Mais uma matéria minha no Estadão: agora sobre o lançamento do livro do Thomaz Farkas

Um bairro de gols e de memórias

A história do Pacaembu e seu estádio está nas imagens do livro que Thomaz Farkas lança dia 9

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Quando Thomas Farkas estava entrando na adolescência, o bairro do Pacaembu nascia. Um acompanhou o outro. Relação que continua até hoje, visto que Farkas continua morando na região. Cresceram juntos. Surgem aí também as primeiras experiência de Farkas com a fotografia, no fim dos anos 30.

De bicicleta, com sua turma que se autodenominava Esquadrilha Invencível, percorria as ruas ainda sem asfalto. Mais tarde, atravessou os terrenos baldios para pegar o bonde e ir até a faculdade, na USP, onde estudou engenharia. E também acompanhou o plantio das primeiras árvores do bairro, momentos que foram registrados por sua câmera fotográfica. Foi assim que ele se tornou quase um repórter do bairro ao registrar as primeiras ruas asfaltadas, a construção do Estádio do Pacaembu e, mais tarde, os encontros políticos, os jogos de futebol, os torcedores nas arquibancadas de chapéu e gravata e as crianças subindo nas árvores ou nas grades para tentar ver o que acontecia no campo.

Flagrantes engraçados, momentos que se transformaram na memória imagética do bairro. Como a chegada dos barris de cerveja num pequeno caminhão, ou a criança que tenta fechar, ou quem saber abrir, os portões do estádio tendo às suas costas uma arquibancada vazia. Detalhes que fazem parte da vida de Thomaz Farkas.

Parte dessas fotografias foi recuperada pelo fotógrafo e transformada no livro Thomaz Farkas, Pacaembu, que será lançado dia 9. Com texto do próprio autor, numa narrativa memorialista, ele relembra sua chegada, vindo da Bela Vista, a primeira casa ainda nas margens do bairro, quase esquina com a Avenida Paulista, e a mudança para a Rua Itaperuna, bem no centro.

Textos que antecedem as imagens, que contam o que não se pode fotografar. É desse jeito que o jornalista Juca Kfouri, vizinho de Farkas, também participa do livro, narrando sua história no bairro – na verdade mais com o próprio estádio, com as belas jogadas que assistiu, as derrotas, as lembranças. Assim como Farkas, Juca relembra sua primeira ida ao estádio e diz: “Nenhuma dessas histórias tem fotos de Thomaz Farkas. Porque, se tivessem, não precisariam ser contadas.”

E assim é. Suas imagens possuem uma narrativa própria, que dispensa uma explicação textual. Deixam o espectador livre para construir o próprio enredo, imaginar, relembrar. Histórias que são narradas por um olhar que se encanta com o que vê, que fotografa com a intenção de guardar, caso um dia a memória falhe. O objetivo de dividir com os outros aquilo que só seus olhos foram capazes de perceber, destacar e, de certa forma, tornar eterno o efêmero. A leveza de quem fotografa por puro prazer e não para cumprir uma obrigação. Nas suas imagens percebemos que fotografar para ele é reter por mais tempo, é de alguma maneira uma forma de se apropriar da visão que lhe deu prazer.

É com esse espírito que Kiko Farkas fez a direção de arte do livro, com dípticos, trípticos, imagens que se sobrepõem como se estivéssemos vendo um álbum de família, como se pudéssemos acompanhar as histórias narradas por Farkas. Pois é assim que ele fotografa, para um álbum de família. Mas as suas imagens, por uma brincadeira da história, ou do destino, acabaram por sair do âmbito familiar para contar a história da cidade de São Paulo, ou de um pedaço dela, pelo menos.

São registros que saem do imaginário de um adolescente, de um jovem que se transformava com seu bairro e que vê a vida no estádio e o próprio estádio se tornarem os protagonistas de sua história. Ou como ele mesmo escreve: “A memória da gente some aos poucos, e só ficam na lembrança os populares vindo ver os jogos, enchendo as arquibancadas, as ruas em volta, as árvores. O Estádio do Pacaembu era maravilhoso e as fotografias lembram esses momentos preciosos de jogos, gols, derrotas e vitórias.” Assim como é nossa vida.

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