Nós simulacros das imagens

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N ão vou falar do trabalho da Loretta Lux em si, mas das reflexões que trabalhos como o dela me despertaram. Vou partir do trabalho dela, como citação, como pano de fundo para uma outra relfexão. O homem moderno, dizem, é o que procura inventar a si próprio. Mas e o homem pós-moderno?  Se vivemos como nunca a era dos simulacros, o homem pós-moderno é o homem que imita a si mesmo. O filósofo francês Jean Baudrillard (1929-2007) dizia que estávamos vivendo numa “alucinação estética da realidade”. Nas imagens isso se revertia num tom dramático com o qual elas se revestiam (a tecnologia do photoshop e sua palheta de cores ajuda muito nesta dramaticidade estética). Ou seja, muitas imagens são revestidas de uma estética hoje que, em muito, supera seu conteúdo. Ou temos imagens apoteóticas ou medíocres. Entra aqui também – como outro lado da moeda – a questão da ética (entendida aqui em senso lato). Ao consumirmos imagens – como já nos ensinou o filósofo Nelson Brissac Peixoto, muitas vezes eliminamos a experiência direta, e vivemos através do olhar do outro. Para citar outro estudioso que sigo com bastente frequência, Umberto Eco também nos ajuda a pensar quando afirma que “o valor estético da imagem retórica torna persuasiva a comunicação, quando mais não seja, porque a torna memorável”. Portanto quando percebemos que muitas imagens hoje – não importa de que âmbito – se parecem, é porque usam uma forma estética retórica que  procura nos convencer com mais eficácia de que aquela é a única forma de representar. Na sociedade pós-moderna (seja lá o que isso signifique) ou talvez dizendo na nossa contemporaneidade, a sociedade pela próprio tecnologia digital, reproduz mais do que produz. “Sequências de imagens queimam como muitos rojões, mas os fragmentos tomados um a um, têm pouco a oferecer”, diz Todd Gitlin em seu livro “Mídias sem Limite”.  Parece que as imagens conseguem dissolver nossas angústias. Somos nós que nos tornamos simulacros das imagens. Todas estas questões me vieram à mente depois de ter ouvido e visto as imagens de Loretta Lux. O de tentar compreender o que havia por trás daqueles rostos sem vida, porcelanizados, daquelas crianças a quem parecia lhe haviam sugado a alma (lembrei-me também do medo de algumas pessoas de terem sua alma roubada ao serem fotografados). Mas o que pensei é que na verdade cada imagem e um auto-retrato da própria autora (não pela sua biografia. Isso me parece muito simplista – todos nós somos fruto de nossa biografia.) um auto-retrato de um vazio que encontramos em muitas expressões contemporâneas, onde o processo vale mais que o conteúdo, seja ele qual for.    Imagens-sejam elas quais forem –  impressionam, a ilusão é subjugada.  O olhar frio, distante e impessoal, mais preocupada com a costrução precisa e o cálculo.   Loretta Lux parece ser um de seus próprios personagens quando fala, quando expõe. Ela é o personagem de todas as fotos.O que fica é o fato de parecer com. As imagens de Loretta Lux criam uma relação social entre as pessoas que passa a ser mediada pelas imagens, transformanto tudo em espetáculo. Muito bem calculado, por sinal. O mundo real se transforma em imagens e estas tornam-se reais. Numa sociedade que deixou de lado  teoria, tudo se torna muito especulativo. E talvez esteja aí a chave para o surgimento de uma banalização estética e imagética. As coisas reinam sozinhas, se desgatam e se recriam também sozinhas, como se não houvesse outro jeito de ser. Afinal são simulacros.

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7 comentários em “Nós simulacros das imagens

  1. Adorei esse texto, ando refletindo muito sobre esse assunto, os Franceses no momento estão discutindo o Photoshop nas imagens femininas, tentando vetá-lo (matéria de hj no Estadão).
    O fotógrafo da matéria diz que vivemos um mundo artificial. Acredito.
    Fico pensando nas minhas fotos…
    Acho que quero vc como minha orientadora de pós!
    Mas antes preciso de uma cerveja, tinto italiano ou champagne, para me aprofundar nessa nossa conversa pra lá de atrasada.
    Saudades!
    Cláudia

  2. Querida Simonetta;
    Não sei se você teve tempo de ver, mas postei lá em Paraty, no calor do momento, um longo texto sobre a Loretta Lux e sua participação no Paraty em Foco.
    O post pode ser visto em meu blog, http://clicio.wordpress.com/2009/09/26/coerencia-cirurgica-de-loretta-lux/
    Pois bem, eu que já acompanhava o trabalho da Loretta há tempos, fiquei muito impressionado exatamente com o que você tão bem coloca; as imagens da Loretta são ela. É uma série infindável de auto-retratos, auto-referenciados e oníricos, pois nada (nem ela) parece ser deste mundo.
    Pois bem, quando me dei conta disso, durante a sua (dela) apresentação, foi uma revelação (perdão… rs) e me pegou forte. O trabalho passou a fazer mais sentido, e conhecedor que sou de almas femininas alemãs, entendi.
    Obrigado por colocar em conceitos o que eu só consegui em sensações; o importante é que eu não minto em meu texto, e realmente foi fundamental assistir a Loretta para que a minha vida (fotográfica, principalmente) mudasse. Talvez tenha sido o link que faltava para que eu consiga me desvencilhar do ranço publicitário, mas isso só o tempo dirá.
    Beijo grande,
    Clicio

  3. Simonetta,

    O trabalho de Loretta de fato promove (no mais amplo significado desta palavra) o vínculo entre autor e obra. É bem pertinente pensar em Boudrillard, neste sentido, e também desviar para Guy Debord, que influencia Boudrillard.

    Na cultura do espetáculo, livro militante que todo adepto de maio de 68 leu, Debord atenta e desmaraca justamente essa tática da espetacularização da realidade, transformando e reenpacotando o existente como forma de dar um novo significado e, justamente por isso, transformando o visual e o sensível em nova mercadoria, em nova articulação de consumo do visível não pela experiência, mas pelo que é emprenhado pelos olhos.

    Espetáculo e simulacro são janelas do mesmo vagão, onde viaja a experiência do olhar. Ao se olhar para a direita ou a esquerda, tem-se visões diferentes, mas a trama segue para o mesmo destino.

    Prova ou indício disto? Confira o trabalho de Julie Blackmon, com traços estéticos alinhados ou que lembram o trabalho de Loretta Lux.

    http://www.julieblackmon.com/

    É o mesmo tipo de exercício: um retrato apoiado no impassível, na frieza, desligado intencionalmente do real de uma pose despossuída de espírito.

    Estranha essa mercadoria, não?

    Abraços e parabéns pelo texto.

  4. Oi Simonetta
    Acho que…… “Na sociedade pós-moderna (seja lá o que isso signifique) ou talvez dizendo na nossa contemporaneidade, a sociedade pela própria tecnologia digital, reproduz mais do que produz”….. define tudo.
    Me atrevo dizer que Barthes deve estar agora alucinadamente pedindo prorrogação.
    Mas queria meter meu pincel nesse trecho: “Ou seja, muitas imagens são revestidas de uma estética hoje que, em muito, supera seu conteúdo. Ou temos imagens apoteóticas ou medíocres. Entra aqui também – como outro lado da moeda – a questão da ética (entendida aqui em senso lato). Ao consumirmos imagens – como já nos ensinou o filósofo Nelson Brissac Peixoto, muitas vezes eliminamos a experiência direta, e vivemos através do olhar do outro”.
    É essa experiência direta que se deseja eliminar hoje. E toda experiência – desculpem por ser chato e insistir nisso – é pessoal e …”autoral”. Acredito piamente que se através do “meu olhar” eu conseguir instigar o consumidor de imagens a buscar essa experiência que será somente dele, já valeu a pena viver e não morrer duas vezes, conforme você colocou magistralmente no I Firum latino Americano de Fotografia de SP.
    Para terminar. O FestFotoPoA está lançando essa semana o link Reserva de Papers – Relutei um pouco com o nome em inglês mas ficou assim mesmo. Trata-se de uma participação colaborativa de pensadores da fotografia para o festival. Queria sua autorização para reproduzir esse texto lá na Reserva.
    bjs
    Carlos Carvalho

  5. Simonetta,

    Os rostos sem expressão das figuras de Loretta Lux servem a dois propósitos:

    1) permitem que suas séries continuem indefinidamente – oferecendo mais do mesmo. Pois, onde não há expressão (nos rostos) não há inflexão dramática, e, portanto, não há constituição (realmente) de narrativa.

    2) permitem que o espectador, “muito espontaneamente”, verta sobre as fotos a sua própria subjetividade, estado de ânimo, estado de espírito – movimento produzido pelo vácuo gerado pelo vazio das expressões e fator responsável pelo caráter sedutor, para muitos, das imagens.

    Examinando a “constância” de sua produção, em seu site, de 1999 pra cá, creio que não é difícil colocar Loretta Lux ao lado daqueles (tantos) artistas contemporâneos que docilmente se submetem às demandas burras e comerciais do mercado e aceitam conformar-se ao rito entediante da reprodução ad infinitum de um único e mesmíssimo trabalho.

    Não há nenhum pensamento, nenhuma reflexão aí. Há apenas oferta de produto – (é verdade, explorando uma poética técnica que identifica a autora de forma indefectível – e isso é, por motivos óbvios, a única coisa que interessa aos atores do mercado).

    Para qualquer um que tenha aspirações a uma vida artística, este estado de coisas é, imagino, a morte.

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