, dos trabalhadores. Uma cidade em construção, uma metrópole que está por vir. Um olhar livre de uma fotojornalista que, sem pretensão nenhuma, procura trazer uma centelha de novidade ao que os nossos olhos estão habituados a ver. Não um registro oficial, mas um olhar jornalístico sem deixar de lado uma forma poética do descobrimento.
Conversando com as imagens de Hildegard, o também fotojornalista Horacio Coppola fotografa sua cidade natal. Se ele não tem o descortinar do desconhecido, tem a vontade de mostrar ângulos inusitados que fogem ao déjà vu. O momento no qual Buenos Aires cresce e se coloca como cidade. Assim como sua colega, Coppola também registra a presença humana, já que sem ela a cidade não existe. As vitrines, os outdoors, o homem transformando e sendo transformado pela cidade. O fotógrafo que registra aquele momento que é seu, único e poético. Que deixa inscrita sua visão particular, seu retrato de uma cidade.
Os dois têm em comum sua influência da escola alemã da Bauhaus, uma escola que procurava encontrar novas significações para o já conhecido. Os dois têm trabalhos semelhantes, aliás magistralmente representados nos dois livros publicados pelo Instituto Moreira Salles: o do Horário Coppola, Visões de Buenos Aires, lançado em 2007, e Metrópole, de Hildegard Rosenthal, lançado na abertura da exposição, no dia 20.
Um olhar que ainda acompanha as vanguardas artísticas do início do século 20, que procuram quebrar os cânones do estabelecido e nos ajudam a ver o mesmo sob um novo ângulo. Sim, existe uma influência do novo olhar nas imagens de Hildegard Rosenthal e Horacio Coppola, mas existe uma influência visível da escola de um fotógrafo francês do início do século 20, Eugene Atget (1856-1927), parisiense que fotografou as ruas de Paris e talvez tenha sido o primeiro fotógrafo a olhar a rua não como registro, mas como cenário de uma história. Atget quase nunca fotografava a presença humana, diferença com os dois fotógrafos da exposição, mas foi sem dúvida ele, Atget, que iniciou a fotografar o banal, o não fotografável, o cotidiano, as cenas que aparentemente não mereceriam sem imortalizadas. Horacio Coppola e Hildegard Rosenthal seguem essa escola. O nome da exposição: Profissão: Fotógrafo não poderia ser mais acertado. Um olhar que ainda não cedeu ao espetáculo, à banalização da imagem, à estética que supera o conteúdo. É um olhar que quer narrar, e por isso mesmo se encontra na forma, mesmo que respeitando suas diferenças de entender e compreender o fazer fotográfico.

Serviço
Profissão: Fotógrafo. Museu Lasar Segall. R. Berta, 111, Vila Mariana, tel. 5574-7322. De 3.ª a sáb., das 14 h às 19 h; dom. e feriados, das 14 h às 18 h. Até 4/4