Francesco Zizola, é o cara!

dia 2 paraty-12Confesso que não  foi  para mim uma supresa entrevistá-lo. Sabia o que viria.  Conhecia e acompanhava há tempos seu trabalho, sua fotografia e não só por sermos ambos romanos, mas porque desde que ele começou a aparecer na mídia, no final dos anos 80, início dos anos 90, me deparei com suas fotografias na imprensa italiana durante uma das minhas viagens a Roma. Nunca mais deixei de ser seguidora de seu trabalho. Não o havia encontrado antes, nunca havia lido nada que tivesse sido escrito por ele, mas já tinha lido entrevistas com ele e acompanhado uma sua entrevista no youtube feita pelo critico de fotografia italiano Sandro Iovine. Sabia de antemão quem encontraria pela frente. Mesmo assim,ao entrevistá-lo, como raras vezes aconteceu em minha vida profissional, fui como uma fã (lembro minha primeira entrevista com Sebastião Salgado e com Olivieiro Toscani). Sua desinvoltura, sua coerência e conhecimento sobre o que é ser jornalista e fotojornalista, suas noções éticas – que deveriam ser de qualquer um – suas criticas aos mídias e aos editores de fotografia ou de arte e sua completa disponibilidade em ouvir supreenderam. Importante também quando tocou no seu estudio 10 B e falou sobre o uso de photoshop nas imagens.

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No estudio 10B desenvolveu um belo trabalho onde procura demonstrar quando de fato a foto foi manipulada pelo photoshop e quando não. Assim também como falou de sua participação da agência Noorcriada por ele e mais nove fotógrafos, em torno de um mesmo ideal de fotojornalismo.

 

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Sua cultura fotográfica, não apenas jornalística, é bastante ampla e profunda. Não fala por falar. Está sempre bem preparado. Mesmo que muitas vezes jogue frases com uma irreverência própria dos romanos. Não só quando foi entrevistado, mas também quando presenciou várias entrevistas e participou fazendo perguntas. De caderneta em punho anotava e escrevia , numa conversa, talvez, com ele mesmo. Depois me confessou que eram perguntas que lhe surgiam durante os depoimentos dos entrevistados. Idéias a serem desenvolvidas quem sabe um dia. Tomara! Sem dúvida Francesco Zizola faz a diferença!

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A reprodução destas imagens foi uma cortesia do autor. PROIBIDA A REPRODUÇÃO

Meu olho esquerdo

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Quando ele nasceu, um anjo torto, desses que moram entre o preto e o branco, dizem que corintiano, falou: ‘Vai Ed, vai ser gauche na vida’. E ele foi, meio na contramão, e parte de seu trabalho está nesta mostra Meu Olho esquerdo” . Com esta frase, parafraseando o poeta Carlos Drummond de Andrade, o jornalista Carlos Moraes abre o texto que apresenta a exposição de Ed Viggiani. Não poderia ter sido melhor. Pois é assim mesmo que Ed nos apresenta suas fotografias. Não as mesmas que estamos acostumados a ver, mas um olhar que procura onde os outros olhares não estão.

Em 40 imagens realizadas ao longo de 20 anos podemos atravessar um Brasil dos anônimos, dos invisíveis. Por isso o nome “Meu olho esquerdo”: “quis mostrar um Brasil que mais ninguém conta. Deixar de lado a foto oficial” nos conta Ed . Muitas das imagens são inéditas, outras já conhecidas, mas recriadas e ressignificadas num discurso único, ritmado e selecionado pelo próprio Ed com a ajuda do designer gráfico Ademar Assaoka. 

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Uma exposição que ressalta a fotografia como pano de fundo para uma reflexão maior, o lado humanista do fotógrafo que se reflete na forma como ele cria suas imagens. Nada é apresentado. A fotografia de Ed não escancara, não grita. Aponta, sinaliza por meio de formas e volumes, estética utilizada como linguagem documentária e não como forma comercial e superficial.   Fotografias feitas analogicamente e ampliadas da mesma maneira, no laboratório PB: “quando fotografo analogicamente, me sinto mais reflexivo. O filme me ajuda a pensar. Isso é muito importante para mim. Apresento dúvidas e gostaria de levar o espectador também para reflexão”, comenta. Não se pense, porém, que Ed é avesso ou não utilize o digital: “cada vez mais fotógrafo menos com filme e o digital está totalmente integrado ao meu trabalho, mas este é outro tipo de trabalho”.

Pois é. Mais uma vez na contra mão da história. Num momento em que muitas das fotografias que vemos publicadas na mídia – com exceções, é claro – seguem uma mesma estética publicitária, o que as torna bastante superficiais, quando o que se discute não é mais a informação de um fato, mas a superficialidade de imagens-espetáculos facilmente descartadas de nossa memória, a exposição de Ed é um mergulho no silêncio, um trabalho profundo. E sim, este tipo de trabalho ainda faz falta na mídia.  Suas fotografias seguem a linha da fotografia documentária que traz em si além de um componente histórico, um vetor de discussão, luzes que apontam para outras realidades. Um olhar feito prosa, que narra: “procuro não alterar a imagem depois de feita. Ou seja, tento mostrar a fotografia exatamente da mesma forma como eu vi a cena, como entendi e visualizei”. Mas não deixa de ser um olhar contemporâneo, com primeiros planos fortes, seqüenciais e metalinguagens. Ele traz as questões da contemporaneidade na sua forma de registrar. Uma fotografia que é pensada antes mesmo de ser construída, realizada. São imagens do cotidiano, da banalidade, um ensaio cultural do país, visto de forma única e autoral por Ed Viggiani. Vista por seu olho esquerdo, que enxerga muito além da mera representação de um fato. Um olhar que não se perde na superfície. Por isso mesmo permanente e não descartável.

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“Meu Olho Esquerdo

De 20 de setembro a 1 de novembro de 2009

De terça a domingo, das 9 às 21h

Entrada franca

Caixa Cultural São Paulo

Praça da Sé, 111 – São Paulo (SP)

Galeria Humberto Betetto

Fone: (11) 3321-4400

www.caixa.gov.br/caixacultural

Mais dois volumes!

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A Coleção Senac de Fotografia continua. Mais dois volumes acabam de ser publicados. Claro que ainda faltam muitos, mas muitos e muitos fotógrafos. Mesmo assim eu e Thales Trigo tentamos aos poucos traçar um panorama da fotografia brasileira. Mesmo assim, é a primeira coleção brasileira que chega a 18 volumes. Só por isso ela merece aplausos. Já estamos preparando mais dois. Vamos ver quantos conseguimos fazer! Apalusos merece também a Editora Senac que desde 2003 aposta neste trabalho.

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O fim de fotojornalismo

gammaLá vamos nós de novo. Volta e meia este assunto volta a baila. Quem me conhece, especialmente meus alunos, sabem que há muito tempo venho dizendo isso. Há pelo menos dez anos. Lembro de uma palestra  sobre fotojornalismo no Senac, no começo do novo século, quando disse que o fotojornalismo estava morrendo quase fui apedrejada em praça pública…Coisa de gente que não presta atenção. Agora, de novo, com a morte anunciada da Gamma, este tema retorna como se fosse uma grande novidade. É claro que o fotojornalismo não morre, mas o jeito que ele está sendo feito o matou. Excesso de photoshop, estética publicitária, etc., etc., etc. Também tenho plena consciência de que não dá para ficar num fotojornalismo romântico dos anos 60/70, mas é necessário repensar a  estética jornalística como um todo.

Abaixo o e-mail que Eder Chiodetto, curador e crítico de fotografia  me mandou:

“O Fotojornalismo acabou!!!! É o que diz a representante da falida Gamma no artigo que o Eduardo Knapp nos mandou… “vamos ter que partir para assuntos mais profundos!!!” O tempo passa e aquilo que escrevi naquela matéria em que eu comentava a exposição da Arfoc tempos atrás, e que causou todo aquele rebuliço, vai se confirmando… É claro que o fotojornalismo não acabou e nunca acabará! O que acabou e segue acabando velozmente é o modelo jornal impresso-funcionário-pautinha na mão e fotógrafo bem mandado obedecendo o sistema, contando histórias que não as que ele queria, reproduzindo o aparato ideológico de uma classe que não é a dele enquanto o veículo, mal das pernas por não saber o que fazer com a revolução tecnológica e como se reinventar diante da mídia eletrônica, segue dando mais e mais espaço para a publicidade… e fim das viagens, fim das reportagens, fim das coberturas mais aprofundadas, fim do espaço para publicar… fim! Mas alguém acredita que o mundo está se desinteressando por imagens da sua história cotidiana? Não, né? Então galera, vamos nos reinventar. Sobreviverá quem tiver histórias para contar. Só os amadores temem os amadores. Os profissionais se impõem com ideias, práticas, pesquisa, fôlego. Sim, temos que partir para “assuntos mais profundos”, a moça da Gamma fala o óbvio. E que se criem blogs, sites, coletivos, grupos de discussão, bandos do rolê, mídias alternativas… e depois, naturalmente, as empresas carentes de conteúdo e originalidade virão correndo para nos patrocinar!!!! Vamos inverter o curso das coisas. É um momento de total revisão de paradigmas. E acho fantástico viver nesse momento de turbulência. Quem souber viabilizar sua vontade/necessidade de ser fotógrafo viverá. O Knapp, assim como o Lobão, sempre tem razão: “Foto Divulgador” never more!!! “E mestre João Bittar também: “sem choradeira, vamos trocar o defunto”, que definitivamente não é o fotojornalismo, mas o modelo no qual a maioria ainda insiste.

Agora cada um pense e opine como quiser.

Este assunto também foi tema no facebook, postado pelo André Arruda e, com certeza, em muitos outros lugares….

Eu terei como falar disso com meus novos alunos da Cásper Líbero a partir da semana que vem.

 

O olhar fotográfico de Robert Polidori

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Com certeza, uma das melhores exposições (sem esquecer “Olhar e Fingir”, no MAM_SP) que vi neste ano (pelo menos até agora) foi a de Robert Polidori, no IMS, do Rio de Janeiro. Canadense, morando nos estados Unidos desde criança e colaborador da revista “The New Yorker”, Polidori não fotografa o factual, o ato, a notícia. A começar pelo formato que escolheu: o grande formato (filmes de até 20 x 25 cm) ele nos traz um olhar há muito esquecido nas páginas dos jornais. Ele fotografa as marcas que as tragédias deixaram nas casas, nas paredes. De acordo com uma linguagem onde o fotográfico é o sujeito, ele nos apresenta grandes espaços vazios, abandonados pela presença do homem depois das tragédias.

 

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Até em decorrência da escolha de seu equipamento – que nos apresenta uma riqueza de detalhes e definição invejável  Como está escrito no catálogo: “ao afirmar o vinculo da fotografia com as aparências do mundo, sua obra caminha numa direção oposta às vertentes contemporâneas que investem na distorção de formas, na encenação ou na criação de imagens artificiais a partir de tecnologias digitais”.

 

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Imagens impactantes não apenas pelo tamanho, mas e principalmente pela riqueza de ontologia fotográfica nelas apresentadas, Polidori, sem grandes fogos de artifícios, clichês, ou frases de efeito, nos demonstra que ainda há espaço para a boa fotografia, mesmo quando as fronteiras entre documentação jornalítica e arte se misturam. Como se ele se alinhasse mais para o lado do fotógrafo Alfred Stieglitz que, no início do século XX, ao criar um olhar moderno para a fotografia, tinha entre suas frases preferidas que “a fotografia não é serva da arte” e de que “os forógrafos devem parar de se envergonhar por fazzer fotografia”, do que dos pictorialistas pós-modernos que à exemplo de seus antecessoreres do final do século XIX, faziam de tudo para provar que tudo faziam menos fotografia. Bela mostra, bela escolha do IMS. Provavelmente, assim como a do Paul Strand (que ainda não vi) a exposição do Robert Polidori chegará em São Paulo em outubro. Vale a pena ver! Esta é uma das que eu indico.

30 anos depois…

volto para a Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero. Explico: este ano comemoro 30 anos de formada em jornalismo e 30 anos escrevendo e pesquisando sobre fotografia. Coincidentemente a faculdade me chamou para dar aula de fotojornalismo junto com o Ariovaldo Vicentini. Começo já agora. Se a gripe suina deixar. Enfim, estou bem feliz! Mais uma desafio!

A memória e o tempo

Assisti recentemente o filme Valsa com Bashir, do diretor israelense Ari Folman. A história é  verídica  e autobiográfica: ele,  soldado isralense participou do massacre de Sabra e Shatila que terminou com o assassinato de refugiados civis palestinos. O diretor não lembra mais de nada depois do ataque e procura reconstruir sua memória por meio da narrativa de “companheiros” que tambám participaram da ação. O filme é absolutamente  fantástico, mas ele me lembou muito dos dois livros do fotógrafo francês o-fotografoDidier Lefèvre, que durante anos acompanhou a missão dos Médicos Sem Fronteiras registrando o dia-a-dia destes profissionais. A lembrança veio pelos dois livros publicados, aqui no Brasil, pela editora Conrad ” O Fotógrafo”, com ilustrações de Emmanule Guilbert e imagens do próprio fotógrafo. Levéfre1Didier, que morreu, aos 50 anos, em 2007, registrou as guerras do Afeganistão. A semelhança entre os dois trabalhos está no registro, memória e percepção de uma guerra. Tanto o filme como os livros valem a pena!

 

Uma brasileira

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capa_22 (2)Na Brasileiros. Adoro e sou fã da Lygia Fagundes Telles, como escritora, como mulher. A revista Brasileiros nos brinda agora não só com uma entrevista com ela, mas com belissímas fotografias feitas pelo Cristiano Mascaro. A Brasileiros, aliás, se aprimora a cada edição, mas o principal para mim é que em toda edição Hélio Campos Mello abre um belo e respeitoso espaço para fotografia. E eu, mostro aqui as belas imagens que Cristiano fez. Obrigada ao Hélio por liberar e me enviar as páginas da revista.

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O blog do Pedrão

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Pedro Martinelli sempre foi um grande contador de histórias e, sem dúvida nenhuma um excelente fotógrafo. Também é conhecido por seus prazeres da mesa: tanto prepará-los como consumí-los. E é assim seu blog. Um pouco de tudo, as histórias por trás de suas imagens, os livros de culinária, as fotos dos alimentos. Vale a pena passear por lá. Além de boas fotos e boas dicas, com certeza também boas risadas.

Refletores!

 

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créditos: Robert Clark

Finalmente irá ao ar hoje a entrevista feita com os fotógrafos Robert Clark e Greg Gibson para o Roda Viva.Na bancada dos entrevistadores, eu, o Hélio Campos Mello, fotógrafo e diretor da revista Brasileiros, o Cristiano Mascaro e o Todd Benson, correspondente da agência Reuters

U.S. CAMPAIGN CLINTON LABARRE

créditos: Greg Gibson

O programa foi gravado no ano passado. Hoje à noite às 22.10, na Tv Cultura.