Meu olho esquerdo

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Quando ele nasceu, um anjo torto, desses que moram entre o preto e o branco, dizem que corintiano, falou: ‘Vai Ed, vai ser gauche na vida’. E ele foi, meio na contramão, e parte de seu trabalho está nesta mostra Meu Olho esquerdo” . Com esta frase, parafraseando o poeta Carlos Drummond de Andrade, o jornalista Carlos Moraes abre o texto que apresenta a exposição de Ed Viggiani. Não poderia ter sido melhor. Pois é assim mesmo que Ed nos apresenta suas fotografias. Não as mesmas que estamos acostumados a ver, mas um olhar que procura onde os outros olhares não estão.

Em 40 imagens realizadas ao longo de 20 anos podemos atravessar um Brasil dos anônimos, dos invisíveis. Por isso o nome “Meu olho esquerdo”: “quis mostrar um Brasil que mais ninguém conta. Deixar de lado a foto oficial” nos conta Ed . Muitas das imagens são inéditas, outras já conhecidas, mas recriadas e ressignificadas num discurso único, ritmado e selecionado pelo próprio Ed com a ajuda do designer gráfico Ademar Assaoka. 

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Uma exposição que ressalta a fotografia como pano de fundo para uma reflexão maior, o lado humanista do fotógrafo que se reflete na forma como ele cria suas imagens. Nada é apresentado. A fotografia de Ed não escancara, não grita. Aponta, sinaliza por meio de formas e volumes, estética utilizada como linguagem documentária e não como forma comercial e superficial.   Fotografias feitas analogicamente e ampliadas da mesma maneira, no laboratório PB: “quando fotografo analogicamente, me sinto mais reflexivo. O filme me ajuda a pensar. Isso é muito importante para mim. Apresento dúvidas e gostaria de levar o espectador também para reflexão”, comenta. Não se pense, porém, que Ed é avesso ou não utilize o digital: “cada vez mais fotógrafo menos com filme e o digital está totalmente integrado ao meu trabalho, mas este é outro tipo de trabalho”.

Pois é. Mais uma vez na contra mão da história. Num momento em que muitas das fotografias que vemos publicadas na mídia – com exceções, é claro – seguem uma mesma estética publicitária, o que as torna bastante superficiais, quando o que se discute não é mais a informação de um fato, mas a superficialidade de imagens-espetáculos facilmente descartadas de nossa memória, a exposição de Ed é um mergulho no silêncio, um trabalho profundo. E sim, este tipo de trabalho ainda faz falta na mídia.  Suas fotografias seguem a linha da fotografia documentária que traz em si além de um componente histórico, um vetor de discussão, luzes que apontam para outras realidades. Um olhar feito prosa, que narra: “procuro não alterar a imagem depois de feita. Ou seja, tento mostrar a fotografia exatamente da mesma forma como eu vi a cena, como entendi e visualizei”. Mas não deixa de ser um olhar contemporâneo, com primeiros planos fortes, seqüenciais e metalinguagens. Ele traz as questões da contemporaneidade na sua forma de registrar. Uma fotografia que é pensada antes mesmo de ser construída, realizada. São imagens do cotidiano, da banalidade, um ensaio cultural do país, visto de forma única e autoral por Ed Viggiani. Vista por seu olho esquerdo, que enxerga muito além da mera representação de um fato. Um olhar que não se perde na superfície. Por isso mesmo permanente e não descartável.

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“Meu Olho Esquerdo

De 20 de setembro a 1 de novembro de 2009

De terça a domingo, das 9 às 21h

Entrada franca

Caixa Cultural São Paulo

Praça da Sé, 111 – São Paulo (SP)

Galeria Humberto Betetto

Fone: (11) 3321-4400

www.caixa.gov.br/caixacultural

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4 comentários em “Meu olho esquerdo

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