Como ler uma imagem: a fotografia contemporânea e suas problemáticas

Este texto saiu em agosto na revista Fotografia.

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Analisar uma imagem é muito mais do que simplesmente reconhecer seu traço primeiro. É preciso entender as estéticas fotográficas.

Vou partir de um conceito – dentre os muitos possíveis – de que a fotografia antes de mais nada pertence a esfera da comunicação e não da arte. Está na sua ontologia, no seu DNA, na intencionalidade de quem a inventou.

Qual a função da imagem fotográfica. Partimos de uma premissa explicitada por Andre Rouillé: “fotografias não documentam objetos ou pessoas, mas documentam situações e representações”. Devemos portanto compreender a criação fotográfica dentro de um contexto sócio-histórico.

Há tempos a semiótica já nos ajudou a compreender que a significação das mensagens fotográficas é culturalmente determinada e sua recepção necessita de códigos de leitura.

Neste caminho contarei com a ajuda de autores como Umberto Eco (Os limites da Interpretação); Laurent Gervereau (Histoire Du visuel ao XX si`ecle) ;Lorenzo Vilches (La Lectura de la Imagen); Mrtine Joly ( A Imagem e sua Interpretação); Giuseppe Mininni (Psicologia Cultural da Mídia); Oliver Sacks ( O olhar da Mente); Ian Jefrrey (How to Read a Photography; Alberto Manguel (Lendo Imagens); Luciano Trigo (A Grande Feira) e Charlotte Cotton (A fotografia como arte contemporânea).

Diz Martine Joly: “como existem diversos tipos de imagens, existem inevitavelmente diversos tipos de interpretações. Nenhuma mensagem, seja ela qual for, pode se arrogar uma interpretação inequívoca”.

Mesmo assim devemos também lembrar (Umberto Eco) que a interpretação de uma obra não é ilimitada, existem regras de funcionamento.

Inegável também que muitas vezes somos reféns de nossos próprios olhos e de nosso referencial teórico e repertório cultural. Muitas vezes antes de interpretar uma imagem eu já criei um significado. Claro que isso não significa que ele permanece imutável. Mais uma vez recorremos a Joly: “em que medida nossa interpretação está já em parte construída, antes mesmo de termos acesso às mensagens visuais em concreto?”

Interpretar é conferir sentido. O contexto sócio-histórico de alguma maneira já nos “condiciona”a uma determinada interpretação: “o reconhecimento de representações pode requerer uma espécie de aprendizado, a compreensão de um código ou convenção além daqueles necessários para compreender os objetos”, relata Oliver Sacks.

A grande dificuldade que temos é afirmar categoricamente qual linha devemos seguir para interpretar as mensagens visuais. Martine Joly nos apresenta esta multiplicidade: conhecimento (formas que o homem dispões para se conhecer e conhecer seu ambiente); percepção (teoria da revelação do mundo); recepção (teoria da recepção das obras); leitura (semiologia/semiótica) e interpretação (os limites): “durantes anos privilegiou-se o autor, em seguida  a obra para terminarmos com o espectador. Todos estes conceitos, na verdade, podem ser resumidos num único: ler imagem e atribuir significados. Interpretar é criar um ritmo, uma leitura Possível, atribuir sentido e significado para aquilo que foi construído imageticamente.

Lembramos o que já sabemos: o caráter ambíguo da fotografia. Seguindo as linhas Teóricas da semiótica e pensando na fotografia como vestígio do real (portanto indiciária) ela afirma a existência, mas por ser representação ela sempre uma ficção.

Aqui quem nos ajuda é o Alberto Manguel: “…a existência passa em um rolo de imagens que se desdobra continuamente, imagens capturadas pela visão e realçadas ou moderadas pelos outros sentidos, imagens cujos significados (ou suposição de significados) varia constantemente configurando uma linguagem feita de imagens traduzidas em palavras e das palavras traduzidas em imagens, por meio das quais tentamos abarcar e compreender nossa existência”. Portanto estamos na área dos símbolos, sinais, mensagens, alegorias: “a imagem da origem a uma história que por sua vez dá origem a uma imagem”. Mudanças de pontos de vista, mudanças de interpretações.

A partir destas premissas tentamos compreender a construção da fotografia contemporânea e suas problemáticas.  Começamos com uma frase do pintor Kandisky e que também inicia o livro de Luciano Trigo “A grande Feira”: “Cada época cria uma arte que lhe é própria e que nunca renascerá”. Parece que a arte própria da nossa época é aquela conseguida por meio da imagem fotográfica. A fotografia está na moda: todos falam sobre fotografia, festivais se sucedem pelo Brasil, cursos acadêmicos abrem sucessivamente no Brasil todo, fotografias estão sendo o tempo todo mostradas para nós. Mesmo assim parece que ainda existe um vácuo, um grande vazio sobre o pensar fotografia. Discussões giram sempre em torno de clichês do tipo : “hoje todo mundo fotografa”, “hoje qualquer um é fotografo”. Ora isso acontece desde a invenção da fotografia. Não é nenhuma novidade. A novidade é que fala-se mais sobre isso.  E daí que todo mundo fotografa? Alguém ficaria triste se todo mundo fosse alfabetizado? Soubesse ler e escrever? Qual é o problema? Reserva de mercado? Esquece-se que quanto mais as pessoas fotografarem maior será sua capacidade de alfabetização visual, de saber compreender a dificuldade em fazer uma imagem. Nem todo mundo que sabe ler e escrever é Machado de Assis.  O que deveriam dizer os cineastas então, quando agora qualquer fotografo acha que pode fazer um vídeo? Um filme? E muitos de péssima qualidade sem a menos linguagem cinematográfica? Sim, fotografa-se muito hoje, mas nunca se viu tão pouco.

O que estamos vendo? Qual o papel da fotografia?  Construções artísticas (no sentido mais amplo desta palavra) ou atendimento a um mercado das galerias. Como ler e interpretar um imagem hoje? Ainda nos referenciando ao livro do Luciano Trigo, lemos logo nas primeiras páginas: “o sonho que qualquer jovem artista é ser absorvido pelo sistema, ter conotação internacional, expor nas galerias e museus da moda aparecer na mídia”. E é isso que vemos hoje, curadores e professores referenciando obras que ele mesmo cultivam, criadores de fogos de artifício. Sempre as mesmas pessoas nos mesmos lugares, um ou dois no máximo curadores da moda que nos obrigam a ver sempre as mesmas obras das mesmas pessoas.

Por outro lado é bem verdade que nunca se falou tanto sobre fotografia. Diz Charlotte Cotton: estamos vivendo um momento excepcional para a fotografia, pois hoje o mundo da arte a acolhe como nunca o fez e os fotógrafos consideram as galerias e os livros de arte o espaço natural para expor seu trabalho”.

Repetimos a pergunta, o que estamos vendo? “A percepção não se separa da compreensão. Todo ato de ver implica em saber o que se vê”, ensina Lorenzo Vilches. Portanto embora uma imagem possa remeter ao visível, tomar alguns traços emprestados do visual, sempre depende da produção de um sujeito. Lê-la não é tão natural como parece: Ö fato de o homem ter produzido imagens no mundo inteiro, desde a pré-história até nossos dias, faz com que acreditemos sermos capazes de reconhecer uma imagem figurativa em qualquer contexto histórico e cultural. No entanto deduzir que a leitura da imagem é universal revela confusão e desconhecimento”(Martine Joly).

Ler uma imagem da contemporaneidade é tentar compreender a demanda de produção, a falta de  substância ou espessura por trás de uma imagem ou que leva muitos criticos a criarem definições como estética inexpressivanascida na verdade nos anos 50 na escola alemã; ou “imagens de alguma coisa”, fotografias que nascem do mero encontro casual; ou a “fotografia de conseqüência”, a que se liga mais ao documental., fotógrafos que desconstroem o fotojornalimo, fotografando temas ligados à imprensa mas com um olhar artístico”.

Ler uma imagem contemporânea é compreender que ninguém quer mais ser fotografo hoje em dia, todos querem e se autodenominam artistas. Mas ao mesmo tempo que procuram criar novas estéticas, a fotografia – sempre independente – se transforma hoje pela mão destes artistas”na imagem do banal, banalidade, um “fotografia sem qualidade”, como afirma Dominique Baqué fazendo referencia ao livro de Musil “Um homem sem qualidade”.  A arte do banal. A fotografia volta  a ser a arte de expressão de massa por excelência.

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15 comentários sobre “Como ler uma imagem: a fotografia contemporânea e suas problemáticas

  1. “A arte do banal. A fotografia volta a ser a arte de expressão de massa por excelência.” Isso é ruim? A fotografia é arte democrática, cada vez mais democrática, e o sofrimento dos que se autodenominam fotógrafos com a popularização de tal arte é compreensível, mas uma arte que cada vez se torna mais fácil ou acessível tecnicamente, exige que se ultrapasse outros limites (que não só o técnico) para que um trabalho se destaque. E a questão que você levanta é essencial, quem determina o que deve se destacar? Quem deve ser absorvido pelo sistema? Eu trabalho com fotografia comercial, nem por isso deixa de ser criativa, mas não se pretende arte é mais utilitária do que qualquer outra coisa. Fico aqui assitindo de camarote essas incertezas que talvez tenham sido o que me afastou de outras alternativas na fotografia.
    Não acrescentei mais do que questões, mas as interrogações é que provocam… Obrigado por voltar ao seu blog-site-diário Simonetta!
    Caetano Barreira

  2. Acredito que muitas transformações na estrutura cerebral do homem possibilitarão novas e novas análises das imagens e suas utilizações…seremos sim todos fotógrafos natos, uma planeta inteiro que registra e se comunica intermediado pela máquina … seja ela totalmente automática ou manual…mas cada vez mais imprecindível para nossas relações. Mas ainda continuaremos nos perguntando o que é arte !

  3. Gostei muito do artigo, dá uma visão ampla sobre a questão sem defesa fanática de quaisquer das visões, fazendo com que seja um texto com grande valor para orientar os novatos na área e para fazer pensar os veteranos.

    A gênese da fotografia certamente foi como ferramenta de comunicação, mas qual obra de arte não é uma ferramenta de comunicação? Penso que arte é a forma como se faz a coisa, não a coisa em si. O elemento estético (a parte “arte” em todas as coisas) está sempre presente; somos todos artistas, querendo ou não, sabendo ou não. (Não existe Arte com A maiúsculo, isso é uma abstração, um exagero, uma tentativa de estabelecer escalas de valores como a medida final de análise, o que é absurdo.)

  4. Engraçado, estava lendo seu texto e quase que instantaneamente liguei alguns pontos do estado da fotografia atualmente e essa necessidade urgente de alguns fotógrafos de serem consumidos pelo sistema. Certamente deve haver alguma relação disso com o fato de quase todo mundo querer nos empurrar fotos de nu, dos outros ou de si próprios. A Charlotte Coton trata disso num trecho de seu livro. O sucesso comercial de alguns fotógrafos que não tinham censura (ou pudor) de retratar suas vidas no mundo alternativo de sexo/drogas/violência criou uma turba fotográfica que tenta empurrar uma coleção de imagens sem sentido que emula o clima e tensão psicológica que outros já fizeram. Certa vez vi uma coleção de imagem de uma fotógrafa que “clicou” suas amigas na hora que elas estavam tendo um orgasmo solitário… E isso foi vendido como uma crônica do cotidiano… Pergunto, como ler essas imagens? Que repertório tenho que ter pra entender tudo isso? Sinto-me muito burro ou com pouco talento, porque a única conclusão que chego é que aquilo é muito ruim, por que “copia” algum trabalho que foi muito mais contundente ou revolucionário -enfim copia Nan Goldin/Larry Clarck/Richard Kern. São imagens que no mínimo são cansativas. E fica mais uma vez na minha cabeça que nunca vou entender o trabalho de curadoria, da crítica ou da edição.

  5. “o sonho que qualquer jovem artista é ser absorvido pelo sistema, ter conotação internacional, expor nas galerias e museus da moda aparecer na mídia”… Caramba, não faz muito tempo os fotógrafos eram mais personalistas, a fotografia era a expressão do eu, das angústias e sonhos de cada fotógrafo. Hoje, apesar do aumento da produção, vemos mais do mesmo, uma vez que “o bom” é o que está na moda, o que os outros gostam!

    Assim, saúdo o primeiro Setembro Fotográfico que ocorreu agora na Paraíba, por ser um festival intimista, sem modismos, onde o tradicional e o moderno, o iniciante e o mestre, os opostos, conviveram em uma rica troca de experiências! Foi uma das minhas melhores experiências em eventos para fotógrafos, onde a fotografia – e não o reconhecimento – era o centro da questão.

    Saúdo igualmente este espaço, que se dispõe a discutir fotografia.

  6. Tenho minhas dúvidas de que a sociedade tenha compreendido, mesmo depois de 150 anos, a força e a natureza interdisciplinar da fotografia. E um texto como esse é quase um alívio no sentido de que nos mostra essa possibilidade multifocal na leitura, interpretação ou entendimento de uma imagem. Particularmente, vejo ser necessário tomarmos sempre uma postura crítica em relação às imagens técnicas. É bom lembrar que embora sejam tratadas como brinquedos e objetos de desejo ou prazer, as parafernálias produtoras de imagem – antigas máquinas fotográficas – continuam com seu potencial uso como ferramentas de construção ideológica a todo vapor. E eis que citar A Grande Feira nesse contexto, Simonetta, é de uma ousadia que é a sua cara. Por essa e tantas outras, deixo aqui o registro de minha alegria em ver esse espaço novamente na ativa…

  7. Parece-me haver muitas fotografias, e não uma só, e o nome fotografia, ao englobar todas, talvez esconda essas diferenças que chegam a quase ser diferenças de espécie. De modo geral, todo objeto colocado sob observação pode ou não corresponder aos treinos interpretativos do observador. Correspondendo, o observador coloca-se na rotina perceptiva/interpretativa adequada para a apreensão daquilo dentro do sentido que socialmente aquilo deve significar. Significação é ajuste de conduta, então sob certo aspecto, mesmo uma fotografia abstrata tem conteúdo comunicado, conteúdo esse que é exatamente a conduta ajustada necessária para percebê-la. Nos termos do Piaget: “o que reconhecemos não é a coisa, mas a nossa reação à coisa” (Construção do Real na Criança). Nossa reação é conduta ajustada. Conduta perceptiva ajustada. Assim, cada um desses tipos de fotografia nos faz entrar em um modo perceptivo a ela adequado, e um desses modos pode ser a contemplação artística, que é também da esfera da comunicação. Há uma diferença profunda entre entender a mensagem de uma imagem e entender a forma como a imagem nos imparte essa mensagem. De modo geral o observador entende as mensagens das imagens, mas não as analisa para saber como essa mensagem é construída para desencadear a percepção ajustada que a significará.

  8. Cada vez mais necessitamos de pessoas que se desbrucem sobre os estudos da relação entre linguagens – as mais variadas – e as sociedades que as usam no âmbito de que significam, representam o mundo, as pessoas. Com isso, ao conhecermos tanto as facetas de criação (uso) como de representação das linguagens, seremos leitores e autores mais críticos… Poderemos, assim, (con)viver melhor… Os sentidos materializados pelas linguagens são (re)construídos no mundo. E especialmente, hoje, nos estudos sobre linguagem fotográfica, podemos contar com o conceito, dentre outros, da gramática visual (Kress). Parabéns pelo texto!!!

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