Antologia das linguagens fotográficas e suas inovações sígnicas.

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Falar sobre este tema nos leva necessariamente a retroceder no tempo  e pensar no surgimento da fotografia da modernidade. Claro que aqui, não nos interessa esta viagem no passado, mas apenas algumas representações que vão permanecer até o presente.Parte-se portanto aqui da última  frase do texto do Walter Benjamin “Pequena História da Fotografia” que lembra fotógrafo húngaro Moholy-Nagy e afirma: “o analfabeto do futuro não será quem não souber ler, mas quem não souber fotografar”.

Qual o papel da fotografia na sociedade contemporânea? O que significa a imagem? Vamos partir de um conceito – entre os muitos possíveis, já que a fotografia é polissêmica,  e que antes de mais nada ela pertence à esfera da comunicação! Quem fotografa quer dizer algo! Portanto antes de mais nada estamos falando de ato comunicacional. •Depois disso temos que partir do fato que antes de mais nada, fotografia é documento.

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E aqui abro espaço para trazer a frase da fotógrafa e estudiosa Gisèle  Freund, que afirma: “Na minha opinião uma fotografia é primeiramente e principalmente um documento. Às vezes obra de arte,  mas raramente” E podemos continuar com outra frase, desta vez do mestre Henry Cartier-Bresson: “fotografia é ação, desenho meditação”

Tudo isso para entendermos as inovações sígnicas da fotografia. Desde sua invenção, ou seja, metade do século XIX a fotografia  cria uma nova significação para o mundo. Não só ela nos ensina a olhar, mas também nos ajuda a perceber este mundo. Para entendermos o discurso fotográfico devemos ir além do traço primeiro que a imagem traz e compreender que ela nada mais é do que a concretização do nosso imaginário. Por mais calcada no real, toda e qualquer imagem é ficção.

Qual a função de uma imagem fotográfica? Devemos partir da premissa que fotografias não documentam objetos ou pessoas, mas documentam nosso imaginário. Onde é possível perceber isso? Nas imagens que querem tratar ou retratar não só o cotidiano, mas também fatos que escapam deste mesmo cotidiano. Uma das primeiras coisas ou clichês que devemos quebrar é de que a fotografia é uma linguagem universal.

A significação das mensagens fotográficas é culturalmente determinada. E sua recepção necessita de códigos de leitura. O que queremos dizer com isso, como afirmou André Bazin,  é que se  a fotografia não  nega o real, ela o desloca. A fotografia é da ordem da impressão, do traço e da marca. Não podemos também esquecer que ainda existe um denominador comum que define a fotografia como uma mensagem portadora de um valor absoluto: por semelhança ou convenção. O que sabemos pelos vários estudos teóricos da imagem é que ela cumpre funções sociais. •Se ela é vista como realista e objetiva é porque lhe atribuíram estas funções para responder questões específicas  de uma sociedade. Hoje com a Internet, a linguagem digital, a grande maioria das pessoas sabe  que uma imagem pode ser manipulada, então cria-se um novo discurso sobre credibilidade da imagem.

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Existem formas que a sociedade gosta de ser representada. Mais uma vez a fotografia ajuda a concretizar estas representações. Mas atenção: numa época em que tudo ou quase tudo é virtual, podemos caminhar novamente para uma visão positivista da imagem. Ou seja, torná-la novamente espelho do real, assim como no século XIX ao privilegiar o aparelho em detrimento do olhar particular de cada um.

 

O homem não vive num mundo só de impressões imediatas, mas também num mundo de conceitos abstratos. Acumula não só a experiência sensorial imediata, mas também a experiência social formulada no sistema de conceitos abstratos. Portanto o homem reflete a realidade não através das sensações imediatas, mas através da experiência racional abstrata. Ou seja construímos ou produzimos conhecimento por meio de representações.O filósofo alemão Friedrich Nietzche, afirmava que a realidade é criada e não descoberta. Os meios de comunicação – no nosso caso a fotografia – não são meros transmissores de informação ou conteúdo simbólico, mas são também criadores de novas formas de ação e interação no mundo social.

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8 comentários em “Antologia das linguagens fotográficas e suas inovações sígnicas.

  1. Simonetta,

    Muito pertinente este seu texto; me questiono com frequência sobre o perigo determinista de se encarar a fotografia como “espelho com memória”, mesmo que esta memória seja construída através de experiências vividas pelo próprio fotógrafo.
    Não, não corremos este risco, Simonetta; o “olhar particular de cada um”, como você mesma diz, é a nossa redenção. Lembra-se que Barthes escreveu que no retrato existem 4 retratados? Eu sempre acho que o meu retratado é mais real que os outros, por mais onírico, lisérgico ou dirigido que tenha sido!
    Um prazer ler e refletir sobre seu texto, obrigado!
    Clicio

  2. Simonetta
    Bem interessante o texto, me fez pensar sobre algum pontos. Tipo as afirmações em que você cita, colocando a fotografia com um documento, e a realidade como ficção, lendo texto até o fim, entendo que o “documento” é um “documento parcial” e “ficção” como uma “historia particular”. Posso estar enganado mais gotaria de continuar essa reflexão.
    Obrigado

  3. Caramba, Simonetta, quanta informação! Um beleza de texto que certamente nos traz algumas linhas interessantes para o debate.
    Sobre o imaginário, por exemplo, ouso dizer que a fotografia não apenas concretiza nosso imaginário, mas principalmente o amplia. E o que é o mundo em que vivemos se não uma representação concreta da capacidade imaginativa do homem?
    A fotografia sempre andou de braços dados com a tecnologia e tolo daquele que se apegar única e exclusivamente a aspectos técnicos da imagem. Paradoxalmente – e a fotografia é cheia de paradoxos, contradições e armadilhas! – depois de termos atravessado o positivismo e toda a sorte de uma sociedade tecnicista (essa ainda vive!), temos assistido a um endeusamento dos RAWs, Lightrooms, tilts e shifts e sabe-se lá o que mais. Depois do fatídico “tá filmando para onde?”, o que mais se ouve é “quantos megapixel tem essa câmera?”!
    Enfim, sempre relacionei o movimento pictorialista na fotografia como uma forma de dar ares de arte para uma prática que se encaixava nas prateleiras das ciências físicas, químicas e afins no século XIX. Engraçado assistir, justamente num momento onde a tecnologia mais uma vez – e dessa vez com mais força do que nunca! – se coloca como principal mediadora no mundo social, a uma certa invasão pictorialista na produção fotográfica contemporânea. Para mim soa um pouco sintomático, e talvez nunca tenhamos visto surgir tantos artistas se utilizando da fotografia como meio ou suporte para sua arte. E assim o mundo vai se reinventado em seu ciclo não tão interminável assim, já sabemos, e haja HD para tudo isso!

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