Ave Leica!

O texto abaixo foi escrito por Cristiano Mascaro para um especial do Caderno Mais, do jornal Folha de S. Paulo,  sobre Cartier-Bresson. Com a devida autorização do autor, reproduzo . Leiam!

Ave Leica – Cristiano Mascaro

Não sei como acontece com outros artistas, os pintores com seus pincéis, os escultores com seus cinzéis, os gravadores com suas goivas .
No entanto posso assegurar que nós, fotógrafos, desenvolvemos uma enorme e saudável relação de afeto com nossas câmeras fotográficas.
Certamente porque elas estão permanentemente por perto, ao alcance de nossas mãos.
Não podemos nos afastar. Estão sobre a mesa de trabalho, dentro da mochila, na bolsa a tiracolo e quase sempre bem pertinho, colada em nossos rostos ou pendurada no pescoço, roçando no coração.
E, se porventura, for uma Leica, é caso de paixão. Não é para menos.
Foram essas câmeras miúdas, que cabem na palma de nossas mãos, que libertaram os fotógrafos pioneiros -Cartier-Bresson, inclusive- da ditadura dos equipamentos enormes, obrigatoriamente apoiados em um pesado tripé.
Daí, descobriram a rua. Podiam caminhar livremente pelas calçadas e fotografar ao mesmo tempo, surgindo assim o que talvez tenha sido uma de suas maiores descobertas: registrar a vida como ela é.
Não somente os grandes acontecimentos, as guerras e as catástrofes naturais, mas sobretudo a vida cotidiana, revelando e tornando grandiosas as miudezas do dia-a-dia.
Hoje, tenho duas câmeras Leica que me acompanham em meus trabalhos, o que me dá uma sensação de segurança, uma certeza de que tudo irá correr bem. Não me desgrudo.
Mas sei que em um futuro muito próximo talvez tenha de abandoná-las. Essa infernal tecnologia digital avança vertiginosamente, os meus filmes estão cada vez mais raros e, dessa forma, já me vi obrigado a comprar um trambolho de 21,5 megapixels. É um horror!
Mal desenhado, pesa uma enormidade, tem exatos 22 botões para acessar suas múltiplas funções, a maioria delas dispensáveis, além de uma alavanca de “liga” e “desliga”.
Sem comentar que me obriga a carregar, quando viajo, uma quantidade inacreditável de cabos, baterias, lap-tops, noves fora seu recurso mais brochante: poder ver, imediatamente, o que acabei de fotografar.
Com minha Leica isso é impossível, felizmente. Dessa forma, não tenho a certeza imediata de nada e, assim, posso me concentrar em meu trabalho como nunca.
Sei que a cada disparo não poderei voltar atrás, o que me torna mais seletivo e rigoroso -isto é, mais senhor do que estou fazendo. Opto pela incerteza, na contramão daqueles que jamais trocariam o certo pelo incerto. Mas a fotografia na qual acredito é assim mesmo.
É a expressão de uma atitude drástica, resultado de uma busca onde há mais surpresas do que certezas.
Cartier-Bresson, Robert Capa, Eugene-Smith, Thomas Farkas, Pedro Martinelli e tantos outros, todos com suas Leicas na linha de mira, não me deixariam mentir ou exagerar.

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21 comentários em “Ave Leica!

  1. E o ciclo da vida se repete.
    Estamos a tratar de uma nova linguagem e sua/nossa necessidade de adaptação.
    E adaptação é uma escolha e tem suas consequências.
    Vê-se ranço (sem deixar o seu valor de lado, claro) no artista maduro quando o pré-conceito em relação a algo que não veio para substituir mas para ser mais uma opção de linguagem surge.
    O blablabla está aí para ser usado e ele torna a vida fácil, previsível e segura – ou será que isto é a tecnologia digital?

  2. Cara,

    Nada como um texto perfeito pra terminar o ano (ou seria melhor, pra começar um outro??).

    “Sei que a cada disparo não poderei voltar atrás, o que me torna mais seletivo e rigoroso -isto é, mais senhor do que estou fazendo.”

    Justamente! Eu ainda me espanto como algumas pessoas conseguem sintetizar em 1 ou 2 frases, pensamentos que eu não consigo escrever em folhas inteiras de caderno.

    E só pra finalizar: A surpresa da revelação, eles não conhecem essa satisfação

    Grande 2009.
    Abraço

  3. É bom saber que as pessoas mudam de opinião, há uns 14 anos promovi uma palestra do Cristiano Mascaro na Faculdade de Arquitetura de Santos, faculdade na qual ele foi professor até os anos 80, nessa palestra ele disse que foi convencido pelo Sebastião Salgado a comprar uma Leica, mas como estava acostumado a fotografar com Hasselblad médio formato não gostou muito e por falta de uso a camera acabou quebrando e o fez esquece-la na assistência técnica, quem sabe ele também não mude de opinião em relação as digitais como fez o Walter Firmo.

  4. Eu também continuo usando lampeão com querosene aqui em casa pois dessa forma não preciso me preocupar se o fusível vai queimar ou se vou esquecer de pagar a conta de luz.

    Escrevo em uma máquina de escrever, dessas Olivetti, pois essa “coisa” de digitar em computador me faz carregar muita coisa (além de depender de eletricidade)

    Envio meus “artigos” (datilografados) para o “Caderno Mais” da Folha de SP atravéz de “Carta Comum” postada na agência dos correios.

    Acho que morri e esqueceram de me enterrar. OPS! Acordei! Que bom, ainda posso fotografar o MASP, ou quem sabe… o Sesc Pompéia. Nâo, melhor ainda, vou fotografar os tijolinhos da Pinacoteca.

    Cristiano, dá um tempo….

  5. Chamo-o de mestre não por bajulação, mas porque “sou de uma época em que as farmácias só vendiam remédios e os automóveis davam bom dia” – Zeca Baleiro – e aprendiamos a respeitar as pessoas do bem. Mascaro é do bem e verdadeiramente mestre.

    Mas concordo com mascaro sobre a tralha cara e insuportável de se carregar. Em umas dessas revista nacionais que aborda fotografia, um talentoso fotógrafo da FSP que cobriu as olimpíadas, foi taxativo em afirmar que teve que se preparar fisicamente para encarar o rojão das obrigações.

    Bem, mas o barato dos pés no chão de Cristiano Mascaro com seu texto, engrena-se na minha tese de que supers MP não faz fotógrafo. E o barato disso tudo é que os cliqueiros de ocasião desocuparão rapidamente o palco para os que realmente sabem usar uma Lieca ou uma super MP. Basta olhar os trabalhos de Miro a Mascaro. Esses sempre carregarão na alma a paixão pela fotografia e sabem por que clicam, sem se preocuparem em adentrar
    na contemporaneidade trangênica que assolou site e galerias nos últimos tempos. Pois para um bom fotógrafo é mais laborioso ir atras do instante decisivo, do que ficar dependente de tecnologias que os levaria ao caminho das abstração espúria, pobre e vazia.

    Seu livro, Mestre Mascaro está em cima de minha mesa. Os graos são lindos…

  6. Em tempo: não é necessário implantar um chips no cérebro para perecebr a emoção alimentada pelo exercício disciplinador nas palavras de Mascaro, quando ele se refere a espera pelo resultado no quarto escuro.

    Olha que lindo…: “Com minha Leica isso é impossível, felizmente. Dessa forma, não tenho a certeza imediata de nada e, assim, posso me concentrar em meu trabalho como nunca.
    Sei que a cada disparo não poderei voltar atrás, o que me torna mais seletivo e rigoroso -isto é, mais senhor do que estou fazendo. Opto pela incerteza, na contramão daqueles que jamais trocariam o certo pelo incerto. Mas a fotografia na qual acredito é assim mesmo.”

  7. Agradeço a todos que enviaram comentários a respeito de meu texto “Ave Leica” publicado no caderno “Mais”. Quando terminei de escrevê-lo, sabia que haveria pessoas que me apoiariam e outras nem tanto. Nada mais natural, pois tamanha revolução nos costumes do universo fotográfico não poderia gerar indiferença.
    Ao Rogério Simões, agradeço a lembrança de que mudo de opinião pois isto me parece salutar. Estou pronto, até porque sei que não terei alternativas, para me adaptar ao meu atual “trambolho”.
    Ao Dino S. Lauro, esperando que ele não estranhe a linguagem, responderei com elegância e respeito: meu caro, peço perdão por continuar vivo e ainda, espero, por muito tempo. Tempo suficiente para avaliar as mudanças que estão ocorrendo e me adequar às novidades tecnológicas de maneira que eu possa continuar a fazer o meu trabalho sem atropelos. Por isto, estou, como você me aconselha, “dando um tempo”.
    Especificamente quanto ao texto “Ave Leica”, devo a você uma explicação adicional: estava ali pretendendo reverenciar Henri Cartier-Bresson e sua câmera que, unidos, construiram boa parte da história da fotografia no século XX. Uma espécie de adeus sem, no entanto, lamentar as perdas inevitáveis que ocorrem nos momentos de grandes mudanças. Não imaginei que seria por isto, alvo de críticas tão severas…
    E por fim, meu caro Dino S. Lauro, se me permite, aqui vai um conselho: já que você é um aficionado incondicional das novas tecnologias, porque não aproveita as oportunidades de usufruí-las? Submeta sempre seus textos ao “Word”. Desta forma será previamente alertado de seus erros ortográficos.
    Um abraço a todos
    Cristiano Mascaro

  8. Ahhhh que deliiiiicia ler isso tudo, ainda mais vindo de um grande fotografo !!!
    Nessa era digital eu só escuto que tem que ser difital, que digital que é bacana … e eu sempre penso e comento poxa masu eu acho tão bacana a minha Ricoh mecanica, não tem nada mais lindo que um filme chromo, um pb e cheiro de laboratorio então uma delicia … Ai todo mundo fala aff Tati c tá doida revelar filme que coisa mais antiga …
    Mas eu amooooo !

  9. Tentamos ir além deste tempo quando descrevemos algo do aqui-agora, mas o conteúdo das nossas manifestações racionais é sempre ditado pelo contexto: e como esclareceu o Cristiano, as suas palavras “nostálicas” (para os do bem) ou reacionárias (pros “do mal”) deste artigo ilustravam a História do Homem, não se tratava de falar de tecnologia e reumatismo, câmera A × câmera B, estas questões foram desabafos de apenas 2½ parágrafos. Falou da arte de Bresson e a máquina como extensão afetiva, a ferramenta e o ser humano num só, o jogo de esconde e satisfação que aquela tecnologia propunha num gozo tântrico da revelação postergada à todo planejamento e captura de uma fotografia, prolongado e duradouro. São coisas que este senhor sabe, não simplesmente ouviu falar; e portanto tem o dever de contar, não é só mais uma opinião (como esta minha), ele está vivo, consciente e com ranhetisses passageiras que alcançarão à todos os zóio ki a terra há di cumê. Irá, como outros fotógrafos P&B, se render ao que a indústria impõe: vestir uma imagem RGB com P&B via 24 canais de conversão de cor; ou não? Renderá, com a mais absoluta certeza, o que se espera dele: o melhor de Cristiano Mascaro.

  10. É por aí… Pegamos alguns caminhos diferentes para chegarmos ao mesmo objetivo.

    “Rondava pelas ruas o dia todo e sentiá-me afiado e pronto para dar o salto decidido que estva a apanhar a vida a laço – a preservá-la no ato mesmo de vivê-la(…)
    HCB

    O que me fortalece ainda mais – com este “texto rebaixador”, texto esse que clareia nossas mentes – , é a questão da “seletividade”. Bresson não nos passou despercebido, pelo contrário.

    O lance do faz apaga, faz apaga, deixa o elemento muito a vontade e um pouco relaxado, menos rígido com o fracionamento do universo em que circulamos, damos volta,
    retornamos, olhamos, enquadramos, descartamos na mesa de luz, etc, etc, etc,

    Em tempo: quando falo em rebaixador, me refiro ao químico que se usa para clarear determinada área que
    ficou sem mutos detalhes na ampliação. Geralmente se usa um pincel ou um cotonete umedecido na fórmula. Zé de Boni e Pinhatti são ótimos nesta tarefa.

    A fotografia com qualidade de Millard e Elisabeth Savioli é ótimo para se tirar dúvidas; tem também a Interrpretação da luz de João Musa e Garcez; e a “net” tem quilos de dicas, sem falar nos livros A Cópia, O Negativo, A Câmera,
    de Adams, editados pelo Senac.

    Quantos aos filmes – me desculpe Simonetta fazer a propaganda – poderão achar com Adalgiza na Consigo ou na Chromur.

    Na botica Viado D’ouro se compra químicos a granel. Sai mais em conta e é mais emocionante.

  11. Entendo perfeitamente o Mascaro, além de que suas fotos falam por si. O texto também despertou muito debate em http://www.luz.art.br.

    Mas sei de uma coisa: é uma delícia fotografar com analógico de qualidade como uma leica ou Contax, por exemplo. E o fato de não ver de imediato em nada prejudica o trabalho artístico, apenas atrasa o comercial

    Mais gostoso ainda é fotografar em grande formato!!!

    Wank: valeu pelas dicas, mas o representante Ilford poderia cobrar mais barato seus negativos 4×5″ PB.

    Hélcio

  12. Caro Hélcio, voce poderá falar diretamente com a Adalgisa. Muito elegante mas dura na negociação, mesmo assim ainda dá uns descontos à vista. Se voce mora em sampa, poderás infernizá-la no balcão e conseguir um ainda melhor. Ou então fala direto com Luiz Marinho. Infernize-o também.

    Em tempo: meu tesão no momento, e que se encontra na prateleira, é uma P2 com toda a tralha necessária para fazer paisagem, arquitetura, retratos e objetos em estudio.

    Ando com uma saudade de São Paulo… Prepara o vinho menina, porque desta vez a dama não me escapa.

  13. Acho que devemos respeitar o Cristiano em seu ponto de vista ,afinal de contas ele é um dos mestres da fotografia brasileira e não merece ser criticado.
    Cartier Bresson foi sempre muito exigente em relação ao seu trabalho em P&B e a uma certa aversão a fotografar em cor e no entanto foi quem foi.
    Fotografia é uma arte para poucos embora muitos a pratiquem.Respeitar quem sabe é ter a humildade para aprender.

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