Uma crônica do passado da cidade

034e-baixaFoi no começo do século 20, ainda na primeira década que a cidade de São Paulo se tornou o principal modelo de um fotógrafo italiano que aqui havia acabado de chegar: Aurélio Becherini (1879-1939). Munido de uma câmera fotográfica que ganhou de presente, saiu às ruas da ainda pequena São Paulo e começou a fotografá-la insistentemente, talvez prevendo a futura transformação, talvez fascinado pelas diferenças arquitetônicas com as cidades italianas, em especial as da região da Toscana, de onde veio. Tornou-se então o primeiro fotojornalista paulistano, publicando suas imagens no Estado (essas fotos estão no arquivo do jornal e fazem parte do livro São Paulo de Piratininga – De Pouso de Tropas à Metrópole, publicado pela Editora Terceiro Nome), e o primeiro fotógrafo a organizar uma memória imagética da cidade.

Parte desse seu trabalho pode ser vista na exposição São Paulo em Transição, organizada pelo pesquisador e curador Rubens Fernandes Júnior. A mostra conta com 45 imagens que fazem parte de um lote de mais de 600 pertencentes ao Arquivo do Departamento do Patrimônio Histórico.
328er-baixaSão imagens que nos apresentam uma transformação da cidade seguindo a efervescência daquele momento. Uma cidade que vai aos poucos se “metropolizando”, derrubando casarios para dar conta de uma busca de modernidade. Becherini não se contenta apenas em registrar a arquitetura e vai nos deixando também pistas daquilo que estava fadado a sumir. Mostra então propagandas nas paredes, cartazes, fachadas de lojas, personagens nas ruas. E nos oferece momentos do cotidiano de uma cidade que começa a se impor.

Não se tem notícia de que tenha trabalhado em estúdios. O que se sabe é que era visto perambulando pela cidade, cobrindo todos os eventos, transformações, situações que lhe chamavam a atenção. Suas fotos começam a ser publicadas no Estado e sua produção está concentrada entre 1911 e 1918. O próprio jornal solicitava a contribuição dos leitores e, provavelmente, foi dessa forma que Becherini começou a publicar sua produção. Com o tempo, porém, seu trabalho passou a ser reconhecido: “Becherini é considerado o primeiro repórter fotográfico de São Paulo. Além de sua atuação no Estado, também colaborava para outros órgãos de imprensa, como o Correio Paulistano, Jornal do Comércio e para as revistas Cigarra, Vida Doméstica e Cri-Cri”, nos informa Angela Garcia, que apresentou dissertação de mestrado sobre o fotógrafo.

Suas fotos são responsáveis por ele ter sido contratado pela prefeitura de São Paulo, pelo então prefeito Washington Luís, que queria registrar as transformações que viria a fazer na cidade. Preocupado, Becherini adquire, por conta própria, fotografias que já haviam sido feitas por outros profissionais, também empenhados em registrar a metrópole, tais como Augusto Militão de Azevedo (1837-1905), Guilherme Gaensly (1843-1928) e Valério Vieira (1862-1941). Desta forma, ele pôde elaborar mais um Álbum Comparativo da Cidade de São Paulo. A cidade em obras, tudo por seu olhar nada convencional. “Becherini tem como fotógrafo documental a informação e o estilo que, de alguma forma, caracterizam os profissionais da época: composição harmoniosa, equilíbrio impecável e a necessidade de flagrar um instante fugidio no fluxo inexorável do tempo. Porém, o que o diferencia dos seus pares é a constante busca de singularidades que se tornavam mais importantes que os logradouros fotografados. Suas fotografias proporcionam um encontro inesperado com o passado, pois materializam uma cidade no tempo e propiciam uma fascinante viagem com a sensação de estar presente”, escreve o professor Rubens Fernandes Júnior.

Em 1934, sempre se antecipando, Becherini procura o então prefeito Fábio Prado e lhe oferece seu arquivo, formado por suas fotografias e as que havia adquirido de outros fotógrafos. Será o próprio Mário de Andrade, que dirigia e recém-criado Departamento de Cultura, que mais se entusiasmará com o material e aprovará sua compra. Masvai ser outro fotógrafo, Benedito Junqueira Duarte, que vai encarregar-se de organizar, limpar e identificar o material. É assim que nasce a seção de iconografia do Departamento de Cultura da cidade de São Paulo.

Cronista da cidade, Becherini acompanhou por 30 anos as suas transformações, deixando imagens deliciosas de seu cotidiano, arquitetura, comportamentos e tendências. Sua importância como fotógrafo era tão grande que o Estado lhe dedicou uma extensa nota lamentando a sua morte. Assim como muitos italianos que ajudaram a construir São Paulo, Becherini ajudou-nos a educar o olhar e a conhecer a cidade.

Serviço
Aurélio Becherini. Galeria Olido. Avenida São João, 473, Centro, 3397-0000. 12 h/21h30 (dom. até 20 h; fecha 2.ª). Grátis. Até 30/11

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