Belo encontro!

Tuca Vieira, fotógrafo da Folha de São Paulo entrevistou Cristiano Mascaro, que para o Caderno Mais, fez seu primeiro ensaio em digital. A história nasceu depois do texto do Mascaro “Ave Leica” (leia aqui), um dos textos mais comentados em vários blogs. Hoje, no Caderno Mais, belo texto do Tuca. Com autorização do autor reproduzo aqui.

Paulista, avenida por Cristiano Mascaro

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Usando uma câmera digital, fotógrafo clica a via que melhor simboliza são paulo, que está fazendo 455 anos

TUCA VIEIRA
REPÓRTER FOTOGRÁFICO

Quem se dispusesse a percorrer o centro de São Paulo nos anos 1980 correria o risco de encontrar uma solitária figura de barba cheia, tripé nos ombros, mochila nas costas, olhando as sombras alongadas da primeira hora da manhã.
Em cima do tripé provavelmente estaria uma câmera sueca da marca Hasselblad parecida com a que foi à Lua. E dentro da mochila encontraríamos rolos de película fotossensível, dessas que passam por banhos de bórax e sulfito de sódio.
Cristiano Mascaro se lembra de quando “saía de casa antes do amanhecer, com os faróis do carro ainda ligados”, como se tivesse um encontro marcado com a luz no centro de São Paulo. São dessa época algumas das mais importantes imagens da fotografia brasileira.
Quem se dispusesse a percorrer a Avenida Paulista, na tarde da última segunda-feira, encontraria essa mesma figura com a barba já branca, o mesmo tripé nos ombros e a mochila que deixava marcas de suor na camisa.
Mascaro aceitou o convite da Folha para fotografar a Paulista, asfaltada há cem anos: “Nunca vi comemorar asfaltamento de rua, mas tudo bem”. É seu primeiro ensaio fotográfico com câmera digital.

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Do centro velho para a Paulista, muita coisa mudou. Em cima do tripé, “um trambolho de 22 botõezinhos e 21,5 megapixels”; dentro da mochila, um “estojo de maquiagem” onde guarda os cartões de memória.
Mascaro foi motivo de polêmica depois que publicou um artigo no Mais!(de 21/12) em homenagem a Cartier-Bresson, em que lamentava o desuso das técnicas tradicionais.
O artigo circulou pela internet, e Mascaro foi chamado de mestre por uns e antiquado por outros. “Eu só quis fazer uma homenagem a uma época da fotografia que não pode ser apagada. Quero ter o direito de sentir saudade.”
Entre curiosidade e ceticismo, Mascaro vai se entregando à novidade mais por necessidade do que por paixão. “É como tirar um pé de uma canoa para colocar noutra”, define.

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A fotografia é sobretudo uma aventura humana: “A fotografia te levava a conhecer as pessoas. O trabalho de campo passou a ser trabalho de gabinete. Tenho saudades de bater na porta do laboratório. Como vou fazer agora sem tomar café com a Rosangela, que revelou meus filmes por 20 anos?”.
Mudam os tempos, muda a cidade, mas o olhar do fotógrafo permanece. Mascaro veio “tratar” as imagens (como se diz a respeito da pós-produção digital) e não havia nada para ser tratado. Suas fotos digitais, como numa prancha de contatos, precisam de ajustes mínimos de contraste e só.
Aos 64 anos, ele se renova: “Instalei um Photoshop CS4 e comprei um livro passo-a-passo, agora ninguém me segura!”. Parece surgir um novo fotógrafo, 30 anos à nossa frente.

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5 comentários em “Belo encontro!

  1. “Eu só quis fazer uma homenagem a uma época da fotografia que não pode ser apagada. Quero ter o direito de sentir saudade.”

    E que homenagem linda… Fotografei um parto na semana passada e levei uma FM2 e D300. Usei as duas. Nos próximos dias necessiatrei de rapidez pois vou fotograr uns submundos. Nesse caso usarei a digital pois trabalhei com luz de poste, muito ruim, mesmo, e não dá para voce ficar trocando de filme e de máquina. Toda discrição será pouca. Não se trata de arte. Arte para mim ainda é filme, etc.

    Meu caro Mascaro, estou com meu frizer cheio de papeis e filmes. Não está faltando nada no mercado como alguns dizem. Já dei a dica.

    Agora mesmo, acabei de revelar uma boa quantidade de filmes em Sampa que serão escaneados em alta. O tesão é colcar todo o material em cima da mesa de luz e curtir: este vai para o céu e este para o inferno. Assim caminha a fotografia.

    A história não acabou. Está melhor do que nunca.

  2. O texto do Mascaro é lindo, é crônica impregnada de poesia e nostalgia. Sobre alguns comentários contrários ao parecer do Cristiano, acho também , assim como ele, que deveíamos ter a opção de trabalhar com os mais diversos suportes.
    Estou trabalhando com o digital desde do ano 2.000, confesso que gosto das facilidades do proceso, por outro lado ainda não me acostumei com a imagem “pasteurizada” da nova tecnologia.
    Mas tudo bem, toda novidade causa uma certa resistência, afinal estamos falando de uma tecnologia, a do filme, consolidada há quase 200 anos, não vai ser da noite para o dia que vamos esquece-la.

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