Fotógrafos na Literatura

Na semana passada acabei de ler “O livro das emoções” de João Almino. Para falar a verdade ainda não sei muito bem se gostei do livro ou não, mas isso se deve ao viés que dei para minha leitura. Explico: o livro é na verdade um diário de um fotógrafo cego que ajudado por uma assistente revive momentos importantes de sua vida – muito mais a pessoal do que a profissional – a partir de algums fotografias que fez enquanto ainda enxergava e ganhava a vida como fotojornalista. A história toda se passa entre o Rio de Janeiro e Brasília. Ao começar minha leitura fiquei prestando mais atenção às descrições da fotografia do que ao enredo e muito mais nas semelhanças com alguns fotógrafos conhecidos e que o autor descreve. Isso não quer dizer que ele estivesse descrevendo alguém, mas eu, por conta da minha imaginação, reencontrei em suas descrições algumas figurinhas conhecidas. Um erro fazer uma leitura dessas e, fã que sou do Umberto Eco, deveria ter aprendido com ele que isso não se faz! Aliás ele, (Eco) deixa isso bem claro em seu livro “Limites da Interpretação” : “um texto ‘aberto’ continua mesmo assim sendo um texto, e um texto pode suscitar uma infinidade de leituras sem contudo permitir uma leitura qualquer. É impossível dizer qual a melhor interpretação de um texto, mas é possível dizer quais as interpretações erradas”. Sem dúvida, a minha foi errada, mas muito divertida! Mesmo assim, João Almino levanta algumas questóes fundamentais em relação ao fazer da imagem fotográfica hoje em dia, chegando inclusive a criar um personagem que se torna famoso só por fazer grandes ampliações e fotografias desfocadas. O nome deste personagem? Escadinha! Nada a ver com o personagem da vida real, mas tudo a ver com um cara que usou uma “escada” para a partir do nada se tornar famoso. Será que minha leitura foi tão errada assim? Sei lá!

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Um colega para Evgen Bavcar

Durante anos o fotógrafo esloveno Evgen Bavcar dominou a cena como fotógrafo cego. Na verdade ele perdeu a visãodo olho esquerdo aos 10 anos de idade em um acidente com um galhode árvore; no ano seguinte ao brincar como uma mina feriu também o olho direito e aos poucos suas luzes foram se apagando. Sua história é bastante conhecida e você pode também acompanhá-la aqui. Na semana passada li um artigo no  jornal italiano “Corriere della Sera” sobre o fotógrafo norte-americano Pete Eckert, ele também cego, mas devido à retinine pigmentosa. Peter aos 50 anos e vinte com cegueira total, acaba de vencer o concurso fotográfico “Exposure”, organizado pelo grupo “Artists Wanted” em Nova York.  Assim como seu colega esloveno Pete escolheu começar a fotografar para “mostrar ao mundo que posso ver usando os outros sentidos: as lembranças, as emoções, os sons, o tato”, ele contou ao jornal. Cria-se então uma discussão aqui que vai além do ato fotográfico para entrar na questão do ver e enxergar, da visibilidade, do questionamento do que é afinal enxergar e como formamos imagens na nossa memória. Este assunto também foi abordado no filme “A Prova”,  (1991 – dirigido com Jocelyn Moorhouse), assim como no documentário “Janela da Alma”, (1992 direção de João Jardim e Walter Carvalho). Em 1992, o historiador francês Georges Didi-Huberman, lançou o livro “Ce que nous voyons, ce que nous regarde” (No Brasil o livro foi publicado pela Editora34 “O que vemos, o que nos olha”, 1998). Isso sem falar nos livros de neurologistas como Oliver Sacks e V.S. Ramachandran.