Imagens choque

Volta e meia este assunto volta à tona. O que publicar, como publicar? Imagens sensacionalistas, imagens choque. Na semana passada o ombudsman da Folha de S.Paulo, Carlos Eduardo Lins da Silva,  já “chamava” para esta discussão. O suplemento Aliás, do jornal Estado de S.Paulo de domingo também trouxe dois depoimentos sobre o assunto: “Duas lentes, um mesmo conflito”.  Tudo isso por causa das imagens sobre o conflito, na verdade guerra, entre Israel e Palestinos. Vale a pena ler os três textos. Mas gostaria de lembrar de um texto que foi escrito nos anos 70 por Roland Barthes (infelizmente aqui só lembrado por seu livro “A Câmara Clara), sobre imagens-choque.

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Eddie Adams, Vietnã 1968.

Roland barthes diz que o horror não está na fotografia, mas no fato da gente observá-la. Susan Sontag, também levanta estas questões no livro “Diante da dor dos outros”. Mas, ela também, nos anos 70 nos lembrava que a exposição da fotografia de violência exposta de forma tão banal acabaria por nos tornar passivos diante das atrocidades. Mas, e eu acho que muitos concordam, que devemos mostrar o que aconteceespecialmente nas guerras. O que ela afirma é que há tempos nos acostumamos a ver a dor dos outros mediada pela imprensa. Roland Barthes, dizia que existe uma facilidade muito grande numa imagem choque se tornar clichê e, portanto, ineficiente. As imagens choque ou sensacionalista são recebidas ou percebidas de uma forma discutível, ou seja, como se ao falarmos de guerras, conflitos e dores, estaríamos entendendo que estas imagens são registros puros sem a menor estética ou olhar de um fotógrafo. E aí que a imagem se transforma em clichê, ou como dizia Barthes, uma mensagem sem código. Não existe estética sem conteúdo e nem o contrário. Um fotógrafo que se preocupa só com um lado estético acreditando que isso é possível, acaba por gerar uma mancha sem significado. A fotografia, antes de mais nada é um signo e, portanto, geradora de significados. fogo

Malcolm Browne, Saigon 1963.

Voltando ao Barthes: “frente às imagens choque acabamos nos sentindo privados da nossa capacidade de julgar, visto que o horror está à nossa frente”. A questão que devemos nos colocar não é se devemos mostrar, mas como mostrar: “nas imagens-choque tudo já foi feito: alguém já se emocionou por nós, refletiu por nós, sofreu por nós e julgou por nós. Não nos resta nada a não ser um débil direito de concordar”. Nestas imagens não podemos interpretar nada, o fotógrafo já fez tudo isso por nós.

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Francisco de  Goya, 1808.

Na pintura o horror é apontado, na fotografia fixado. Para Barthes toda fotografia choque é “falsa” visto que fica entre o fato real e a história amplificada. Sontag diz que é da natureza da fotografia estilizar e que alguns fotógrafos fazem isso com mais profundidade do que os outros. Ou seja, estamos falando aqui da intencionalidade do olhar.

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Don McCullin, Biafra 1969.

 O que Roland barthes quer nos dizer é que a fotografia literal nos traz o escândalo do horror, mas não ao horror em si. O problema está em como mostrar, em como fotografar. Mas, eu acredito que devemos mostrar. Claro que a fotografia não muda o mundo, mas talvez não nos deixe esquecer. Está aberto o debate.

P.S. De propósito busquei fotos fora do conflito Israel-Faixa de Gaza.

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7 comentários em “Imagens choque

  1. Olá, Simonetta.
    Lembro que no livro Sobre Fotografia, da Susan Sotang, ela comenta alguma coisa sobre a primeira fotografia que a chocou e como isso foi uma iniciação para ela. Por outro lado, depois que li seu texto, fiquei pensando na última foto que me chocou e constatei que faz pelo menos 4 anos (foto de Antonin Kratochvil, da VII Photo, em algum conflito civil, ao que parece na África). A foto era de um corpo com o crânio descarnado, numa espécie de escalpo levado às últimas consequências. O corpo é observado por duas crianças, o fotógrafo achou importante incluir essas duas pessoas.
    Sabe-se lá se as crianças estão vivas hojes, o que se tornaram e será que a cena, in loco, chocou-as quanto aos seus futuros, de algozes ou vítimas, fizeram delas pessoas “melhores” ou “piores”? Ou seja, toda uma discussão que acaba caindo nas mesmas questões, no mesom clichê… Os fotógrafos que têm coragem e ética para documentarem cenas como essas dizem que o fazem para que as pessoas enxerguem o que deixam acontecer para que no futuro elas possam saber evitar ou entender o que acontecerá se não promoverem o debate. Por isso, a conclusão que se chega é que tem que mostrar mesmo. Mas o que me choca é que as pessoas se indignam com a imagem e não com o gerardor, o conflito, a guerra, ou a fome que possibilitou que aquele acontecimento fosse gerado. Reclamar com o jornal que não gostou da foto publicada é mais fácil que se posicionar no seu meio contra os conflitos nas mínimas e amplas naturezas. Como você disse, as fotos são ícones e por isso deveríamos entender o seu significado.

  2. Para Barthes toda fotografia choque é “falsa” visto que fica entre o fato real e a história amplificada.”

    Não existe história amplificação. A amplificação é o ato praticado e não o click divulgado de forma massificante. Ou mostra ou não mostra. O que um segmento da sociedade gostaria por exemplo é que tirassem todos os mendigos das ruas e os colacassem em guetos como os de Gaza. Isto foi só um parêntese aberto…

    “O que Roland Barthes quer nos dizer é que a fotografia literal nos traz o escândalo do horror, mas não ao horror em si. O problema está em como mostrar, em como fotografar.”

    Não existe em minha opinião uma fórmula para mostrar.
    Mostra-se o que está na nossa frente. Se é caos que se mostre o caos; se é o beijo de amor que se mostre o gostoso e salutar beijo. Quem disse que tem que mostrar, está certíssimo.

    Quem tem estragado alguns bons momentos – não acho a guerra um bom momento, aliás, considero péssimo-, do fotojornalismo, e é no campo estético que me refiro, mesmo na guerra, são justamente aqueles que tem usado o photoshop para fazerem modificações na realidade jogada para os inteligentes cartões das super MP. Nos últimos anos foram vários os casos.

    O que a turma do VII Photo faz não é nada mais nada menos do registrar as mazelas que o capital com seu insanos interesses semeia sobre a grande nave mãe. Daí eu achar que as declarações do Senhor Roland barthes são descartáveis diante da responsabilidade que os fotógrafos que tem compromisso com o clique idôneo, nos momentos de hoje, principalmente.

    Virou fonte de renda para os “controladores” que mostram estas imagem? Sim, virou! E por isso será mostrada por longos séculos e séculos e não haverá mais o tripé formado pela paixão, ira e vontade real em acabar, verdadeiramente, com tais atrocidades, provavelmente por covardia, “rabo-preso”, alienação e “falta de tempo”, etc.

    As fotos da menina na época, despelando sob bombas no vietnam e a foto do “espião” executado por um oficial sul vietnamita, podem ter ajudado sim, a acabar com a guerra do vietnam, pois, mesmo na era do telefoto, as coisas chegam às redações do mundo inteiro aos trancos e barrancos e, e quando chegavam, aquela linda geração que queria paz e amor, foram para as ruas e exigiram que as coisas tivessem um fim, como teve. Bem mais isto são outras épocas e existia vergonha na cara do planeta. Havia aliás poucos shoppings naquela época… hahaha

    Don McCullin quando pega o olhar perdido de um soldado norte americano diante da coragem amarela norte vietnamita, ele telegrafa ao leitor que os invasores estavam perdidos, mas, só esta fotografia, não teria feito eco na mente do mundo e as ruas teriam ficado vazias.

    “frente às imagens choque acabamos nos sentindo privados da nossa capacidade de julgar, visto que o horror está à nossa frente”. A questão que devemos nos colocar não é se devemos mostrar, mas como mostrar: “nas imagens-choque tudo já foi feito: alguém já se emocionou por nós, refletiu por nós, sofreu por nós e julgou por nós. Não nos resta nada a não ser um débil direito de concordar”.

    Uaí! Voltemos a idade da válvula, cegemos todas as câmeras e vamos ouvir a Voz da da América. O cartel do diamante não lida com virtualidadess nesta área. Ou tem bons quilates diante dos olhos ou não tem. Creio que assim deva continuar sendo a prática fotojornalista séria, praticada pelo menos por parte dos mestre da fotografia e da ética.

    Devemos mostrar todos os crimes do sistema, menos encher a bola de falsas celebridades fazendo sexo nas praias do mundo para anabolizar a conta bancária e arrumar otário.. Não sei se Roland Barthes abordaria este tema. Será?

    Em tempo: alguém sabe explicar porque nossos intelectuais e estudantes ainda não foram às ruas brasileiras combater o massacre de crianças sobre as legítimas terras Palestinas?

  3. O caderno Mais! desse último domingo (11 de janeiro de 2009) tratou basicamente disso que se está discutindo aqui. Trouxe a seguinte chamada na capa: A Batalha da Informação. A foto rasgada mostra, segundo a legenda, um fotógrafo palestino no momento em que é atingido por bomba de gás lacrimogênio na Cisjordânia. Por detrás da fumaça, o fotógrafo puxa sua máquina fotográfica ainda em punho ao peito, recolhe uma das pernas como se tentasse se colocar em posição fetal. O grito estampado no rosto. É o tipo de imagem, nua e crua, sem qualquer apelo estético ou sangue escorrendo, que no mínimo reflete como muitos homens de farda – ou mesmo quaisquer reacionários à paisana – gostariam de ver os profissinais da imprensa num campo de batalha. Seja ele no Oriente Médio, na África ou aqui na avenida Paulista mesmo, onde já pudemos assistir a algumas cenas de barbárie policial.
    Cito o caderno Mais!, pois é lá que se encontra um texto primoroso de José Hamilton Ribeiro, bem ao seu modo: simples, objetivo e certeiro. O Repórter – assim mesmo, com érre maiúsculo – levanta um ponto que ao meu ver dispensa reflexões filosóficas sobre uma falha deprimente do caráter humano: “Diante de uma câmera, ou de uma testemunha imparcial, ninguém se entrega à sua selvageria. Pode ser ingênuo, ou romântico, mas assim penso: guerra é ruim, mas guerra sem jornalista é pior”.
    Zé Hamilton deixa claro em seu texto o quanto a presença da imprensa incomoda e se mostra indesejável numa situação extrema como a da guerra, e é desse modo que depois do Vietnã assistimos somente a um “espetáculo” bem editado, e ultimamente com o máximo de rigor e cuidado estético.
    Embora a contribuição de Barthes tenha sido valiosíssima no campo da significação, penso que talvez ele estivesse muito dedicado às letras durante a ocupação da França pela Alemanha, por exemplo, para se colocar desse modo sobre a fotografia de guerra. Em minha modesta opinião, a fotografia tem uma responsabilidade muito grande perante a humanidade e versar sobre estética, ou tratá-la apenas como uma representação “falseada” da realidade é no mínimo insensível.
    Agora, trabalhar em cima de clichês é uma opção realmente que empobrece muito, para não dizer que é de uma irresponsabilidade tremenda, pois corre-se o risco de estarmos induzindo os leitores – que só para lembrar, são seres humanos – a pensar que todas as guerras são iguais. E mais. Numa sociedade pautada pelo politicamente correto, que tende a evitar debate e o choque de opiniões, mais vale uma foto-clichê bem feita e bem photoshopada , que uma foto carregada de um ponto de vista crítico. Esta, ainda acredito, pode ser tão perigosa quanto um ataque aéreo.

  4. Meus caros,

    eu – que como todas já sabem – não gosto dos textos do Roland Barthes quando ele fala da fotografgia – concordo com este texto dele. Até porque ele diz o que vocês mesmos estão dizendo (Wank, em especial e Vitorino). Que as coisas devem ser mostradas, sim e não reduzidas à algo literal e pueril. Pois nasce o clichê e como bem disse o Vitorino, se torna empobrecedor.
    A fotografia não é vista isolada, mas sempre dentro de um contexto, portanto existe a questão da amplificação, sim. Pela mídia.
    Roland Barthes não defende que não se mostrem as imagens, pelo contrário, mas que sua publicação as torne eficientes e não meros clichês. Infelizmente, fotografias de guerra se tornaram clichês, sim! São todas muito parecidas. E, portanto, se tornam menos competentes. Estética não é embelezadora, é linguagem. estética não é belo, é linguagem. Basta ver as fantásticas imagens do Robert Capa, do Don McCullin e outros. Aí que está o erro. Confudir estética com algo empobrecedor. A famosa imagen do Kevic Carter (abutre e criança) tem estética, e isso não depõe contra a imagem e o choque da imagem. Uma coisa são fotografias de guerra, outras imagens sensacionalistas. Essa é a questão da imagem-choque. O choque paraliza, afasta. Para mim -e continua sendo até hoje, o melhor fotógrafo de guerra é o James Natchwey, da própria VII e suas imagens mostram os horrores da guerra, mas não apelam. Atenção ninguém defende que estas imagens não devam ser mostradas, mas sim, como podem se tornar mais eficientes. Wank, existe sim uma maneira de mostrar, a fotografia não é uma linguagem unversal, ela deve ser decodificada. Infelizmente, digo e repito, fotos não mudam o mundo, mas nos ajudam a pensar. Portanto, mesmo a imagem da guerra, é um constructo social. Por isso citei os textos do Estadão que motram dois lados das mesmas lentes. E a polêmica, continua.

  5. Precisei escrever e participar deste debate, não pude não escrever. E, observando toda essa troca de idéias, lembrei que a Estética pertence as designações do sensível; a estética é a ciência do belo nas produções naturais e artísticas; e essa designação é aplicada a partir do século XVIII por Baugarten, que desarolou esse conceito para os estudos das obras de arte, e para o conhecimento dos aspectos da realidade sensorial, em termos de belo ou feio.

    Então, parece-me que a busca pela estética, na construção social da fotografia, na representação que pretende reportar, ou até mesmo etnografar, sobre um fato social, tal como é a guerra, são inseparáveis, na qual a imaginação social do fotográfo, a imaginação fotográfica (sensível, que observa e captura), e o contraponto pertinente à articulação da imaginação inscrita no aparelho fotográfico (razão), se fundem em paradóxo. Como num jogo, como um hiato, e assim é na literatura, é preciso articular razão e sensibilidade, o tempo inteiro. Não sei ao certo se isto é tudo, mas é uma reflexão suscitada, por este espaço, acerca de todo esse acontecimento, que é a guerra.

    O que entendo, sobre caso da fotografia de jornais, é que há cotidianamente o compartilhamento de certos fatos sociais, as vezes enfados, e somos nós espectadores críticos e historiadores muitas vezes, que produzimos um outro conhecimento, acerca dos fatos reportados e impressos, e essa é outra história. Por tudo isso, concordo com a frase: ‘fotos não mudam o mundo, mas nos ajudam a pensar’.

    Assim, e ainda sim, é fato: tudo o que temos são provas, dados empíricos concentrados a partir de pontos de vista diferentes (subjetivos; muitas vezes sensíveis) de quem fotografou e de quem editou, em torno de uma realidade (objetiva, real; e, objetivo da reportagem). E toda essa construção social acaba por comaprtilhar provas dos acontecimentos, como testemunhos do real, ‘aumentando (ou subtraíndo) um ponto do conto’, provocando, no caso da notícia do Estadão, um conflito em nome de uma assimetria, que é ‘o ponto de vista’.

  6. É importante mostrar a realidade, a crueldade, a capacidade do ser humano de autodestruição da própria espécie, como na pintura e em diversas gravuras que Francisco de Goya (1808) fez durante a guerra civil espanhola. De certo ele teria fotografado se tivesse, na época, uma máquina fotografica.
    A fotografia é uma linguagem, como a pintura, desenho e a escrita. Cheia de significados em que o espectador faz sua releitura da realidade de acordo com seus sentimentos e cultura. São os olhos do artista (neste caso o fotografo) mostrando a realidade pura através das lentes (os olhos), é um documento, é estético, pois embora pareça “feio” traz sempre esse sentimento, transmite mensagem, tem a capacidade de transformar em “belo” uma realidade!
    De uma forma ou de outra essas fotos tiveram importância para o fim da guerra do Vietnã, a pintura de Goya para documentar a guerra civil espanhola, para refletirmos sobre a fome no mundo, para debatermos neste espaço…

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