O fim de fotojornalismo

gammaLá vamos nós de novo. Volta e meia este assunto volta a baila. Quem me conhece, especialmente meus alunos, sabem que há muito tempo venho dizendo isso. Há pelo menos dez anos. Lembro de uma palestra  sobre fotojornalismo no Senac, no começo do novo século, quando disse que o fotojornalismo estava morrendo quase fui apedrejada em praça pública…Coisa de gente que não presta atenção. Agora, de novo, com a morte anunciada da Gamma, este tema retorna como se fosse uma grande novidade. É claro que o fotojornalismo não morre, mas o jeito que ele está sendo feito o matou. Excesso de photoshop, estética publicitária, etc., etc., etc. Também tenho plena consciência de que não dá para ficar num fotojornalismo romântico dos anos 60/70, mas é necessário repensar a  estética jornalística como um todo.

Abaixo o e-mail que Eder Chiodetto, curador e crítico de fotografia  me mandou:

“O Fotojornalismo acabou!!!! É o que diz a representante da falida Gamma no artigo que o Eduardo Knapp nos mandou… “vamos ter que partir para assuntos mais profundos!!!” O tempo passa e aquilo que escrevi naquela matéria em que eu comentava a exposição da Arfoc tempos atrás, e que causou todo aquele rebuliço, vai se confirmando… É claro que o fotojornalismo não acabou e nunca acabará! O que acabou e segue acabando velozmente é o modelo jornal impresso-funcionário-pautinha na mão e fotógrafo bem mandado obedecendo o sistema, contando histórias que não as que ele queria, reproduzindo o aparato ideológico de uma classe que não é a dele enquanto o veículo, mal das pernas por não saber o que fazer com a revolução tecnológica e como se reinventar diante da mídia eletrônica, segue dando mais e mais espaço para a publicidade… e fim das viagens, fim das reportagens, fim das coberturas mais aprofundadas, fim do espaço para publicar… fim! Mas alguém acredita que o mundo está se desinteressando por imagens da sua história cotidiana? Não, né? Então galera, vamos nos reinventar. Sobreviverá quem tiver histórias para contar. Só os amadores temem os amadores. Os profissionais se impõem com ideias, práticas, pesquisa, fôlego. Sim, temos que partir para “assuntos mais profundos”, a moça da Gamma fala o óbvio. E que se criem blogs, sites, coletivos, grupos de discussão, bandos do rolê, mídias alternativas… e depois, naturalmente, as empresas carentes de conteúdo e originalidade virão correndo para nos patrocinar!!!! Vamos inverter o curso das coisas. É um momento de total revisão de paradigmas. E acho fantástico viver nesse momento de turbulência. Quem souber viabilizar sua vontade/necessidade de ser fotógrafo viverá. O Knapp, assim como o Lobão, sempre tem razão: “Foto Divulgador” never more!!! “E mestre João Bittar também: “sem choradeira, vamos trocar o defunto”, que definitivamente não é o fotojornalismo, mas o modelo no qual a maioria ainda insiste.

Agora cada um pense e opine como quiser.

Este assunto também foi tema no facebook, postado pelo André Arruda e, com certeza, em muitos outros lugares….

Eu terei como falar disso com meus novos alunos da Cásper Líbero a partir da semana que vem.

 

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17 comentários em “O fim de fotojornalismo

  1. Na realidade “tudo se cria e se transforma”. Não é assim de um dia para outro que “morre o fotojornalismo”, na realidade vão morrendo as idéias, os ideais e o foco da imagem. A como contar a história da fotografia em suas várias etapas…sacou? Eu ainda continuo em pé com o meu romantismo, modismo e anarquismo! Viva o fotojornalismo atual pra quem ainda o é!

  2. Quando a LIFE acabou falaram a mesma coisa.

    Fico com a frase de John G. Morris, que aos 92 anos já presenciou diversas crises do fotojornalismo:

    “Acho a situação atual deprimente, mas sou louco o suficiente para ser esperançoso. Nunca tivemos tantas imagens e precisamos de ajuda para conseguir organizar tanta informação.”

    Sou otimista em relação às novas possibilidades.

    Citar Darwin também me parece mais que oportuno:

    “Não são as espécies mais fortes que sobrevivem, nem as mais inteligentes, mas as que são mais adaptáveis às mudanças.”

    [ ]s

    ig

  3. Na realidade “tudo se cria e se transforma”. Não é assim de um dia para outro que “morre o fotojornalismo”, na realidade, vão morrendo as idéias, os ideais e o foco da imagem. É como contar a história da fotografia em suas várias etapas…sacou? Eu ainda continuo em pé com o meu romantismo, modismo e anarquismo! Viva o fotojornalismo atual, pra quem ainda o é!

  4. O sonho de todo fotógrafo (fotojornalista?) era a capa ou a página dupla na Life. Era um diploma de sucesso. A página dupla da Life equivalia, em tamanho, a uma tv grande, um pouco menor que uma 29′, que foi por muito tempo o padrão da televisão encontrada na maioria das casas mundo afora.

    A imagem continua, ela só mudou de suporte. Se aquele ditado ”have camera, will travel” valia, hoje é absolutamente datado. O fotojornalismo não tem mais o primado da notícia numa era de ”tempo real”, flickers e redes sociais.

    A web será um suporte para a fotografia? Com som e imagens em movimento? Já existe, é a televisão. Sendo sincero, creio que poucos fotógrafos conseguiram não ser redundantes ou enfadonhos postando seus slideshows na web. Consoante a esse processo, as cameras apresentam a função de video full HD.

    E o cinema não está parado. Em resposta ao full HD, as tvs lCD grandes, as projeções em 3D ganham cada vez mais corpo, em especial nos filmes infantis, as animações da Dineys e Pixar. Não é gratuito, se trata de formação de público. James Cameron planeja seu próximo filme em 3D. Mudar de formato, de bitola para atrair mais público não é novidade, o cinema usou esse recurso com o som e depois ao mudar de quadro, passando do 1.33 (formato original de Cidadão kane, Casablaca) aos retangulares, passando pelos ”panorâmicos”, como Lawrence da Arábia.

  5. Outro dia estava no Teatro Municipal, tirei minha câmera da bolsa e comecei a clicar. Veio uma daquelas mocinhas bem treinadas e disse: “aqui não pode fotografar sem permissão”. Olhei pra ela e falei: “só eu não posso porque meu brinquedinho é maior? e todas as pessoas que estão aí fotografando?”. Ela olhou em volta e ficou sem saber o que fazer, se atrapalhou toda. Tinha um montão de gente fotografando.
    As máquinas fotográficas estão aos milhares por aí. A internet e o equipamento digital veio alterar o fluxo, não digo natural, mas anterior das coisas. Não acredito em fim mas em mudança. E pode ser para melhor ou pior, depende do ponto de vista ou de onde a pessoa está.

    Simonetta, adorei o post. E obrigada por trazer sempre notícias frescas por aqui. Abraço

  6. Assino embaixo o que o Arruda escreveu e vou além. O fotojornalismo nao está moribundo por causa da estética, mas por causa da tecnologia. Hoje fotojornalistas competem com um sem-número de pessoas mundo afora que têm como registrar momentos unicos da mesma forma. A qualidade aqui nao é importante; o que vale é o conteúdo. Se vc registra o derretimento de uma geleira ou o assassinato de importante político com um celular e passa as imagens pela internet em questao de segundos, terá o mesmo impacto (ou até mais) do que um fotografo tradicional, que vai passar a imagem pra agencia, que depois repassará para os jornais, etc etc…

    Agora é tudo uma questao de readaptação. Quem ficar parado vai virar bolsa de madame. Como sempre.

    O novo sempre vem…

  7. Como se diria lá em Portugal: “Tem, mas acabou”
    Acabou na fórmula mediocre citada pelo Eder.
    Mas tem, e muito, espalhados por aí, pela criatividade individual de cada um que acredita no seu próprio talento, caga e anda pra mídia tradicional.
    Viva o Coletivo Garapa, o Rolê, A Cia de Foto, o Olha Vê, O Iatã e o Paraty em Foco, o Egberto e a Imã, O Claudio Versiani e a Pictura Pixel, e muitos outros que estão aí pra provar que a fotografia, seja ela fotojornalismo, experimental, artistica, ou seja lá o que for é IMORTAL!

    Abs,

    Rogério Assis

  8. Olá Simonetta!

    Acessei o Clix hoje e tive o prazer de ler a entrevista publicada no dia 15 de julho. Sou de Sergipe (que nem Márcio Garcez, e não Guedes, rsrsr) e descobri teu trabalho quando cursei jornalismo, saboreando o “Imagens da Fotografia Brasileira”. Estou ‘ralando’ há dez anos, e após a leitura da tua entrevista parei e refleti. Será que o meu olhar tem algo a mais, ou faço o mesmo que os meus colegas fotojornalistas? Não sei. Só sei que estou disposto a encarar mais uma década. Me aprimorando, e me apaixonando cada vez mais pelo fotojornalismo.

    Um grande abraço, e muito obrigado pelos incentivos.

    Marco Vieira

  9. Saber onde está o problema. Isso é fundamental, pois do contrário o problema fica como aquela carta do baralho que, única, vai sendo passada entre os jogadores antes de “morrer na mão de alguém”.

    A imprensa, esta sim está em questão, não exatamente o fotojornalismo. Esse tem a si transmitida a crise da imprensa. A imprensa tornou-se uma co-autora dos fatos que noticia, quando não autora principal, deixando a co-autoria para o mundo, por ela chamado a desempenhar um papel, então fotografado pelo fotojornalista.

    Não basta somente mostrar, é preciso mostrar a versão, é preciso sublinhar o comentário que o órgão de imprensa faz, através da fotografia.

    Assim, a fotografia torna-se propaganda, propaganda das teses dos órgãos de imprensa, teses que não são pregadas como teses, mas travestidas como notícias. Esse é o grande ardil: pregar teses travestidas de notícias, e assim fazer parecer haver neutralidade nelas. Não que a neutralidade seja possível, mas ela é imaginada como possível pelo público, então é por essa imaginação ingênua que tudo acontece. E a fotograria, emersa da máquina-da-verdade, da registardora-da-verdade que é a câmera fotográfica -assim é pensada na imaginação ingênua-, é como um selo de autenticidade.

    Por vezes a fotografia mostra-se falsa -recentemente no caso da foto do Obama olhando a brasiliera, por exemplo. Mas o susto da fotografia falsa é logo esquecido. E quando a fotografia é verdadeira -Abu Ghraib- ela quase parece falsa. Aliás, são muito interessantes essas fotos, pois não foram feitas por fotojornalistas.

    Esse processo vai ganhando dinâmica, e em algum ponto todos esquecem ser possível outra coisa. O fatalismo pós-moderno acontece, dando tudo por resultado de uma dinâmica inveitável. Aquela da mão-invisível.

  10. A comunicação como um todo está se transformando e agregando novos meios. A nova estética do jornalismo absorve as tecnologias do seu tempo e vai criando outras linguagens. O jornalismo tradicional terá que mudar a formatação de sua estrutura de negócio (veja a evolução do NYT, por exemplo) e cada vez mais veremos, em paralelo, iniciativas independentes, o que é muito bem-vindo.

    O Jornalismo não morreu, empresas que não estão atualizando seu modelo de negócios é que estão morrendo. Para notícias do cotidiano, pode-se usar meios baratos ou gratuitos (colaborativos) de obtenção de informação, no entanto, para a análise, para a reflexão, para a investigação, tarimba e tino de um bom (foto)jornalista ainda são imprescindíveis, em qualquer mídia pela qual se manifeste.

    A tecnologia fornece as ferramentas. O modo como cada um vai utilizar essas ferramentas é o que vai fazer a diferença.

  11. Pois é o fotojornalismo vem passando essa crise,acho que os jornais teriam que se adaptar ao novo e fugir do factual, que a TV e Internet vem dando.isso que o Éder falou no texto da Arfoc vem em conjunto o que já foi dito.o orgãos de imprensa tem que investir mais em matérias com histórias,já sabemos que os jornais como a TV, internet vem dimuindo seu quadro de funcionários.e isso prejudica a qualidade do conteúdo.precisamos de mudanças só o tempo que irá dizer.

  12. Numa época todos queriam ser bancários e outros médicos. Eram os melhores partidos para um casamento dar certo. E dava status, naturalmente. Bem, de uns tempos pra cá todos resolveram fazer bico e ser fotógrafo achando que é fácil. Pergunte aos bons fotógrafos que cobrem olimpíadas, ao time da viiphoto e outras boas agências, formadas por bons fotógrafos, se o fotojornalismo acabou. Acabaram-se os péssimos veículos que arrastam muitos fotógrafos a um período de incertezas, mas logo, logo, esses últimos levantarão a cabeça e estarão enquadrando a vida como deve ser enquadrada.

    Chegará o tempo em que todos aqueles que cismaram usar uma câmera sem possuir talento, que vivem como hospedeiros em cima da fama alheia, tomando prestígio emprestado, mesmo que temporariamente, produzindo lixo descartável, e, agrupados de forma coorporativa para “sobreviver” por curto prazo na fama fermentada, serão varridos do mapa. Ficarão os bons e isso é automático. Por isso que não nos cansaremos de citar, German Lorca, Nair Benedicto, Evandro Teixeira, Milton Guran, Salgado e tantos outros de trabalho qualitativo, inigualável.

    Ninguém se sustenta – come e paga despesas múltiplas – durante muito tempo, prostituindo o mercado. Esse é outro ponto. O frila que não respeita seu próprio trabalho e desaparecerá também. Aliás, nem sai do berço, se for medíocre. Ou seja, a seleção da espécie é natural e aguardo de camarote quando o efêmero começar a ser substituído pela fotografia de qualidade, que existe sim! Todo lixo tem seus pintos pra ciscar…

    Nem me darei ao trabalho de falar sobre os consumidores tradicionais de fotografia – jornais e revista -, porque já assisti a várias missas de sétimo em cima dos encalhes semanais.

    Vida longa aos fotógrafos documentaristas e ensaístas que vêem a fotografia como atividade séria e não como mecanismo de auto promoção passageira e, não tem como aliado o photoshop, um viagra de curto efeito, e, camuflador da incompetência descarada.

    O “momento decisivo” vive!

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