Um mestre na Arte da Luz

Simonetta Persichetti, especial para O Estado de S. Paulo

   

“Fujam do centro do retângulo.” Com essa frase, Chico Albuquerque (1917-2000) instigava os fotógrafos iniciantes a aprender a ver. Em seguida, ele ria. Sim, “seu Chico”, como ficou conhecido, era uma pessoa alegre, bem-humorada e ensinou a fotografar muitos jovens nos anos 1970, 1980 e, talvez, até 1990.  

Embora seu nome apareça sempre ligado aos retratos e à publicidade, Chico Albuquerque durante seus 65 anos de fotografia foi, antes de mais nada, fotógrafo, registrando tudo o que lhe interessava. Começou com os retratos, sim, também se pode afirmar que foi nosso primeiro fotógrafo de publicidade ao fotografar uma campanha em 1949, mas também fez fotos inesquecíveis em Mucuripe e Jericoacoara, fotografou a São Paulo dos anos 1950, trabalhou com cinema e muito, muito mais. 

Parte de seu legado fotográfico está reunido no livro Chico Albuquerque – Fotografias, de Ricardo Albuquerque e Patricia Veloso, que será lançado hoje no Museu da Imagem e do Som de São Paulo. Acervo esse com mais de 60 mil imagens que foram doadas ao MIS e, em 2006, transferidas para o Instituto Moreira Salles com o intuito de preservar e restaurar todo o material. Deste convênio também faz parte o Instituto Cultural Chico Albuquerque, fundado por seus familiares e presidido pelo filho Ricardo. 

Dividido em sete capítulos – Ensaios (1930/ 1960), Mucuripe (1942/1952), Retratos (1940/1960), Publicidade (1950/1980), Frutas (1978), Arquitetura (1950/ 1970) e Jericoacoara (1985) -, o livro abrange a multiplicidade de técnicas e temas abordados pelo fotógrafo: “Nestas páginas, apresentamos memoráveis imagens executadas ao longo de uma vida dedicada à excelência, à criatividade, à singularidade. A inquestionável marca Chico Albuquerque de expressar-se com maestria na arte da luz. Um legado para a fotografia brasileira”, explica a editora do livro, Patrícia Veloso, em seu texto presente na publicação.

Nascido em Fortaleza numa família que já trabalhava com imagem, seu pai Adhemar Albuquerque também era fotógrafo e foi ele quem sugeriu ao filho iniciar a carreira aos 15 anos. Na mesma época, interessou-se também pelo cinema – aos 25 anos, em 1942, foi responsável pelas fotografias do documentário It’s All True (É Tudo Verdade), de Orson Welles, filmado na capital cearense.

Disposto a investir na sua carreira imagética, Chico Albuquerque partiu, inicialmente para o Rio, mas depois se instalou definitivamente em São Paulo, no fim dos anos 1940, permanecendo aqui até 1975, quando retornou definitivamente para Fortaleza.

Chico Albuquerque é um perfeccionista, mestre da técnica e da composição, mas acima de tudo um profundo conhecedor da luz, tanto a natural quanto a construída em estúdio: “A luz salva!”, costumava dizer, como lembra o fotógrafo Dudu Tresca em texto no livro. Um olhar que procurava registrar de forma inusitada e única o que via. Um apaixonado pela fotografia. Seus magníficos retratos realizados em estúdio são completamente diversos das imagens dos pescadores, dos jangadeiros de seu Estado natal. Em todos, porém, o mesmo respeito pelo personagem e também pela imagem. Da publicidade às fotos de arquitetura, detalhes atentos construídos pela luz que tanto aprendeu a admirar.

Chico Albuquerque fez parte do Foto Cine Clube Bandeirante e trabalhou ao lado de outros mestres, como Thomaz Farkas, Geraldo de Barros e German Lorca. Reestruturou o Estúdio Abril (da Editora Abril) no fim dos anos 1960 e início dos anos 1970. O estúdio acabou se transformando na grande escola de fotografia de fotógrafos de moda, publicidade e também jornalistas. Aliás, em 1981, ele foi convidado a assumir como consultor a coordenação de repórteres fotográficos do jornal O Povo, de Fortaleza. Foi responsável pela formação de fotógrafos como Ed Viggiani, Tiago Santana e Celso Oliveira.

Fotógrafo incansável e obsessivo, organizou sua última individual em 1989 no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, em Fortaleza, com uma retrospectiva que marcou os 65 anos de carreira profissional. Só parou de fotografar aos 83 anos, em 2000, quando ainda assinou campanha publicitária nacional, vindo a morrer em 26 de dezembro do mesmo ano.

“Com esta publicação, busca-se fazer justiça ao trabalho fotográfico de Francisco Albuquerque, uma referência na história da fotografia moderna do Brasil”, diz Rubens Fernandes Junior no texto de abertura no livro. Talvez muito mais do que justiça, o que esta publicação nos apresenta é uma verdadeira aula do olhar, um olhar de quem costumava afirmar: “A imagem é a minha palavra, não gosto de filosofar, não tenho de emitir conceitos.”

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