Tentei, juro que tentei!

Fiz de conta que não ouvi, que não li, que não sabia do que as pessoas estavam falando. Mas como todo mundo falou, escreveu, comentou…não pude mais. O texto de hoje no estadão do Roberto da Mata é primordial. Não vou dizer nada. Só reproduzir. Cada um pense o que quiser….

O presidente não lê

Roberto DaMatta

Numa terra de cegos, quem tem um olho é rei. Num país de gente sedenta e carente de leitura, é desanimador e melancólico descobrir que o presidente da República, o sujeito mais importante e poderoso do sistema; a figura a quem devemos respeito e lealdade pelo cargo que ocupa; que representa não só um partido ou posição política e econômica, mas – como supremo magistrado da nação – a todos nós; o homem número 1 do País, não lê. Mais: em entrevista ao jornalista Mario Sergio Conti, para a revista Piauí, ele declara que, quando tenta fazê-lo, tem azia. Ademais, descobrimos que ele fez como o pior presidente que os americanos jamais tiveram, George W. Bush, pois dele veio a cópia de uma estrutura palaciana montada para evitar a leitura. Para um sujeito como eu, que vive para os livros e de livros, e que morreria sem livros; para quem a leitura tem sido um meio de dar sentido à vida e de lidar com o amor, com a perda, com o sucesso, com a raiva, o trabalho e com a morte, saber dessa antipatia à leitura é – digo-o sinceramente e com o coração na mão – chocante, inacreditável, triste, devastador.

Para quem tem na leitura não só uma fonte de informação e sabedoria, mas os motivos para viver, como é o caso dos professores, escritores, educadores, ensaístas, legisladores, pensadores e jornalistas; funcionários e intérpretes das normas legais, cujo trabalho consiste em aplicar regulamentos, decidindo a todo instante o que é correto; descobrir que o presidente não lê é uma bofetada na cara!

Vejam bem, há contradições triviais. O padre pecador, o ateu crédulo, o professor ignorante, o médico hipocondríaco, o economista pobre, o pastor malandro, o jornalista venal, o desembargador corrupto, o policial criminoso e o político sem caráter. Mas todos leem! Todos se informam por meio de amigos e auxiliares, mas não abandonam o contato direto com a fonte: esse foco indispensável ao conhecimento do mundo. Esse mundo feito de representações codificadas, de palavras e algarismos articulados numa determinada intenção e estrutura. Estivesse eu dizendo o que digo por meio de rimas, o efeito seria diferente. É por causa disso que eu não posso me conformar com um presidente que não lê.

O que saiu na revista deve ser um engano. Estou seguro que o presidente lê. Lula estava simplesmente brincando com o entrevistador. Ressentido ou ofendido com alguns jornais e revistas, o presidente usou o manto da ironia e resolveu chocar o estabelecimento jornalístico, dizendo que não lê. Não posso acreditar que o servidor público mais importante do meu país, apreenda o mundo apenas por meio do ouvido. Sendo instruído e informado sobre os eventos e idéias deste nosso mundo conturbado somente por meio de conversas permeadas pelo ponto de vista e emoções dos seus interlocutores. Não posso crer que o presidente se contente em apenas ouvir o canto do galo, sem jamais vê-lo em pessoa. Que ele não tenha nenhum momento a sós consigo mesmo, no qual – com um texto na frente dos olhos – coloque para dentro de seu ser, por meio da leitura solitária e individualizadora, aquilo que o autor da narrativa explicita, revela, ensina, critica, pede, descobre, interpreta, anuncia, reitera, louva, interroga, suspeita, ou condena.

Quando o presidente diz que não lê, ele envia uma poderosa mensagem à sociedade que o elegeu. No fundo, ele diz que o discernimento pode ser alcançado por vias externas. Os laços sociais substituem a experiência da leitura que usualmente vai dos jornais e revistas para os livros. O que impressiona não é apenas o fato do homem não ler. É o fato dele estar seguro de que é mesmo possível saber das coisas por tabela e em segunda mão, por meio de olhos alheios. Sem a visão direta, interiorizada, individualizada e subjetiva dos fatos e problemas, porque eles podem ser assimilados por meio dos outros. E que ele não leva a sério a imprensa livre e contraditória que, como ele mesmo admite, foi decisiva na sua eleição.

A leitura vai muito além da informação. Ela mostra que os fatos são sempre inventados, relativos e determinados por perspectivas. Um mesmo “fato” pode produzir pontos de vista diversos, relativos a um mesmo dilema ou questão. Num mundo permeado por contradições, a leitura é um instrumento privilegiado para entendê-las e eventualmente superá-las.

Em estado de choque, penso na lição daquele Machado de Assis que – diga-se logo – não pode deixar de ser lido, quando ensinou que quem conta um conto aumenta (e necessariamente subtrai) um ponto. As versões pessoais, a apreensão marcante, sempre surgem da leitura em primeira mão. Como um sujeito que morreria sem os livros, como uma pessoa cuja profissão é ensinar a ler e que vive de leitores, eu sou obrigado a imaginar que essa entrevista é, no mínimo, um conto; e, no máximo, uma catastrófica notícia.

 

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8 comentários em “Tentei, juro que tentei!

  1. Acho que o blog vai muito melhor quando fala de fotografia. Ao ler o texto do Roberto DaMatta, que admiro muito, me senti obrigado a ler a entrevista na “Piauí”. E eis que na entrevista não há nada demais. O texto acima seria belo, se não fosse inventado.
    Existem muitas exceções e é necessário valorizar todos os pontos de vista, mas em geral a imprensa escrita nesse país me dá azia também, dá para imaginar o alvoroço para se publicar um texto como esse na redação da folha.
    Este é apenas meu ponto de vista.

  2. Tudo bem, o presidente não deve ser mesmo um grande leitor (em sintonia com 95% da população brasileira, aliás, muitos dos quais com a boca cheia ao falar do Lula), e isso não é mérito, mas a entrevista não falava de livros e sim da imprensa diária e semanal, da leitura de jornais e revistas. Aliás, ter azia lendo a Veja não é tampouco um coisa anormal…

  3. Lula foi fotografado por um dos ícones do fotojornalismo brasileiro, apontando para o próprio umbigo, alojado numa barriga a La Ronaldão e maltratado pelas noites sem dormir, em articulações de um PT que traiu o povo.
    Quem olhar a foto que foi feita dele subindo a rampa – num contra campo onde tem FHC em primeiro plano – percebe logo o quanto o país queria mudanças. Candangos de todos os rincões do país, carregavam esperança nos ombros e tinham os olhos marejados de ansiedade num momento histórico que Lula não vacilou em locar latrina abaixo num só trago. Claro, entrou no palácio, encagaçado por Abílio Diniz e companhia que telegrafaram que fariam o caos se bancos e outros super negócios não tivessem os superávits – que o cara que mandou todo mundo esquecer o que escreveu-, articulou para o sistema geral.
    Abro um parênteses para avisar que FHC roubou descaradamente a nação. Grave! Tem tudo haver com a dívida externa e o STF do protetor de Dantas não está nem aí. Está tudo esmiuçado na entrevista de Protógenes Queiroz, em Caros Amigos. Ele mesmo. O cara que colocou a Maluf, Pita e outros demônios na cadeia. Espero que se lance a presidência da república.
    Um dos momento mais triste da história de Lula, foi quando permitiu que seu “buquimeique” José Dirceu – bem aportuguesado mesmo -, mandasse um grupo de excrescência ou meganhas da PM – dá no mesmo! – invadir o congresso e apunhalar Heloisa Helena e o que restava de dignidade.

    José Arbex em Caros Amigos faz, uma indagação rápida e objetiva: “onde está a esquerda: onde está a revolução?” Lula apunhalou. Silenciou com cargos comissionados e outras manobras mais que tem dado muito trabalho a um policia federal que deixou de ser pretoriana e baixou a porrada na burguesia. A “turma da Daslu” que o diga.
    E por não ler e embarcar nos atos peçonhentos do sistema made im 64, não vacilou em seguir a cartilha de um não menos venal chamado “renato” que foi ministro da educação de FHC.

    Lula está em pé sobre os ombros do ex-presidente, e pede para que este não se mexa muito para que ambos não se atolem na mesma fossa asséptica que a burguesia construiu.

    Não temos mais que nos preocupar, pois a “marginalia” carioca fabricada, já sentenciou: “está tudo dominado” e em breve será Lula que terá que fazer o mesmo malabarismos para sustentar o seu sucessor nos ombros.

    O texto do Sr Roberto DaMatta me instiga a enviar um texto a Dilma Rusself para indagar-lhe se ela seguirá a mesma cartilha. A cartilha da idiotização que faz parte do ciclo… Serra e sua tucanada também, há tempos, seguem o script que o paraense, canalha Coronel Jarbas Passarinho traçou para transformar o Brasil num país de monstros analfabetos, corruptos e assassinos. Quem nasceu antes de mim sabe bem o que estou falando…

    Há um ditado bem claro: “ou mel ou beiço!” Não dá para adorar dois senhores.

    Por uma Palestina Livre e já!

  4. “Como um sujeito que morreria sem os livros, como uma pessoa cuja profissão é ensinar a ler e que vive de leitores, eu sou obrigado a imaginar que essa entrevista é, no mínimo, um conto […]” Faço de suas palavras, também minhas. E continuo…

    Sempre surpreendo-me com os textos do seu blogue, e hoje não foi diferente. Porém há, desta vez, um sentimento que, confesso, imaginava já não mais existir, esvaindo-se. Talvez seja a esperança…sei lá. Mas o fato é que, por também receber do diálogo com as letras, uma espécie de sustento, como se as próprias, ao comporem frases soltas, que unidas ganham sentidos, fossem a lenha da minha fogueira, que ouso chamar de vida. É lastimável ver escancarado um representante desses. Ao menos está explicado o traquejo singular que tem =/. Enfim… uma pessoa que não gosta e não lê, antes de mais nada, não gosta da vida, porque ler está muito além de decodificar símbolos. Isso fácil. A leitura vem aliada com a do mundo. E [d]isso, está claro, ele não gosta!

  5. Álvaro, concordo com você! em muitos aspectos. Mas a questão não é da imprensa, massim de um presidente, que faz este tipo de apologia!
    Livros, imprensa, mesmo quando discordamos dela, é necessário lê-la porque nos ajuda a pensar…
    ERsta é a questão que o da Matta coloca muito bem!
    A formação de crítica, e não apenas concordâncias…

  6. Entendo quando uma pequena frase de uma entrevista, matéria ou artigo de jornal vira piada entre amigos em um botequim. Mas não entendo qdo alguém que possui um espaço de destaque em um jornal de grande influência resolve usar a piada para preencher o espaço. Nessas horas agradeço ao Senhor por grande parte da população fazer parte do tal grupo dos analfabetos funcionais – confesso que muitas vezes desejo fazer parte deles – e livrá-los dessa “perca” de tempo. A ignorância sem sombra de dúvida é uma dávida que não dá dor de cabeça e nem azia.

    PS: Sinceramente, saber se o presidente Lula tem o hábito de ler ou não é informação inútil. Cada um tem o seu modo de se informar sobre o mundo e o que não falta são opções para todos os gostos: desde rádio, tv, internet, mídia impressa até sexo com jornalistas e professores – para os mais “cinestésicos”, por assim dizer.

  7. “O que impressiona não é apenas o fato do homem não ler. É o fato dele estar seguro de que é mesmo possível saber das coisas por tabela e em segunda mão, por meio de olhos alheios. Sem a visão direta, interiorizada, individualizada e subjetiva dos fatos e problemas, porque eles podem ser assimilados por meio dos outros.”
    Adolf Hitler super concordaria com ele!

  8. Simonetta

    Li esse texto no jornal e fiquei surpreso em ler os comentários no blog. O presidente Lula não é o presidente dos descamisados e miseráveis. Ele é o presidente de 190 milhões de pessoas, independentemente de ideologia. Por isso a responsabilidade dele é enorme. DEsta forma independente da imprensa dar ânsia em milhares de espectadores, a obrigação do nosso presidente é ser exemplo. Tudo aquilo que sonhamos e desejamos para cada brasileiro. Se 95% dos brasileiros não leem, o presidente deveria ser o primeiro a dizer que lê, apesar da azia que lhe causa.
    Infelizmente é isso, estamos sempre achando que tudo é uma questão de disputa política, enquanto o fato mesmo é que somos um país de pessoas que não tem educação e não leem.

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