Pierre Jahan, fotógrafo surrealista e de publicidade

Uma das exposições que mais gostei em Arles, foi a do fotógrafo francês Pierre Jahan (1909-2003) um dos expoentes da fotografia surrealista e da fotografia publicitária. Para os que ainda (sic!) tem preconceitos em relação à fotografia publicitária  e/ou de moda, lembro que os primeiros fotógrafos destas modalidades foram justamente os pictorialistas, dadaístas, surrealistas. Ou seja, aqueles que acreditavam na fotografia construída, pensada e os que queriam dar à fotografia o status de expressão autônoma. A exposição foi montada no Musée Réattu, que conserva algumas obras do autor.

Pierre, não quis se ligar a grupo nenhum e andou com total liberdade – coisa aliás comum naquela época – nas mais variadas linguagens fotográficas: fotógrafo surrealista, publicitário e até fotojornalista. Para lembrar uma de suas imagens foi exposta no MAM-SP, na mostra “Olhar e Fingir”.

Mas o que mais me chamou a atenção foi seu trabalho publicitário. Era o início desta linguagem fotográfica que – como já disse acima – estava ligada muito ao surrealismo, já que foram eles ou este movimento que percebei que a fotografia era índice, era rastro, mas que convencia graças ao fato de estar colada em seu referente.  Lindas e sensuais suas fotos sobre o nú, sobre o amor. Imagens estas que foram usadas para ilustrar um poema de Jean Cocteau. Começou a fotografar nos anos 30, época em que chegou a Paris, cidade onde morou a vida toda. Independente, fotografava por prazer. Livre, fez sempre o que quis. Apaixonado pela experimentação, ousou sempre que pode. Defensor dos direitos dos fotógrafos ajudou na fundação da Federação Francesa da Associaçãos dos Fotógrafos.

 

 

Imagens contam uma década de história

Clube de Colecionadores do MAM abre exposição no seu aniversário

 

Simonetta Persichetti – O Estado de S.Paulo

   

De Thomaz Farkas. Da década de 40, registro simples e revelador da infraestrutura de uma São Paulo em transformação

            Na última década, uma efervescência vem tomando conta do mercado fotográfico de forma geral. O tema está sempre na pauta das discussões sobre a arte contemporânea, festivais têm se multiplicado pelo Brasil e nossa produção cresce em progressão geométrica, assim como as coleções representativas em vários museus. 

O Clube de Colecionadores de Fotografia do MAM (Museu de Arte Moderna de São Paulo) é prova disso. Criado em 2000 pelo então curador do museu Tadeu Chiarelli, que já havia formado o Clube de Colecionadores de Gravura, e pela curadora-assistente Rejane Cintrão, ele só tem crescido. Já tem 55 obras e uma fila de espera para poder se associar. Para comemorar os dez anos do clube, o MAM organizou uma exposição, que será aberta hoje para convidados, na qual é possível acompanhar a trajetória da fotografia brasileira por meio de trabalhos de profissionais como Claudia Andujar, Maureen Bisilliat, Thomaz Farkas, German Lorca, Fernando Lemos, Luiz Braga, Rafael Assef, Rosângela Rennó, só para citar alguns nomes.

Como a finalidade da instituição é incentivar no Brasil o hábito de colecionar fotografias, antes da abertura da mostra haverá a palestra Ciclo de Colecionismo do Programa de Sócios MAM-SP, com mediação do curador Eder Chiodetto e participação de Tadeu Chiarelli e de Antonio Luiz, um dos primeiros associados do clube e colecionador de imagens.

Desde o início, a proposta foi a de representar uma produção mais experimental que se inicia no Brasil a partir dos anos 1990: “Este momento é, na verdade, uma retomada do experimentalismo trazido por profissionais como German Lorca, Thomaz Farkas e Geraldo de Barros, no fim da década de 1940 e início de 1950”, explica em entrevista ao Estado Eder Chiodetto, que desde 2006 é o curador do clube coordenado por Fátima Pinheiro. Momento em que a fotografia paulista quebra com as regras vigentes da produção muito mais ligada a uma corrente pictorialista e inaugura no País a era moderna do setor.

Nos anos 1960, porém, o registro experimental perde espaço para o fotojornalismo crescente que, durante 20 anos, foi a linguagem principal da fotografia brasileira: “Fora exceções pontuais, a fotografia nacional atravessou um período de aproximadamente 20 anos distante do universo das artes plásticas. A guinada mais efetiva nessa direção se deu após o processo de abertura política, iniciado na metade dos anos 1980, que ajudou a fomentar um clima de diálogo com outras culturas, pautado por novas possibilidades de expressão e de representação, nas quais os artistas se voltaram para temas mais ligados a questões existenciais e subjetivas, em substituição às abordagens sociopolíticas”, recorda Chiodetto.

Com o mercado de colecionadores de fotografia em alta, o curador do clube dividiu a coleção em cinco frentes de pesquisas, numa forma não de catalogação, mas de mapear a diversidade da produção: Identidade Nacional, Documental Imaginário, Limites/Metalinguagem, Retrato/Autorretrato e Vanguardas Históricas.

Num momento em que voltam à tona discussões sobre o fazer fotográfico, diante da maciça presença de câmeras fotográficas em todos os eventos mundiais, dos debates sobre a banalização da imagem e o papel do fotógrafo, o clube parece que aponta exatamente para o lado oposto: “O crescente interesse pela fotografia se dá porque, com medo da banalização, as pessoas começaram a se interessar por essa arte e querem conhecer as suas diversas possibilidades narrativas”, acrescenta Eder Chiodetto. Nesse processo, uma exposição e um debate ajudam a explicar o caminhos dessa arte.

Os poemas visuais de José Manuel Ballester

A cidade que se desnuda

 Simonetta Persichetti,

ESPECIAL PARA O ESTADO – O Estado de S.Paulo

São Paulo. A arquitetura serviu como paisagem de fundo para as imagens de Ballester
A primeira visão maior que o fotógrafo espanhol José Manuel Ballester teve da cidade de São Paulo, em 2007, foi a vista do alto do Edifício Copan: “Duas coisas me marcaram, a vista do alto e o canto do passarinho bem-te-vi! São as primeiras lembranças que tenho.” Foi o que bastou para se encantar com a metrópole e realizar durante três viagens realizadas em 2007, 2008 e 2010, o ensaio Fervor da Metrópole, que apresenta na Pinacoteca de São Paulo. 

A ideia, na verdade, foi construída e pensada pelo curador e pesquisador de arte Juan Manuel Bonet, que já presidiu o IVAM e o Museo Reina Sofia. Foi ele, um apaixonado pelo Brasil, e mais, pela arquitetura moderna do País, que pensou no roteiro dos lugares a serem fotografados: “Precisávamos de um fio condutor”, nos conta ele, em entrevista na Pinacoteca. “Pensei então em fotografar a arquitetura modernista do fim dos anos 20 até os anos 70.” Mas isso foi apenas o início. A arquitetura serviu como paisagem de fundo para as imagens de Ballester, considerado um dos expoentes da fotografia contemporânea, que no Brasil é representado pela Dan Galeria, desde 2006. Juan Manuel Bonet, com Diógenes Moura, curador da Pinacoteca do Estado de São Paulo, assina a curadoria da mostra.

Vazio. Imagens em grande formato, espaços vazios, onde a natureza e a intervenção do homem se fazem presentes. Num primeiro momento, a um olhar menos acurado, seus registros nos remetem ao vazio industrial tão querido à escola da fotografia alemã. Num segundo momento, percebe-se a sutileza do olhar de Ballester. Espaços vazios, criados a partir de formas e volumes, além de sua sensibilidade, deixam claro a presença do humano. Apontam para suas marcas, sua passagem: “Somos, sou latino”, diz Ballester. Talvez se encontre mais próximo do fotógrafo canadense Robert Polidori. Mas também não, Polidori fotografa a degradação causada pelo homem, Ballester a construção, a comunhão do homem com a cidade que ergueu.

E assim, os prédios de Lina Bo Bardi, Rino Levi, Vilanova Artigas, Flávio de Carvalho, Oscar Niemeyer, foram sendo interpretados e revisitados pelo fotógrafo espanhol. Para realizar este ensaio, não bastou passear pelos lugares pré-selecionados pelo curador, Ballester, como um bom viajante andou e muito pelas ruas da cidade, munido de uma pequena câmara digital, com a qual também fotografava São Paulo. E é este mesmo olhar, flaneur, este átimo do instantâneo que ele tenta reproduzir nas suas imagens de grande formato: “O que me marcou nesta cidade, é que ela tem grande potencial, mas me parece adormecida, pronta para explodir. São Paulo é fascinante. Desde a primeira vez fiquei fascinado por ela.”

Fervor da Metrópole não é o primeiro ensaio de arquitetura, ou melhor, cidade, de Ballester. Ele já havia fotografado de modo similar a China e outros espaços urbanos ao redor do mundo. Formado em artes plásticas, acabou por se especializar em restauração de pinturas, em especial da escola italiana e flamenga.

Isso lhe trouxe o conhecimento técnico e ajudou-o a se aprofundar na criação de uma obra. E foi esta ideia que ele levou para a fotografia: “Descobri a fotografia na faculdade. Com o tempo me dei conta que ao pintar fotografava e o contrário também era verdadeiro”, explica ele. “Mas num determinado momento, comecei a ficar incomodado com o fato de a pintura ser muito lenta, pelo menos aquela que eu sabia fazer. Pintava um prédio e ele acabava mais rápido do que eu conseguia pintar. A fotografia foi uma escolha de me colocar no mundo contemporâneo.”

Sem alarde, Ballester encontrou o que muitos artistas hoje buscam e não sabem colocar em suas obras, somente com as palavras. “Sou um artista comprometido com o meu tempo. Fotografo com o olhar contemporâneo, por isso gosto desse neopictorialismo que estamos vivendo. Busco sempre um diálogo entre as duas linguagens que, embora bem distintas, não são tão separadas assim. Ambas são meios que utilizo.”

Em sua visão de mundo, não quis renunciar nem às possibilidades da pintura, nem às da fotografia. Procura captar a essência por meio da luz, venha ela por meio das cores pictóricas ou da construção fotográfica. Ele acredita que a vida é uma representação teatral e a cidade, a arquitetura, é o grande cenário desse teatro que vivemos: “A paisagem urbana nos dá pistas sobre a sociedade que a criou. É isso que me fascina, é isso que busco.” Ou como escreve, no texto de apresentação, Diógenes Moura: “José Manuel Ballester “criou” uma São Paulo integrada e em grandes formatos para propor um diálogo entre o que o pensador Claude Lévi-Strauss chama de antropologia urbana e a verdade real na vida de uma cidade diariamente desafiadora, caótica e em êxtase, imunda e atraente, agonizante e silenciosa.”

Surpresas. A cidade de Ballester não é a criação de uma paisagem, nem registro do que o surpreendeu, mas a tentativa de compreender e interpretar o que se lhe apresenta. “Uma coisa é o conhecimento, outra é o descobrimento. Conhecer um lugar no papel e depois me deparar com ele foi uma experiência completamente diferente e rica.”

Com suas fotografias, o espanhol construiu poemas visuais, nos apresenta uma cidade que muitas vezes não estamos dispostos a ver, ou a reconhecer, uma cidade que se desnuda de forma generosa para ele, ou talvez seja ele que consegue vê-la com generosidade. Cronista urbano, consegue mostrar o que para ele é a essência da fotografia: “Sensibilidade sem artifício.”

 

Imagens sem Fronteiras

Este texto não é novo. Saiu no Caderno 2 do Estadão no final do ano passado, mais precisamente no dia 28 de dezembro. Eu mesma, só vi o texto quando voltei ao Brasil. Mesmo assim eu gostei e acho que vale a pena transcrevê-lo aqui já que é uma análise dos eventos fotográficos do ano passado. Portanto lá vai:

O reconhecimento do valor cultural da fotografia é algo ainda relativamente novo no campo das expressões e das ciências humanas. Tratada muitas vezes como suporte, como estudo, ela se viu transformada nos últimos anos em protagonista e também matéria-prima do fazer e das discussões em relação à imagem contemporânea.

Neste ano, pudemos ver isso de forma prática e não apenas na literatura ou nos campos acadêmicos. Nos últimos 20 anos, tem sido foco de discussão e reapresentação ou ressignificação de sua própria ontologia. Isso fica evidente quando ela – que sempre fez parte dos acervos museológicos como ferramenta objetiva ou de informação da modernidade – passa a fazer parte das galerias, das feiras de arte, como expressão que não representa, mas apresenta conceitos e significados que vão além da superfície bidimensional.

Dessa forma, pudemos apreciar exposições que retomaram o que se considera a imagem clássica como a do mestre da fotografia francês Henri Cartier-Bresson (1908-2004), reconhecido por suas imagens jornalísticas, mas que apresentadas como retrospectiva do autor – e pela sua própria edição – provaram muito mais a evolução de seu olhar, do seu pensamento imagético, do que propriamente uma narrativa de mundo. O mesmo pode ser dito da exposição de retratos de fotojornalistas do Estado, que inaugurava a entrada da SP-Arte/Foto, evento que reuniu 17 galerias e mais de 300 imagens. Os retratos, editados pelo jornalista Antonio Gonçalves Filho, privilegiavam o olhar autoral de cada artista, ou, melhor dizendo, repórter-fotográfico, na citação clara de que pensar que fotojornalismo não tem estética é mais uma falácia em torno da pequena-grande história da fotografia. Outra mostra que trouxe à tona essa discussão é a de Walker Evans (1903-1975), conhecido por seu trabalho durante a depressão americana da década de 1930.

Pensar a fotografia como objeto e não como ferramenta, obviamente não é novo, nem fruto do século 21. Considerada a expressão moderna por excelência, foi tomada de assalto pelos artistas vanguardistas, das primeiras décadas do século 20, que dela se apropriaram justamente por causa de sua funcionalidade, e aqui devemos destacar, com mais ênfase, dadaístas e surrealistas. As questões hoje são outras, falar da funcionalidade da fotografia já se tornou uma não-questão. Mas outras problemáticas acabam surgindo como a da sociedade do entretenimento, na qual quase todas as imagens se destacam não pelo seu conteúdo, mas por uma estética vazia, que transforma imagens em espetáculo no que de pior tem esta palavra.

E embora tenhamos visto excelentes mostras neste ano, a quantidade de fotos em cada uma – 150, 200, 300 – demonstra uma vontade de assombrar sem nada acrescentar. Caso por exemplo da exposição de Vik Muniz, uma mostra midiática em que se confunde o fazer artístico com o fazer espetáculo. Grandes produções, belos shows. Na contramão desse tipo de evento, no Itaú Cultural, a mostra A Invenção de Um Mundo, recorte do acervo da Maison Européenne de la Photographie, com curadoria de Eder Chiodetto e Jeal-Luc Monterosso, nos apresenta a imagem contemporânea pensada a partir da subjetividade de seu autor. A escolha dos curadores, bastante definida e dirigida, nos exibe artistas que por parábolas e metáforas acabam por questionar essa falta de profundidade a que temos assistido repetidamente. Como se a fotografia, ou a imagem, se bastasse por si. Seguindo essa linha da reflexão cognitiva e não do reflexo-espelho, tivemos as imagens de Robert Polidori, fotógrafo canadense trazido ao Brasil pelo Instituto Moreira Salles. E adota o grande formato como uma forma de evidenciar a passagem do tempo. Suas fotografias trazem as marcas do caos urbano causado pelo homem ou pela natureza.

Mas não foi só nas exposições que a fotografia foi protagonista neste ano. Na área editorial também houve belas publicações. Ainda pelo Instituto Moreira Salles, tivemos os belos livros de Maureen Bisilliat e Marcel Gautherot (1910-1996). A Companhia das Letras publicou o Elogiemos os Homens Ilustres, uma matéria elaborada pelo jornalista James Rufus Agee e pelo fotógrafo Walker Evans. Outro ponto alto do ano para o segmento foram, sem dúvida, os festivais em Porto Alegre, Rio, São Paulo e Paraty, onde a discussão se fez presente nas várias entrevistas com autores de estéticas completamente diferenciadas.

Mas se tudo foi brilho neste ano para a fotografia aqui no Brasil, tivemos também duas perdas bastante relevantes. Morrem Otto Stupakoff (1935-2009), o primeiro fotógrafo de moda brasileiro que fez vida e carreira nos Estados Unidos, mas havia retornado ao Brasil; e Mario Cravo Neto (1947-2009), um artista que sempre se destacou pela força de seu trabalho, retratando de forma bastante singular a cultura brasileira, em especial, a baiana. Otto teve bela exposição organizada pelo IMS e Mario Cravo Neto, a mostra Eternamente Agora: Um Tributo a Mario Cravo Neto, com curadoria de Paulo Herkenhoff e Christian Cravo.

Foi um ano de pensar a fotografia, de discutir as imagens sem impor barreiras ou fronteiras. Um ano que parece ser a preparação para uma nova década que se inicia não só no fazer, mas, acima de tudo, no pensar a fotografia. O espaço conseguido parece ser irreversível. Cada vez mais ouviremos falar sobre ela.

Mar e Mata

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Hoje à noite no Museu Oscar Niemeyer, às 19h. em Curitiba, João Urban, lança seu livro Mar e Mata. Ele me convidou para escrever um dos textos do livro. Quem estiver por Curtiba, vá. Quem não estiver, leia meu texto abaixo para saber do que se trata.

Assim como as pessoas, a paisagem também tem memória. Pelo menos é isso que o professor e critico de arte inglês, Simon Schama, defende quando diz que: “uma árvore não é apenas uma árvore. A natureza não é algo anterior à cultura e independente da história de cada povo. Em cada árvore, cada rio, cada pedra, estão depositados séculos de memória. Mesmo hoje, num mundo urbano invadido pela ciência e pela técnica, podemos constatar a sobrevivência de mitos que, vez ou outra, emergem com toda a força primitiva no cotidiano das pessoas”. O que o professor teoriza podemos ver na prática das imagens de João Urban. Neste seu ensaio ele não registra os lugares como se fosse apenas um mero espectador, ele deixa que os lugares falem, silenciem se tornem maior do que a câmara, do que a lente, do que o olho do fotógrafo. Não que não se perceba o estilo e a capacidade de compreensão do Urban, mas ao passarmos os olhos por estas imagens, percebemos a generosidade do autor que se cala frente ao silêncio do momento.

João Urban é um fotógrafo essencialmente documental. Seus olhos, suas imagens contam histórias, ele traduz em fotografias as narrativas de um povo que vive o ambiente do litoral do Paraná. Como ele mesmo diz: “os diferentes ambientes que se entrelaçam em suas bordas e se complementam”.

Neste ensaio aqui apresentado, João Urban, tão silencioso quanto suas imagens, flutua nestes ambientes nos trazendo, ou melhor, nos convidando a compreender dentro de um contexto sócio-histórico a história e a cultura desta população que vive nestes ambientes naturais.

Fiel à sua estética documentária, João Urban, nos pontua, nos assinala e dirige com a luz de seu olhar o que devemos ver, o que vale a pena observar. Ele não denuncia, não pontifica, mas com esta suas imagens, sutis e gentis, nos obriga a uma reflexão profunda sobre a existência, sobre o meio ambiente, sobre nossa responsabilidade com este mundo arcaico.

Não é um ensaio predador, mas um estudo de mais de vinte anos, observando, apreendendo o que esta população, o que esta paisagem natural tem a nos oferecer.

Ao escolher dividir em capítulos este ensaio, ele seleciona as melhores características de cada coisa, de cada lugar. Retrata a paisagem como se estivesse fotografando pessoas, retrata pessoas inserindo-as no seu meio ambiente, mostrando como vivem e sobrevivem em comunhão com o local que habitam. Mostra integração de respeito à natureza, mas também de respeito aos rituais e festas religiosas que fizeram desta gente ser o que é.

 

João Urban é um fotógrafo forjado na antiga forma da fotografia: não se encanta – pelo simples encantar – com tecnologia, sabe que a fotografia é uma forma de comunicação, de mostrar, de conversar. Sempre foi assim, em todos os seus ensaios. A imagem como forma de integração, de narrativa. Um contar proustiano, onde cada história se integra na outra, onde cada retrato, cada onda, cada barco nos remete a uma infinidade de lembranças, de sons e de cheiros.  Em cada imagem, cada coisa, cada pessoa tem seu lugar de importância.

João Urban em o Mar e Mata nos reconduz a um olhar mítico, que indaga e dúvida e nos recoloca à antiga questão filosófica: quem somos? E para onde vamos?

Deserto de Real

convite-pessoal-1É o nome da exposição que Milla Jung abre hoje em Curitiba. Um ensaio que desenvolveu por meio da Bolsa produção Artes Visuais da Fundação Cultural de Curitiba. Suas imagens podem ser vistas  no Museu da Fotografia no Centro Cultural Solar do Barão. Há tempos Milla, estuda e se se aprofunda no fazer fotográfico. Além disso sempre se preocupou com a discussão em torno da fotorafia e por isso criou o NEF (Nucleo de Estudos da Fotografia). Agora está finalizando seu mestrado, onde o tema é sempre a fotografia.

Pesquisando imagens

mam1Com este tema inicio a temporada de cursos no MAM. Com a divulgação da informação via internet, os bancos de dados têm se tornado grandes aliados dos jornalistas, dos jornais e das editoras de revistas, livros e publicações didáticas. Ser um pesquisador iconográfico pode parecer simples, mas requer uma formação sólida para que a escolha de uma imagem seja adequada.Este workshop começa agora, na próxima terça-feira, dia 10 e vai até sexta, dia 13. Durante 4 dias, vamos dscutir o que é uma pesquisa iconográfica, a história das coleções e do colecionismo e a forma mais apropriada para pensar a imagem como ilustração e/ou informação.

Saiba mais aqui.

Mais uma matéria minha no Estadão de hoje

França e Brasil: trocando ”figurinhas”

pierre-verger

 
História e memória do e sobre o Brasil serão os eixos da exposição que entre abril e junho do próximo ano estará na Pinacoteca durante a programação do ano França no Brasil. Pensada e elaborada por Diógenes Moura, curador da Pinacoteca, em parceria com a CulturesFrance e o Consulado Geral da França de São Paulo, a exposição pretende ser um bate-papo entre os diversos artistas selecionados: “Como se eles estivessem numa mesa de bar trocando fotografias entre eles”, exemplifica Diógenes.

O primeiro eixo, histórico, será composto pelas imagens de Pierre Verger, Marcel Gautherot, Jean Manzon e Claude Lévi-Strauss, três franceses que têm em comum o fato de terem vivido no Brasil e registrado o País do ponto de vista humanista, do cotidiano da arte e religiosidade. Nas palavras do curador, o antropólogo Claude Lévi-Strauss (1908) aparece como uma epígrafe da mostra, visto que, enquanto seus conterrâneos terão a oportunidade de mostrar seu olhar com 30 imagens, o antropólogo, um dos fundadores e professores da USP, onde lecionou sociologia de 1935 a 1939, aparece com poucas imagens: “É apenas uma pontuação. Poucas e eficientes imagens.”

Isso se deve ao fato de os três primeiros terem – em épocas, momentos e intencionalidades diferentes – fotografado os mesmos lugares. Coincidentemente, os três autores tiveram suas fotografias publicadas na revista O Cruzeiro numa época em que essa publicação era o sonho de vários fotógrafos e ajudou a criar entre nós a idéia do que era realmente a estética fotojornalística.

Jean Manzon (1915-1990), mais que seus colegas, foi determinante para trazer para o Brasil a modernização do fotojornalismo que nos anos 40 ainda engatinhava entre nós. Devemos a ele – que na Europa já havia trabalhado para as mais importantes revistas ilustradas da época, como por exemplo, a Paris Match – a introdução das câmeras mais ágeis para o trabalho do repórter, e trouxe também o respeito e o reconhecimento da profissão.

Já Marcel Gautherot (1910- 1996) chega ao Brasil em 1939. Na França, ele estava ligado à antropologia visual, sendo um dos responsáveis, em 1936, pela criação do Musée de L?Homme, em Paris. No Brasil, seu interesse se voltou sobretudo para o folclore, arquiteturas e festas brasileiras. Alguns desses seus trabalhos foram publicados na revista O Cruzeiro.

A vida e a obra de Pierre Verger (1932-1996) é há muito nossa conhecida. Seus estudos e viagens sobre o homem, que o levaram a percorrer de 1932 a 1946 o mundo todo, são bastante conhecidos. Desembarca no Brasil em 1946, mais precisamente na Bahia, pela qual – como não podia ser diferente – se encanta e onde decide se estabelecer pelo resto de sua vida. Procurou conhecer em detalhes a vida dos descendentes africanos, seus ritmos, sua religiosidade. Para tanto, durante anos fez a ponte aérea África-Brasil. Em 1948, passou a se dedicar ao estudo do candomblé. E foi na África, onde também estudou a religiosidade, que em 1953 recebeu o título de Fatumbi “nascido de novo graças ao Ifá”.

São essas visões de Brasil, dos marinheiros no porto, dos cultos e do cotidiano, que ele também registra e publica: “Esses nomes, com um período de atuação que atravessa as décadas de 1940 e 1980, reafirmam a importância e a sensibilidade de como um olhar estrangeiro seria incorporado aos mais diferentes temas da nossa cultura, podendo traduzi-la num documento sem precedentes para o entendimento da fotografia no Brasil”, conta o curador. A foto como descoberta do mundo.

Para que esta conversa se amplie e atualize, a Pinacoteca do Estado escolheu três brasileiros que, de alguma forma, décadas depois, também caminharam pelos mesmos lugares fotografados pelo olhar europeu. Luiz Braga, de Belém; Tiago Santana, de Fortaleza; e Mauro Restiffe, de São Paulo, contribuem com seu olhar moderno, ou pós-moderno, sobre o cotidiano brasileiro para o diálogo com o registrado nos anos 40 e 50 em especial, quando o ufanismo se fazia presente e a identidade nacional precisava ser reafirmada.

O olhar dos jovens – em relação aos colegas franceses – fotógrafos muito mais do detalhe, do pequeno, do aprofundamento e da interpretação dos locais desvelados pelos antecessores: “Trinta anos depois, três fotógrafos brasileiros parecem andar e registrar as mesmas imagens realizadas por Pierre Verger e Marcel Gautherot”, explica Diógenes. Claro que não são as mesmas imagens, mas as mesmas necessidades de encontro.

O fotógrafo Tiago Santana está realizando um novo ensaio para essa exposição: panorâmicas realizadas no interior do Ceará. Luiz Braga comparece com seu olhar particular sobre o cotidiano amazonense e Mauro Restiffe, o mais urbano de todos, coloca um ponto final nesta deliciosa conversa.

Mas é então que mais uma surpresa se faz presente: três fotógrafos contemporâneos franceses foram convidados para nos mostrar imageticamente como entendem e imaginam o Brasil. Já estão por aqui Antoine D?Agata, Bruno Barbey e Olivia Gay. Os três fazem parte da agência Magnum e cada um está realizando um ensaio específico para a mostra. D?Agata, preferiu fixar-se em São Paulo, mais precisamente no entorno da própria Pinacoteca, mas também vai trazer imagens do Rio e de Salvador. Ele trabalha sempre com as situações-limite do ser humano, buscando humanidade em lugares onde há muito ela foi esquecida ou abandonada. Barbey resolveu flutuar por São Paulo, Rio, Maranhão e Belém, enquanto que Olivia Gay fixou-se na Bahia, resolveu seguir famílias baianas e acompanhar seu dia-a-dia, em especial no que diz respeito à culinária.

Todas essas imagens – aproximadamente 250 – ocuparão cinco salas da Pinacoteca. Um diálogo franco-brasileiro que deverá viajar por todo o Brasil durante o ano de 2009 para aportar em 2010 na França, em Paris e no festival de Fotografia de Arles.

foto; Pierre Verger

Imagens naif, enriquecidas pelo toque da saudade

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Um resgate visual. Assim pode ser definida a exposição Voltaire Fraga – Abundante Cidade. Dessemelhante Bahia, com curadoria de Diógenes Moura, em comemoração ao mês da Consciência Negra.

 

Fotógrafo baiano desconhecido por muitos, Voltaire Fraga (1912-2006) começou a fotografar nos anos 30. Encontramos em seus retratos e em suas imagens uma busca humanista que ressalta o cotidiano da cidade e das pessoas. Sua estética, muito comum nessas décadas – nós a encontraremos anos mais tarde nas fotografias de Pierre Verger, que chegou ao Brasil em 1946 -, desvela e revela o banal. Como não podia deixar de ser, é no sincretismo religioso, no mar, nos pescadores e trabalhadores braçais, nas ladeiras de Salvador que a fotografia de Voltaire Fraga se faz presente.

Seu encontro com a fotografia se deu por acaso, como ele mesmo deixou escrito: ao passear pela cidade, viu numa vitrine uma câmara fotográfica VAG 9 x12. Foi o que bastou para que sentisse e se decidisse pela vida de fotógrafo. O ano era o de 1927. Três anos depois, enviou algumas fotografias para uma revista no Rio de Janeiro. Não precisou esperar muito para encontrar as mesmas fotografias publicadas nas páginas centrais da revista O Cruzeiro sob o título: As Fotografias da Bahia de Voltaire Fraga.

“Produzidas entre as décadas de 1930 e 1960, essas fotografias nunca esgotam os percursos que fizeram da Bahia um objeto de desejo para fotógrafos viajantes e outros não, desde o início da documentação oitocentista”, escreve no catálogo o curador da mostra.

E, assim como as primeiras imagens do século 19, as fotografias de Voltaire Fraga mais se assemelham ao trabalho de um amador – no sentido daquele que gosta do que faz -, como se ele mesmo ao fotografar estivesse descobrindo a Bahia. Registra o que vê com o olhar atento de quem anota. Caminha a esmo, encontra, registra e guarda. Imagens naïf que se enriqueceram pelo tempo, que adquiriram um tom de saudade, de tempo passado. Registros de uma Bahia idealizada. Não por isso menos interessante e instigante. Uma Bahia que se construiu à imagem e semelhança das inúmeras representações pictóricas que dela fizeram.

voltaireInfelizmente, muitas das imagens se perderam durante um temporal que inundou a casa de Voltaire Fraga e destruiu quase 10 mil negativos. Sobraram poucos, 2 mil, que ele tratou e preservou até o fim de sua vida, em 2006. É parte desse acervo que a Pinacoteca nos mostra. Uma homenagem devida a um profissional que com olhos livres nos ajudou a construir nosso passado.

Serviço
Voltaire Fraga. Pinacoteca. Praça da Luz, 2, tel. 3324 -1000. 10 h/18 h (fecha 2.ª). R$ 4 (sáb. grátis). Até 11/1

O coletivo de Cássio!

 

E amanhã no MIS, a partir das 18h.,  Cássio Vasconcellos, apresenta nova instalação. Desta vez é um mosaico fotográfico de grande proporções (ocupa o espaço redondo do museu) composto por 50 mil carros, caminhões, ônibus, fotografados do alto como se formassem um grande congestionamento. Aliás, este tipo de trabalho já  se tornou sua marca: imagens que conversam com o imaginário, instiga o olhar e se inspira no surrealismo. Como sempre um projeto que atrai que nos obriga a olhar de perto, de longe, descobrir, ressignificar o que estamos vendo.