Leitura de portfólios, será?

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Já há algum tempo venho me perguntando da eficácia e necessidade da leitura  de portfólios nos festivais de fotografia. Tendo em vista a procura, deve ser grande. Mas eu pergunto se a forma não está esgotada. Dificilmente vejo alguém que saia satisfeito de uma. Quase sempre reclama do leitor, mesmo quando este teceu elogios ao seu trabalho. Eu confesso que tenho dúvidas: leitores que não querem ler, fotógrafos que esperam sei lá eu o que. Outro dia me perguntaram se poderia fazer 5 horas de leitura! Poder, posso! Mas para que? Esta é a dúvida que me assola. Cansei de ver fotógrafos-leitores que não ajudam em nada, só querem falar de si, e o pior mostrar o trabalho deles para os que se prestam a ser atendidos (esta eu mesma vi no útimo mês da fotografia em São Paulo). Outros que esperam que você faça milagres! Sei lá. Existem pessoas que fazem leitura de forma muito séria, não é este o problema. Pergunto somente da eficácia! Vale realmente a pena! Tem fotógrafo-leitor que manda a namorada fazer a leitura no lugar dele porque ele está cansado. Nada contra a namorada que pode ser ótima, mas quem quer seu material visto por fulano, não quer que seja visto por sicrano (isto aconteceu recentemente em São Paulo). Frases do tipo “muito bom!” “gostei!”, “não gostei!”. Me parece tudo muito chato! Será que existe outra forma de apresentar e tornar conhecido o trabalho? Não sei! Só um desabafo no final da tarde!

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12 comentários em “Leitura de portfólios, será?

  1. Acredito que a discussao de um trabalho fotografico com o leitor do trabalho, seja ele fotografo, professor so acrescenta qdo ambos se despem do saber absoluto, expressando o que veem de acordo com o olhar de cada um, cada discussao de um portifolio ou trabalho so sera positiva se as duas partes cumprirem o papel de discutir o trabalho sem se preocupar com interesses pessoais ou vaidades. O objetivo e a reflexao. IO que eu acredito ser o mais importante em uma leitura. O fotografo que apresenta o trabalho tbem deve compreender que cada pessoa pode ter uma opiniao diferente sobre o seu trabalho e isso pode e deve enriquecer o material apresentado. No Paraty em foto de 2007 foram feitas leituras, objetivas e enriquecedoras pelos fotografos que vieram de outros paises, a sensacao que me deu e que muitas pessoas que estavam la nunca pararam para analisar o seu proprio trabalho, porque aqui no Brasil a discussao ainda se limita a gostar ou nao de uma foto. Bjo

  2. Como em outras áreas, a primeira leitura de portfólio é inesquecível. No meu caso, a primeira coisa que chamou a atenção foi a rapidez com que as fotos foram examinadas. Sem dúvida, fruto de muita prática no assunto. Ironia minha. Sem entrar no mérito da qualidade das fotos, foi um verdadeiro bombardeio. A frase que ainda está clara na memória é: “Suas fotos parecem fotos de fotoclubistas dos anos 50”. Além da frase em si, a entonação deixou muito claro que aquilo estava muito longe de ser um elogio. Não que eu esperasse por isso, já tenhos amigos e parentes o suficiente. Só me irritou o fato de que a crítica, sem papas na língua, era bastante apurada nos aspectos negativos, com os quais não tive dificuldade em concordar tacita e parcialmente. Porém, faltava a mesma fluidez em apontar o que estava bacana. O “leitor” quase fez entender que havia apreciado uma coisa aqui outra ali, parcimonioso. Enfim, o baque foi duro e tive a impressão muito forte de que eu havia “escrito” poesia (boas ou ruins, não vem ao caso) que foram lidas como notícias sem interesse de um jornal de bairro. De maneira desatenta. Muito desatenta. Enfim. Guardei o que achei relevante, sim, houve comentários tão cruéis quanto pertinentes, e me permiti continuar a confiar em minhas fotos e, principalmente, no que me moveu a captá-las. E acredito que isso é o que mais importa e que talvez não faça mesmo parte do savoir-faire de muitos leitores de portfólios; o que move alguém a fotografar. Eu fotografo para tentar entender. É um processo que além da razão (certamente sujeita a influências e clichês) envolve outros conteúdos muitas vezes inconscientes, assunto que vai muito longe (e muito perto). Quem não se pegou cantarolando uma música de maneira “aleatória” para depois de algum tempo se dar conta de que ela tinha tudo a ver com o estado emocional do momento? Acho que o santo não bateu, conteúdos, emoções diferentes, não importa. Mas para não me restringir às minhas “viagens” cito o que Kandisky disse a respeito da crítica à arte em Do Espiritual na Arte. Grosso modo, ele afirma que a arte não pode ser avaliada como um cavalo. “No caso do cavalo, o defeito importante reduz a nada todas as qualidades que ele possa ter e torna-o sem valor. Com a obra de arte a relação é inversa: uma qualidade importante reduz a nada todos os defeitos que ela possa ter e torna-a preciosa” Ele recomenda que os críticos aprendam a ter uma “experiência vivida da obra”. Enfim, o que me incomodou acima de tudo foi a displicência do olhar, como que treinado a encontrar falhas. ponto. Sei que tem muita foto tosca por aí (e por aqui também), mas a pergunta permanece: Leitura de Portfólios, será?

  3. Nos últimos dias, minha cara Simonetta, você tocou em dois pontos nevrálgicos das questões que envolvem a fotografia nestes anos de crise e mudanças: a curadoria e a leitura de portfólios. Está aí um assunto para um bom Seminário (atenção organizadores de eventos fotográficos).
    Como naquela canção, todo mundo se arvora a ser curador, e todo mundo se arvora a ser leitor de portfólios.
    Desde os tempos da Semana Nacional de Fotografia, organizadas pelo INFOTO\FUNARTE, nos anos 80, sempre achei uma chatice esse negócio de leituras da forma como é feita, parece muito coisa de consultório de psicanálise, aliás, muitas vezes, ultrapassa os limites freudianos, junguianos e\ou lacanianos. Uma pena.
    Certa vez na Semana Nacional de Fotografia, em Ouro Preto, meados dos 80, tinha uma série de fotografias (da mostra Meninos Sem Terra, que havia feito um ano antes na mesma Semana, em Curitiba) que levei para expor nos varais, que sempre aconteciam liderados por Miguel Chikaoka e a turma do Pará ( e eu sempre me enturmava com eles), pois bem, certo dia saí da pousada com as fotos para montar varal em qualquer lugar e entrei no antigo Teatro da cidade e eis que estava lá no fundo do palco, quase na coxia, o meu amigo David Drew Zingg, sentado em uma mesinha, com uma luz direcionada, esperando por alguém para fazer a famosa leitura. Tomei folego e fui. Era minha primeira experiência. Só nos dois naquele vazio e silêncio teatral. Ele viu as fotografias em absoluto silêncio, olhou pra mim e disse: “Bahiano, você está pronto”.
    Saí correndo e fui montar o varal no primeiro poste.
    Nunca mais fiz leitura de portfólio.

  4. O problema põe-se, infelizmente, que nos tempos que correm e com o tremendo consumo de imagens e consequente produção, e com tantos à procura de um “lugar ao sol”, o que importa é o QI!
    Não é estética, não é a técnica, não é o olhar objectivo ou subjectivo, não é a mensagem. É mesmo o QI!
    Por QI entenda-se, não o que está a pensar, mas antes “Quem Indica”!

  5. Fiz a leitura de portifólio da casa Fuji em 2000 com a Rosely Nakagawa e houve um grande mudança. Lembro de um comentário – não tem pessoas, gente nas suas fotografias… – fotografava arquitetura e paisagens.
    O comentário me “incomodou” muito. Nossa ela percebeu que tenho medo de fotografar seres humanos e parti para o desafio e fui…e valeu a pena. Obrigado Rosely.

    A leitura depende muito de quem escuta e geralmente queremos ouvir ao nosso favor aumentando mais o ego. De quem degusta o comentário e que acresente no olhar. Acho difícil.
    Atualmente, quem faz a leitura das fotos são os meus amigos fotógrafos ou não, comentando, criticando ou elogiando. O pior é quando fica na indiferença. Aff!
    Em vez de leitura pode ser Interpretação do portifólio fica mais subjetivo.
    Gosto de ouvir também o público “fora da área” e geralmente os comentários são super bem vindos.
    É Isso. Abraços a todos.
    Marcus

  6. Explico: alguns de nós relés mortais fotógrafos, gostam de ouvir de quem realmente entende de fotografia, a verdade na cara, nos ouvidos, no fundo da mente. Aquela eclosão analítica pura, axalada pela experiência.
    Em tempo: isto é só para quem tem coragem de entrar no terreiro de açoites, ouvir verdades verdadeiras, e sair para se reciclar, ler, fotografar mais, expremer o cérebro, entrar em depressão, sair dela, e continuar a luta, se, ele for militante e amar a fotografia.
    As vezes sai doce, outras, meio amargo, ou totalmente amargo. Agora, que adoro ouvir verdades do que ficar tateando em nuvens, ah, isto eu adoro. A verdade não doi, ela cura, acorda, sacode a poeira da mente.
    Pra quem está começando ou não, e tem em mente, fazer da fotografia uma religião, não deve levar o portifólio pra quem não entende nada de fotografia. Principalmente para aquele que irão pensar o seguinte: “pô meu, porque não pensei nisto antes…” hahahaha

  7. você leu meu portfolio, uma vez, no núcleo de estudos da fotografia. nunca vou esquecer a frase: “isso nao é um ensaio, isso nao é nada, coloque suas fotos de viagem em um álbum e vá tomar chá com as suas amigas. ”
    hahaha
    eu dou risada, mas no dia fui dormir com os olhos inchados de tanto chorar.
    hoje eu penso que foi um dia importante, necessário. como a roseli nakagawa disse uma vez: “às vezes o rei está nú e ninguém tem coragem de dizer”.
    espero que você continue fazendo leituras. (da próxima vez eu levo uma caixa de kleenex).
    abraço,
    nicole

  8. Simonetta,

    Compartilho esta preocupação, tenho refletido muito sobre o assunto e vou dividir com você e seus leitores. Não seria a leitura de portfólio uma espécie de ponto de venda? Não me refiro a venda e compra direta, mas sim, um espaço onde o fotógrafo pode mostrar seu produto a curadores, críticos, jornalistas, pesquisadores, editores, etc e tal. Um espaço onde por sua vez os “agentes do mercado” podem ver material sem o compromisso de agendar comprometedores encontros enquanto os fotógrafos não precisam camelar a cidade para vender seu peixe!
    Acho, sim, que está caduco o modelo onde a leitura de portfólio é espaço para aulas-relâmpago. Na verdade precisaríamos de um pouco mais de coragem: leitores e fotógrafos para de forma prática sentar e dizer: interessa, não interessa! Sem medo de magoar e ser magoado. Vou parar por aqui, estou ficando piegas e na verdade compartilho tuas dúvidas.

    Iatã

  9. Caro Iatã,
    obrigada porseu comentário. Assim como agradeço o de todos que se manifestam e se manifestarm neste post. Concordo com você. A fórmula está esgotada. Quem sabe conversando não descobrimos uma nova maneira de fazer este tabalho que sem dúvida é fundamental, mas cria imenso dissabores a todos!

    Vamos continuar a discussão

    Simonetta

  10. Cara Nicole,
    lembro muito bem da leitura do seu portfólio. E eu nunca disse as coisas da maneira como você colocou. Você apresnetou um trabalho com uma idéia muito boa – que foi reforçada por você – nas palavras, mas que não aparecia nas imagens. Por isso eu disse que você não havia feito o trabalho a que tinha se proposto e que daquela maneira suas imagens – embora muito boas – não serviam para o propósito E aí, sim que era melhor você mostrar suas fotos de viagens aos amigos e tomar uma cerveja. Jamais teria dito chá…..
    Beijos Te espero na próxima

  11. hehe
    🙂
    Eu entendi perfeitamente e por isso mesmo digo que foi tão importante. As minhas imagens e o meu discurso eram claramente incompatíveis. Não me atrevo a usar a palavra aprendizado, já que constantemente me pego na insistência do erro, mas certamente foi uma experiência que me marcou. Aquela foi minha primeira leitura de portfolio, fiquei tão intrigada que mergulhei nos livros e comecei a estudar construções narrativas, arquétipos… aí nao teve jeito, caí na semiótica, desci mais dois degraus até o fundo do poço da estética, e agora estou fazendo pós-graduação em historia da arte. Nao acredito em respostas, só estou feliz por ter encontrado mais perguntas que me movem, todas as manhãs – antes e depois do café (o dia quase sempre termina com mais questões que só me atrevo a responder em uma roda de amigos tomando cerveja as duas da manhã).
    abraço e obrigada mais uma vez
    n.

  12. Simonetta e Iatã, acho que quando a leitura é feita de maneira séria e respeitosa sempre enriquece o olhar e as reflexões dos fotógrafos.

    Acho que os leitores precisam entender que há expectativas, e os fotógrafos precisam entender que ler seu portifólio não implica garantir um convite para expor, fazer parte de um projeto, ou coleção.

    As regras, quando da organização das leituras são imprecisas.

    O fotógrafo quer ser acolhido, o leitor precisa entender isso.
    O fotógrafo precisa entender que o leitor não está ali para massagear seu ego(do fotógrafo). Alguns já chegam inchados. O leitor está ali, principalmente para dar um opinião que acrescente, que eniqueça, que contribua para o trabalho e para o fotógrafo.

    Pode ser elogios ou não. Mas sempre com respeito e acolhimento.

    Não acho que formato esteja esgotado…precisa de ajustes para ambos os lados.

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