A arte de reinventar o mundo em imagens

Abriu hoje a exposição “A Invenção de um mundo” no ItaúCultural.  É imperdível. Abaixo meu texto publicado hoje no Estadão.

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La neige qui brule, Bernard Faucon

 

A arte de reinventar o mundo com imagens

Amplo recorte do acervo da Maison Européenne é apresentado a partir de hoje em A Invenção de Um Mundo, que mostra os caminhos da foto contemporânea

Simonetta Persichetti, ESPECIAL PARA O ESTADO

A imagem construída, pensada e formada, antes de tudo, pela subjetividade de seu autor: é essa a temática principal das 127 obras que compõem a exposição A Invenção de Um Mundo, recorte do acervo da Maison Européenne de la Photographie, que o Itaú Cultural apresenta a partir de hoje e até 13 de dezembro. São trabalhos realizados por mais de 30 artistas nos últimos 20 anos, quando cada vez mais a fotografia se impõe como expressão e começa a fazer sua entrada nas galerias, nas feiras de artes e no mercado mundial.

Os curadores, Jean Luc Monterosso, diretor da instituição francesa, e o brasileiro Eder Chiodetto, passaram dois anos vasculhando o imenso acervo da instituição francesa, composto de mais de 20 mil fotografias, para criar uma linha de pensamento e de temas que marcam a fase contemporânea. A fotografia como resultado do sonho, do imaginário (como todas as fotos são), imagens que surgem de uma concepção prévia de direção, produção e montagem, como escrevem os próprios curadores. Paralelamente à exposição, um seminário internacional vai discutir as “invenções” recentes do setor. Com ingressos distribuídos meia hora antes, esses encontros vão colocar nomes fundamentais para partilhar experiências e debater temas relativos à fotografia.

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Food or Drugs, Martial Cherrier

 

Escolher imagens que se repensam a partir dos anos 1980 pode estar em linha direta com o surgimento de livros que passam a pensar teoricamente a fotografia, em especial obras que questionam, ou melhor, recolocam em cena a ontologia da imagem fotográfica, como por exemplo os textos ligados à semiótica que nos ajudam a interpretar a imagem e compreender de forma mais analítica todos os seus indícios.

São imagens como as de Duane Michals, fotógrafo norte-americano que desde que começou a carreira, no começo dos anos 1960, sempre seguiu por seu caminho de autor, produzindo (muito antes de isso ser moda) séries e sequências fotográficas, montagens, sempre ligado a uma narrativa e possivelmente influenciado por profissionais das vanguardas europeias do começo do século 20. Um olhar que foge ao senso comum. Assim como fotografias da francesa Bettina Rheims, que começa seu ofício em 1978, aos 26 anos, retratando andróginos, strippers, prostitutas. Seus registros estão sempre ligados à ambiguidade e provocação, como o que será apresentado em São Paulo, Céne, uma releitura do famoso quadro A Última Ceia. Um tema bastante comum entre os artistas. Outro fotógrafo de destaque é, sem dúvida, Jan Saudek, checo que começa suas atividades nos anos 1950, sempre misturando em seus trabalhos pintura e desenho, colorindo as fotos manualmente, criando cenários expressionistas, nos quais as pessoas se misturam entre a realidade e a fantasia.

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Herbarium, Joan Fontcuberta

 

E mais: as fotos do casal Pierre e Gilles, franceses que buscam na estética pop e totalmente estilizada sua forma de contar a banalidade da vida cotidiana, sem esquecer do catalão Joan Fontcuberta, também exímio na arte da montagem, da fotocolagem e da falsificação de imagem. Tema, aliás, que ele descreve magistralmente em seu livro El Beso de Judas. Famosa também é a série em que relaciona arte e ciência. Dos brasileiros foram selecionadas as fotos objetos de Vicente Mello e o vídeo Identidade, de Cris Bierrenbach, só como exemplo.

Na mostra, as imagens foram separadas em eixos temáticos que abordam questões da memória, de identidade e dos sonhos. Neste último é imprescindível destacar os trabalhos da fotógrafa francesa Sarah Moon, conhecida por seus ensaios na área da moda. Aqui ela aparece com uma série de cunho bastante pessoal na qual aborda o universo feminino.

Trata-se, enfim, de um panorama do universo do imaginário desses artistas, preocupados com temáticas que questionam a própria imagem produzida hoje em dia, sem a menor reflexão e sempre na superfície, como se por ser imagem já desse conta de um conteúdo: “É a invenção de um mundo poético, mas, sem dúvida, também um olhar político de crítica à própria sociedade contemporânea”, afirma o curador Eder Chiodetto.

Serviço

A Invenção de Um Mundo Artes Visuais. Itaú Cultural. Av. Paulista, 149, 2168-1776. 10 h/21 h (sáb. e dom. até 19 h; fecha 2.ª). Grátis. Até 13/12

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2 comentários em “A arte de reinventar o mundo em imagens

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