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Fotógrafo de cheiros e afetos

Meu texto, sobre o Claude Lévi-Strauss que  saiu hoje no caderno Aliás, do jornal estado de S.Paulo. Leia abaixo

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foto: Instituto Moreira Salles

Na etnofotografia de Lévi-Strauss, as fotos não ilustram: antes descobrem e narram um país cheio de surpresas 

 Assim como o turista aprendiz de Mário de Andrade – de quem, aliás, foi amigo -, as fotografias feitas por Claude Lévi-Strauss procuram descobrir um país ainda desconhecido nos anos 30, quando veio ao Brasil com apenas 27 anos, para lecionar na USP. Suas fotografias poucas vezes são lembradas quando se fala de seu trabalho na antropologia, e ele mesmo decide retomá-las e escrever sobre elas, muitos anos depois de seu retorno à França. Mesmo assim publica dois livros, Saudades do Brasil e Saudades de São Paulo (os dois livros foram publicados pela Companhia das Letras). O Brasil que ele descobre é um país feito de cheiros, de surpresas, de um tempo que aos poucos vai mostrando para o antropólogo novas formas de cultura. Nos dois livros, onde ele próprio escreve e revive cada imagem (não é à toa o uso da palavra saudade), relembra sua chegada ao porto de Santos e sua ida até a cidade de São Paulo, suas excursões pelo País, a descoberta dos índios que começa a fotografar. Engana-se, porém, quem imagina encontrar em suas fotografias apenas o registro ou o diário de viagem. Pela narrativa que as acompanha podemos sentir a afetividade que cerca cada uma delas. As cidades, os homens, os personagens de Claude Lévi-Strauss não são as figuras de um viajante e muito menos as de um turista. Não é dessa forma que ele retrata o Brasil e muito menos a cidade de São Paulo, ou as praias de Santos, descritas por ele como praias selvagens. É a busca do antropólogo que por meio da intencionalidade de seu olhar nos apresenta o homem que tanto o fascina dentro de seu contexto sociohistórico. Sabendo que a fotografia e a imagem devem ser lidas como texto, analisadas e decodificadas, ao organizar e editar os dois volumes ele cria um ritmo no qual revive os momentos em que seu olhar encontrou “o outro”. Talvez sem saber, ou sabendo, nas suas fotografias também encontramos uma estética que poderia ser definida como o que hoje se conhece por etnofotografia. Não a fotografia que ilustra, mas a fotografia que narra, que descobre. Uma São Paulo onde ainda o gado passeava e o bonde era o meio de transporte. Uma cidade que já apontava o que viria a ser. Não à toa ele escolhe uma imagem do prédio Martinelli para iniciar sua edição: “Único arranha-céu em toda a cidade, aos olhos dos paulistanos simbolizava a ambição de que esta se tornasse Chicago do Hemisfério Sul. Ambição que se realizou, e foi além…” Lévi-Strauss, ao que tudo indica, parou de fotografar quando deixou o Brasil em 1939. Mesmo assim percebe-se nele também o olhar fotográfico, um corte seguro, um enquadramento perfeito. Pena que tenha deixado de lado a fotografia e não a tenha utilizado mais como objeto de suas teorias. Mas pelo pouco que temos nos fica a presença de sua passagem por aqui. Não, como ele mesmo afirma, um olhar nostálgico, mas um “aperto no coração que sentimos quando, ao relembrar ou rever certos lugares, somos penetrados pela evidência de que não há nada no mundo de permanente, nem de estável em que possamos nos apoiar”. Ainda bem que o legado fotográfico de Lévi-Strauss ajuda a perpetuar essa memória.

Um olhar sobre o retrato

Lançado recentemente com uma bela exposição no Museu do Imigrante em São Paulo, o livro de Fifi Tong, “Origem”,  sobre retratos de família é de uma delicadeza emocionante. Quem viu pode agora reviver alguns momentos deste ensaio no próximo dia 11 de novembro (veja convite abaixo). Para quem não viu uma oportunidade de acompanhar as imagens e bater um papo com a autora.

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Arte, Cultura e Fotografia

Na próxima semana, de  9 a 13 de novembro, na USP vai acontecer o IV Seminário Arte, Cultura e Fotografia, organizado pelo grupo de estudos do centro de pesquisa Arte&Fotografia que é coordenado pelo Tadeu Chiarelli. Mais uma opção para ouvir e discutir fotografia.

Informações no tel: (011) 3091.4430

Printara ouvir e discutir fotografia.

Morre o antropólogo Claude Lévi-Strauss

 

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00281Às vésperas de comemorar 101 anos (1908-2009), morreu no último final de semana o antropólogo francês Claude Lévi-Straus. Considerado um dos grandes pensadores do século XX, Lévi-Strauss morou no Brasil de 1935 a 1939. Ele veio para lecionar sociologia na recem fundanda Universidade de São Paulo (USP). E foi aqui durante as várias expedições que fez pelo Brasil e por suas caminhadas na cidadede São Paulo que realizou uma série de fotografias. Estas fotos estão reunidas em dois livros: 8571644217Saudades do Brasil e foto06grandeSaudades de São Paulo, ambos publicados pela editora Companhia das Letras.  Quarenta e quatro imagens originais que fazem parte do material sobre a urbanização de São Paulo,pertencem ao Instituto Moreira Salles .  Tanto as imagens de suas expedições pelo Brasil estudando os índios como as que acompanham o desenvolvimento da cidade de São Paulo são belos documentos de um olhar que procura entender por meio da fotografia o contexto que o cerca.

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Fotografia brasileira na Brasileiros

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A revista Brasileiros de outubro (sim, ela ainda está nas bancas) abre 22 páginas para falar de fotografia. Sem dúvida, fiquei orgulhosa em ver que ela abriu espaço para o projeto Encontros com a Fotografia”, da Fnac,

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mas também traz duas belas entrevistas: uma com o João Urban, fotógrafo documental de Curitiba e outra com a Claudia Andujar . Bom para a fotografia!

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A arte de ver além do olhar

É esta a frase que aparece no site do Ateliê da Imagem que comemora dez anos e  que se tornou referência no Rio de Janeiro quando pensamos em fotografia, em estudar imagem e em refletir seu papel na sociedade contemporânea. Desde 1999 o ateliê tem sido fiel à frase que o apresenta.  Por isso, não poderia ser de outra forma a comemoração: de segunda-feira dia 26 até quinta dia 29, no cine Glória, vai se realizar o 1º Fórum de Imagens Técnicas: “Máquinas de Luz”, (veja programação completa aqui). 

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O projeto propõe discutir a cena atual e trará como convidados Cao Guimarães, Maria Iovino (Colômbia), Maurício Dias, Eduardo Brandão, Ivana Bentes, Muti Randolph, Maria Helena Franco Ferraz, Walter Carvalho, Daniela Labra, Claudia Buzzetti (Itália), Sergio Cohn, Frederico Coelho, Cezar Migliorin, Paola Barreto, Claudia Linhares Sanz e Pio Figueiroa/Cia de Foto. A idéia é um mergulho no mundo das imagens tecnológicas. Encontros, debates, projeções (que iniciaram na última sexta – leia aqui) e até uma oficina de sensibilização e criatividade fotógráfica para crianças e adolescentes. Um evento importante que se junta as mais variadas reflexões sobre a imagem no país todo por meio dos festivais e encontros de fotografia.

Sol em Escorpião!

A todos que, como eu, são do signo de escorpião:

Comemore a vinda do Sol ao seu signo, que traz calor e carisma para você! Por algumas semanas, o bom é ser espontâneo, dar à luz a intuição, a criatividade e a beleza original de seu ser. Ambição e foco no sucesso e na aquisição de resultados são motivadores e estimulantes.

Horóscopo hoje da Barbara Abramo na Folha de S.Paulo.

15 Minutes Exibition

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Imperdível – para quem está no Rio de Janeiro – hoje a apresentação do 15 Minutes Exibition, uma projeção em vídeo organizada pelo Art Salon, capitaneado pela competente Claudia Buzzetti, pesquisadora e critica de fotografia e, pelo Ateliê da Imagem, comandado por Patricia Gouvêa e que está comemorando 10 anos (veja texto amanhã). O vídeo montado com fotografias de 47 artistas brasileiros e internacionais teve sua estréia no último Paraty Em Foco e agora, depois de sua apresentação no Rio de Janeiro, será levado em dezembropara Nova York, e para várias cidades brasileiras, a partir do ano que vem. A selação das imagens e a curadoria do projeto é da Claudia que explica suas escolhas: “voltei-me para a criação de uma linha estética que buscasse respeitar a mensagem de cada autor e, ao  mesmo tempo, inventasse um diálogo e uma continuidade visual de uma série até a outra. Isso foi possível também graças a linguagem do vídeo: as fotografias foram temperadas com  técnicas e efeitos visuais que normalmente são usados apenas na edição de filmes”.

O resultado é muito bom! Vale a pena!

Duda Rosa convida

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Mais um belo texto de José de Souza Martins, desta vez com suas fotografias

A imparcialidade das chamas, em imagens e palavras
José de Souza Martins,
O Estado de S. Paulo, 18/10/09

Pobreza não sensibilizou o fogo, que acabou por devorar as magras posses dos favelados

Percorri os escombros da favela incendiada, no Jaguaré, no dia seguinte. Num canto ainda saía fumaça da madeira caída. O fogo comeu os barracos por cima até chegar ao chão, que, molhado pela água dos bombeiros, reteve muita coisa chamuscada ou parcialmente queimada. Roupas coloridas pareciam confete sobre o solo negro. Quase 350 famílias ficaram sem nada.

imageA frase interrompida pelo fogo em uma página de fascículo da Secretaria da Educação diz que é texto sobre “os direitos da criança”. Outra página, queimada pelas bordas e retorcida, propõe “questões de compreensão” no que sobrou: “Ao conjunto de pessoas que habitam determinado lugar é dado o nome de população. Existem, por exemplo, a população mundial, a população brasileira, etc. A quais populações você pertence?” A criança dona do caderno não teve tempo de responder que pertencia à população da favela Diogo Pires, São Paulo, Brasil, nem poderá fazê-lo, pois a favela não existe mais.

Em diferentes pontos do terreno recoberto de cinza e carvão, talheres, especialmente garfos, estão espalhados ao redor de determinados pontos, ao lado de canecas partidas de porcelana e pratos cheios com uma sopa de carvão. Ali existiram as mesas improvisadas do pão nosso de cada dia. Em vários pontos o calor estourou saquinhos de plástico com alimentos: aqui, um pacote de arroz Piccinin; ali, um pacote de feijão Prato Bom; acolá, um pacote de arroz Pateko; mais adiante, um pacote de macarrão Renata, “com ovos”, esclarece o invólucro. Num outro ponto, salsichas e cabeças de alho transformadas em carvão estão espalhadas pelo chão.

imageNa direção da Rua Diogo Pires, um barraco ficou parcialmente de pé. Num cômodo que era quarto e cozinha, um tabique divide duas imaginárias metades, construído com restos de uma placa de posto de gasolina. Servia como privada e banheiro. Aparentemente, a família havia acabado de jantar. Na cuba e sobre a pia de aço inoxidável, pratos recém-usados, talheres. Na parede, com um rombo aberto pelo fogo, um bonito armário branco de portas verdes. Sob a pia, um gaveteiro envernizado, uma das gavetas aberta, o conteúdo esvaziado por alguém na pressa de fugir. Encostado ao tabique do banheiro, o estrado de uma cama de casal: para a família ter espaço durante o dia, a cama era desmontada. Penduradas num canto do estrado, coloridas roupas de crianças.

Lá fora, fogões a gás, geladeiras e máquinas de lavar roupa, queimados, cobrem o terreno enegrecido e encharcado. Para que morador de favela, morando em precário barraco de madeira, quer máquina de lavar roupa? O monturo tem uma mensagem: os bens de consumo duráveis como investimentos na casa imaginária, a casa que esperam ter um dia, que corresponda à realidade daquelas coisas. São sinais de esperança, modos de se equiparem para dias melhores como os dos ex-favelados do condomínio ali do lado, que há pouco receberam seus apartamentos do governo do Estado e da prefeitura.

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Nas proximidades, dois homens conversam. “Isso é castigo”, diz um deles. Irrito-me e comento: “Estranho! Só pobre é castigado. Só favela pega fogo, queimando casa de montão”. Um deles responde, surpreso: “É mesmo!” E se retiram. Quatro crianças caminham na minha direção: “Moço! Tira uma foto?” Tiro. “Quando é que a gente vai aparecer na televisão?” Os pobres querem ser vistos. Um senhor muito simples se aproxima, trazendo pela mão o menino Vinícius, limpo e arrumadinho, como sempre acontece com crianças e adultos de favela: compensam na aparência o que lhes falta na vida. Quer que tire uma foto de seu filho pequeno.

Alguns cachorros perambulam. Um deles se deita encostado ao resto de uma parede. “Está esperando o dono, que morava aí; deve estar com fome”, comenta a moradora do barraco vizinho, que não foi queimado. Uma vizinha diz que o incêndio começou quando um homem, na outra ponta da favela, quis pôr fogo na mulher. Ela responde: “Tem que linchar ele! Não lincharam ainda?” As chamas da imaginação vão tomando conta de todos para explicar o inexplicável.

Ali perto, encontro o corpo carbonizado de um gatinho, que não conseguiu escapar. Sinal de fogo rápido. Se os vizinhos não tivessem corrido para retirar crianças pequenas, algumas delas teriam sido consumidas pelo fogo que se espalhou depressa. Duas gêmeas foram retiradas de um barraco por moradores, enquanto outros vizinhos retiravam seus sete irmãos e a mãe carregava uma filha paraplégica. Aqui e ali, alguns moradores desabafam, vários com forte sotaque nordestino: “Saí com a roupa do corpo. Ficou tudo pra trás”.

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Poderia não ter ficado. Bem ao lado, erguem-se os novos e belos edifícios de um programa habitacional do governo do Estado e da prefeitura, o terreno ajardinado, um menino andando de bicicleta na calçada. É parte do projeto de urbanização da favela, apartamentos entregues aos moradores há pouco tempo pelo governador. Com a novidade, em relação ao Cingapura: além de apartamentos de dois quartos, há varandas de acesso e também apartamentos de três quartos, para as famílias maiores. Há seis meses a prefeitura tenta adquirir do dono o terreno invadido pelos favelados da Diogo Pires, abandonado por uma empresa de reparação de vagões ferroviários. Já há um projeto pronto para extensão do condomínio para aquela área e construção de apartamentos para 400 famílias. Propriedade privada, o governo do Estado nada pode fazer enquanto não se tornar proprietário do terreno. Não fosse esse empecilho, os prédios já estariam adiantados, como vários ao lado, e a favela não estaria lá.

Já no fim da tarde, numa das pontas da favela aparece um grupo que vem trazer lanches e café com leite para os desalojados. Na outra ponta, um homem chega discretamente com seu automóvel carregado de pacotes de leite e os distribui. Na igreja do Jaguaré, um jovem casal, vindo de São Caetano, traz roupas para as vítimas. No cenário escuro dos caibros e paredes carbonizados, bate forte o coração luminoso dos que se esquecem do eu e se pensam como nós.

 

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