Livro de Fotografia premiado!

Foram Ricardo Mendes e Paulo César Alves Goulart que levaram o prêmio Jabuti na categoria Melhor Livro de Arquitetura e Urbanismo, Fotografia, Comunicação Artes, pelo livro “Noticiário Geral da Photographia Paulistana:  1839-1900″.  Merecido, pela pesquisa, levantamento histórico, e porque foi um prêmio para a Fotografia.

Abaixo a resenha que fiz para o jornal Estado de São Paulo em março de 2007.

“Um anúncio ‘estranho’ apareceu nas páginas do jornal Diário de São Paulo de 1871: “Perdeu-se no dia 4 do corrente mez na rua São Bento ou Direita um retrato em photographia, tendo o seguinte oferecimento às costas: À meus pais – D. Maria da Glória; e quem o tiver achado e o entregar no Largo do Carmo n.54 será gratificado se o exigir”

Esta é apenas uma das histórias saborasas que são narradas no livro “Noticiário Geral da Photographia Paulistana: 1839-1900” de Paulo Cezar Alves Goulart e Ricardo Mendes (co-edição Centro Cultural São Paulo e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 340 páginas, R$ 75,00). Um projeto que nasceu em meados da década de 1990  como um levantamento junto aos arquivos de jornais, revistas e alamanques paulistanos editados no século XIX, com o intuíto de realizar um panorama das artes gráficas e da fotografia neste período. Ao final da pesquisa inicial, uma surpresa: o material sobre estúdios fotográficos e fotógrafos em São Paulo era vasto e importante. O livro ganhou corpo e o que temos agora é um compêndio dos estabelecimentos fotográficos na cidades, além de anúncios, litigios entre fotógrafos. Mas não é apenas um levantamento histórico. Ao acabarmos de ler podemos ter uma idéia de quão importante foi a fotografia para a sociedade paulistana  durante a última metade do século XIX. Não só pelo número de profissionais que aqui vieram e ofereceram os mais variados serviços, mas também do ponto de vista sociológico, político e artístico. A grande vedete sem dúvida era o retrato, mas as modalidades artísticas, as vitrines improvisadas nas janelas dos estúdios enriqueciam a paisagem urbana.

Acredita-se que a chegada dos primeiros profissionais à nossa cidade se deu por volta de 1846 durante uma visita do imperador D.Pedro II à província de São Paulo. Como já se tornou conhecido nosso imperador foi um amante da fotografia e um grande incentivador e em todas as suas viagens se fazia acompanhar por um fotógrafo que tinha a incumbência de registrar e documentar as atividades imperais. Pode ser. Mas o que sobressai deste estudo é a grande quantidade de estúdios em nossa cidade e sua localização. Como afirma a professora Annateresa Fabris no texto de introdução da obra: “dos anos 50 aos anos 80, os profissionais buscam como sede de seus empreendimentos o Triângulo (rua Direita, São Bento, Rosário) ou as ruas a ele adjacentes. Na década de 1890, verifica-se a presença de um núcleo bastante significativo do Brás- bairro que, desde 1870 atrai imigrantes e industriais e que tem seu crescimento associado ao desenvolvimento da rede ferroviária (Central do Brasil e Santos-Jundiaí). A travessia do Tamanduateí parece indicar uma expansão da clientela fotográfica num sentido mais popular; no mesmo período, assiste-se também à abertura de alguns estabelecimentos num bairro de classe média como Santa Ifigênia, construído a partir da configiração da cidade burguesa no final do séculoXIX”. Desta maneira o livro também se torna um retrato”econômico da província: pelo preço dos retratos.

E a concorrência era tão grande entre os profissionais que alguns litigios se tornaram de domínio público por terem sido publicados nas páginas dos jornais. Foi o caso entre Alexandre Monteiro da Silva Roland e José Augusto de Moura. O bate-boca deu-se no Correio Paulistano em 1861. Roland anuncia-se como novo retratista e acrescenta ter sido professor de José Augusto Moura. Indignado ele respondeu que a ninguém interessava saber quem eram os ex-alunos de Roland e alfineta: “vendo que o mestre pouco entendia da matéria que ensinava, procurei Ignacio Mariano da Cunha Toledo”. A polêmica durou quase sete meses.  Ou então a auto-promoção dos estúdio Carneiro & Gaspar que se apresenta, em 1865, nos jornais da seguinte forma: “sem dúvida o melhor que existe nessa cidade não obstante a afluência dos concorrentes…” e por aí segue descrevendo suas habilidades e possibilidades fotográficas.

São estes relatos que permeiam o estudo, a descrição dos profissionais, as imagens dos anúncios e as próprias fotografias que dão ao livro uma abrangência vasta. Não é um mero elenco dos profissionais, mas uma análise do que se produziu na época. O livro é fartamente ilustrado por fotografias que pertencem ao Museu Paulista – USP, mais conhecido como o Museu do Ipiranga, um dos mais importantes acervos de fotografia sobre São Paulo no século XIX, além de imagens encontradas nos arquivos públicos. Assim, podemos ter uma outra visão da cidade de São Paulo. Seu crescimento pela febre dos retratos que não deixa de ser a busca da vaidade e da importância social.

São livros como esse que ajudam a descobrir um pouco mais da nossa história imagética, a contar o desenvolvimento de nossa sociedade e a confirmar  a importância da fotografia na modernidade que nasce no final do século XIX início do século.

Tomara que D. Maria da Glória tenha achado seu retrato!”

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2 comentários em “Livro de Fotografia premiado!

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