Flagrantes de duas cidades em transformação

Matéria  que saiu no Estadão de ontem

Fotos revelam São Paulo dos anos 30, feitas por Hildegard Rosenthal, e Buenos Aires no apogeu, por Horacio Coppola

Simonetta Persichetti, ESPECIAL PARA O ESTADO]

A cidade é sempre fascinante para olhares atentos. Um detalhe de uma janela, a fachada de um prédio, as pessoas que a habitam. Que dizer então quando olhares conseguem acompanhar o desenvolvimento e o crescimento dessas cidades que aos poucos, cada uma à sua maneira, vão se constituindo no hábitat, no centro das relações humanas, na certeza de pertencer a algum lugar.
Com esse intuito, as imagens de dois fotógrafos que na mesma época registram, ou melhor, retratam cada um ao seu modo duas importantes cidades da América Latina: São Paulo e Buenos Aires. Uma fotógrafa alemã que descobre um novo lugar, Hildegard Rosenthal (1913-1990), considerada uma das pioneiras do fotojornalismo brasileiro, e Horacio Coppola (1906), que documenta sua cidade natal, Buenos Aires, no momento de seu apogeu, quando ela se constitui da maneira como a conhecemos hoje.
Imagens diversas, que se distinguem na intencionalidade, mas se reencontram na forma: visões que procuram entender a cidade, a metrópole que começa a se apresentar à sua frente. Em São Paulo, a cidade vista por uma fotógrafa alemã que chega ao Brasil nos anos 30 fugindo do nazismo e já fotógrafa de profissão. Ao chegar aos poucos, até como forma de conhecer a cidade, ela começou a fotografá-la, a desvendá-la procurando ângulos inusitados, curvas, linhas, geometria. Não à toa, percebe-se em suas imagens influência da escola alemã Bauhaus. Mesmo assim, em seu olhar curioso, o retratar a cidade vai se desvendando, chamando sua atenção para o não conhecido, mas sem ser exótico. A câmara fotográfica como forma de conhecer, de se aproximar e, por que não dizer, de integração social. Uma São Paulo dos anos 1930, uma São Paulo da garoa, da moças comendo melancia no meio da rua, dos bondes, dos senhores engravatados, dos trabalhadores. Uma cidade em construção, uma metrópole que está por vir. Um olhar livre de uma fotojornalista que, sem pretensão nenhuma, procura trazer uma centelha de novidade ao que os nossos olhos estão habituados a ver. Não um registro oficial, mas um olhar jornalístico sem deixar de lado uma forma poética do descobrimento.
Conversando com as imagens de Hildegard, o também fotojornalista Horacio Coppola fotografa sua cidade natal. Se ele não tem o descortinar do desconhecido, tem a vontade de mostrar ângulos inusitados que fogem ao déjà vu. O momento no qual Buenos Aires cresce e se coloca como cidade. Assim como sua colega, Coppola também registra a presença humana, já que sem ela a cidade não existe. As vitrines, os outdoors, o homem transformando e sendo transformado pela cidade. O fotógrafo que registra aquele momento que é seu, único e poético. Que deixa inscrita sua visão particular, seu retrato de uma cidade.
Os dois têm em comum sua influência da escola alemã da Bauhaus, uma escola que procurava encontrar novas significações para o já conhecido. Os dois têm trabalhos semelhantes, aliás magistralmente representados nos dois livros publicados pelo Instituto Moreira Salles: o do Horário Coppola, Visões de Buenos Aires, lançado em 2007, e Metrópole, de Hildegard Rosenthal, lançado na abertura da exposição, no dia 20.
Um olhar que ainda acompanha as vanguardas artísticas do início do século 20, que procuram quebrar os cânones do estabelecido e nos ajudam a ver o mesmo sob um novo ângulo. Sim, existe uma influência do novo olhar nas imagens de Hildegard Rosenthal e Horacio Coppola, mas existe uma influência visível da escola de um fotógrafo francês do início do século 20, Eugene Atget (1856-1927), parisiense que fotografou as ruas de Paris e talvez tenha sido o primeiro fotógrafo a olhar a rua não como registro, mas como cenário de uma história. Atget quase nunca fotografava a presença humana, diferença com os dois fotógrafos da exposição, mas foi sem dúvida ele, Atget, que iniciou a fotografar o banal, o não fotografável, o cotidiano, as cenas que aparentemente não mereceriam sem imortalizadas. Horacio Coppola e Hildegard Rosenthal seguem essa escola. O nome da exposição: Profissão: Fotógrafo não poderia ser mais acertado. Um olhar que ainda não cedeu ao espetáculo, à banalização da imagem, à estética que supera o conteúdo. É um olhar que quer narrar, e por isso mesmo se encontra na forma, mesmo que respeitando suas diferenças de entender e compreender o fazer fotográfico.

Serviço
Profissão: Fotógrafo. Museu Lasar Segall. R. Berta, 111, Vila Mariana, tel. 5574-7322. De 3.ª a sáb., das 14 h às 19 h; dom. e feriados, das 14 h às 18 h. Até 4/4

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