A cidade e suas margens!

Particularmente gostei muito das fotografas da Elisa Bracher. De alguma forma me emocionaram. Gostei muito do livro. Por isso decidi escrever sobre ele. Lá vai:

408aUm trabalho que nasceu do acaso e, por acaso. Elisa Bracher nunca pensou na fotografia como sua forma de expressão. Conhecida por suas esculturas magníficas de madeira ou por suas gravuras, a artista plástica, sem querer querendo se viu fotografando. E gostou do que fez! Tanto que, um trabalho que nasceu sem nenhuma pretensão intelectual, acabou por tornar-se sua estréia no mundo da fotografia. Para entender este processo é preciso voltar no tempo. Dona de um espaço fantástico na Vila Leopoldina há mais de 15 anos, há treze em seu ateliê Acaia, ela atende 300 moradores da Favela da Linha e da Favela Norte. Lá, crianças, jovens e adultos vivem em um espaço de convivência e ensino da arte. Ponto! No ano passado, para ajudar os moradores da favela a conseguir o direito de permanecer em suas casas, documentou o local. Uma documentação simples que serviria de base para um juiz decidir o destino de várias famílias. Mas, Elisa Bracher não tem um olho simples. Formado por seus trabalhos e pesquisas nas peças que elabora e expõe no mundo todo, ela se deu conta que não tinha uma documentação formal, mas que aquelas fotos, feitas para um dossiê jurídico, traziam mais. Muito mais.

Embora absolutamente documental – e talvez por causa disso – as fotografias de Elisa, feitas e pensadas de forma naïf – no melhor conceito que tem essa palavra pode ter – se apresentam compostas da mesma maneira de suas esculturas. Ela não fotografou, esculpiu. Um olhar pessoal, dirigido, que encontrava ordem no aparente caos de uma favela, que descobria cores e estética na construção das moradias. Elementos desconhecidos ou não visto pelos próprios moradores: “quando mostrei as imagens da favela para eles, se ficaram alegres com tanta cor”, nos conta Elisa.  Em nenhum momento apologia da miséria, visto que o trabalho não nasceu com esta intencionalidade, mas apenas a descoberta de algo novo, pelo menos para Elisa. Ao contrário ela deu visibilidade para estas pessoas: “acho que este é poder da fotografia. Tem muitas coisas que eu não sabia que eu via, como por exemplo, as cores da favela. A fotografia te ajuda a ver”, comenta

A descoberta destas primeiras imagens a levou então para um segundo momento da produção: “quer a gente queira ou não, muitas vezes somos levados por nossos próprios preconceitos e só conseguimos enxergar a desordem, a bagunça. Quis entender de onde vinha isso e, por isso, decidi falar com as pessoas que freqüentam aqui o ateliê e partir em busca das raízes das cidades que deixaram”, comenta. Nesta segunda etapa mais de seis mil quilômetros foram percorridos por sete cidades do Nordeste. Ela andou por Alagoas, Bahia, Ceará, Fortaleza, Paraíba, Pernambuco e Piauí. Lá também fotografou moradias. São diferentes, mas são a mesma coisa: “o que pude perceber é que a solidão é a mesma. A desordem que existe aqui, também existe lá, com a diferença que lá não existe o resíduo urbano”. Divertida nos conta a história de uma moça que queria sair de sua cidade, pois segundo ela, lá já havia namorado todo mundo e “queria namorar mais. Por isso estava pensando em vir para São Paulo”.

Estranhamente, nas imagens de Elisa, não existe a figura humana: “este trabalho começou como um documento onde as pessoas não deveriam aparecer somente suas casas, então decidi manter.”

Em suas fotografias, a ontologia da imagem, o documental: “acho um privilegio este trabalho não ter nascido com pretensões artísticas. Ele nasce menos armado, menos protegido e com uma doçura que me encantou”. Pela primeira vez ela trabalhou com a mobilidade e liberdade de movimento e ação que só a câmara fotográfica pode te dar: “eu adorei essa experiência. Me senti como se a minha motosserra fosse a câmara. Me senti livre!” Tratado sem técnicas mirabolantes ou de forma a esconder o que a fotografia tem de essencial que é a sua ligação com o real, Elisa se apropriou desta especificidade da imagem para nos trazer um lirismo e uma poética próprios de seu olhar: “o que me incomoda na fotografia é quando ela vira cenário de uma idéia, de uma estetização. Quando ela se torna mais importante do que o assunto que você está fotografando. Acho que o papel dela é ser documental.”

Elisa retoma algo um pouco esquecido pelos artistas que se apropriam da fotografia e que acabam sendo seguidos por fotógrafos que não sabem bem o que fazer e querem de qualquer maneira entrar num mercado que por enquanto, criado por outros, ainda não pertence verdadeiramente à fotografia. Como se voltássemos no tempo, nas discussões do século XIX, que há muito pareciam ultrapassadas. Ao defender a fotografia como documental antes de mais nada, Elisa não descarta a existência da autoria ou da expressão pessoal, que comparece pelo olhar rebuscado ou por uma estética própria. E para refletirmos ela nos lembra de uma frase que ouviu do artista Evandro Carlos Jardim: “você não é maior do que a técnica!”.

Vale a pena o livro de Elisa!

elisa

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3 comentários em “A cidade e suas margens!

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