Dos elfos aos selfies

Este texto foi publicado em 2013 no livro: “Comunicação, Entretenimento e Imagem”, Editora Plêiade.

Introdução

Silenciosamente eles começaram a surgir nas redes socias, nas conversas, nos debates e proliferaram como cogumelos após uma forte chuva de verão. Um dos fenômenos do século XXI é sem dúvida o selfie que, segundo o Oxford Dictionary (2013) é uma fotografia informal, um autorretrato feito por meio de um celular ou de uma webcam e imediatamente (com)partilhada nas redes sociais. Aliás, segundo notícia publicada por Jessie Wender, no blog Photo Booth, da revista New Yorker em fevereiro, o Oxford Dictionary definiu a palavra selfie, como a palavra do ano de 2013. ( http://www.newyorker.com/online/blogs/photobooth/2014/02/seeing-themselves-photographers-self-portraits.html#slide_ss_0=13). Um fenômeno que para mim não faz o mínimo sentido visto que, desde sempre, representações pictórias e imagéticas privilegiaram o retrato e mesmo o autorretrato. Livros de arte e de fotografia sempre trataram deste assunto e muitos tentaram explicá-lo tanto do ponto de vista sociológico, como psicológico. E não conheço fotógrafo que não tenha feito seu autorretrato.

Há quatro anos desenvolvi um curso que ministrei no MAM (Museu de Arte Moderna de São Paulo) e discuti em vários cursos e palestras do Brasil.: “Fotografia e Simbologia”. Nele por meio de figuras mitológicas e da literatura tentava compreender e analisar os mítos, símbolos e arquétipos da sociedade contemporânea tendo sempre como pano de fundo a imagem, em especial a fotográfica, o retrato e o autorretrato. Embora o curso seja bastante recente há tempos o tema me intrigava (mito e fotografia). Não à toa desenvolvi meu mestrado e doutorado tendo como base a psicologia social e no pós-doutorado estou desenvolvendo também um estudo sobre a mitologia e a construção identidária do personagem político, mais precisamente dos presidentes do Brasil. Mas esta é uma outra história.

A primeira vez que ouvi a palavra selfie– e não poderia ser diferente – foi da boca de uma aluna do primeiro ano de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero. O interessante é que ela estava mostrando um autorretrato de um fotógrafo chinês, Li Zhensheng, feito na China comunista nos anos 1960.

A partir daquele momento resolvi me aprofundar nesta história para tentar entender como um modelo de autorrepresentação tão arcaíco do nada se transformaria na coqueluche da contemporaneidade. Entender o simbólico por trás desta imagem e seus sentidos hoje. Ou nos dizeres do psicólogo Carl G. Jung: “uma palavra ou uma imagem é simbólica quando implica alguma coisa além de seu significado manifesto e imediato.”(1964, p. 20).

Discussão que obviamente não é nova. A mitologia e a literatura – como já afirmamos – sempre se deteve e discutiu esta questão. Como não lembrar do mito de Narciso que foi condenado a viver a ânsia de um amor irrealizado ao se apaixonar por sua própria imagem. Dias e noites ficou contemplando seu retrato refletido na água sem contudo conseguir alcança-lo. Ou ainda se pensarmos no célebre livro do escritor irlandês Oscar Wilde (1884-1900), O Retrato de Dorian Gray (1890) no qual o retratado não envelhece nunca, mas é o quadro que com o tempo adquire as rugas que deveriam estar em seu rosto. Este desejo se torna para Dorian Gray, uma terrível realidade. Escravo de um ideal absurdo – o da eterna juventude – faz com que a arte se confunda com a vida cotidiana.

O que dizer então dos milhares de selfies que circulam pelas redes sociais? Pessoas anônimas e nem tanto. Um fenômeno que se alastra em progressão geométrica.

Críticado foi o selfie de Barak Obama durante o enterro do líder sul-africano Nelson Mandela, em dezembro de 2013. O autorretrato foi tirado junto com os primeiros-ministros David Cameron, do Reino Unido e Helle Thorning Shmidt, da Dinamarca. Duramente criticado pela mídia mundial, o presidente norte-americano se meteu em outra confusão em abril deste ano ao se deixar retratar ao lado do jogador de beisebol do Boston Red Sox, David Ortiz. A imagem foi utilizada numa propaganda da Samsung e considerada uma jogada de marketing. Resultado: ao visitar o presidente norte-americano deixe seu celular no bolso. Outro selfie com bastante repercussão foi o da atriz Ellen De Generes durante a entrega do Oscar neste ano. Na verdade a foto foi feita pelo ator Bradley Cooper e reuniu várias estrelas de Hollywood. Constatou-se depois que, a foto foi uma propaganda, de novo, para a Samsung.

Sempre que ouço este palavra, não sei porque, me vêem à mente os elfos que segundo a mitologia nórdica eram seres de luz. Semi-deuses jovens e belos. E me parece que é desta forma que as pessoas que publicam seus selfies se vêem ou gostariam de serem vistos. Pessoas iluminadas e luminosas. Nem sempre é assim, pois na maioria das vezes são imagens desprovidas de composição, conceitos e cuidados estéticos. E o resultado deixa muito a desejar…..

É portanto neste cenário que pretendo discutir a função de representação, cenário e ficção do autorretratou, ou selfie dentro de uma sociedade onde o entretenimento é a tônica da cultura e do conhecimento.

O retrato, o autorretrato e a representação de si

O retrato é fascinante. Talvez a mais sedutora e difícil linguagem tanto da pintura como da fotografia. Síntese do encontro de olhares entre um produtor de imagens e um ser que se deixa “imortalizar” pelas pinceladas ou pelas lentes. Uma troca entre objetividade e subjetividade e a vontade de ver e ser visto. Existe uma atitude social e política no ato de retratar e de ser retratado. Mas diferentemente do retrato pictório onde a imaginação e o gesto dos pintores muitas vezes são mais valorizados que o sujeito representado, o retrato fotográfico nascido nos primórdios da fotografia é utilizado como forma ideológica pela burguesia da segunda metade do século XIX com intuíto de se colocar perante a sociedade da época e de criar sua própria identidade. Afinal, nascida no meio de uma filosofia positivista, a fotografia se encaixou muito bem na ideia de olhar frio e imparcial tão caro aos pensadores da época: “só acredito no que meu olho vê”:

Representação honorífica do eu burguês, o retrato fotográfico populariza e transforma uma

função tradicional, ao subverter os privilégios inerentes ao retrato pictórico, Mas o retrato

fotográfico faz bem mais. Contribui para a afirmação moderna do indivíduo, na me

dida em que participa da configuração de sua identidade como identidade social.

Todo retrato é simultaneamente um ato social e um ato de sociabilidade: nos diver

sos momentos de sua história obedece a determinadas normas de representação que

rege mas modalidades de figuração do modelo, a ostentação que ele fazde si mesmo

e as múltiplas percepções simbólicas suscitadas non intercâmbio social. O modelo

oferece à objetiva não apenas seu corpo, mas igualmente sua maneira de conceber o

espaço material e social, inserindo-se numa rede de relações complexas, das quais o

retrato è um dos emblemas mais significantes (Fabris, 2004, p.38-39).

Utilizado com fins sempre “nobres”, valorizado como expressão , descrito e relatado tanto por escritores como por filosófos o retrato nos suscita múltiplas indagações a respeito de seu status. É história ou ficção? Realidade ou invenção? Identidade ou alteridade? : “A fotografia constrói uma identidade social, uma identidade padronizada que desafia, não raro, o conceito de individualidade, permitindo forjar as mais variadas tipologias”(Fabris, 2004, p.15). Quando falamos ou pensamos em retratos afinal, estamos nos referindo extamente a que? Muitas vezes nos sentimos desafiados pela esfíngie de Tebas: “decifra-me ou te devoro”. É ainda Fabris que nos recorda que para o poeta francês Chales Baudelaire (1821-1867) a imaginação é a parte fundamental de um retrato: “o poeta atribui ao retratista uma capaciade divinatória, uma vez que é sua tarefa adivinhar o que se esconde além de captar o que se deixa ver”(Fabris, p. 21). Já para o filósofo alemão Walter Benjamin (1892-1940), o retrato se insere na área do romance: “é sobretudo produto da imaginação, mas nem por isso menos fiel à personalidade do modelo”(Fabris, p.21). Nestes quase 200 anos, desde a invenção da fotografia, o retrato sempre esteve em alta e mereceu análises diversas. Por isso o espanto com a propagação dos selfies e da ideia que está por trás – se é que existe realmente algum conceito ou reflexão – da importância do autorretrato nos dias de hoje.

É preciso refletir que não é de hoje, obviamente este culto à imagem e ao retrato. O filóso

fo, checo Vilem Flusser (1920-1991) em seu livro Filosofia da Caixa Preta (1983) nos lembra do aspecto mágico da imagem que antecede a imagem técnica e do aparente desaparecimento da necessidade de uma decodificação de uma imagem técnica (fotografia, cinema) já que seu significado se imprime de forma automática sobre a superfície como uma impressão digital: “no momento em que a fotografia passa a ser modelo de pensamento, muda a própria estrutura da existência, do mundo e da sociedade (Flusser, 1983, p. 73). Buscamos semelhanças, lembranças quando olhamos para um retrato fotográfico e não necessariamente estética artística ou originalidade, mas sim desvendar o que aquele rosto significa para nós:

Ao analisar a relação da câmara fotográfica com o rosto humano, Baudrillard faz do retrato um ato

de desfiguração e despojamento do caráter do modelo. Confrontada com a encenação que o indivi

duo faz de si, a objetiva não consegue idealizá-lo ou transfigurá-lo como imagem: captar a   seme

lhança não significa captar a máscara, a alteralidade secreta de que todo ser é portador. O que

Baudrillard demanda à fotografia è justamente isso: não tanto “ procurar a identidade por trás das

aparências” quanto “por trás da identidade faz surgir a máscara, a figura”daquilo que assombra o

ser humano e o desvia de sua identidade. (Fabris, 2004, p. 75)

O fascínio do retrato e do autorretrato é exatamente este: seu caráter ficcional (aliás como de toda e qualquer fotografia), sua possibilidade da criação, da pose, a construção de inúmeros personagens que são encenados a cada fotografia uma forma, como lembra Annateresa Fabris de “escamotear de vez a existência do sujeito original”. Nós estamos o tempo todo ritualizando e recriando boa parte da vida cotidiana. Os papéis se alternam e a fotografia acaba por se tornar um dos meios utilizados para firmar esta ideia e dar concretude ao que estamos vendo. Vemos mediados pelo nosso conhecimento, pela nossa construção de mundo a partir das representações. E as representações refletem ou imitam a realidade social. O professor e pesquisador francês François Soulages suscita uma polêmica interessante sobre este assunto ao nos indagar se o retratista é um fotógrafo ou um encenador fotográfico. Levanta a possibilidade da teatralização fotográfica e a mudança de conceito do “isso existiu” para o “isso foi encenado”: “será que o retrato é um gênero que dá o objeto – um (ou vários) ser (es) humano (s) – a ser fotografado ou uma prática que produz uma aparência fotográfica de um fenômeno visível?” (2010, p. 65-66). E ele mesmo reflete em seguida: “o retrato fotográfico é pleno de tensões e contradições próximas: será que ele se distingue, de fato, de uma fotografia, que seria, como o quadro, da competência da arte? Talvez seja apenas uma simples constatação?” (2010, p.66).

Se for constatação é possível analisarmos os selfies da contemporaneidade sob a óptica da sociedade do entretenimento, o uma civilização do espetáculo como a definiu o escritor peruano Mario Vargas Llosa (2013). Em uma sociedade onde você vale a partir do momento em que se torna visível a rápida disseminação de uma imagem via redes sociais permite uma imediatez na integração do mundo do consumo, do lazer e da “pseudo” saída do anonimato. Se cada período tem um olho e uma representação, sem dúvida, a do século XXI é a da visibilidade. Não importa em que medida ou o que fazemos para que isso acontença. Relações estéticas que nos dão a impressão de pertencimento quando na verdade só nos oferecem vestígios:

O que dizer da civilização do espetáculo? É a civilização de um mundo onde o primeiro

lugar na tabela de valores vigente é ocupada pelo entretenimento, onde divertir-se, esca

par do tédio, è a paixão universal. Esse ideal de vida é perfeitamente legitimo sem dúvi

  1. Só um puritano fanático poderia reprovar os membros de uma sociedade que quise

sem dar descontração, relaxamento, humor e diversão a vidas geralmente enquadradas

em rotinas deprimentes e às vezes imbecilizantes. Mas transformar em valor supremo

essa propensão natural a divertir-se tem consequências inesperadas: banalização da

cultura, generalização da frivolidade […] (Vargas Llosa, 2013, p. 30).

No caso da fotografia, devemos lembrar que a construção de uma imagem nunca é cópia de um mundo externo, mas a concretização de um imaginário de um sujeito que está inserido numa sociedade, numa cultura, num determinado momento histórico. Imagens que passam por representações sociais.

Representação e Imagem Contemporânea

                                     O psicólogo social Serge Moscovici parte do estudo das representações sociais para compreender como e porque os homens agem e pensam de determinada maneira afirmando o caráter histórico da consciência. Ou seja, de que maneira o sujeito se apresenta e representa por meio das imagens que constrói ao querer conhecer e se apropriar do mundo.

A partir do momento em que a imagem se torna uma das principais formas de conhecimento e de transmissão deste mesmo conhecimento deixamos de viver diretamente nossas experiências e passamos a vivenciá-las por meio das representações: “tudo que era vivido diretamente tornou-se uma representação”. (Debord, 1997, p.13). No nosso caso, hoje, o conhecimento ou reconhecimento passa através do selfie:

Ao refletir sobre a identidade estampada nos retratos fotográficos, Roland Barthes faz

referência a uma identidade imprecisa, se não imaginária, frequentemente próxima de

mitos e estereótipos, a ponto de permitir falar em semelhança mesmo diante de modelos

desconhecidos. O questionamento de identidade do sujeito fotografado levao autor a uma

consatação radical: o indivíduo assemelha-se ao infinito a outras imagens de si mesmo, é

uma cópia de uma cópia, não importa se real ou mental. (Fabris, 2004, p. 115)

    

Passamos, portanto, do momento no qual o retrato e o autorretrato significavam mito mais uma descoberta de identidade ou de afirmação no mundo, uma maneira de nos colocarmos perante a sociedade como seres únicos para o selfie, uma mania que – se de alguma maniera – também nos insere dentro de um contexto deixa de lado a unicidade para parecermos todos iguais. As mesmas poses, os mesmos sorrisos criando uma ruptura entre o sujeito, o eu, e imagem que se configura cada vez mais como pose. Uma norma imposta onde a aparente espontâneidade e rapidez com a qual as imagens são divulgadas pelas redes sociais nos leva a acreditar numa autenticidade do retrato e retratado. Uma sociedade narcícisa, onde pouco se produz e muito se reproduz, os selfies, caracterizam como diria Umberto Eco (1984): “alegoria da sociedade de consumo” (p.60), um falso individualismo focado na realização rápida do desejo de ser visto, alcançar visibilidade e portanto passar a existir numa sociedade onde imagem e entretenimento são indissociáveis:

As formas desse neoindividualismo centrado na primazia da realização de si são

incontáveis. Paralelamente à autonomia subjetiva, ao hedonismo e ao psicologismo

desenvolveu-se uma nova relação com o corpo: obsessão com a saúde, culto do esporte

boa forma, magreza,cuidados de beelza, cirurgia estética….manifestações de uma socie

dade narcícica (Lipovestky, Serroy, 2011, p. 48)

Lembramos também que não existe um olhar inocente e que a fotografia é sempre a construção de uma representação. Como nos lembra Boris Kossoy (2007) toda fotografia é criação, “um testemunho que se materializa a partir de um processo de criação, isto é, construção. Nessa construção reside a estética de representação” (p. 54). No mundo estetizado no qual vivemos a representação passa pela imediatez de um fato e de uma situação. A fotografia de hoje, o autorretrato não se pretende mais heróico, mas uma imagem que brinca com a banalidade. Provavelmente os selfies logo serão substituídos por outra forma representativa, mas nestas últimas décadas e desta forma que nos vemos e queremos ser vistos.

Referências:

 

DEBORD, GUY. Sociedade do Espetáculo.

ECO, Umberto. Viagem na irrealidade cotidiana. 9. Edição, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1984.

FABRIS, Annateresa. Identidades Virtuais: uma leitura do retrato fotográfico. Belo Horizonte, Editora UFMG, 2004

FLUSSER, Vilém. Filosofia da Caixa Preta: ensaios para uma futura filosofia da fotografia. Rio de Janeiro, Relume Dumará, 2002.

JUNG, Carl G. O homem e seus símbolos. 11. Edição. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1992

KOSSOY, Boris. Os tempos da fotografia: o efêmero e o perpétuo. São Paulo, Ateliê Editorial, 2007

LIPOVESTKY, Gilles e SERROY, Jean. A cultura-mundo: resposta a uma sociedade desorientada. 2. Edição, São Paulo, Companhia das Letras, 2011

SOULAGES, François. Estética da Fotografia: perda e permanência. São Paulo, Editora Senac, 2010

VARGAS LLOSA, Mario. A civilização do espetáculo: uma radiografia do nosso tempo e da nossa cultura. Rio de Janeiro, Objetiva, 2013.

 

 

            

 

            

 

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Mais um belo texto de José de Souza Martins, desta vez com suas fotografias

A imparcialidade das chamas, em imagens e palavras
José de Souza Martins,
O Estado de S. Paulo, 18/10/09

Pobreza não sensibilizou o fogo, que acabou por devorar as magras posses dos favelados

Percorri os escombros da favela incendiada, no Jaguaré, no dia seguinte. Num canto ainda saía fumaça da madeira caída. O fogo comeu os barracos por cima até chegar ao chão, que, molhado pela água dos bombeiros, reteve muita coisa chamuscada ou parcialmente queimada. Roupas coloridas pareciam confete sobre o solo negro. Quase 350 famílias ficaram sem nada.

imageA frase interrompida pelo fogo em uma página de fascículo da Secretaria da Educação diz que é texto sobre “os direitos da criança”. Outra página, queimada pelas bordas e retorcida, propõe “questões de compreensão” no que sobrou: “Ao conjunto de pessoas que habitam determinado lugar é dado o nome de população. Existem, por exemplo, a população mundial, a população brasileira, etc. A quais populações você pertence?” A criança dona do caderno não teve tempo de responder que pertencia à população da favela Diogo Pires, São Paulo, Brasil, nem poderá fazê-lo, pois a favela não existe mais.

Em diferentes pontos do terreno recoberto de cinza e carvão, talheres, especialmente garfos, estão espalhados ao redor de determinados pontos, ao lado de canecas partidas de porcelana e pratos cheios com uma sopa de carvão. Ali existiram as mesas improvisadas do pão nosso de cada dia. Em vários pontos o calor estourou saquinhos de plástico com alimentos: aqui, um pacote de arroz Piccinin; ali, um pacote de feijão Prato Bom; acolá, um pacote de arroz Pateko; mais adiante, um pacote de macarrão Renata, “com ovos”, esclarece o invólucro. Num outro ponto, salsichas e cabeças de alho transformadas em carvão estão espalhadas pelo chão.

imageNa direção da Rua Diogo Pires, um barraco ficou parcialmente de pé. Num cômodo que era quarto e cozinha, um tabique divide duas imaginárias metades, construído com restos de uma placa de posto de gasolina. Servia como privada e banheiro. Aparentemente, a família havia acabado de jantar. Na cuba e sobre a pia de aço inoxidável, pratos recém-usados, talheres. Na parede, com um rombo aberto pelo fogo, um bonito armário branco de portas verdes. Sob a pia, um gaveteiro envernizado, uma das gavetas aberta, o conteúdo esvaziado por alguém na pressa de fugir. Encostado ao tabique do banheiro, o estrado de uma cama de casal: para a família ter espaço durante o dia, a cama era desmontada. Penduradas num canto do estrado, coloridas roupas de crianças.

Lá fora, fogões a gás, geladeiras e máquinas de lavar roupa, queimados, cobrem o terreno enegrecido e encharcado. Para que morador de favela, morando em precário barraco de madeira, quer máquina de lavar roupa? O monturo tem uma mensagem: os bens de consumo duráveis como investimentos na casa imaginária, a casa que esperam ter um dia, que corresponda à realidade daquelas coisas. São sinais de esperança, modos de se equiparem para dias melhores como os dos ex-favelados do condomínio ali do lado, que há pouco receberam seus apartamentos do governo do Estado e da prefeitura.

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Nas proximidades, dois homens conversam. “Isso é castigo”, diz um deles. Irrito-me e comento: “Estranho! Só pobre é castigado. Só favela pega fogo, queimando casa de montão”. Um deles responde, surpreso: “É mesmo!” E se retiram. Quatro crianças caminham na minha direção: “Moço! Tira uma foto?” Tiro. “Quando é que a gente vai aparecer na televisão?” Os pobres querem ser vistos. Um senhor muito simples se aproxima, trazendo pela mão o menino Vinícius, limpo e arrumadinho, como sempre acontece com crianças e adultos de favela: compensam na aparência o que lhes falta na vida. Quer que tire uma foto de seu filho pequeno.

Alguns cachorros perambulam. Um deles se deita encostado ao resto de uma parede. “Está esperando o dono, que morava aí; deve estar com fome”, comenta a moradora do barraco vizinho, que não foi queimado. Uma vizinha diz que o incêndio começou quando um homem, na outra ponta da favela, quis pôr fogo na mulher. Ela responde: “Tem que linchar ele! Não lincharam ainda?” As chamas da imaginação vão tomando conta de todos para explicar o inexplicável.

Ali perto, encontro o corpo carbonizado de um gatinho, que não conseguiu escapar. Sinal de fogo rápido. Se os vizinhos não tivessem corrido para retirar crianças pequenas, algumas delas teriam sido consumidas pelo fogo que se espalhou depressa. Duas gêmeas foram retiradas de um barraco por moradores, enquanto outros vizinhos retiravam seus sete irmãos e a mãe carregava uma filha paraplégica. Aqui e ali, alguns moradores desabafam, vários com forte sotaque nordestino: “Saí com a roupa do corpo. Ficou tudo pra trás”.

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Poderia não ter ficado. Bem ao lado, erguem-se os novos e belos edifícios de um programa habitacional do governo do Estado e da prefeitura, o terreno ajardinado, um menino andando de bicicleta na calçada. É parte do projeto de urbanização da favela, apartamentos entregues aos moradores há pouco tempo pelo governador. Com a novidade, em relação ao Cingapura: além de apartamentos de dois quartos, há varandas de acesso e também apartamentos de três quartos, para as famílias maiores. Há seis meses a prefeitura tenta adquirir do dono o terreno invadido pelos favelados da Diogo Pires, abandonado por uma empresa de reparação de vagões ferroviários. Já há um projeto pronto para extensão do condomínio para aquela área e construção de apartamentos para 400 famílias. Propriedade privada, o governo do Estado nada pode fazer enquanto não se tornar proprietário do terreno. Não fosse esse empecilho, os prédios já estariam adiantados, como vários ao lado, e a favela não estaria lá.

Já no fim da tarde, numa das pontas da favela aparece um grupo que vem trazer lanches e café com leite para os desalojados. Na outra ponta, um homem chega discretamente com seu automóvel carregado de pacotes de leite e os distribui. Na igreja do Jaguaré, um jovem casal, vindo de São Caetano, traz roupas para as vítimas. No cenário escuro dos caibros e paredes carbonizados, bate forte o coração luminoso dos que se esquecem do eu e se pensam como nós.

 

Cuide-se Sophie Calle

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Vamos combinar: eu gosto da Sophie Calle, mas gosto muito mais de suas idéias do que das suas realizações. Não a considero fotógrafa, mas acho que o que ela faz sempre desperta interesse. Achava! Fui ver no Sesc Pompéia, na última quinta-feira às 11 horas da manhã a exposição “Cuide de você!“. Além do barulho ensurdecedor dos vários vídeos e dos seguranças que resolveram competir com eles( não sabia quem gritava mais) não havia ninguém. Pude, portanto, ver com bastante calma, ler com todo o tempo e aproveitar bem da exposição. Para mim se trata de uma bela e bem sucedida, além de inteligente, jogada de marketing.

FLIP/PARATYSophie e Grégoire na Flip, crédito: Ag. Estado

Não acredito que Mr X, ou Grégoire Boullier, tenha escrito aquele e-mail.  Além do mais, ele começa sua carta dizendo: “há algum tempo venho querendo lhe escrever e responder ao seuu último e-mail”. Ninguém, nenhuma das mulheres questiona o que ela escreveu no e-mail para ele responder daquela forma?  Interessante a idéia de compartilhar uma carta para tentar demonstrar como cada um a sua maneira intererpreta, compreende e reage a um estímulo.  Não gostei da edição. Se 107 foram as mulheres todas deveriam ser mostradas. A impressão que tive é que foi tudo muito dirigido, daí minha frustração. Eu não achei nada de mais no e-mail do suposto ex-namorado (pelo que se ouviu na Flip, eles se divertiram muito com toda situação, eu também acharia engraçado). Mas enfim, extrapolando, acho que ela traz inúmeras questões que poderiam ser aprofundadas: mundo privado X mundo público, a incomunicabilidade do ser, a importância do aparecer, etc., etc., etc.,  Mas com o disse a idéia era boa a forma como ela tentou resolve-la nem tanto. Achei infantil! Ela tem trabalhos melhores.

 

Entre os muros da escola

Fui assistir a este filme na terça-feira. Confeso que fiquei muito tocada e pensativa com o que vi. Uma história verdadeirade um professor da periferia parisiense numa classe bem heterogênea e que, na verdade, ao querer ser amigo dos alunos os afasta cada vez mais. O filme é muito tenso o tempo todo (bem verdade que é muito longo e alguns momentos cansativos), os diálogos estão sempre acima do tom. Não acredito que seja diferente nas escolas do Brasil. Mas o que mais me chamou a atenção foi a falta de entendimento, dos pedidos de socorro dos próprios alunos, e da escola que, já sabemos, hoje em dia não é mais interessante para ninguem. No quesito fotografia – que é o que interessa a este blog, uma cena me chamou muito a atenção. O professor de francês (protagonista do filme ) após a leitura do Diário de Anne Frank, pede aos alunos que escrevam uma redação fazendo seu próprio autorretrato. Um único aluno usa a fotografia para contar sua história. É um aluno problemático do qual os amigos zombam o tempo inteiro dizendo que ele não sabe escrever (a turma é de adolescentes), mas ao fotografar ele consegue contar sua história. Parece que o professor se interessa por isso, mas é apenas um átimo, ele não percebe  a força da linguagem deste garoto. Em seguida parece que o próprio professor se desinteressa por ele, voltando sempre à antiga questão  de uma escola que não esina e não desperta o interesse dos alunos. Também muito boa a cena da aluna ofendida sistematicamente pelo professor (que é sempre questionado e ofendido por ela)  e que o surpreeende ao dizer que leu a República de Platão. Um filme (guardada às devidas proporções de ser em alguns momentos bastante cansativo e repetitivo) que nos coloca frente à questão de ensinar e aprender e a falta de sentido que muitas vezes o ensino faz para quem aprende. Após o filme lembrei imediatamente do método Paulo Freire e também de uma frase de Leonardo Da Vinci: “só aprendemos o que nos interessa!” A fotografia aparece como forma de integração, de ligação e de discurso, mas é abandonada pela retórica da linguagem falada e escrita. Um filme que faz pensar e que para mim, valeu muito a pena.

Emergentes!

capa_emergentes Érico Hiller é o tipo de pessoa que fica matutando o que vê, o que lê e o que ouve. É o mote para criar um projeto e sair pelo mundo. Foi assim com o trabalho que fez sobre “Violência contra mulher” que foi exposto no Sesc Vila Mariana. É assim com este seu mais recente trabalho lançado em livro no final do ano passado “Emergentes”, (edição do autor, Patrocínio Gerdau, apoio PAC) quando decidiu  fotografar tensões sociais e ambientais em países qu vivem as mesmo tempo situações de extrema riqueza e pobreza. Entre pesquisa e as fotos em si, passaram-se três anos. 2008 foi praticamente passado viajando por seis países: Brasil, Argentina, China, Índia, México e Russia. Érico não é fotojornalista, mas um documentarista. Aliás os grandes documentaristas da história da fotografia não são fotojornalistas, são movidos por outras questões e outros olhares para fotografar. Érico é assim: movido por um interesse social, atual e contemporâneo, mas acima de tudo movido por sua curiosidade de conhecer. Ele decidiu vivenciar em primeira pessoa o que estava absorvendo teoricamente. Ou como ele mesmo diz em seu texto, belo texto, por sinal: “minha idéia era enfrentar as dificuldades que as pessoas enfrentam, ver em que condições trabalham, se locomovem ou moram e sentir nos meus pulmões o mesmo a poluído que respiram. Na prática, transformei-me em personagem do meu próprio documentário”. 

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E é dessa forma que ele fotografou e trouxe para nós as suas impressões de viagens. A edição das imagens nos livros é fundamental para isso, mesmo que em alguns instantes, ele tenha se deixado levar pelo clichê, pelas imagem mais fácil (muito por- do- sol para meu gosto). Mas faz parte. O importante é que a teoria ou a pesquisa não sobressai às imagens, ela é pano de fundo, o que torna a leitura das imagens agradável. 

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Érico nos mostra semelhanças, diferenças, transformações a partir do cotidiano das pessoas. Ele não define, não critica, não julga, nos abre a possibilidade de nossas inúmeras e abrangentes considerações sobre o que ele definiu “as ansiedades das nações”.

Vocês também podem acompanhar o desdobramentos da viagem do Érico Hiller em seu blog

Encontro de coletivos

Começa hoje, na galeria Olido, em São Paulo, o “Encontro de Coletivos Fotográficos Ibero-Americanos”, com curadoria geral de Claudi Carreras e em São Paulo de Iatã Cannabrava. Contemporaneamente poderemos ver a exposição “Labirinto de Miradas”  Eu me inscrevi e pretendo participar das discussões. Não poderei estar presente em todas devido aos horários. Mas estarei lá.

Enquanto isso vou pensar um pouco neste fenômeno mundial dos coletivos que em grande parte me lembra o fenômeno acontecido há mais de 20 anos, quando começaram a pipocar pelo mundo várias agências fotográficas. Ok. Eu sei. Os coletivos não são necessariamente agências fotográficas e, é claro, que o momento é outro. Mas as justificativas ou explicações para este fato parecem ser as mesmas: a necessidade de se organizar, de poder se inserir num mercado lotado e uma forma de vencer as grandes agências internacionais. No Brasil especificamente, estas discussões eram muito presentes no final dos anos 70 e inicio da década de 1980, com o surgimento de várias agências mais ligadas ao fotojornalismo.

 

Calles de san salvador. El Salvador, 1992.

Coletivo Pandora – Espanha

As preocupações sem dúvida são outras. A estética também. Acho engraçado que em muitos sites e blog tenho visto a explicação do que é um coletivo tirada dos dicionários e usada como introdução ao discurso. O melhor disso tudo é a possibilidade de falarmos de forma aprofundada sobre este assunto, ouvindo, repensando posições, reafirmando outras.  

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Coletivo ONGV – Venezuela

Outra questão que –acredito eu – será levantada nos debates é a da autoria. A linguagem digital e o tratamento de imagens como forma de pós-produção está na ordem do dia. O trabalho da equipe. Me pergunto, porém, se era diferente quando você passava às vezes dias ao lado do laboratorista discutindo a ampliação de uma imagem, os contrastes, os cortes, etc., etc., etc. Sempre considerei o laboratorista um co-autor, ou pelo menos, um grande parceiro.

Portanto nesta colocação da pós-produção (hoje tudo é pós) também não vejo novidade nenhuma: do quarto escuro, para o quarto claro.  Mas estas são firulas!

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Coletivo Mondafoto – México

A questão é que estamos diante ou atravessando uma transformação na visualidade. Sempre defendi a idéia de que o digital iria transformar nossa forma de trabalhar, e mais nossa percepção, nossa forma de ver. E pelo que parece ou se lê de trabalhos acadêmicos ou se ouve em discussões de mesa de bar (em geral bem mais divertidas e eficientes) é isso que está acontecendo. Em 2004, a filósofa Dominique Baqué em seu livro “Photographie Plasticienne, l’ éxtrême contemporain”, escreveu: “… que a fotografia por ser um meio de comunicação de massa, como já havia bem definido Walter Benjamin, vai se revelar como um dos mais importantes fatores da desconstrução do mito modernista”, ou seja, da preservação da obra de arte da contaminação da indústria mediática. Numa sociedade pós-moderna onde vivemos “a reprodução da reprodução”, conforme Roland Barthes, ou do “simulacro” se preferirmos Baudrillard, me parece claro que muitos conceitos deferiam ou acabaria por ser re-definidos ou re-significados.

O fenômeno dos coletivos é, portanto conceitualmente e não na sua forma uma questão da pós-modernidade.  Por isso este evento é fundamental. O legal disso tudo é que o coletivo multimídia Garapa (que, por sinal, faz um trabalho muito bom, inteligente e com postura) estará fazendo a cobertura diária do evento. Já vale a pena ler a entrevista que fizeram com Claudi que coloca de forma muito precisa o que será discutido nestes dias.