Encontro entre criador e criatura

Foi publicado hoje no caderno Cultura, doEstado de S.Paulo minha resenha do livro “O pintor de batalhas”, um dos livros que gostei de ler na virada do ano. Reproduzo abaixo:

capaO fotógrafo de guerra André Faulques acreditou, ou quis acreditar, que, ao se esconder numa torre e deixar o falso realismo fotográfico para dedicar-se à representação pictórica, estaria livre dos horrores que durante 30 anos fotografou ao mesmo tempo que poderia entender o ser humano e pintar o que não conseguiu fotografar. Mas é nessa metáfora (a torre) que ele encontra seus piores demônios, que se caracterizam pela chegada de um desconhecido ao seu refúgio.

Esse é o mote inicial do livro O Pintor de Batalhas, do espanhol Arturo Pérez-Reverte. A princípio, pode parecer banal, ou mesmo clichê, mas durante a leitura, o autor, ele mesmo um ex-fotógrafo de guerra, coloca questões fundamentais que deveriam ser pensadas. A primeira, sem dúvida, é a questão da ética ou, se quisermos, a ligação entre ética e estética. A segunda questão é a de representação e como as imagens são recebidas pela sociedade contemporânea: tanto a pintura como a fotografia. Os diálogos são densos, profundos, com cortes quase fotográficos. O essencial está dito. Não tem mais, não tem menos. O livro é sobre a guerra, mas usa como pano de fundo a imagem.

Ao criar um mural em sua torre – e o engraçado é que o termo fotografia documentária deriva dos murais mexicanos, na época bastante realistas e que contavam a história da revolução mexicana nos muros -, Faulques reescreve sob sua interpretação os horrores das guerras que fotografou como jornalista, mas ao pintar, ele faz de uma guerra todas as guerras. Suas certezas são questionadas, porém, quando recebe em seu refúgio, onde vive escondido e, portanto, cria na cidade uma onda de mistério a seu respeito, a visita de um ex-soldado croata que foi imortalizado pelas lentes de Faulques.

O primeiro diálogo já é hilário: obviamente o fotógrafo não reconhece o visitante, só depois que o mesmo se apresenta mostrando a capa da revista onde seu rosto foi publicado: “Vira uma infinidade de rostos na vida, a maioria através do visor de uma câmera. Alguns ele havia guardado, muitos, esquecidos: uma visão fugaz, um clique do disparador, um negativo na folha de contato, que só vez por outra merecia o círculo de caneta que o salvaria de ser relegado aos arquivos.” O autor aqui entra no campo dos simulacros e de como a sociedade contemporânea não consegue mais vivenciar as coisas e muitas vezes só as conhece por imagem, ou seja, simulacro. De como nos acostumamos a um conhecimento mediado pela mídia.

A foto em questão teve consequências fundamentais na vida do ex-soldado e na do próprio fotógrafo. E é sobre isso que o livro discorre: um encontro entre criador e criatura. Já que o soldado não é a foto dele estampada na revista. E é a partir de uma fotografia, essa mesma fotografia que o fotógrafo se torna internacionalmente conhecido.

A contemporaneidade do romance se dá no fato de que todas as questões são colocadas por meio de imagens: tanto as fotográficas como as pictóricas e as mentais. Uma conversa sobre imagem e imaginação, narrativa e memória, sobre a busca estética de um autor para contar ou narrar horrores.

Por meio das imagens realizadas e de quadros de batalhas o livro é uma grande discussão sobre a guerra em si. Mas é também uma grande lição sobre o tão comentado poder da imagem. Poder que lhe é conferido pela própria sociedade que se autorretrata compulsivamente. E que gosta de sua representação imagética e quer ser vista ou conhecida da forma como aparece representado.

Um belo texto, um belo romance, embora cheio de citações, de nomes de pintores e fotógrafos. O próprio autor não nega notas biográficas ao texto, mas isso pouco importa. A citação de nomes tenta legitimar uma narrativa, assim como a fotografia, para muitos, confere veracidade a um fato. Arturo Pérez-Reverte, neste livro que ultrapassa as questões da fotografia – não é um texto sobre história da fotografia, mas sobre guerra – nos lembra, porém, que ninguém é igual frente a uma imagem, nem quem a faz nem quem a olha. A intencionalidade está no olhar, assim como a ética e a estética estão nos olhos de quem decodifica uma fotografia.

Parabéns São Paulo!

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O presente não poderia ser melhor. A Editora CosacNaify lança hoje, no CCSP, o  livro de Aurélio Beccherini, o primeiro repórter fotográfico da cidade de São Paulo. Com textos de Rubens Fernandes Junior, Angela C. Garcia e José de Souza Martins, as 193 imagens dão conta de uma São Paulo dos anos 20. Cronista social da cidade, Becherini nos deixou uma bela idéia de como era o cotidiano paulistano daquela época.

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Junto com o lançamento será reinaugurada uma exposição com 45 imagens do fotógrafo, exposição esta que jpa havia sido mostrada em novembro na galeria Olida e postada neste blog. (leia aqui).

Vale a pena ir hoje ao centro Cultural São Paulo, à partir das 16 horas.

“Ele era o Tolstói da Fotografia…” Richard Avedon

cartier_bresson_olhar_seculo14  Acabo de ler a biografia do Bresson, escrita pelo jornalista Pierre Assouline, que durante 5 anos conversou, entrevistou, escarafunchou os arquivos dos fografo. Fiquei meio receosa de ler o livro, quando o primeiro capítulo vem com o título: “O herói que virou amigo”, mas a leitura é fascinanete. Nas mais de 300 páginas (e além da exaustiva pesquisa do autor), a vida de Cartier-Bresson flui por nós da mesma maneira como sabemos que ele fotografava. Leve, tornando-se muitas vezes invisível, registrando obsessivamente o dia todo. Como ele próprio dizia, usando a sua Leica, suas fotografias como um diário de anotações. Fantástico saber – isso sim todo fotojornalista deveria fazer, ou ter possibilidade de fazer – que ele escrevia as legendas e exigia que as imagens fossem publicadas com as legendas que ele havia preparado. Seguir o Bresson por suas viagens, suas dúvidas, seus relacionamentos com personalidades, fatos, a forma como ele nos ensinou a ver o mundo é mágica. Pierre Assouline, se coloca como narrador, como a voz de Bresson, não critica, não analisa, não julga. A impressão que eu tive ao ler o livro – e é claro, que pode ser só minha – era e de que eu mesma estava sentada ouvindo as histórias contadas pelo próprio fotógrafo. Seu fascínio e repulsa pelos surrealistas, embora suas fotos não fossem surrealistas, como ele mesmo diz.Suas conversas com Capa, que lhe sugere sempre de fugir dos rótulos, o nascimento da Magnum, no pós-guerra, a ligação do fotógrafo com a Ásia, mas acima de tudo como Cartier-Bresson entendia a fotografia e sua função. Seu caráter irrascível e muitas vezes autoritário, e ao mesmo tempo sua capacidade de ficar quieto para não atrapalhar o pintor Matisse. Seu papel como fotojornalista, e – para botar mais lenha na fogueira no texto abaixo – como fotografava as guerras, de lado, do outro lado, mas mostrando por meio de rostos e expressões os horrores. É disso que se trata. Sua dor pela perda dos amigos, em especial do Robert Capa e sua decisão de abandonar a Magnum nos anos 60.

Aliás, ri muito quando li o texto escrito em 1961, por Elliot Erwitt, em 1961.Reproduzo:

“Por que estamos na Magnum?

Sera porque é cômodo e porque todos ficaremos ricos? Será porque queremos que nossos nomes constem ao lado de HCB? Será por hobby? Será por hábito? Será por simples preguiça? será pelo valor do nosso nome como simples moeda de troca? Será pela glória da nossa imagem? Será porque podemos vencer mais como grupo do que como indivísuos na selva da fotografia? Será porque nossa paixão pelo futuro da fotografia é desinteressado? Será o golpe dos “historiadores do nosso tempo”?…”

O texto é irônico, mas ainda hoje ouvimos isso por aí, não em relação à Magnum, é claro…..

“Cartier-Bresson, o olhar do século”, foi a bela leitura do começo de 2009. Recomendo!

Bandeiras, bandeiras e mais bandeiras

Continuando no conflito, no começo do ano apareceu nos jornais uma foto feito por Mohammed Saber, fotógrafo da agência EFE e que está fotografando o lado palestino. Uma palestino que coloca uma bandeira do Hamas sobre os escombros.  Imediatamente me lembrei de outras bandeiras, também utilizadas durante guerras, conflitos e conquistas. Não vou nem entrar aqui, porque não quer0, na questão da montagem das fotos. Estou interessada em colocar a retórica imagética. Uma imagem que remete ao tempos mais antigos, cruzadas, colonias, tomadas de terra, etc. O clichê que funciona.

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Em 1945, temos a famosa foto de Joe Rosenthal (1911-2006), no Monte IwoJima.

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Também em 1945, o fotógrafo soviético Yevgeni Khaldei (1917-1997), fotografa um soldado  com a bandeira soviética no alto do Reichstag, em Berlim.

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Imagens choque

Volta e meia este assunto volta à tona. O que publicar, como publicar? Imagens sensacionalistas, imagens choque. Na semana passada o ombudsman da Folha de S.Paulo, Carlos Eduardo Lins da Silva,  já “chamava” para esta discussão. O suplemento Aliás, do jornal Estado de S.Paulo de domingo também trouxe dois depoimentos sobre o assunto: “Duas lentes, um mesmo conflito”.  Tudo isso por causa das imagens sobre o conflito, na verdade guerra, entre Israel e Palestinos. Vale a pena ler os três textos. Mas gostaria de lembrar de um texto que foi escrito nos anos 70 por Roland Barthes (infelizmente aqui só lembrado por seu livro “A Câmara Clara), sobre imagens-choque.

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Eddie Adams, Vietnã 1968.

Roland barthes diz que o horror não está na fotografia, mas no fato da gente observá-la. Susan Sontag, também levanta estas questões no livro “Diante da dor dos outros”. Mas, ela também, nos anos 70 nos lembrava que a exposição da fotografia de violência exposta de forma tão banal acabaria por nos tornar passivos diante das atrocidades. Mas, e eu acho que muitos concordam, que devemos mostrar o que aconteceespecialmente nas guerras. O que ela afirma é que há tempos nos acostumamos a ver a dor dos outros mediada pela imprensa. Roland Barthes, dizia que existe uma facilidade muito grande numa imagem choque se tornar clichê e, portanto, ineficiente. As imagens choque ou sensacionalista são recebidas ou percebidas de uma forma discutível, ou seja, como se ao falarmos de guerras, conflitos e dores, estaríamos entendendo que estas imagens são registros puros sem a menor estética ou olhar de um fotógrafo. E aí que a imagem se transforma em clichê, ou como dizia Barthes, uma mensagem sem código. Não existe estética sem conteúdo e nem o contrário. Um fotógrafo que se preocupa só com um lado estético acreditando que isso é possível, acaba por gerar uma mancha sem significado. A fotografia, antes de mais nada é um signo e, portanto, geradora de significados. fogo

Malcolm Browne, Saigon 1963.

Voltando ao Barthes: “frente às imagens choque acabamos nos sentindo privados da nossa capacidade de julgar, visto que o horror está à nossa frente”. A questão que devemos nos colocar não é se devemos mostrar, mas como mostrar: “nas imagens-choque tudo já foi feito: alguém já se emocionou por nós, refletiu por nós, sofreu por nós e julgou por nós. Não nos resta nada a não ser um débil direito de concordar”. Nestas imagens não podemos interpretar nada, o fotógrafo já fez tudo isso por nós.

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Francisco de  Goya, 1808.

Na pintura o horror é apontado, na fotografia fixado. Para Barthes toda fotografia choque é “falsa” visto que fica entre o fato real e a história amplificada. Sontag diz que é da natureza da fotografia estilizar e que alguns fotógrafos fazem isso com mais profundidade do que os outros. Ou seja, estamos falando aqui da intencionalidade do olhar.

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Don McCullin, Biafra 1969.

 O que Roland barthes quer nos dizer é que a fotografia literal nos traz o escândalo do horror, mas não ao horror em si. O problema está em como mostrar, em como fotografar. Mas, eu acredito que devemos mostrar. Claro que a fotografia não muda o mundo, mas talvez não nos deixe esquecer. Está aberto o debate.

P.S. De propósito busquei fotos fora do conflito Israel-Faixa de Gaza.

Uma crônica do passado da cidade

034e-baixaFoi no começo do século 20, ainda na primeira década que a cidade de São Paulo se tornou o principal modelo de um fotógrafo italiano que aqui havia acabado de chegar: Aurélio Becherini (1879-1939). Munido de uma câmera fotográfica que ganhou de presente, saiu às ruas da ainda pequena São Paulo e começou a fotografá-la insistentemente, talvez prevendo a futura transformação, talvez fascinado pelas diferenças arquitetônicas com as cidades italianas, em especial as da região da Toscana, de onde veio. Tornou-se então o primeiro fotojornalista paulistano, publicando suas imagens no Estado (essas fotos estão no arquivo do jornal e fazem parte do livro São Paulo de Piratininga – De Pouso de Tropas à Metrópole, publicado pela Editora Terceiro Nome), e o primeiro fotógrafo a organizar uma memória imagética da cidade.

Parte desse seu trabalho pode ser vista na exposição São Paulo em Transição, organizada pelo pesquisador e curador Rubens Fernandes Júnior. A mostra conta com 45 imagens que fazem parte de um lote de mais de 600 pertencentes ao Arquivo do Departamento do Patrimônio Histórico.
328er-baixaSão imagens que nos apresentam uma transformação da cidade seguindo a efervescência daquele momento. Uma cidade que vai aos poucos se “metropolizando”, derrubando casarios para dar conta de uma busca de modernidade. Becherini não se contenta apenas em registrar a arquitetura e vai nos deixando também pistas daquilo que estava fadado a sumir. Mostra então propagandas nas paredes, cartazes, fachadas de lojas, personagens nas ruas. E nos oferece momentos do cotidiano de uma cidade que começa a se impor.

Não se tem notícia de que tenha trabalhado em estúdios. O que se sabe é que era visto perambulando pela cidade, cobrindo todos os eventos, transformações, situações que lhe chamavam a atenção. Suas fotos começam a ser publicadas no Estado e sua produção está concentrada entre 1911 e 1918. O próprio jornal solicitava a contribuição dos leitores e, provavelmente, foi dessa forma que Becherini começou a publicar sua produção. Com o tempo, porém, seu trabalho passou a ser reconhecido: “Becherini é considerado o primeiro repórter fotográfico de São Paulo. Além de sua atuação no Estado, também colaborava para outros órgãos de imprensa, como o Correio Paulistano, Jornal do Comércio e para as revistas Cigarra, Vida Doméstica e Cri-Cri”, nos informa Angela Garcia, que apresentou dissertação de mestrado sobre o fotógrafo.

Suas fotos são responsáveis por ele ter sido contratado pela prefeitura de São Paulo, pelo então prefeito Washington Luís, que queria registrar as transformações que viria a fazer na cidade. Preocupado, Becherini adquire, por conta própria, fotografias que já haviam sido feitas por outros profissionais, também empenhados em registrar a metrópole, tais como Augusto Militão de Azevedo (1837-1905), Guilherme Gaensly (1843-1928) e Valério Vieira (1862-1941). Desta forma, ele pôde elaborar mais um Álbum Comparativo da Cidade de São Paulo. A cidade em obras, tudo por seu olhar nada convencional. “Becherini tem como fotógrafo documental a informação e o estilo que, de alguma forma, caracterizam os profissionais da época: composição harmoniosa, equilíbrio impecável e a necessidade de flagrar um instante fugidio no fluxo inexorável do tempo. Porém, o que o diferencia dos seus pares é a constante busca de singularidades que se tornavam mais importantes que os logradouros fotografados. Suas fotografias proporcionam um encontro inesperado com o passado, pois materializam uma cidade no tempo e propiciam uma fascinante viagem com a sensação de estar presente”, escreve o professor Rubens Fernandes Júnior.

Em 1934, sempre se antecipando, Becherini procura o então prefeito Fábio Prado e lhe oferece seu arquivo, formado por suas fotografias e as que havia adquirido de outros fotógrafos. Será o próprio Mário de Andrade, que dirigia e recém-criado Departamento de Cultura, que mais se entusiasmará com o material e aprovará sua compra. Masvai ser outro fotógrafo, Benedito Junqueira Duarte, que vai encarregar-se de organizar, limpar e identificar o material. É assim que nasce a seção de iconografia do Departamento de Cultura da cidade de São Paulo.

Cronista da cidade, Becherini acompanhou por 30 anos as suas transformações, deixando imagens deliciosas de seu cotidiano, arquitetura, comportamentos e tendências. Sua importância como fotógrafo era tão grande que o Estado lhe dedicou uma extensa nota lamentando a sua morte. Assim como muitos italianos que ajudaram a construir São Paulo, Becherini ajudou-nos a educar o olhar e a conhecer a cidade.

Serviço
Aurélio Becherini. Galeria Olido. Avenida São João, 473, Centro, 3397-0000. 12 h/21h30 (dom. até 20 h; fecha 2.ª). Grátis. Até 30/11

Mais livros!

capa_gentexmato275_baixaSemana passada fui ao lançamento do livro do Pedro Martinelli, o famoso Pedrão. O livro Gente X Mato, é um manifesto dos quase 3o anos que ele viaja e fotografa a Amazônia. Os primeiros como fotojornalista ligado ás imprensa, os últimos como fotojornalista que decidiu contar à sua maneira a história da Amazônia. Um livro dividido por temas, paisagens, pessoas.

Um tratado que Pedro talvez estivesse devendo à região.

Mais uma vez: estão todos convidados!

Esperamos todos vocês, na próxima terça, dia 28, na loja de Artes da Livraria Cultura. Até lá!

Frase do dia!

Esta é do do fotógrafo Flávio Damm, que será o próximo autor da Coleção senac de Fotografia:

“Na minha época ficávamos com o coração na boca, rezando para que o filme não perdesse seu valor latente pelo tempo em que demorávamos a chegar ao laboratório, após passar tempos em tribos ou cobrindo conflitos pela América Latina, o digital nisso facilitou a vida do fotógrafo que pode enviar rapidamente a imagem, mas por outro lado o fotógrafo também perdeu quando ‘não ficou boa, apaga e faço outra’. Isso é relativo. A foto se repete, mas o momento, não!”