Desilusão, desilusão….

Confesso, fiquei muito mal e alguns minutos sem emitir opinião depois da palestra da Alessandra Sanguinetti. A primeira vez que tive contato com seus trabalho foi no livro “Mapas Abiertos” do Photo España, em 2002. De início percebi algo mais nas fotos, uma forma quase grotesca de retratar o feminino. Mas eram poucas fotos. Em seguida fui pesquisar seu trabalho e sua entrada na Magnum. Até aí tudo bem.

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Claro que a Magnum há tempos deixou de ser a lendária cooperativa de fotógrafos para se transformar cada vez mais em abrigo de fotografias de entretenimento, Mas isso é história para um outro post. Mesmo assim continuei muito curiosa em relação ao seu trabalho. Na entrevista ao Armando Prado e Claudio Edinger dutrante o Paraty em Foco, a desilusão foi brutal. Um trabalho de uma crueldade única, sem conteúdo que o sustentasse. Começa contando sua vida – mas parece que nem isso consegue fazer – não consegue conectar sujeito-verbo-predicado. Apresenta imagens , a Joana, (foto acima) pequena proprietária rural e como ela trata os animais criados na fazenda e depois consumidos pela família. Em seguia ela passa a contar a história de Melinda e Guilhermina, netas da Joana, mas que ela retrata com o mesmo olhar com o qual Joana olha para as galinhas, gansos, patos e porcos.

Alessandra Sanguinetti

Numa fala que não convence,cheia de caras e bocas, mãos nos olhos e trejeitos, ela tenta nos convencer da inocência das imagens. Mas são as própria imagens e vídeos que nos apresentam a forma cruel como ela retrata as meninas que muitas vezes dizem: “chega!”. Não existe coêrencia em seu discurso e em suas imagens. Estranho a Magnum tê-la colocada como uma de suas associadas, mas basta ver os últimos trabalhos da agência para perceber que – desculpem o trocadilho – o sonho acabou! Vídeos domésticos sem o menor tratamento conceitual, o acaso jogado como se nada fosse. Nada se sustentou. Repito, depois de sua apresentação, me perguntaram o que eu tinha achado. Não soube responder! Estava choque, me senti enganada! O que sobrou um vazio sem sustentação. Pena! Durante um tempo eu acreditei!

P.S. Publiquei as fotos que achei menos grotescas…

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8 comentários em “Desilusão, desilusão….

  1. Simonetta, gostariamos de esclarecer alguns pontos sobre o trabalho da Alessandra Sanguinetti. Em primeiro lugar as imagens não são da fazenda de seu pai e muito menos a Juana é sua caseira ou babá. Juana é dona de uma pequena propriedade a 10km da fazenda do pai da fotógrafa (como ela mesmo mencionou durante a palestra). Foi na fazenda de Juana que Sanguinetti realizou seus projetos. Em segundo lugar as netas de Juana chamam-se Guillermina e Belinda, e não Melinda como você mencionou. Acredito que antes de se posicionar de maneira tão contundente cabe um pouco mais de pesquisa.

    Tivemos o prazer de fazer um workshop com Alessandra Sanguinetti durante o mesmo Paraty em Foco. Durante todo o dia a fotógrafa apresentou seu trabalho de forma clara e seu envolvimento pessoal ficou evidente tanto com as meninas, como em outros projetos (veja Palestina, realizado em 2003 e disponível no site da Magnum Photos). Além disso ao ler o portfólio dos participantes foi objetiva, precisa e respeitosa.

    Respeitamos sua opinião, por isso lemos esse blog, entretanto é impossível enxergar crueldade nesse trabalho.

    Felipe e Lua

  2. Felipe e Lua,
    obrigada pelas correções. Já foram feitas no texto. Mas isso, além da correção narrativa, não altera o que vi e senti. Como disse conheço o trabalho dela, mas não me convenceu. Que bom que vocês lêem meu blog. Opiniões diferentes são sempre bem vindas. Assim podemos criar redes de discussões a abrir nosso repertório.
    Continuem contribuindo com suas idéias para o blog!
    obrigada

  3. Cara Simonetta

    confesso que foi com muita surpresa que li o seu post, pois a mim o trabalho encantou de uma maneira talvez tão contundente quanto a sua desilusão.

    Numa conversa que tive com o Milton Guran, sobre o trabalho de uma outra pessoa, ele disse ” eu não gosto, mas é bom.” Essa maturidade de poder julgar o outro sem a paixão da própria opinião me tirou o chão. Como posso não gostar de algo e ainda assim ver a qualidade do trabalho?

    O que mais gosto no trabalho da Sanguinetti é a honestidade do seu olhar que, diferentemente do Zizola, não se direciona pro outro e nem pretente mostrar o que é, mas usa a imagem do outro pra tentar retratar uma realidade emocional do próprio fotógrafo.

    No início da palestra ela mencionou Nan Goldin como referência. E acho uma boa chave para a leitura de seu trabalho. Salvo uma diferença crucial. Goldin está claramente nas imagens que faz do outro. A cada imagem o questionamento se volta para a fotógrafa “Quem é essa pessoa? que mundo é esse que ela vive? por que fotografar isso?”

    Sanguinetti se dilui em seus personagens, em suas proposições, em seus faz de conta. E o fato de misturar as fantasias com instantâneos de vida, como o banho na tina e o choro ao ir pra escola, pode confundir a chave de leitura pra uma mais antropológica. Mas não é essa. Sanguinetti desaparece de uma maneira tão intensa e tão honesta quando Goldin se coloca frente a câmera.

    Eu não vejo crueldade. Vejo amor.

  4. Caro gUi
    em nenhum momento emiti opinião de dizer se gosto ou não. Aliás quem me conhece sabe que raramente faço isso. E quando faço, como aconteceu algumas vezes neste blog, iniciei comentando “Gostei”, “Não Gostei”. Aliás não é isso que importa para mim. Fiz um comentário como crítica e não senti firmeza no trabalho que anmtes já havia me deixado em dúvidas. Opiniões todos tem as suas. Sinto muito se desta vez eu vá contra a de todos. Mas o que disse foi também pensando na estética da nova Magnum cada vez mais voltada para o entretenimento. Mas que bom que vocês podem se exprimir e todos podem se exprimir. Tem muitos trabalhos que não gosto, mas sei que são bons.Outros não acho! Para mim é assim. Ainda bem que levantamos esta polêmica. Pode ser que todos tenham gostado e eu seja um voz única, mas ainda bem que tem sempre alguém que discorda!
    Continue escrevendo!

  5. Sim, assim como os outros caí da cadeira quando li o seu post, confesso que fico feliz que você seja “do contra” isso me instiga.

    Coloco aqui minhas impressões…
    O trabalho de Sanguinetti para mim fica entre o documental e o cinematográfico. Ela conta com seus instantes uma vida inteira e de um jeito que fascina, um jeito honesto, simples. Particularmente gostei dos vídeos e achei nesse caso que o papel deles não eram de contar uma história, mas sim apresentar-nos um clima, tendo em vista isso, o vídeo como vídeo é pobre, mas se aliado as fotos ajuda no documental, traz uma certa realidade/veracidade para a fantasia das duas garotas.

    Fiquei curiosa quanto a questão da Magnum, por isso peço um post para você sobre a Magnum em si e também sobre sua relação com o multimídia.

  6. Aline,
    obrigada por seu post. Mas eu gosto mesmo de provocar. Claro que você assim como Felipe, Lua e Guy gostaram muito do trabalho dela. Que bom!
    Mas muitas outras pessoas tiveram esta mesma impressão que eu tive. Uma delas – não sei quem é, nem conheço – a questionou publicamente na entrevista. Mas…
    Que bom que você participa do blog!
    Adorei

  7. Engraçado…o trabalho de Alessandra Sanguinetti me remeteu muito à estética de Martin Parr, incluindo aí a forma como ele costuma abordar os ingleses.
    Eu, que não estive em Parati e, sendo assim, tenho que me calcar “apenas” no discurso fotográfico (revisitei o site da Alessandra e da Magnum), vejo ali uma abordagem um tanto sensacionalista e com um excesso de manipulação – pelo jeito dissimulada – que coloca a Magnum como uma avalista da da tal estética flickeriana.
    Bom, se o próprio Bresson ao pendurar as chuteiras já havia anunciado uma Magnum caminhando por uma via que não tinha nada a ver com os princíios que a fizeram uma referência para a fotografia humanista, não sou eu que vou dar chute em cachorro morto. Só me resta parabenizar Simonetta pela coragem e disposição de se colocar mais uma vez contra a corrente, pois dessa forma nos faz lembrar que não se pode fazer crítica séria e isenta a partir de um olhar deslumbrado.

  8. Huuuummmm… Vou resumir: estou tão acostumado a ver tantos bons momentos decisivos, que quando vejo esses trabalhos fico imaginado, porque tantos e bons fotógrafos da amazônia brasileira e hispânica não são convidados para mostrar tantas coisa belas guardadas numa caixa de sapato, num armário ou em CDs e HDs.

    Será que teremos que nos lançar na busca do vazio para reforçar a estratégia da fotografia contemporânea em se impor através do visual efêmero e vazio?

    O trabalho não me emocionou. Só isso.

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