Richardson e Tostines, por Clicio Barroso

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Um recente e breve artigo intitulado Assimetria Criativa, publicado recentemente por Ivan de Almeida em seu blog, despertou minha atenção por tratar do assunto técnica/conceito/linguagem de uma forma elegante. Ivan se apoiou em uma conhecida foto de David LaChapelle (que pode ser vista aqui) para, em torno dela, desenvolver seu raciocínio; muitos criticaram a sua escolha, pois em se falando sobre imagens não-nítidas ficou a dúvida; a foto em questão, quando vista em seu contexto mais conhecido que é o impresso, tem nitidez de sobra, que perde notavelmente quando vista na Internet.
Ora, o que poderia ser um demérito ao artigo de Ivan acabou sendo uma vantagem, pois os fotógrafos já não tem mais controle absoluto de como ou onde as suas fotografias vão ser vistas, e não podem prever o ambiente do observador; o que deixa o ponto em questão mais fortalecido! A foto é boa com ou sem nitidez, principalmente quando se conhece a importância do autor…
O que nos leva ao trabalho de Terry Richardson.
Filho de Bob Richardson, famoso fotógrafo de moda na “Swinging London” dos anos 60, Terry sabe muito de fotografia, convencional ou não. Talvez por tédio fotográfico acabou se dedicando ao estilo Gonzo, já ensaiado anteriormente pela Nan Goldin em seu livro “The Other Side”, e sempre usado com maestria por Nobuyoshi Araki desde “Tokio Lucky Hole”.
A maior resistência ao trabalho de Terry acaba vindo justamente daqueles fotógrafos ou críticos mais técnicos, que questionam a aparente crueza e falta de sofisticação dos enquadramentos, iluminação e direção de cena apresentados em suas fotos.
Tome-se como exemplo a sua foto mostrada acima; contém todos os elementos considerados criminosos por qualquer autor de apostila de fotografia básica! A foto não é nítida; a luz, dura e direta, clareia em excesso o seio em primeiro plano; o enquadramento é absurdo, com o tal seio ocupando 2/3 da imagem; o rosto, esmagado na diagonal superior do quadro tem as narinas de frente para a camera, dois infinitos buracos negros.
E, claro, axilas peludas sempre se parecem com ouriços.
Mas a foto virou capa de um livro,“Feared by Men, Desired by Women”! E fez sucesso absoluto quando vendido durante a exposição de mesmo nome, na galeria Michael Hoppen, em Londres.
Claro que é uma estética muito peculiar, baseada em conhecimento real e sofisticado de fotografia, mas totalmente corriqueira na Internet; quantas imagens porn ou gonzo como essa recebemos por dia em nossas lotadas caixas-postais de e-mail? Quantos popups se abrem em nossos computadores repentinamente mostrando filmes “caseiros” com a mesma linguagem? Quantos adolescentes por dia fotografam os amigos bêbados usando celulares?
O rigor técnico é totalmente sobreposto pela necessidade de comunicar, usando a linguagem das “point ‘n shoot” mais populares. O que o Terry faz é se apropriar desta linguagem (afinal, ele não passa de um adolescente brincalhão…) e a transformar em dinheiro.
Dinheiro de verdade, como podem atestar as marcas (de Vogue a Gucci: veja lista de clientes em seu site) que pagam os milhões de dólares que ajudam a criar e sustentar o mito.
Mudou o modo que vemos fotografias? A estética é orgânica e flui com o passar dos tempos? A técnica nunca teve real importância? Não, essas não são as perguntas certas, pois as respostas serão sempre sim.
O mistério maior, aquele a que aludiu o Ivan em seu artigo, continua sem resposta: Terry Richardson é famoso pelas boas fotos que faz, ou as fotos se tornam famosas e boas por terem sido feitas pelo Terry?
Não sei.
Só sei que não consigo parar de olhar para esta foto.

Por Clicio Barroso, fotógrafo 

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10 comentários em “Richardson e Tostines, por Clicio Barroso

  1. Oi Clicio. Não quero polemizar mas discordo quanto ao: “estilo gonzo já ensaiado anteriormente por Nan Goldin” (suas palavras). Gonzo! A Nan Goldin? Este ano ela ganhou o prêmio Hasselblad cuja lista figuram nomes como Robert Frank, Lee Friedlander, Cartier-Bresson, William Eggleston e Sebastião Salgado. A palavra gonzo me parece aqui um pouco equivocada e reforça alguns clichês sobre o trabalho de Nan Goldin. Não seria uma heresia chamar de gonzo o belíssimo Dulce Sudor Amargo de Miguel Rio Branco, outro grande colorista contemporâneo?

  2. Ola, Rubens,
    Concordo com voce ao dizer que o estilo de Nan Goldin (assim como o do Miguel do Rio Branco) não é e nunca foi gonzo, na acepção da palavra. Mas insisto em que a influência do trabalho por ela desenvolvido permitiu, entre outras coisas, o surgimento da interferencia direta do fotografo como participante da cena fotografada, que em sua forma mais específica se convencionou chamar de “estilo gonzo”.
    Um rótulo, aceito por Terry Richardson, mas que certamente não cabe no caso da Nan.
    Obrigado por seu comentário.

  3. Grande Clício.
    Estou mais uma vez perplexo. Na verdade eu pessoalmente não gosto das fotos do Terry, mas achei teu post muito legal, bem profundo e explicativo. Valeu a leitura, e concordo contigo quanto a conclusão final, sobre : se Tostines vende mais porque é fresquinho, ou se é fresquinho porque vende mais 🙂
    Abçs mil e parabéns
    AYRTON

  4. Talvez se o Terry Richardson não fosse filho do Bob Richardson suas fotos se quer seriam reconhecidas.
    Não vejo nada demais nas fotos dele. Não gosto do estilo. Não pela “falta de técnica”, mas porque não é bonito, não é atraente, e para mim, não tem propósito. É um tipo de foto que qualquer um pode fazer, basta ser ousado. É a história do “querer ser diferente”.

    Então, minha resposta à pergunta “Terry Richardson é famoso pelas boas fotos que faz, ou as fotos se tornam famosas e boas por terem sido feitas pelo Terry?” é que as fotos são famosas por terem sido feitas por ele.

    A arte está em conseguir fazer dinheiro com o estilo! 🙂

  5. Olá Clicio, segue trecho de uma entrevista de Terry Richardson para o jornal Folha de São Paulo. Agosto de 1997:
    Que fotógrafos você admira ou recebe influências?
    Richardson – Meus favoritos são documentaristas. Como Larry Clark, Nan Goldin, Robert Frank. Gosto de fotografia pornô amadora, são minhas favoritas, essas que as pessoas tiram de suas namoradas, completamente amadoras, muito simples. Acho que essas são minhas principais influências no momento.
    A fotografia pornô amadora era a favorita dele. Dez anos atrás.
    Nan Goldin influenciou toda a geração de Richardson (heroína chic) cujo alguns outros expoentes são Juergen Teller, Corinne Day (a primeira que fotografou Kate Moss), Glen Luchford, David Sims, Craig Macdean e Mario Sorrenti, que hoje fazem parte do mainstream da fotografia de moda. Clicio, respeito a sua opinião, não sou um teórico de fotografia, mas fica claro na entrevista que Larry Clark, Nan Goldin ou Robert Frank não são os culpados pelo estilo gonzo (você que disse) de Terry Richardson.
    Para quem acha que Richardson é apenas um tosco fica aqui a dica do site da Sisley com a campanha de inverno 2007.
    http://www.sisley.com
    Obrigado

  6. Oi Clício,

    Muito legal apresentar essa foto, como discussão, sobre estilo, técnica e composição na fotografia. Pena que as pessoas não conseguem entender que discutir sobre um trabalho é refletir. Refletir é fazer conexões, e cada um com o seu estilo, não importa. Eu também não consegui parar de olhar pra foto!!!! bjo

  7. Oi Clicio. Tentei entender melhor a tal da fotografia gonzo. O criador do estilo gonzo foi o jornalista norte-americano Hunter S. Thompson. O jornalismo gonzo, para muitos, nem é considerado uma forma de jornalismo devido à falta de objetividade e falta de seriedade com que trata a matéria. Hunter também fotografou. Sua imagem de uma garota nua na privada com a mascara de Nixon e falando ao telefone podia ter sido feita por Terry Richardson e o próprio Hunter está sempre presente nas suas fotografias. Gonzo também é um termo bastante popular na pornografia (filmes pornô gonzo) e recentemente fez muito sucesso na televisão e no cinema com Jackass. O termo gonzo veio de outra mídia, o jornalismo. Então pra ser fotografia gonzo ela deve ter as características do gonzo. Não basta estar somente presente na cena. O trabalho pessoal e explicitamente sexual de Terry Richardson (não a fotografia que você mostrou especificamente) possui as características do gonzo como o deboche, o sarcasmo e ele muitas vezes também é associado a pornografia. O Araki possui as mesmas características no divertido Tokyo Lucky Hole. Clicio, você escreveu que Nan Goldin ensaiou o estilo gonzo em The Other Side, mas lá ela nem esta presente nas imagens. Só tem um retrato dela feito por David Armstrong antes dos créditos e da introdução. Algumas pessoas realmente associam Nan e Clark como os precursores da fotografia gonzo. Mas ambos são documentaristas sérios. Não possuem as características do gonzo. Nada mais correto dar o crédito como precursor da fotografia gonzo a Hunter S. Thompson. Clicio, como disse a Claudia no post acima o que importa é cada um com o seu estilo. Todos os citados são muito bons. Goste-se ou não. Parabéns para a Simonetta por abrir esse espaço onde fotógrafos podem discutir idéias democraticamente.
    O site com as fotografias de Hunter S. Thompson é:
    http://www.mbfala.com/Thompson/Thompson_IG.html

  8. Obrigado a todos que comentaram.
    Barbosa, obrigado por pesquisar a origem do gonzo.
    Sei que voce é fã da Nan Goldin, então vou contextualizar; eu não disse que a Nan é ou foi gonzo, eu disse que ela, de certa forma, ensaiou uma intimidade, uma proximidade, com os espelhos, os auto-retratos, que a trazem para dentro das fotos.
    Como você, o Terry, e eu dissemos, ela foi uma grande influência no trabalho dele (assim como os outros fotógrafos citados por você). E ele virou gonzo…Hehehehe
    Estou concordando com você desde o começo…É apenas a minha leitura das influências destes fotógrafo(a)s contemporâneos, dos quais eu também sou fã.
    Ahhh…
    Continuo fascinado pela foto acima!
    🙂

  9. Clício!

    É um grande conforto te ler, metendo a mão neste vespeiro…
    Adoro este estilo naif na fotografia, mais sujo, menos explicado… um terror para os que dependem de kama sutra pra transar.

    É fotografia pra quem tem coragem de gostar sem ter que fazer citações para se convencer. Coisa pra quem não tem medo de emoções!!! Coisas de autor, coisas de quem assume… Simples!

    Abração!!!!!!!!!

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