Cidades vistas do alto, como maquetes

Olivio Barbieri queria ser cineasta.  Estudou pedagogia e comunicação e acabou se tornando fotógrafo. Inicialmente,  na década de 1970, se interessa mais pela fotografia antropológica, mas em seguida passa a fotografar arquitetura, meio ambiente e relação do homem com a cidade experimentando sempre diversas técnicas fotográficas.  A partir de 1978 começa a expor no mundo todo , participou três vezes da Bienal de Veneza e é considerado um dos expoentes da fotografia contemporânea italiana. Depois dos ataques do 11 de setembro iniciou uma série chamada Site Specific onde fotografou do alto várias cidades do mundo usando uma lente de foco seletivo (tilt-shift) que faz com que as cidades pareçam cenários de brinquedo. Olivo Barbieri vem ao Paraty em Foco falar deste seu trabalho. De Milão onde vive falou ao Estado por telefone.

O que irá apresentar aqui no Paraty em Foco?

Especificamente vou projetar minha série Site Specific que realizei em várias partes do mundo. É um projeto que iniciei em 2003 e continua até hoje. São vistas aéreas de várias cidades fotografadas com uma lente a foco seletivo que dá impressão de maquetes.

Esta série começou após os atentados de 11 de setembro. Por quê? No que o atentado lhe inspirou a fazer este trabalho.

Depois do atentado parece que todos os aviões ou “objetos voadores” passaram a ser vistos muitas vezes como uma ameaça. Tentei entender o que estava acontecendo e procurei registrar o mundo do alto a partir do ponto de vista do próprio objeto voador…

O fato de usar esta tecnologia, esta lente que transforma o que se fotografa em miniaturas que parecem brinquedos. Efeito este que é usado até pela publicidade, não leva ao risco de banalizar o trabalho. Ou seja, o efeito, o truque tecnológico se torna mais importante que o conceito

Isso é verdade. Corre-se este risco onde o efeito se torna mais importante.  Mas isso vale também para pintura. Você tem razão e agora, embora continue fotografando do alto estou mudando minha estética e a forma de fazer este registro.

Você queira ser cineasta, mas não foi atraído pelo fato do trabalho em equipe e afirmou em várias entrevista que prefere a solidão do trabalho de um fotógrafo. Por que é importante trabalhar sozinho?

Para mim é uma forma de liberdade, assim como a escrita.  Para ser escritor, em tese, basta uma caneta e um pedaço de papel. A fotografia te oferece as mesmas possibilidades. Você sai por aí com sua câmera e vai escolhendo o que fotografar e como fotografar. Como você bem disse, no início estava muito interessado pelo cinema e ainda gosto. Me assustava, porém a idéia de ter que interagir com várias pessoas.. Além disso, os tempos do cinema são muito longos, a fotografia é mais imediata.

Mas seu trabalho para ser realizado requer uma equipe e suas imagens relembram cenários construídos, assim como no cinema…

É verdade neste caso a produção é muito próxima do cinema e neste projeto também filmei muita coisa. As duas formas de linguagens continuam juntas. Ainda mais hoje em dia com as câmaras fotográficas que filmam com grande qualidade.

Fotografar e filmar são dois processos bastante diferentes entre si, embora nas câmaras estejam interligados. Vamos deixar de ser fotógrafos e virar cineastas?

Este é um risco que corremos. Fotografia e cinema hoje são feitos até com o uso de celulares. Praticamente hoje todos somos cineastas e fotógrafos. Mas isso não significa nada. Somos alfabetizados, mas não por isso somos escritores.  De qualquer forma a qualidade fotográfica tem diminuído muito.

Você costuma citar uma frase do fotógrafo norte-americano Man Ray :”fotógrafo o que não consigo pintar, pinto o que não posso fotografar”. Como vê hoje a fotografia contemporânea cada vez mais inserida em galerias e no mercado de arte internacional e muitas vezes negando ser fotografia e tentando ser pintura?

Hoje a fotografia virou “moda”. Todos se interessam pela fotografia, os museus as galerias e arte. Obviamente acabam por entrar em circulação projetos ou produtos nem sempre interessantes.  E como disse antes a tecnologia favoreceu muito este interesse e a produção de coisas não tão boas.  Parece que não existe mais um controle de qualidade. Podemos até dizer que este é um processo mais democrático e come menos filtros de pessoas que dizem o que devemos ou não ver. Mas quando falamos de arte, é claro que tivemos uma decadência. Até porque a fotografia é pouco ensinada nas escolas e nas faculdades, portanto falta esta cultura.

Os poemas visuais de José Manuel Ballester

A cidade que se desnuda

 Simonetta Persichetti,

ESPECIAL PARA O ESTADO – O Estado de S.Paulo

São Paulo. A arquitetura serviu como paisagem de fundo para as imagens de Ballester
A primeira visão maior que o fotógrafo espanhol José Manuel Ballester teve da cidade de São Paulo, em 2007, foi a vista do alto do Edifício Copan: “Duas coisas me marcaram, a vista do alto e o canto do passarinho bem-te-vi! São as primeiras lembranças que tenho.” Foi o que bastou para se encantar com a metrópole e realizar durante três viagens realizadas em 2007, 2008 e 2010, o ensaio Fervor da Metrópole, que apresenta na Pinacoteca de São Paulo. 

A ideia, na verdade, foi construída e pensada pelo curador e pesquisador de arte Juan Manuel Bonet, que já presidiu o IVAM e o Museo Reina Sofia. Foi ele, um apaixonado pelo Brasil, e mais, pela arquitetura moderna do País, que pensou no roteiro dos lugares a serem fotografados: “Precisávamos de um fio condutor”, nos conta ele, em entrevista na Pinacoteca. “Pensei então em fotografar a arquitetura modernista do fim dos anos 20 até os anos 70.” Mas isso foi apenas o início. A arquitetura serviu como paisagem de fundo para as imagens de Ballester, considerado um dos expoentes da fotografia contemporânea, que no Brasil é representado pela Dan Galeria, desde 2006. Juan Manuel Bonet, com Diógenes Moura, curador da Pinacoteca do Estado de São Paulo, assina a curadoria da mostra.

Vazio. Imagens em grande formato, espaços vazios, onde a natureza e a intervenção do homem se fazem presentes. Num primeiro momento, a um olhar menos acurado, seus registros nos remetem ao vazio industrial tão querido à escola da fotografia alemã. Num segundo momento, percebe-se a sutileza do olhar de Ballester. Espaços vazios, criados a partir de formas e volumes, além de sua sensibilidade, deixam claro a presença do humano. Apontam para suas marcas, sua passagem: “Somos, sou latino”, diz Ballester. Talvez se encontre mais próximo do fotógrafo canadense Robert Polidori. Mas também não, Polidori fotografa a degradação causada pelo homem, Ballester a construção, a comunhão do homem com a cidade que ergueu.

E assim, os prédios de Lina Bo Bardi, Rino Levi, Vilanova Artigas, Flávio de Carvalho, Oscar Niemeyer, foram sendo interpretados e revisitados pelo fotógrafo espanhol. Para realizar este ensaio, não bastou passear pelos lugares pré-selecionados pelo curador, Ballester, como um bom viajante andou e muito pelas ruas da cidade, munido de uma pequena câmara digital, com a qual também fotografava São Paulo. E é este mesmo olhar, flaneur, este átimo do instantâneo que ele tenta reproduzir nas suas imagens de grande formato: “O que me marcou nesta cidade, é que ela tem grande potencial, mas me parece adormecida, pronta para explodir. São Paulo é fascinante. Desde a primeira vez fiquei fascinado por ela.”

Fervor da Metrópole não é o primeiro ensaio de arquitetura, ou melhor, cidade, de Ballester. Ele já havia fotografado de modo similar a China e outros espaços urbanos ao redor do mundo. Formado em artes plásticas, acabou por se especializar em restauração de pinturas, em especial da escola italiana e flamenga.

Isso lhe trouxe o conhecimento técnico e ajudou-o a se aprofundar na criação de uma obra. E foi esta ideia que ele levou para a fotografia: “Descobri a fotografia na faculdade. Com o tempo me dei conta que ao pintar fotografava e o contrário também era verdadeiro”, explica ele. “Mas num determinado momento, comecei a ficar incomodado com o fato de a pintura ser muito lenta, pelo menos aquela que eu sabia fazer. Pintava um prédio e ele acabava mais rápido do que eu conseguia pintar. A fotografia foi uma escolha de me colocar no mundo contemporâneo.”

Sem alarde, Ballester encontrou o que muitos artistas hoje buscam e não sabem colocar em suas obras, somente com as palavras. “Sou um artista comprometido com o meu tempo. Fotografo com o olhar contemporâneo, por isso gosto desse neopictorialismo que estamos vivendo. Busco sempre um diálogo entre as duas linguagens que, embora bem distintas, não são tão separadas assim. Ambas são meios que utilizo.”

Em sua visão de mundo, não quis renunciar nem às possibilidades da pintura, nem às da fotografia. Procura captar a essência por meio da luz, venha ela por meio das cores pictóricas ou da construção fotográfica. Ele acredita que a vida é uma representação teatral e a cidade, a arquitetura, é o grande cenário desse teatro que vivemos: “A paisagem urbana nos dá pistas sobre a sociedade que a criou. É isso que me fascina, é isso que busco.” Ou como escreve, no texto de apresentação, Diógenes Moura: “José Manuel Ballester “criou” uma São Paulo integrada e em grandes formatos para propor um diálogo entre o que o pensador Claude Lévi-Strauss chama de antropologia urbana e a verdade real na vida de uma cidade diariamente desafiadora, caótica e em êxtase, imunda e atraente, agonizante e silenciosa.”

Surpresas. A cidade de Ballester não é a criação de uma paisagem, nem registro do que o surpreendeu, mas a tentativa de compreender e interpretar o que se lhe apresenta. “Uma coisa é o conhecimento, outra é o descobrimento. Conhecer um lugar no papel e depois me deparar com ele foi uma experiência completamente diferente e rica.”

Com suas fotografias, o espanhol construiu poemas visuais, nos apresenta uma cidade que muitas vezes não estamos dispostos a ver, ou a reconhecer, uma cidade que se desnuda de forma generosa para ele, ou talvez seja ele que consegue vê-la com generosidade. Cronista urbano, consegue mostrar o que para ele é a essência da fotografia: “Sensibilidade sem artifício.”

 

Flagrantes de duas cidades em transformação

Matéria  que saiu no Estadão de ontem

Fotos revelam São Paulo dos anos 30, feitas por Hildegard Rosenthal, e Buenos Aires no apogeu, por Horacio Coppola

Simonetta Persichetti, ESPECIAL PARA O ESTADO]

A cidade é sempre fascinante para olhares atentos. Um detalhe de uma janela, a fachada de um prédio, as pessoas que a habitam. Que dizer então quando olhares conseguem acompanhar o desenvolvimento e o crescimento dessas cidades que aos poucos, cada uma à sua maneira, vão se constituindo no hábitat, no centro das relações humanas, na certeza de pertencer a algum lugar.
Com esse intuito, as imagens de dois fotógrafos que na mesma época registram, ou melhor, retratam cada um ao seu modo duas importantes cidades da América Latina: São Paulo e Buenos Aires. Uma fotógrafa alemã que descobre um novo lugar, Hildegard Rosenthal (1913-1990), considerada uma das pioneiras do fotojornalismo brasileiro, e Horacio Coppola (1906), que documenta sua cidade natal, Buenos Aires, no momento de seu apogeu, quando ela se constitui da maneira como a conhecemos hoje.
Imagens diversas, que se distinguem na intencionalidade, mas se reencontram na forma: visões que procuram entender a cidade, a metrópole que começa a se apresentar à sua frente. Em São Paulo, a cidade vista por uma fotógrafa alemã que chega ao Brasil nos anos 30 fugindo do nazismo e já fotógrafa de profissão. Ao chegar aos poucos, até como forma de conhecer a cidade, ela começou a fotografá-la, a desvendá-la procurando ângulos inusitados, curvas, linhas, geometria. Não à toa, percebe-se em suas imagens influência da escola alemã Bauhaus. Mesmo assim, em seu olhar curioso, o retratar a cidade vai se desvendando, chamando sua atenção para o não conhecido, mas sem ser exótico. A câmara fotográfica como forma de conhecer, de se aproximar e, por que não dizer, de integração social. Uma São Paulo dos anos 1930, uma São Paulo da garoa, da moças comendo melancia no meio da rua, dos bondes, dos senhores engravatados, dos trabalhadores. Uma cidade em construção, uma metrópole que está por vir. Um olhar livre de uma fotojornalista que, sem pretensão nenhuma, procura trazer uma centelha de novidade ao que os nossos olhos estão habituados a ver. Não um registro oficial, mas um olhar jornalístico sem deixar de lado uma forma poética do descobrimento.
Conversando com as imagens de Hildegard, o também fotojornalista Horacio Coppola fotografa sua cidade natal. Se ele não tem o descortinar do desconhecido, tem a vontade de mostrar ângulos inusitados que fogem ao déjà vu. O momento no qual Buenos Aires cresce e se coloca como cidade. Assim como sua colega, Coppola também registra a presença humana, já que sem ela a cidade não existe. As vitrines, os outdoors, o homem transformando e sendo transformado pela cidade. O fotógrafo que registra aquele momento que é seu, único e poético. Que deixa inscrita sua visão particular, seu retrato de uma cidade.
Os dois têm em comum sua influência da escola alemã da Bauhaus, uma escola que procurava encontrar novas significações para o já conhecido. Os dois têm trabalhos semelhantes, aliás magistralmente representados nos dois livros publicados pelo Instituto Moreira Salles: o do Horário Coppola, Visões de Buenos Aires, lançado em 2007, e Metrópole, de Hildegard Rosenthal, lançado na abertura da exposição, no dia 20.
Um olhar que ainda acompanha as vanguardas artísticas do início do século 20, que procuram quebrar os cânones do estabelecido e nos ajudam a ver o mesmo sob um novo ângulo. Sim, existe uma influência do novo olhar nas imagens de Hildegard Rosenthal e Horacio Coppola, mas existe uma influência visível da escola de um fotógrafo francês do início do século 20, Eugene Atget (1856-1927), parisiense que fotografou as ruas de Paris e talvez tenha sido o primeiro fotógrafo a olhar a rua não como registro, mas como cenário de uma história. Atget quase nunca fotografava a presença humana, diferença com os dois fotógrafos da exposição, mas foi sem dúvida ele, Atget, que iniciou a fotografar o banal, o não fotografável, o cotidiano, as cenas que aparentemente não mereceriam sem imortalizadas. Horacio Coppola e Hildegard Rosenthal seguem essa escola. O nome da exposição: Profissão: Fotógrafo não poderia ser mais acertado. Um olhar que ainda não cedeu ao espetáculo, à banalização da imagem, à estética que supera o conteúdo. É um olhar que quer narrar, e por isso mesmo se encontra na forma, mesmo que respeitando suas diferenças de entender e compreender o fazer fotográfico.

Serviço
Profissão: Fotógrafo. Museu Lasar Segall. R. Berta, 111, Vila Mariana, tel. 5574-7322. De 3.ª a sáb., das 14 h às 19 h; dom. e feriados, das 14 h às 18 h. Até 4/4

Morar, moradias! Uma exposição sobre os edifícios São Vito e Mercúrio

 

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Crédito: Antonio Brasiliano

A exposição Habite-se  reúne, pela primeira vez, olhares de diversos artistas sobre o cotidiano dos ex-moradores dos edifícios São Vito e Mercúrio, localizados na região central de São Paulo. Vídeos e fotos mostram a transformação dos dois prédios, que já foram densamente habitados mas que hoje aguardam vazios por um destino comum. Todos os projetos podem ser vistos agora juntos, sob a curadoria de Rita Toledo Piza. As fotos, instalações em vídeo e cenografia recriam, dentro da galeria, elementos do cotidiano dos dois edifícios, com um resultado surpreendente. Com 26 andares, os compridos corredores de ambos os prédios, reuniam a multiplicidade de tipos de São Paulo, com pessoas das mais diferentes origens, profissões e credos. A exposição traz o trabalho da documentarista Camila Mouri, que passou doze meses em visitas quase diárias ao Edifício São Vito, entre 2003 e 2004. Na época, ela convidou alguns fotógrafos a participarem do projeto e registrarem o cotidiano e as inseguranças dos moradores prestes a deixarem suas casas. No final do ano passado, foi a vez do coletivo de fotógrafos Garapa  investigar o vizinho Mercúrio.

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Crédito: gUi Mohallem

SOBRE O SÃO VITO E O MERCÚRIO Os dois prédios fazem parte da história do centro de São Paulo, e são ícones do processo de desenvolvimento urbano da cidade. Construído em 1959, o São Vito ficou conhecido como o mais famoso “treme-treme” da capital, chegando a ter mais de três mil moradores. Em 2004, foi desapropriado pela prefeitura, como parte de um projeto de revitalização do centro. Quatro anos depois, o Mercúrio, prédio vizinho e geminado ao São Vito, passou pelo mesmo processo. O prédio foi desapropriado e os seus quase 500 moradores foram retirados até o início deste ano. Apesar do intervalo de quatro anos, o processo de desapropriação de ambos os prédios é muito parecido. A história pessoal de cada morador se misturou a uma grande questão, comum a todos: o que fazer quando se é obrigado a deixar para trás a sua própria casa e ter que recomeçar de novo?

SERVIÇO  Habite-se Local: Galeria Olido, 1o. andar. Duração: 15 de abril a 30 de maio. Horários: ter. a sex. das 12h às 20h30; sáb., dom. e feriados das 13h às 20h30 Entrada Franca.

EQUIPE Fotografias  gUi Mohallem,  Leo Caobelli / Garapa, Rodrigo Marcondes / Garapa ,Paulo Fehlauer / Garapa Antonio Brasiliano ,Fabiano Cerchiari ,Vídeos Camila Mouri Garapa Cenografia Veronica Arias Produção Camila Mouri Curadoria Rita Toledo Piza

Encontros com a Fotografia

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Crédito fotos: Eustáquio Neves, Paula Sampaio, Alberto Bittar, Dirceu Maués, Luiz Braga, Miguel Chikaoka.

A caravana Fnac continua na estrada. Continuamos o projeto Encontros com a Fotografia, (leia aqui).  Acabamos de voltar de Diamantina, onde entrevistamos o Eustáquio Neves; Brasília, onde encontramos com o Patrick Grosner, em seguida fomos para a maravilhosa cidade de Belém no Pará, para entrevistar, Luiz Braga, Alberto Bittar, Dirceu Maués, Paula Sampaio e Miguel Chikaoka .  Na próxima semana estaremos em Salvador e Juazeiro no Norte. Em breve colocarei no ar alguns vídeos do making off destas jornadas. Aguardem!

 

Belo encontro!

Tuca Vieira, fotógrafo da Folha de São Paulo entrevistou Cristiano Mascaro, que para o Caderno Mais, fez seu primeiro ensaio em digital. A história nasceu depois do texto do Mascaro “Ave Leica” (leia aqui), um dos textos mais comentados em vários blogs. Hoje, no Caderno Mais, belo texto do Tuca. Com autorização do autor reproduzo aqui.

Paulista, avenida por Cristiano Mascaro

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Usando uma câmera digital, fotógrafo clica a via que melhor simboliza são paulo, que está fazendo 455 anos

TUCA VIEIRA
REPÓRTER FOTOGRÁFICO

Quem se dispusesse a percorrer o centro de São Paulo nos anos 1980 correria o risco de encontrar uma solitária figura de barba cheia, tripé nos ombros, mochila nas costas, olhando as sombras alongadas da primeira hora da manhã.
Em cima do tripé provavelmente estaria uma câmera sueca da marca Hasselblad parecida com a que foi à Lua. E dentro da mochila encontraríamos rolos de película fotossensível, dessas que passam por banhos de bórax e sulfito de sódio.
Cristiano Mascaro se lembra de quando “saía de casa antes do amanhecer, com os faróis do carro ainda ligados”, como se tivesse um encontro marcado com a luz no centro de São Paulo. São dessa época algumas das mais importantes imagens da fotografia brasileira.
Quem se dispusesse a percorrer a Avenida Paulista, na tarde da última segunda-feira, encontraria essa mesma figura com a barba já branca, o mesmo tripé nos ombros e a mochila que deixava marcas de suor na camisa.
Mascaro aceitou o convite da Folha para fotografar a Paulista, asfaltada há cem anos: “Nunca vi comemorar asfaltamento de rua, mas tudo bem”. É seu primeiro ensaio fotográfico com câmera digital.

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Do centro velho para a Paulista, muita coisa mudou. Em cima do tripé, “um trambolho de 22 botõezinhos e 21,5 megapixels”; dentro da mochila, um “estojo de maquiagem” onde guarda os cartões de memória.
Mascaro foi motivo de polêmica depois que publicou um artigo no Mais!(de 21/12) em homenagem a Cartier-Bresson, em que lamentava o desuso das técnicas tradicionais.
O artigo circulou pela internet, e Mascaro foi chamado de mestre por uns e antiquado por outros. “Eu só quis fazer uma homenagem a uma época da fotografia que não pode ser apagada. Quero ter o direito de sentir saudade.”
Entre curiosidade e ceticismo, Mascaro vai se entregando à novidade mais por necessidade do que por paixão. “É como tirar um pé de uma canoa para colocar noutra”, define.

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A fotografia é sobretudo uma aventura humana: “A fotografia te levava a conhecer as pessoas. O trabalho de campo passou a ser trabalho de gabinete. Tenho saudades de bater na porta do laboratório. Como vou fazer agora sem tomar café com a Rosangela, que revelou meus filmes por 20 anos?”.
Mudam os tempos, muda a cidade, mas o olhar do fotógrafo permanece. Mascaro veio “tratar” as imagens (como se diz a respeito da pós-produção digital) e não havia nada para ser tratado. Suas fotos digitais, como numa prancha de contatos, precisam de ajustes mínimos de contraste e só.
Aos 64 anos, ele se renova: “Instalei um Photoshop CS4 e comprei um livro passo-a-passo, agora ninguém me segura!”. Parece surgir um novo fotógrafo, 30 anos à nossa frente.