Vermelho como Céu

vermelho-como-o-ceuO filme de Cristiano Bortone me emocionou muito e, é claro, me fez pensar sobre a questão da visualidade na fotografia. No imaginário, na imagem construída. Ontem à tarde revi este filme com meus alunos do Mestrado de Londrina e sua leitura também me fez repensar muitas coisas.  Mas principalmente na questão da memória. Nossa memória  histórica coincide com o tempo das imagens. Conhecemos e lembramos não daquilo que vimos, mas daquilo que assistimos, ou seja daquilo que nos tocou por meio da representação fotográfica ou do cinema. Como diz a psicóloga social Ecléa Bosi “A memória opera com grande liberdades, escolhendo acontecimentos no espaço e no tempo, não arbitrariamente mas porque se relacionam através de índices comuns. São configurações mais intensas quando sobre elas incide o brilho de um significado coletivo.” Ou ainda o filósofo Henry Bergson: “Não há percepção que não esteja impregnada de lembranças”. Ou seja nossas representações são concretização de uma imagem mental. No filme, um menino de dez anos que adora cinema fica cego depois de um acidente ao brincar com uma espingarda. A forma como ele supera o que lhe aconteceu é por meio das lembranças que permeiam sua vida e das alternativas para desenvolver os outros sentidos. É uma história veridica de Mirco Mencacci, hoje um dos mais conhecidos sonoplastas do cinema italiano. Mas o filme, para mim imperdível, nos desperta a atenção justamente para compreender como memória -que é sempre criação de um contexto, de uma circunstância, de uma narrativa – e, portanto, tão ficção quanto a imagem é moldada por nossos sentidos, cheiros, barulhos. sabores. Por isso algumas discussões que ainda hoje persistem ao redor da fotografia me parecem tão cansativas. Já são quase não questões. Estou falando em relação à ontologia da imagem fotográfica. A fotografia é o que é. Tem uma gramática própria, tem características próprias e o tempo todo procuramos definí-la ou enquadrá-la. Mesmo assim, não posso deixar depensá-la como representação ou tradução de um ato de mental, construída o tempo todo pelas relações que cada fotógrafo e espectador (que de certa forma lhe dá vida ao observá-la) lhe atribuí. Talvez devessemos começar a estudar muito mais o imaginário, a imaginação, a percepção de mundo, e formação de memória.  Temas que discuti no meu doutorado defendido em 2001 quando  estudei a estética da fotografia latino-americana.  Questões que quero retomar de forma mais intensa. E só para citar mais um teórico, agora Pierre Francastel que disse: “A verdadeira imagem não está na obra, mas na memória”.

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10 comentários em “Vermelho como Céu

  1. Essa bela e emocionante estória, me lembrou uma história real que envolve a revolução cubana contra Fulgêncio Batista e os USA, é claro.

    Depois de ser capturado por tropas bolivianas treinadas pelos rangers norte americanos e coordenadas pelo milico Hugo banzer, Che Guevara foi levado até um local onde funcionava uma escola. Nesse ambiente, Che, num ato humanista, chegou a dar uma aula de espanhol a professora que lhe levou um prato de comida algumas horas antes de ser executado por um alcoolizado Mario Teran.

    O tempo passa e um belo dia Evo Morales ganha as eleições e é ungido líder nacional na mesma Bolívia do títere Banzer. Como sempre falei, um dia as contas são acertadas… Hugo Cahvez, Fidel e Morales, montam um sistema de saúde infalível – e que a burguesia médica brasileira tem o maior horror -, onde médicos cubanos e bolivianos caminham juntos fazendo medicina preventiva.

    Lá pelas tantas, aparece um cara baixinho e praticamente cego por causa de uma catarata e cai nas mãos dos médicos cubanos que lhe restabeleceram a visão sem se preocupar com a identidade do operado. Detalhe: o cara era o mesmo que fuzilou Ernesto Chê Guevara na escolinha miserável do regime militar boliviano.

    Mario Teran vive nos arredores de La Paz, em total esquecimento, enquanto a luz socialista abre os olhos de muita gente pelo mundo amazônico e andino.

    Nesse momento, em algum lar Bolivariano, um filho da Revolução Cubana salva um Mario Teran da escuridão eterna. Eles não param e Che ainda sorri para milhões de excluídos, mesmo tendo levado oito balaços injustos.

  2. Simonetta
    Depois desses quatro anos de pesquisas, entrevistas, buscas em acervos, arquivos… para a minha dissertação, depois de fechar, hoje, o arquivo PDF e mandar imprimir as cópias para a banca final, não poderia ver coisa mais maravilhosa do que este filme. Fotografia linda. História exemplar e muito bem contada. Direção primorosa. Fez-me viajar no tempo das oficinas de Claudio Feijó, nos vendando em Belém do Pará, em 1985… e tantas histórias e lembranças fotográficas.

    O exemplo de Mirco serve para ajudar a mudar esse mundo tão desumano e cruel que estamos a viver. Haveremos de mudar.
    Bravo Mirco!
    Bravo Bortone!

  3. Olá!

    Li o seu texto sobre o filme “Vermelho como o céu” e não pude deixar de assisti-lo. Talvez justamente por isso senti necessidade de compartilhar as minhas impressões com você. Não só pela indicação, mas principalmente por ter certeza do seu interesse por fotografia e imagens.

    Para um projeto de fotografia feito através do SESC, precisei gravar algumas frases em Braille em algumas fotografias. Não se tratavam da descrição das fotos, mas o que elas transmitiam. Foram feitas para pessoas que enxergam, uma tentativa de fazê-las ler as imagens com a ajuda do Braille. Enfim, achei que poderia eu mesma comprar um reglete e escrever, mas pesquisando lugares que vendiam descobri que seria uma tarefa muito difícil. Decidi entrar em contato com alguém que pudesse fazer isso para mim e descobri a Maria Helena que trabalha na biblioteca Braille do Centro Cultural São Paulo. Conversei com ela por telefone e combinamos de nos encontrar lá no CCSP. Eu levaria as fotografias já no formato final e as frases que seriam gravadas em cada uma delas impressas.

    No dia marcado fui até lá e para minha total surpresa (depois pensando bem totalmente fora de propósito) ela era cega. Isso era óbvio, mas até então não havia pensado nisso, conversava pelo telefone e nunca me preocupei com isso. Na hora a única coisa que veio na minha cabeça, nos segundos que caminhei até ela para cumprimentá-la, foram as frases que eu havia levado impressas, em uma impressora comum. Confesso que foi um choque. Para meu alívio ela falou que a filha dela a ajudaria com as frases. Deixei o material com ela e fiquei esperando o seu retorno com o valor que ela iria cobrar. Depois fiquei super preocupada, e se ela cobrasse um valor exorbitante. Era tarde. Retiraria o trabalho dois dias antes da apresentação, se alguma coisa saísse errada não teria o que fazer. Meu trabalho ficou completamente nas suas mãos, nas mão de uma pessoa que não enxerga. Neste caso eu também estava cega, não podia ver o que estava acontecendo. No dia combinado fui retirar as fotos e para minha total felicidade tinha ficado perfeito. Essa foi uma das melhores experiências da minha vida.

    Eu enxergo mal, tenho quase sete graus de miopia em cada olho. Há algumas semanas tive uma infecção na córnea e essa semana tive conjuntivite viral, no mesmo olho. Claro que fiquei morrendo de medo de ficar cega, mas hoje ao assistir ao filme fiquei a me perguntar se já não estaríamos cegos de certa forma. Como você citou “A verdadeira imagem não está na obra, mas na memória”. Quantas coisas deixamos de enxergar? E como ter na memória algo que não vimos? Passamos a vida inteira a procura da imagem perfeita e hoje acredito que a imagem perfeita está sempre ao nosso redor, mas a nossa cegueira não nos permite enxergar. Acredito que essa seja uma das mensagens do filme. Tudo sempre esteve ao redor de Mirco e ele precisou perder a sua visão para poder “enxergar”.

    Belo filme e mais uma vez obrigada por compartilhar conosco coisas tão boas. Espero que você não tenha ficado entediada.

    Até a próxima!

    Ana Paula

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