Mar e Mata

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Hoje à noite no Museu Oscar Niemeyer, às 19h. em Curitiba, João Urban, lança seu livro Mar e Mata. Ele me convidou para escrever um dos textos do livro. Quem estiver por Curtiba, vá. Quem não estiver, leia meu texto abaixo para saber do que se trata.

Assim como as pessoas, a paisagem também tem memória. Pelo menos é isso que o professor e critico de arte inglês, Simon Schama, defende quando diz que: “uma árvore não é apenas uma árvore. A natureza não é algo anterior à cultura e independente da história de cada povo. Em cada árvore, cada rio, cada pedra, estão depositados séculos de memória. Mesmo hoje, num mundo urbano invadido pela ciência e pela técnica, podemos constatar a sobrevivência de mitos que, vez ou outra, emergem com toda a força primitiva no cotidiano das pessoas”. O que o professor teoriza podemos ver na prática das imagens de João Urban. Neste seu ensaio ele não registra os lugares como se fosse apenas um mero espectador, ele deixa que os lugares falem, silenciem se tornem maior do que a câmara, do que a lente, do que o olho do fotógrafo. Não que não se perceba o estilo e a capacidade de compreensão do Urban, mas ao passarmos os olhos por estas imagens, percebemos a generosidade do autor que se cala frente ao silêncio do momento.

João Urban é um fotógrafo essencialmente documental. Seus olhos, suas imagens contam histórias, ele traduz em fotografias as narrativas de um povo que vive o ambiente do litoral do Paraná. Como ele mesmo diz: “os diferentes ambientes que se entrelaçam em suas bordas e se complementam”.

Neste ensaio aqui apresentado, João Urban, tão silencioso quanto suas imagens, flutua nestes ambientes nos trazendo, ou melhor, nos convidando a compreender dentro de um contexto sócio-histórico a história e a cultura desta população que vive nestes ambientes naturais.

Fiel à sua estética documentária, João Urban, nos pontua, nos assinala e dirige com a luz de seu olhar o que devemos ver, o que vale a pena observar. Ele não denuncia, não pontifica, mas com esta suas imagens, sutis e gentis, nos obriga a uma reflexão profunda sobre a existência, sobre o meio ambiente, sobre nossa responsabilidade com este mundo arcaico.

Não é um ensaio predador, mas um estudo de mais de vinte anos, observando, apreendendo o que esta população, o que esta paisagem natural tem a nos oferecer.

Ao escolher dividir em capítulos este ensaio, ele seleciona as melhores características de cada coisa, de cada lugar. Retrata a paisagem como se estivesse fotografando pessoas, retrata pessoas inserindo-as no seu meio ambiente, mostrando como vivem e sobrevivem em comunhão com o local que habitam. Mostra integração de respeito à natureza, mas também de respeito aos rituais e festas religiosas que fizeram desta gente ser o que é.

 

João Urban é um fotógrafo forjado na antiga forma da fotografia: não se encanta – pelo simples encantar – com tecnologia, sabe que a fotografia é uma forma de comunicação, de mostrar, de conversar. Sempre foi assim, em todos os seus ensaios. A imagem como forma de integração, de narrativa. Um contar proustiano, onde cada história se integra na outra, onde cada retrato, cada onda, cada barco nos remete a uma infinidade de lembranças, de sons e de cheiros.  Em cada imagem, cada coisa, cada pessoa tem seu lugar de importância.

João Urban em o Mar e Mata nos reconduz a um olhar mítico, que indaga e dúvida e nos recoloca à antiga questão filosófica: quem somos? E para onde vamos?

Entre os muros da escola

Fui assistir a este filme na terça-feira. Confeso que fiquei muito tocada e pensativa com o que vi. Uma história verdadeirade um professor da periferia parisiense numa classe bem heterogênea e que, na verdade, ao querer ser amigo dos alunos os afasta cada vez mais. O filme é muito tenso o tempo todo (bem verdade que é muito longo e alguns momentos cansativos), os diálogos estão sempre acima do tom. Não acredito que seja diferente nas escolas do Brasil. Mas o que mais me chamou a atenção foi a falta de entendimento, dos pedidos de socorro dos próprios alunos, e da escola que, já sabemos, hoje em dia não é mais interessante para ninguem. No quesito fotografia – que é o que interessa a este blog, uma cena me chamou muito a atenção. O professor de francês (protagonista do filme ) após a leitura do Diário de Anne Frank, pede aos alunos que escrevam uma redação fazendo seu próprio autorretrato. Um único aluno usa a fotografia para contar sua história. É um aluno problemático do qual os amigos zombam o tempo inteiro dizendo que ele não sabe escrever (a turma é de adolescentes), mas ao fotografar ele consegue contar sua história. Parece que o professor se interessa por isso, mas é apenas um átimo, ele não percebe  a força da linguagem deste garoto. Em seguida parece que o próprio professor se desinteressa por ele, voltando sempre à antiga questão  de uma escola que não esina e não desperta o interesse dos alunos. Também muito boa a cena da aluna ofendida sistematicamente pelo professor (que é sempre questionado e ofendido por ela)  e que o surpreeende ao dizer que leu a República de Platão. Um filme (guardada às devidas proporções de ser em alguns momentos bastante cansativo e repetitivo) que nos coloca frente à questão de ensinar e aprender e a falta de sentido que muitas vezes o ensino faz para quem aprende. Após o filme lembrei imediatamente do método Paulo Freire e também de uma frase de Leonardo Da Vinci: “só aprendemos o que nos interessa!” A fotografia aparece como forma de integração, de ligação e de discurso, mas é abandonada pela retórica da linguagem falada e escrita. Um filme que faz pensar e que para mim, valeu muito a pena.

Pós-graduação em fotografia

Os cursos de especialização em fotografia estão se multiplicando pelo Brasil. Sorte nossa. Além da UEL (Universidade Estadual de Londrina), o mais antigo, por sinal, já tínhamos o da Univali. Agora mais três novos cursos: dois em Curitiba e um em Recife: na Unicuritiba Anuska Lemos está coordenado a pós em “Poéticas Visuais”. As inscrições vão até o dia 30 de março. Ainda na capital paranaense, inicia no próximo dia 27 de março o curso “Fotografia e Imagem em Movimento, coordenado por Joseane Daher. A aula inaugural será dada pelo fotógrafo Klaus Mitteldorf. Já em Recife, com início também previsto para o final de março,  é a Faculdade Marista, que inaugura a pós em fotografia na capital pernambucana. Isso sem falar no mestrado em Comunicação Visual – ênfase em fotografia, ministrado também na UEL. Mas, para o mestrado e especialização em Londrina,  as inscrições são no segundo semestre.

Encontro entre criador e criatura

Foi publicado hoje no caderno Cultura, doEstado de S.Paulo minha resenha do livro “O pintor de batalhas”, um dos livros que gostei de ler na virada do ano. Reproduzo abaixo:

capaO fotógrafo de guerra André Faulques acreditou, ou quis acreditar, que, ao se esconder numa torre e deixar o falso realismo fotográfico para dedicar-se à representação pictórica, estaria livre dos horrores que durante 30 anos fotografou ao mesmo tempo que poderia entender o ser humano e pintar o que não conseguiu fotografar. Mas é nessa metáfora (a torre) que ele encontra seus piores demônios, que se caracterizam pela chegada de um desconhecido ao seu refúgio.

Esse é o mote inicial do livro O Pintor de Batalhas, do espanhol Arturo Pérez-Reverte. A princípio, pode parecer banal, ou mesmo clichê, mas durante a leitura, o autor, ele mesmo um ex-fotógrafo de guerra, coloca questões fundamentais que deveriam ser pensadas. A primeira, sem dúvida, é a questão da ética ou, se quisermos, a ligação entre ética e estética. A segunda questão é a de representação e como as imagens são recebidas pela sociedade contemporânea: tanto a pintura como a fotografia. Os diálogos são densos, profundos, com cortes quase fotográficos. O essencial está dito. Não tem mais, não tem menos. O livro é sobre a guerra, mas usa como pano de fundo a imagem.

Ao criar um mural em sua torre – e o engraçado é que o termo fotografia documentária deriva dos murais mexicanos, na época bastante realistas e que contavam a história da revolução mexicana nos muros -, Faulques reescreve sob sua interpretação os horrores das guerras que fotografou como jornalista, mas ao pintar, ele faz de uma guerra todas as guerras. Suas certezas são questionadas, porém, quando recebe em seu refúgio, onde vive escondido e, portanto, cria na cidade uma onda de mistério a seu respeito, a visita de um ex-soldado croata que foi imortalizado pelas lentes de Faulques.

O primeiro diálogo já é hilário: obviamente o fotógrafo não reconhece o visitante, só depois que o mesmo se apresenta mostrando a capa da revista onde seu rosto foi publicado: “Vira uma infinidade de rostos na vida, a maioria através do visor de uma câmera. Alguns ele havia guardado, muitos, esquecidos: uma visão fugaz, um clique do disparador, um negativo na folha de contato, que só vez por outra merecia o círculo de caneta que o salvaria de ser relegado aos arquivos.” O autor aqui entra no campo dos simulacros e de como a sociedade contemporânea não consegue mais vivenciar as coisas e muitas vezes só as conhece por imagem, ou seja, simulacro. De como nos acostumamos a um conhecimento mediado pela mídia.

A foto em questão teve consequências fundamentais na vida do ex-soldado e na do próprio fotógrafo. E é sobre isso que o livro discorre: um encontro entre criador e criatura. Já que o soldado não é a foto dele estampada na revista. E é a partir de uma fotografia, essa mesma fotografia que o fotógrafo se torna internacionalmente conhecido.

A contemporaneidade do romance se dá no fato de que todas as questões são colocadas por meio de imagens: tanto as fotográficas como as pictóricas e as mentais. Uma conversa sobre imagem e imaginação, narrativa e memória, sobre a busca estética de um autor para contar ou narrar horrores.

Por meio das imagens realizadas e de quadros de batalhas o livro é uma grande discussão sobre a guerra em si. Mas é também uma grande lição sobre o tão comentado poder da imagem. Poder que lhe é conferido pela própria sociedade que se autorretrata compulsivamente. E que gosta de sua representação imagética e quer ser vista ou conhecida da forma como aparece representado.

Um belo texto, um belo romance, embora cheio de citações, de nomes de pintores e fotógrafos. O próprio autor não nega notas biográficas ao texto, mas isso pouco importa. A citação de nomes tenta legitimar uma narrativa, assim como a fotografia, para muitos, confere veracidade a um fato. Arturo Pérez-Reverte, neste livro que ultrapassa as questões da fotografia – não é um texto sobre história da fotografia, mas sobre guerra – nos lembra, porém, que ninguém é igual frente a uma imagem, nem quem a faz nem quem a olha. A intencionalidade está no olhar, assim como a ética e a estética estão nos olhos de quem decodifica uma fotografia.

No meio do caminho havia….muitas pedras!

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Há tempos que André François com seu ImagemMagica se preocupa em realizar trabalhos de cunhos social e com um retorno para as comunidades retratadas. Muito antes disso virar moda, ou no mais das vezes demagogia assistencialista. Eu o conheci ainda no século passado – literalmente – quando estava iniciando e foi se encontrar comigo levado pela Paula Blandy que começava a estagiar com ele e hoje é diretora do ImagemMagica. E ele continua da mesma forma: persistente e fazendo o que acredita, o que acha que é necessário. O trabalho reunido em seu mais recente livro (aqui também uma edição do autor, com patrocínio da Roche Produtos Químicos e Farmacêuticos)  “A curva e o caminho, o acesso à saúde no Brasil“, iniciado em 2005, sintetiza sua busca e sua necessidade de se colocar como cidadão.

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Suas imagens acabam por dar voz àqueles que não recebem um direito básico, fundamental, que é o direito à saúde. Não é um livro sobre doença, mas sobre sobrevivência dos pacientes e dos médicos, por que não? É um complemento de seu livro lançado há dois anos: “Cuidar: um documentário sobre a medicina humanizada no Brasil”. Com edição de fotografia de Eder Chiodetto, a narrativa imagética é completada por textos, frases e depoimentos colhidos pelo fotógrafo em suas andaças, assim como por suas anotações recolhidas provavelmente de seu diário de viagem.

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Andre François é silencioso, suas imagens também o são. Sua fotografia não é jornalismo, não é publicidade nem proselitismo. É narrativa, conto, prosa! Com sua câmara, André, descobriu uma maneira de compreender o mundo, pelo menos o mundo que ele vê. Suas fotografias são vetores de significados, questionam, apontam e não definem. Mas o Brasil foi apenas o começo. Agora,  pretende viajar  o mundo sempre discutindo o mesmo tema. Quando passa André François não deixas suas pegadas, mas deixa seu rastro em forma de imagem.

Emergentes!

capa_emergentes Érico Hiller é o tipo de pessoa que fica matutando o que vê, o que lê e o que ouve. É o mote para criar um projeto e sair pelo mundo. Foi assim com o trabalho que fez sobre “Violência contra mulher” que foi exposto no Sesc Vila Mariana. É assim com este seu mais recente trabalho lançado em livro no final do ano passado “Emergentes”, (edição do autor, Patrocínio Gerdau, apoio PAC) quando decidiu  fotografar tensões sociais e ambientais em países qu vivem as mesmo tempo situações de extrema riqueza e pobreza. Entre pesquisa e as fotos em si, passaram-se três anos. 2008 foi praticamente passado viajando por seis países: Brasil, Argentina, China, Índia, México e Russia. Érico não é fotojornalista, mas um documentarista. Aliás os grandes documentaristas da história da fotografia não são fotojornalistas, são movidos por outras questões e outros olhares para fotografar. Érico é assim: movido por um interesse social, atual e contemporâneo, mas acima de tudo movido por sua curiosidade de conhecer. Ele decidiu vivenciar em primeira pessoa o que estava absorvendo teoricamente. Ou como ele mesmo diz em seu texto, belo texto, por sinal: “minha idéia era enfrentar as dificuldades que as pessoas enfrentam, ver em que condições trabalham, se locomovem ou moram e sentir nos meus pulmões o mesmo a poluído que respiram. Na prática, transformei-me em personagem do meu próprio documentário”. 

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E é dessa forma que ele fotografou e trouxe para nós as suas impressões de viagens. A edição das imagens nos livros é fundamental para isso, mesmo que em alguns instantes, ele tenha se deixado levar pelo clichê, pelas imagem mais fácil (muito por- do- sol para meu gosto). Mas faz parte. O importante é que a teoria ou a pesquisa não sobressai às imagens, ela é pano de fundo, o que torna a leitura das imagens agradável. 

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Érico nos mostra semelhanças, diferenças, transformações a partir do cotidiano das pessoas. Ele não define, não critica, não julga, nos abre a possibilidade de nossas inúmeras e abrangentes considerações sobre o que ele definiu “as ansiedades das nações”.

Vocês também podem acompanhar o desdobramentos da viagem do Érico Hiller em seu blog

Férias, finalmente!

Hoje entro oficialmente de férias! Delícia!

Ainda falta escrever a matéria sobre a exposição “Labirinto de Miradas”, resultado da minha conversa com o Claudi Carreras, na Galeria Olido, durante o Encontro dos Coletivos. A matéria é  para o Estadão. Provavelmente será publicada no ano que vem (a exposição vai até março). Quando sair, publico no blog.

Neste final de ano, também recebi inúmeros livros, o que demonstra que finalmente temos uma publicação sistematizada de fotógrafos e livros de fotografia no Brasil. Aproveitando as férias vou resenhá-los, um por um aqui  no blog. Adiantando os títulos: “Heliópolis”, de Renata Castello Branco; “A curva e o caminho”, de André François : “Emergentes”, de Érico Hiller e “Onde a água encontra a terra” de Paulo Herkenhoff. Na área teórica, estou devendo há tempos a leitura do “Man Ray a imagem da mulher” de Georgia Quintas, que para mim, já tive oportunidade de escreve-lo, é umnome  importante do pensar a fotografia no Brasil e  um livro que aparentemente não tem nada a ver com fotografia, mas tudo a ver com minha linha teórica e de pensamento que é “Psicologia cultural da mídia”, de Giuseppe Mininni. Neste livro, só para entender porque vou resenhá-lo para o blog, o autor parte de uma questão crucial que é: “as representações difundidas pela mídia são um reflexo da realidade ou contribuem para construí-la?”. Acho que isso tem tudo a ver também com a representação fotográfica na mídia.

Isso vai me permitir me dedicar com mais afinco ao blog. Tenho muito que escrever pois o próximo ano, com certeza será de muito trabalho e novidades.

A primeira é que iniciei uma parceria com Fernando e Luciana da Arte Plural Galeria de Recife! Estou adoroando. Vamos juntos pensar fotografia e fazer alguns trabalhos em conjunto. Eu que já adoro o Recife, vou ter a oportunidade de estar mais vezes por lá e encontrar os vários amigos que fiz. Aliás já descrevi e escrevi isso em outro post.

Outra novidade é que fui convidada pelo Marcelo Reis (Instituto Casa da Photographia) para levar meu workshop “Pensadores da Fotografia”, para a Bahia, em junho deste ano. Estamos nos acertando e espero que tudo dê certo! Mais uma oportunidade para aprender ouvir e ver o que pos baianos estão fazendo e produzindo!

Terei novos cursos no MAM . Além de continuar escrevendo minhas matérias para o Estadão e a Coleção Senac de Fotografia!  Também quero montar o curso “Pensadores da Fotografia 2” . Enfim, trabalho que não acaba mais.

Mais uma matéria minha no Estadão: agora sobre o lançamento do livro do Thomaz Farkas

Um bairro de gols e de memórias

A história do Pacaembu e seu estádio está nas imagens do livro que Thomaz Farkas lança dia 9

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Quando Thomas Farkas estava entrando na adolescência, o bairro do Pacaembu nascia. Um acompanhou o outro. Relação que continua até hoje, visto que Farkas continua morando na região. Cresceram juntos. Surgem aí também as primeiras experiência de Farkas com a fotografia, no fim dos anos 30.

De bicicleta, com sua turma que se autodenominava Esquadrilha Invencível, percorria as ruas ainda sem asfalto. Mais tarde, atravessou os terrenos baldios para pegar o bonde e ir até a faculdade, na USP, onde estudou engenharia. E também acompanhou o plantio das primeiras árvores do bairro, momentos que foram registrados por sua câmera fotográfica. Foi assim que ele se tornou quase um repórter do bairro ao registrar as primeiras ruas asfaltadas, a construção do Estádio do Pacaembu e, mais tarde, os encontros políticos, os jogos de futebol, os torcedores nas arquibancadas de chapéu e gravata e as crianças subindo nas árvores ou nas grades para tentar ver o que acontecia no campo.

Flagrantes engraçados, momentos que se transformaram na memória imagética do bairro. Como a chegada dos barris de cerveja num pequeno caminhão, ou a criança que tenta fechar, ou quem saber abrir, os portões do estádio tendo às suas costas uma arquibancada vazia. Detalhes que fazem parte da vida de Thomaz Farkas.

Parte dessas fotografias foi recuperada pelo fotógrafo e transformada no livro Thomaz Farkas, Pacaembu, que será lançado dia 9. Com texto do próprio autor, numa narrativa memorialista, ele relembra sua chegada, vindo da Bela Vista, a primeira casa ainda nas margens do bairro, quase esquina com a Avenida Paulista, e a mudança para a Rua Itaperuna, bem no centro.

Textos que antecedem as imagens, que contam o que não se pode fotografar. É desse jeito que o jornalista Juca Kfouri, vizinho de Farkas, também participa do livro, narrando sua história no bairro – na verdade mais com o próprio estádio, com as belas jogadas que assistiu, as derrotas, as lembranças. Assim como Farkas, Juca relembra sua primeira ida ao estádio e diz: “Nenhuma dessas histórias tem fotos de Thomaz Farkas. Porque, se tivessem, não precisariam ser contadas.”

E assim é. Suas imagens possuem uma narrativa própria, que dispensa uma explicação textual. Deixam o espectador livre para construir o próprio enredo, imaginar, relembrar. Histórias que são narradas por um olhar que se encanta com o que vê, que fotografa com a intenção de guardar, caso um dia a memória falhe. O objetivo de dividir com os outros aquilo que só seus olhos foram capazes de perceber, destacar e, de certa forma, tornar eterno o efêmero. A leveza de quem fotografa por puro prazer e não para cumprir uma obrigação. Nas suas imagens percebemos que fotografar para ele é reter por mais tempo, é de alguma maneira uma forma de se apropriar da visão que lhe deu prazer.

É com esse espírito que Kiko Farkas fez a direção de arte do livro, com dípticos, trípticos, imagens que se sobrepõem como se estivéssemos vendo um álbum de família, como se pudéssemos acompanhar as histórias narradas por Farkas. Pois é assim que ele fotografa, para um álbum de família. Mas as suas imagens, por uma brincadeira da história, ou do destino, acabaram por sair do âmbito familiar para contar a história da cidade de São Paulo, ou de um pedaço dela, pelo menos.

São registros que saem do imaginário de um adolescente, de um jovem que se transformava com seu bairro e que vê a vida no estádio e o próprio estádio se tornarem os protagonistas de sua história. Ou como ele mesmo escreve: “A memória da gente some aos poucos, e só ficam na lembrança os populares vindo ver os jogos, enchendo as arquibancadas, as ruas em volta, as árvores. O Estádio do Pacaembu era maravilhoso e as fotografias lembram esses momentos preciosos de jogos, gols, derrotas e vitórias.” Assim como é nossa vida.

Uma crônica do passado da cidade

034e-baixaFoi no começo do século 20, ainda na primeira década que a cidade de São Paulo se tornou o principal modelo de um fotógrafo italiano que aqui havia acabado de chegar: Aurélio Becherini (1879-1939). Munido de uma câmera fotográfica que ganhou de presente, saiu às ruas da ainda pequena São Paulo e começou a fotografá-la insistentemente, talvez prevendo a futura transformação, talvez fascinado pelas diferenças arquitetônicas com as cidades italianas, em especial as da região da Toscana, de onde veio. Tornou-se então o primeiro fotojornalista paulistano, publicando suas imagens no Estado (essas fotos estão no arquivo do jornal e fazem parte do livro São Paulo de Piratininga – De Pouso de Tropas à Metrópole, publicado pela Editora Terceiro Nome), e o primeiro fotógrafo a organizar uma memória imagética da cidade.

Parte desse seu trabalho pode ser vista na exposição São Paulo em Transição, organizada pelo pesquisador e curador Rubens Fernandes Júnior. A mostra conta com 45 imagens que fazem parte de um lote de mais de 600 pertencentes ao Arquivo do Departamento do Patrimônio Histórico.
328er-baixaSão imagens que nos apresentam uma transformação da cidade seguindo a efervescência daquele momento. Uma cidade que vai aos poucos se “metropolizando”, derrubando casarios para dar conta de uma busca de modernidade. Becherini não se contenta apenas em registrar a arquitetura e vai nos deixando também pistas daquilo que estava fadado a sumir. Mostra então propagandas nas paredes, cartazes, fachadas de lojas, personagens nas ruas. E nos oferece momentos do cotidiano de uma cidade que começa a se impor.

Não se tem notícia de que tenha trabalhado em estúdios. O que se sabe é que era visto perambulando pela cidade, cobrindo todos os eventos, transformações, situações que lhe chamavam a atenção. Suas fotos começam a ser publicadas no Estado e sua produção está concentrada entre 1911 e 1918. O próprio jornal solicitava a contribuição dos leitores e, provavelmente, foi dessa forma que Becherini começou a publicar sua produção. Com o tempo, porém, seu trabalho passou a ser reconhecido: “Becherini é considerado o primeiro repórter fotográfico de São Paulo. Além de sua atuação no Estado, também colaborava para outros órgãos de imprensa, como o Correio Paulistano, Jornal do Comércio e para as revistas Cigarra, Vida Doméstica e Cri-Cri”, nos informa Angela Garcia, que apresentou dissertação de mestrado sobre o fotógrafo.

Suas fotos são responsáveis por ele ter sido contratado pela prefeitura de São Paulo, pelo então prefeito Washington Luís, que queria registrar as transformações que viria a fazer na cidade. Preocupado, Becherini adquire, por conta própria, fotografias que já haviam sido feitas por outros profissionais, também empenhados em registrar a metrópole, tais como Augusto Militão de Azevedo (1837-1905), Guilherme Gaensly (1843-1928) e Valério Vieira (1862-1941). Desta forma, ele pôde elaborar mais um Álbum Comparativo da Cidade de São Paulo. A cidade em obras, tudo por seu olhar nada convencional. “Becherini tem como fotógrafo documental a informação e o estilo que, de alguma forma, caracterizam os profissionais da época: composição harmoniosa, equilíbrio impecável e a necessidade de flagrar um instante fugidio no fluxo inexorável do tempo. Porém, o que o diferencia dos seus pares é a constante busca de singularidades que se tornavam mais importantes que os logradouros fotografados. Suas fotografias proporcionam um encontro inesperado com o passado, pois materializam uma cidade no tempo e propiciam uma fascinante viagem com a sensação de estar presente”, escreve o professor Rubens Fernandes Júnior.

Em 1934, sempre se antecipando, Becherini procura o então prefeito Fábio Prado e lhe oferece seu arquivo, formado por suas fotografias e as que havia adquirido de outros fotógrafos. Será o próprio Mário de Andrade, que dirigia e recém-criado Departamento de Cultura, que mais se entusiasmará com o material e aprovará sua compra. Masvai ser outro fotógrafo, Benedito Junqueira Duarte, que vai encarregar-se de organizar, limpar e identificar o material. É assim que nasce a seção de iconografia do Departamento de Cultura da cidade de São Paulo.

Cronista da cidade, Becherini acompanhou por 30 anos as suas transformações, deixando imagens deliciosas de seu cotidiano, arquitetura, comportamentos e tendências. Sua importância como fotógrafo era tão grande que o Estado lhe dedicou uma extensa nota lamentando a sua morte. Assim como muitos italianos que ajudaram a construir São Paulo, Becherini ajudou-nos a educar o olhar e a conhecer a cidade.

Serviço
Aurélio Becherini. Galeria Olido. Avenida São João, 473, Centro, 3397-0000. 12 h/21h30 (dom. até 20 h; fecha 2.ª). Grátis. Até 30/11