Uma questão de Imagem

É fato que a fotografia é uma das formas de expressão que estão mais em evidência no século 21. Não poderia ser diferente na Bienal de São Paulo, na qual ela aparece nas mais variadas estéticas. Desde fotógrafos artistas que se apropriam da fotografia, até profissionais com forte ligação com o registro documental, mas sem por isso esquecerem a poética da construção de um discurso usando a metáfora imagética.

Foto: Guy Velloso

Toda arte é de alguma forma dependente do contexto sócio-histórico no qual ela foi criada. E apresenta maneiras como a sociedade gosta de ser representada. Numa época em que a “manipulação” é cada vez mais presente, a fotografia que – de alguma forma – permanece ligada ao real nos traz desconstruções perceptivas e nos apresenta novos códigos visuais. Dos já conhecidos trabalhos de Rochelle Costi ou Rosângela Rennó, nesta Bienal se faz presente com força a criação africana pelas imagens trazidas por David Goldblatt, Otobong Nkanga, Moshekwa Langa Kamora, Zanele Muholi. Destaque também para o brasileiro Guy Veloso e o colombiano Miguel Angel Rojas.

O americano Allan Sekula que, além de fotógrafo, também é crítico e autor de vários livros sobre o assunto, tem discutido em suas imagens o papel da arte no nosso mundo contemporâneo. Uma imagem difícil de ser interpretada à primeira vista, mas que apresenta uma iconografia que ao mesmo tempo em que refuta ser consumida pelo mercado da arte, mantendo uma ligação extremamente forte com o real, está presente nas principais galerias do mundo. Suas obras têm força política, explorando de forma poética assuntos muitas vezes só abordados pela fotografia jornalística.

Numa outra corrente, bem mais antiga, podemos encontrar o fotógrafo David Goldblatt, que começou a registrar a sua terra natal, a África do Sul, nos anos 1940. Fotojornalista, queria chamar a atenção para os problemas locais, em especial, óbvio, o apartheid. Ironicamente, suas imagens não foram aceitas nem pelos jornais e muito menos pelas galerias de arte.

Ele não desistiu nem se curvou a modismos ou a pedidos de galerias e galeristas. Trilhou seu caminho documental e obedeceu a sua vontade de usar a fotografia para contar as histórias sul-africanas. Há muito pouco tempo, as suas imagens passaram a fazer parte do circuito internacional como uma representação poética, mas dura, das transformações de seu país. Para ficarmos ainda na África, na Bienal poderemos ver as mágicas fotografias de Otobong Nkanga, nigeriano que trabalha com várias formas de expressão, como desenho, escultura e fotografia. Procura entender na construção de suas imagens o cotidiano que o cerca.

África e Brasil. Destaque também para Moshekwa Langa, que já participou da Bienal de 2002. Sul-africano, atualmente morando na Holanda, em sua produção discute a globalização com forte cunho político, assim como a conterrânea Zanel Muholi. E há ainda o colombiano Miguel Angel Rojas, que trata de temas relacionados à cultura marginal, política e social.

Do Brasil, convém ressaltar o paraense Guy Veloso, que apresenta as suas fotografias de fé. Não uma fé dogmática ou sistemática, mas a que transparece em imagens surreais e fascinam pelo desconforto que nos causam. De toda forma, quanto mais se discute o papel da fotografia no mercado da arte, mais ela se afirma e se fixa em sua função documental.

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