Coffea, o novo livro de Marcos Piffer

Nos últimos cinco anos, o fotógrafo Marcos Piffer seguiu o rastro do café pelo Brasil, transformou as várias formas de colheita manual em documento histórico e contornou a dura rotina do campo com traços de poesia.
O resultado está no livro que ele lança oficialmente amanhã na Pinacoteca Benedicto Calixto,Av. Bartolomeu de Gusmão, 15 – Santos/SP Horário: 20h00.

Eu que acompanho seu trabalho desde o livro “Santos” e já havia colaborado com um texto no livro “Litoral Norte”, compareço novamente com um texto neste livro sobre o café junto com Soren Knudsen e Eduardo Carvalhaes Jr.

 

 

Abaixo o meu texto:

O café em  preto e branco.

 

O café marca a história econômica e cultural do povo brasileiro. E foi atrás desta história, desta cultura que Marcos Piffer durante 6 anos percorreu, vários estados brasileiros: Minas, Paraná, São Paulo, Espírito Santo, Bahia e Rondônia. À primeira vista podemos nos enganar e acreditar que Piffer tenha mudado seus olhar, de paisagista para documental. Não é bem assim. Seu olhar é outro, sem dúvida, sua busca estética diferenciada, mas não abandonou de forma nenhuma seu prazer pela paisagem, tanto a urbana como a natural. Também inseriu um olhar documental, não de denúncia militante, mas de narrativa, de história, criando uma poética particular.

Neste seu mais recente trabalho as duas se misturam. Sua predileção por formas, volumes e sombras continua, mas ele não quer simplesmente registrar ou trazer até nós os campos, a colheita, os silos onde se guardam os grãos. Imbuído na sua busca encontra-se também o homem inserido nesta paisagem, criador e criatura deste meio ambiente. É por meio dos pretos e brancos que Marcos Piffer vai construir a narrativa. Não existe denúncia, não existe crítica, existe respeito pelo homem e pelo campo. Existe linguagem fotográfica. Tudo é criado para que ao olharmos as imagens se crie em nós a idéia do trabalhador do café. Imagens atuais, contemporâneas, mas que trazem em si toda a tradição ou história (e por que não as crises) do plantio e da economia do café. Nossa fonte de riqueza desde o começo do século XVIII. Marcos Piffer nos mostra que apesar de toda a modernidade das máquinas na agricultura, o homem continua a ser importante neste processo. Ela continua presente, suas mãos continuam presas às plantações. E é o homem que acaba sendo o grande personagem desta história do Projeto Coffea.

Respeito que é percebido na imagem do agricultor que arrasta uma grande lona para baixo das plantas do café. A tensão da cena não está no homem, mas na lona retesada, ou na delicadeza de uma mão feminina que segura um galho florido, e as flores do café se misturam à estampa de sua blusa. Ou da mulher mimetizada dentro de um pé de café. Não se sabe mais onde termina o homem e começa a natureza.

E é isso que passa neste ensaio de Piffer: homem e natureza misturados,  como se fossem um só. Os retratados também são cúmplices de sua câmara fotográfica: eles se revelam e nos revelam o seu trabalho. Posam, se colocam, se aprumam diante da câmara. Se impõem crentes de seu papel fundamental nesta narrativa. As lentes de Piffer os acompanham, os deixam falar, se colocar.

E juntos eles constroem esta estética que muitas vezes se aproxima do cinema, mais precisamente do neo-realismo italiano. Em algumas imagens os agricultores do café se parecem com as colhedoras de arroz do filme “Riso Amaro” de Giuseppe de Santis realizado em 1949. Auge do neo-realismo italiano. Em outras imagens ele nos lembra muito a estética documentarista da Farm Security Administration, que surgiu nos Estados Unidos em 1930: são imagens que nos mostram mãos cheias de calos, pés imersos na terra, campos abertos com o homem vergado arando a terra. Mais uma vez a ligação com homem e a terra: mais uma vez a questão da agricultura, do arar, do produzir, mas fundamentalmente o de criar, no sentido de dar vida. É isso que transparece em sua poética. As fotografias de Marcos Piffer são um elogio à vida!

Outra questão fundamental em seu trabalho são as molduras imagéticas que cria. Quando não é possível o retrato fechado, a imagem é delimitada pelo céu. Um céu que nas suas imagens parece maior do que é. Mas é a sua tonalidade, sua espessura que acaba dando o tom, como se ele nos quisesse dizer por onde nosso olhar deve passear, ao que devemos prestar atenção. É com respeito também que ele invade o campo, Suas fotografias tecnicamente perfeitas não agridem, não gritam. Os pretos e brancos dificilmente são muito contrastados e as matizes do cinza, envolvem cada parte da cena.

O que fascina de forma geral em todos os trabalhos do Marcos Piffer (aconteceu isso com o livro Santos, o com o livro Litoral Norte) é a qualidade onírica de suas imagens. Mesmo quando o trabalho é pesado, quando sabemos ou pré-concebemos o que existe de dramático por trás de um trabalhador rural do Brasil, encontramos nas fotografias a possibilidade de imagens poéticas, oníricas. Marcos Piffer não tira de nós em nenhum momento a esperança: de acreditar, de sermos capazes de enxergar a beleza mesmo nos momentos mais áridos. E isso vale muito a pena! 

 

 

 

 

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2 comentários em “Coffea, o novo livro de Marcos Piffer

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