“Utilizo a fotografia para me aproximar da pintura

George Rousse abandonou a faculdade de Medicina para se dedicar à fotografia. Suas influências passam por profissionais como Ansel Adams, Edward Steichen e Alfred Stieglitz – fotógrafos formalistas, bem centrados no fazer fotográfico, clássicos. Mesmo assim, Rousse, nascido em Paris, em 1947, quebrou todas as regras de seus mestres e desde os anos 1980 inclui na sua construção imagética o desenho, a pintura o jogo óptico. Ele trabalha com intervenções urbanas em lugares abandonados, onde se apropria do espaço criando uma nova função que se perpetua na fotografia. Sim, a intervenção só existe na sua fotografia por meio de jogos ópticos e de luzes que causam estranhamento ao olhar. São imagens que se colocam dentro da experimentação contemporânea, dentro da pluralidade da criação e deixam evidente que toda fotografia é resultado de uma construção. Cada época tem sua representação. George Rousse é filho de seu tempo, um tempo que começa a questionar o conceito da imagem. Ele vem ao Brasil participar da 6ª edição do Paraty em Foco e esta não é sua primeira vez no País. Desde 2006 ele tem participado de exposições por aqui. De Paris, onde trabalha e vive, Rousse falou por telefone com o Estado.

Por que a escolha de espaços vazios e abandonados para suas intervenções?

Na base existe um protesto contra uma sociedade capaz de destruir aquilo que construiu, simplesmente por questões econômicas. Mas num segundo momento, o que me interessa é reviver esse espaço que foi abandonado no sentido de lhe dar novas funções e minha intervenção é transformar essa construção em uma obra de arte.

Se a intervenção já é uma expressão artística, por que a necessidade da fotografia?

Não, a obra é a fotografia. Ela é capaz de memorizar o lugar e o trabalho que realizo. É um jogo óptico que só existe quando eu me aproprio e fotografo. A obra só se realiza por meio da fotografia, não existe sem ela.

Você fotografa e em seguida faz intervenções digitais na imagem ou literalmente ocupa o espaço com seus desenhos?

Não, não trabalho com projeções digitais. Pesquiso, seleciono e fotografo locais abandonados. Em seguida desenho a intervenção que, acredito, vai combinar com o espaço e construo uma maquete lá no lugar. Crio uma forma que o que você vê na imagem é um momento único, só pode ser vista de ângulo específico, capaz de ser capturado pela lente fotográfica. Trabalho no chão, nas paredes e organizo tudo a partir da óptica fotográfica. Crio uma ideia de tridimensionalidade a partir da bidimensionalidade. Mas tudo depende do aparelho fotográfico. É isso que me interessa, a foto final.

Você fará uma intervenção em Paraty. Como será o processo?

Em Paraty será diferente. O pessoal da organização me enviou fotos de um mercado local. Neste momento estou trabalhando exatamente nesse projeto, desenhando a intervenção. Gosto de eu mesmo fotografar o lugar, mas desta vez não foi possível. Então, agora é um desafio: preciso imaginar como transformar o local que ainda não vi pessoalmente.

Há muito você trabalha na pluralidade fotográfica, entrando no mercado da arte. Hoje temos fotógrafos tentando fazer arte e artistas se apropriando da fotografia. Como vê esse movimento?

Sou favorável a todas as ações fotográficas. Minha visão é clássica, mas usei a fotografia para me aproximar da pintura. Foi assim que cheguei às intervenções, trabalhando ao mesmo tempo fotografia e pintura. Ainda assim acredito que o resultado de meu trabalho é fotográfico.

Pode-se dizer que seu trabalho se assemelha à arte pré-histórica ou a um grafite?

Com certeza, acho que parte do meu trabalho pode ser definido como arqueologia, arqueologia de uma sociedade atual. E procuro, apesar de tudo, registrar a presença humana nesses lugares, deixar marcas de ocupação.

Ao mesmo tempo você brinca com a ilusão…

Não brinco com a ilusão, uso recursos fotográficos. A fotografia como objeto é bidimensional, mas o espaço que fotografo é tridimensional. Procuro trazer essa sensação usando a fotografia. Em geral, esses locais não são abertos ao público, não podem ser visitados. Na verdade, eu os torno visíveis. É isso!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s