Novo curso no Território da Foto

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Biblioteca ampliada

Voltei da Italia cheia de livros: dos que eu trouxe (seis) dos que ganhei  quando aqui cheguei e achei em meu escritório (quatro). Agora é  o tempo para ler todos eles.  Na verdade só comprei dois. O resto ganhei mesmo.

Ainda bem. Então vamos dividir:

Livros Teóricos:

La Fotografia: una Storia Culturale e Visuale – Graham Clarke, Piccola Biblioteca Eunaidi

L’Errore fotografico : una breve storia – Clément Chéroux, Piccola Biblioteca Eunadi.

Estética da Fotografia: perda e permanência – François Soulages, Editora Senac

Livros de Fotógrafos:

Ugo Pellis, un fotografo in movimento – Societá Filologica Friulana.

Uomini e Cose, Ugo Pellis, Fotografie, Sardenha 1932-1935. Giunti

Iraq- Francesco Zizola, EGA

Born Somewhere – Francesco Zizola, Unidea

Robert Frank: The Americans, Looking In – Expanded Edition,

Bettina Rheims-Shangai, PowerHouse Books.

Hidegard Rosenthal: Métropole – IMS

Delícia, tenho leituras para mais de mês. Depois, se conseguir, faço resenha de cada um destes livros. Mas é muita coisa e todos lindos!!!

Novos Cursos no MAM_SP

Começam na semana que vem mais dois cursos meus no MAM-SP. O de História da Fotografia, com duração de três meses, sempre às quintas-feiras, das 20.15 às 22.15; o curso de Fotografia e Simbologia, apenas três aulas, no sábado das 10.30 às 12.30h.

O de História da Fotografia, com  início no dia 11 de março, pretende discutir a importância da fotografia na transformação do olhar e visualidade. Como sua invenção transformou o pensamento. Estudar esse fenômeno a partir dos grandes movimentos fotográficos como sua discussão com o jornalismo,  as artes plásticas, a antropologia, e a fotografia artística na época contemporânea.

Já o da Fotografia e Simbologia, com início no dia 13 demarço,  vai estudar a fotografia a partir da definição dos conceitos de mito, símbolo e arquétipos. Passaremos por mitos, contos de fada, obras de ficção, tendo sempre como pano de fundo a imagem.

Informações pelo: 50851312

Espero vocês!

Frase do dia….

“Os textos se olham, as fotografias se lêem.”

 Arrigo Benedetti (1910-1976)  diretor de redação  e fundador da revista L’Europeo, em 1945….

 

Pesquisa de Imagens!

Começa no dia 22 de fevereiro, no MAM, mais um curso de pesquisa de imagens. Durante 4 dias iremos discutir sobre a escolha da imagem mais adequada, do que é fazer uma pesquisa iconográfica, leitura de imagens, direito autoral, bancos e arquivos fotográficos. As inscrições já estão abertas! Telefone: (011) 5085.1312

Belo texto de José de Souza Martins

20081104154620_1726_largeGosto muito da visão que o sociólogo José de Souza Martins tem da fotografia e de seu uso e contexto na sociedade contemporânea. Hoje, no cadeno “Aliás” do Estadão, ele traz um belo texto que fala de fotografia e poder. Resolvi, então, publicá-lo aqui no blog. Leiam!

foto: Luiza Sigulem/Revista Brasileiros

 

 

 

 

 

É mais que saúde ou feiura

José de Souza Martins, O Estado de S. Paulo, 04/10/09

A inclusão da feiúra na agenda negativa da campanha para as eleições presidenciais de 2010, pelo pré-candidato Ciro Gomes, é dos fatos mais interessantes e mais significativos do cenário de nossa decadência política. Com a contrapartida da beleza, como indício de competência, entrou também, nestes dias, o item da saúde no rol dos atributos meritórios da política como contrapartida negativa da doença. A pré-candidata Dilma Rouseff informou que está curada do câncer diagnosticado há algum tempo. Numa das fotografias do noticiário, a poderosa “mãe do PAC” apresenta-se sorridente e saudável. A foto contém mais do que o indício visual dessa cura: a ministra curou-se, também, da carranca de guerrilheira que ameaçava suas chances de chegar à Presidência. Tanto na feiúra apontada em José Serra pelo pré-candidato cearense quanto na belezura ostentada pela gaúcha Dilma Roussef, temos as indicações de que o retrato será o grande candidato nas eleições do ano que vem.

A ocultação de estigmas físicos e de caráter de políticos e candidatos não é novidade. A fotografia atenuou a paraplegia de Franklin D. Roosevelt num momento em que sua plena visibilidade teria sido politicamente desastrosa para os EUA. Antes disso, o retrato a óleo já cumpria essa função na política. O jovem d. Pedro II, quando viu a noiva desembarcar do navio que a trouxera da Sicília, chorou e comentou com quem estava ao seu lado: não sei se vou conseguir. Ele havia sido enganado por um retrato, para que a monarquia tivesse filhos e herdeiro. A fotografia tornou-se instrumento poderoso do caráter cada vez mais teatral da política. Mas, ela é polissêmica, revestida de múltiplos e contraditórios significados.

Em fotografia há o que se chama de aura, o sobressignificado que propõe a interpretação da imagem, particularmente do retrato, a partir de detalhes circunstanciais e até mesmo não visuais. Gandhi era feio, muito magro e meio gambeta. Em seus retratos ninguém vê isso, mas vê a imensa beleza de sua figura humana devotada à paz, ao próximo e à emancipação política da Índia. A foto que Margaret Bourke-White dele fez, em 1946, esquálido e careca, fiando, ao lado da roca que se tornaria o símbolo da Índia independente, certamente não o tornaria uma figura do apreço do candidato Ciro Gomes. O Getúlio Vargas do Estado Novo e da ditadura tinha sua fotografia exibida em todas as repartições públicas do país, por meio dela anunciada a onipresença do chefe da Nação. Seu retrato o apresentava revestido da aura do poder. Quem via o retrato, não via o homem baixo, gordo e ditatorial, via o poder. A fotografia oficial procurava forjar uma consciência popular da nacionalidade que responde até hoje por uma cultura do retrato que deforma a nossa consciência republicana.

Há uma dialética na polissemia do retrato, tanto no real, como o de Dilma, quanto no fictício, como o que de Serra fez Ciro Gomes. No inevitável contraponto de Lula, na moldura do poder, Dilma parece pequena e descabida. A doença é o pretexto imaginário dessa imperfeição. Ciro, por outro lado, ao pretender criar uma imagem, criou um espelho. Fez com que se notasse que tem “cara de chupa-ovo”, como ouvi de alguém, pelos gestos faciais que faz quando fala, a boca tendendo para a forma da dos que têm o hábito de chupar diretamente da casca o ovo cru, fortificante e afrodisíaco popular dos que estão em convalescença. É nesse jogo de contrários que o retrato se compõe com os parâmetros de sua interpretação, como uma coisa só. Os dois casos são expressões do efeito bumerangue da comunicação imperfeita, porque ocultadora e enganadora, as imperfeições dos bastidores invadindo o palco da encenação política.

Há aí os circunstantes visíveis e os circunstantes invisíveis. Na leitura do retrato de Dilma o que vai dizer se ela está bem de saúde política é a saúde do vice-presidente José Alencar, pois a saúde que importa é a saúde da instituição. Na subliminaridade da comunicação, Alencar é hoje o que Dilma corre o risco de ser amanhã. As constantes viagens de Lula ao exterior dão a Alencar a visibilidade de um homem frequentemente hospitalizado, a República sob o risco de estar sendo governada por alguém diminuído em sua capacidade de decidir. No otimista retrato de Dilma, o que se vê é a doença de Alencar. Mas se vê, também, a agonia de Tancredo, o bloqueio da esperança na sucessão sem carisma.

Na maldade do retrato que Ciro Gomes criou para destroçar o corpo e a alma do adversário, como nos tempos da Inquisição, já operam as circunstâncias e os circunstantes inevitáveis, na rede de condutas que trazem à memória do povo outras maldades. De um lado, calou fundo sua teima no desvio das águas do Rio São Francisco para perenizar rios temporários do Nordeste seco: tirar o sangue de um moribundo para supostamente dar vida aos mortos. De outro lado, a vítima poderosamente simbólica dessa truculência política, d. Cappio, o paulista que é bispo de Barra, na Bahia, com sua greve de fome contra a violência ambiental e social, fez a decisão de Ciro e do governo Lula incidir, violando-o, sobre o sagrado tema da vida da teologia católica, revelou na decisão política a feiúra de um pecado.

Na polissemia das imagens, reais ou imaginadas, é necessário levar em conta as funções desconstrutoras do inesperado e do indesejável. Uma ação judicial contra este jornal proíbe no noticiário sobre atos que têm merecido o repúdio da opinião pública a menção ao nome do filho do presidente do Senado. Forma de dar um retoque cidadão num retrato que é expressão típico-ideal da dominação patrimonial. A trama oligárquica desses arcaísmos do poder aparece justamente numa foto, em que estão juntos os vários que compõem essa forma anômala da concepção do mandato na nossa opção republicana, até mesmo o juiz. Quanto mais a censura permanece, mais revela o caráter do censor, mais o censor nela se retrata. A República do retrato retocado expõe-se na corrosiva imagem invertida do negativo.

Nós simulacros das imagens

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N ão vou falar do trabalho da Loretta Lux em si, mas das reflexões que trabalhos como o dela me despertaram. Vou partir do trabalho dela, como citação, como pano de fundo para uma outra relfexão. O homem moderno, dizem, é o que procura inventar a si próprio. Mas e o homem pós-moderno?  Se vivemos como nunca a era dos simulacros, o homem pós-moderno é o homem que imita a si mesmo. O filósofo francês Jean Baudrillard (1929-2007) dizia que estávamos vivendo numa “alucinação estética da realidade”. Nas imagens isso se revertia num tom dramático com o qual elas se revestiam (a tecnologia do photoshop e sua palheta de cores ajuda muito nesta dramaticidade estética). Ou seja, muitas imagens são revestidas de uma estética hoje que, em muito, supera seu conteúdo. Ou temos imagens apoteóticas ou medíocres. Entra aqui também – como outro lado da moeda – a questão da ética (entendida aqui em senso lato). Ao consumirmos imagens – como já nos ensinou o filósofo Nelson Brissac Peixoto, muitas vezes eliminamos a experiência direta, e vivemos através do olhar do outro. Para citar outro estudioso que sigo com bastente frequência, Umberto Eco também nos ajuda a pensar quando afirma que “o valor estético da imagem retórica torna persuasiva a comunicação, quando mais não seja, porque a torna memorável”. Portanto quando percebemos que muitas imagens hoje – não importa de que âmbito – se parecem, é porque usam uma forma estética retórica que  procura nos convencer com mais eficácia de que aquela é a única forma de representar. Na sociedade pós-moderna (seja lá o que isso signifique) ou talvez dizendo na nossa contemporaneidade, a sociedade pela próprio tecnologia digital, reproduz mais do que produz. “Sequências de imagens queimam como muitos rojões, mas os fragmentos tomados um a um, têm pouco a oferecer”, diz Todd Gitlin em seu livro “Mídias sem Limite”.  Parece que as imagens conseguem dissolver nossas angústias. Somos nós que nos tornamos simulacros das imagens. Todas estas questões me vieram à mente depois de ter ouvido e visto as imagens de Loretta Lux. O de tentar compreender o que havia por trás daqueles rostos sem vida, porcelanizados, daquelas crianças a quem parecia lhe haviam sugado a alma (lembrei-me também do medo de algumas pessoas de terem sua alma roubada ao serem fotografados). Mas o que pensei é que na verdade cada imagem e um auto-retrato da própria autora (não pela sua biografia. Isso me parece muito simplista – todos nós somos fruto de nossa biografia.) um auto-retrato de um vazio que encontramos em muitas expressões contemporâneas, onde o processo vale mais que o conteúdo, seja ele qual for.    Imagens-sejam elas quais forem –  impressionam, a ilusão é subjugada.  O olhar frio, distante e impessoal, mais preocupada com a costrução precisa e o cálculo.   Loretta Lux parece ser um de seus próprios personagens quando fala, quando expõe. Ela é o personagem de todas as fotos.O que fica é o fato de parecer com. As imagens de Loretta Lux criam uma relação social entre as pessoas que passa a ser mediada pelas imagens, transformanto tudo em espetáculo. Muito bem calculado, por sinal. O mundo real se transforma em imagens e estas tornam-se reais. Numa sociedade que deixou de lado  teoria, tudo se torna muito especulativo. E talvez esteja aí a chave para o surgimento de uma banalização estética e imagética. As coisas reinam sozinhas, se desgatam e se recriam também sozinhas, como se não houvesse outro jeito de ser. Afinal são simulacros.