Mar e Mata

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Hoje à noite no Museu Oscar Niemeyer, às 19h. em Curitiba, João Urban, lança seu livro Mar e Mata. Ele me convidou para escrever um dos textos do livro. Quem estiver por Curtiba, vá. Quem não estiver, leia meu texto abaixo para saber do que se trata.

Assim como as pessoas, a paisagem também tem memória. Pelo menos é isso que o professor e critico de arte inglês, Simon Schama, defende quando diz que: “uma árvore não é apenas uma árvore. A natureza não é algo anterior à cultura e independente da história de cada povo. Em cada árvore, cada rio, cada pedra, estão depositados séculos de memória. Mesmo hoje, num mundo urbano invadido pela ciência e pela técnica, podemos constatar a sobrevivência de mitos que, vez ou outra, emergem com toda a força primitiva no cotidiano das pessoas”. O que o professor teoriza podemos ver na prática das imagens de João Urban. Neste seu ensaio ele não registra os lugares como se fosse apenas um mero espectador, ele deixa que os lugares falem, silenciem se tornem maior do que a câmara, do que a lente, do que o olho do fotógrafo. Não que não se perceba o estilo e a capacidade de compreensão do Urban, mas ao passarmos os olhos por estas imagens, percebemos a generosidade do autor que se cala frente ao silêncio do momento.

João Urban é um fotógrafo essencialmente documental. Seus olhos, suas imagens contam histórias, ele traduz em fotografias as narrativas de um povo que vive o ambiente do litoral do Paraná. Como ele mesmo diz: “os diferentes ambientes que se entrelaçam em suas bordas e se complementam”.

Neste ensaio aqui apresentado, João Urban, tão silencioso quanto suas imagens, flutua nestes ambientes nos trazendo, ou melhor, nos convidando a compreender dentro de um contexto sócio-histórico a história e a cultura desta população que vive nestes ambientes naturais.

Fiel à sua estética documentária, João Urban, nos pontua, nos assinala e dirige com a luz de seu olhar o que devemos ver, o que vale a pena observar. Ele não denuncia, não pontifica, mas com esta suas imagens, sutis e gentis, nos obriga a uma reflexão profunda sobre a existência, sobre o meio ambiente, sobre nossa responsabilidade com este mundo arcaico.

Não é um ensaio predador, mas um estudo de mais de vinte anos, observando, apreendendo o que esta população, o que esta paisagem natural tem a nos oferecer.

Ao escolher dividir em capítulos este ensaio, ele seleciona as melhores características de cada coisa, de cada lugar. Retrata a paisagem como se estivesse fotografando pessoas, retrata pessoas inserindo-as no seu meio ambiente, mostrando como vivem e sobrevivem em comunhão com o local que habitam. Mostra integração de respeito à natureza, mas também de respeito aos rituais e festas religiosas que fizeram desta gente ser o que é.

 

João Urban é um fotógrafo forjado na antiga forma da fotografia: não se encanta – pelo simples encantar – com tecnologia, sabe que a fotografia é uma forma de comunicação, de mostrar, de conversar. Sempre foi assim, em todos os seus ensaios. A imagem como forma de integração, de narrativa. Um contar proustiano, onde cada história se integra na outra, onde cada retrato, cada onda, cada barco nos remete a uma infinidade de lembranças, de sons e de cheiros.  Em cada imagem, cada coisa, cada pessoa tem seu lugar de importância.

João Urban em o Mar e Mata nos reconduz a um olhar mítico, que indaga e dúvida e nos recoloca à antiga questão filosófica: quem somos? E para onde vamos?

Morar, moradias! Uma exposição sobre os edifícios São Vito e Mercúrio

 

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Crédito: Antonio Brasiliano

A exposição Habite-se  reúne, pela primeira vez, olhares de diversos artistas sobre o cotidiano dos ex-moradores dos edifícios São Vito e Mercúrio, localizados na região central de São Paulo. Vídeos e fotos mostram a transformação dos dois prédios, que já foram densamente habitados mas que hoje aguardam vazios por um destino comum. Todos os projetos podem ser vistos agora juntos, sob a curadoria de Rita Toledo Piza. As fotos, instalações em vídeo e cenografia recriam, dentro da galeria, elementos do cotidiano dos dois edifícios, com um resultado surpreendente. Com 26 andares, os compridos corredores de ambos os prédios, reuniam a multiplicidade de tipos de São Paulo, com pessoas das mais diferentes origens, profissões e credos. A exposição traz o trabalho da documentarista Camila Mouri, que passou doze meses em visitas quase diárias ao Edifício São Vito, entre 2003 e 2004. Na época, ela convidou alguns fotógrafos a participarem do projeto e registrarem o cotidiano e as inseguranças dos moradores prestes a deixarem suas casas. No final do ano passado, foi a vez do coletivo de fotógrafos Garapa  investigar o vizinho Mercúrio.

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Crédito: gUi Mohallem

SOBRE O SÃO VITO E O MERCÚRIO Os dois prédios fazem parte da história do centro de São Paulo, e são ícones do processo de desenvolvimento urbano da cidade. Construído em 1959, o São Vito ficou conhecido como o mais famoso “treme-treme” da capital, chegando a ter mais de três mil moradores. Em 2004, foi desapropriado pela prefeitura, como parte de um projeto de revitalização do centro. Quatro anos depois, o Mercúrio, prédio vizinho e geminado ao São Vito, passou pelo mesmo processo. O prédio foi desapropriado e os seus quase 500 moradores foram retirados até o início deste ano. Apesar do intervalo de quatro anos, o processo de desapropriação de ambos os prédios é muito parecido. A história pessoal de cada morador se misturou a uma grande questão, comum a todos: o que fazer quando se é obrigado a deixar para trás a sua própria casa e ter que recomeçar de novo?

SERVIÇO  Habite-se Local: Galeria Olido, 1o. andar. Duração: 15 de abril a 30 de maio. Horários: ter. a sex. das 12h às 20h30; sáb., dom. e feriados das 13h às 20h30 Entrada Franca.

EQUIPE Fotografias  gUi Mohallem,  Leo Caobelli / Garapa, Rodrigo Marcondes / Garapa ,Paulo Fehlauer / Garapa Antonio Brasiliano ,Fabiano Cerchiari ,Vídeos Camila Mouri Garapa Cenografia Veronica Arias Produção Camila Mouri Curadoria Rita Toledo Piza

30 anos de Fotografia

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Abre hoje, na Caixa Cultura de Curitiba, a exposição “30 Anos de Fotografia”, com a coleção fotográfica de Rosely Nakagawa. Uma imersão no mundo da fotografia. Esta exposição também sera mostrada em São Paulo, Brasilia e Salvador. Abaixo o texto que escrevi para o catálogo da exposição. Um programa imperdível.

“E, de repente, Rosely Nakagawa se deu conta que possuía uma coleção de fotografias. Imagens que foi guardando durante seus 30 anos como curadora e pesquisadora. A primeira foi presente de Mario Cravo Neto, uma foto em PB. Seguiram-se outras, muitas outras. Hoje são quase 200, e deste acervo, Rosely destacou as 40 que fazem parte desta exposição.
E, por meio destas imagens, dos mais variados fotógrafos, o que se destaca é o momento criador, o processo de elaboração de imagens profissionais: trabalhos de Thomaz Farkas, Cristiano Mascaro, Carlos Moreira, Luiz Braga, Lucia Guanaes, pessoas que passaram pelos olhos de Rosely e, juntos, escolheram, selecionaram, dividiram, compartilharam o fazer imagético.
E, de repente, Rosely Nakagawa se deu conta que sua coleção não era fruto de colecionismo nem de investimento, mas resultado de seus 30 anos como profissional, que começaram na Galeria Fotóptica, no final dos anos 1970, após ter estudado fotografia na Enfoco com professores como Clode Kubrusly, Maureen Bissiliat, Pedro Martinelli e Cristiano Mascaro.
Talvez, mais do que uma coleção, o que Rosely nos mostra seja uma coletânea, onde ficam evidentes os interesses e os gêneros de época. Um índice que nos permite ver, mesmo que não de forma cronológica, e muito menos didática, a transformação da estética fotográfica, um passeio pelos mais variados estilos.
Um panorama da história da fotografia brasileira, muito mais ligado à afeição, ao emocional, do que a um discurso intelectualizado. Muito mais à história de Rosely Nakagawa, que, como curadora, sempre se preocupou em ficar na retaguarda, nos bastidores. Ou seja, ela inicia com o projeto do próprio fotógrafo e acompanha o amadurecimento de um projeto. Nestes anos, várias foram as conversas com estes profissionais. Muitas absolutamente informais, um pretexto para acompanhar o processo de desenvolvimento de uma ideia. É assim que ela entende esta relação entre artista e curador: uma forma de diálogo, de reflexão sobre as mais variadas visões de mundo. Como uma tradutora que intermedeia a relação do autor com o seu público.
Portanto, nada mais natural que agora ela tenha decidido estruturar este material para que, mais uma vez, neste momento de transformação tecnológica, da discussão do papel da fotografia no meio das artes e de sua entrada cada vez mais incisiva num mercado que começa a crescer no Brasil, ela nos proponha uma nova reflexão. Olhar nossa produção passada para que, com maior embasamento, possamos avaliar a produção recente”.

Carlos Moreira, você acha que conhece? Eu acho que não!

convitecmNeste sábado, dia 4 de abril às 11 horas Carlos Moreira apresenta seu livro, na Pinacoteca.. Uma novidade que já foi mostrada no prêmio Porto Seguro, mas para a maioria das pessoas, eu acredito que seja novidade. É um trabalho que foge do conhecido, as andanças de Moreira pela cidade. Este é um livro íntimo, onde o autor reve seus trabalhos, suas anotações, e por meio de colagens nos reconta seu caminho.

Entre os muros da escola

Fui assistir a este filme na terça-feira. Confeso que fiquei muito tocada e pensativa com o que vi. Uma história verdadeirade um professor da periferia parisiense numa classe bem heterogênea e que, na verdade, ao querer ser amigo dos alunos os afasta cada vez mais. O filme é muito tenso o tempo todo (bem verdade que é muito longo e alguns momentos cansativos), os diálogos estão sempre acima do tom. Não acredito que seja diferente nas escolas do Brasil. Mas o que mais me chamou a atenção foi a falta de entendimento, dos pedidos de socorro dos próprios alunos, e da escola que, já sabemos, hoje em dia não é mais interessante para ninguem. No quesito fotografia – que é o que interessa a este blog, uma cena me chamou muito a atenção. O professor de francês (protagonista do filme ) após a leitura do Diário de Anne Frank, pede aos alunos que escrevam uma redação fazendo seu próprio autorretrato. Um único aluno usa a fotografia para contar sua história. É um aluno problemático do qual os amigos zombam o tempo inteiro dizendo que ele não sabe escrever (a turma é de adolescentes), mas ao fotografar ele consegue contar sua história. Parece que o professor se interessa por isso, mas é apenas um átimo, ele não percebe  a força da linguagem deste garoto. Em seguida parece que o próprio professor se desinteressa por ele, voltando sempre à antiga questão  de uma escola que não esina e não desperta o interesse dos alunos. Também muito boa a cena da aluna ofendida sistematicamente pelo professor (que é sempre questionado e ofendido por ela)  e que o surpreeende ao dizer que leu a República de Platão. Um filme (guardada às devidas proporções de ser em alguns momentos bastante cansativo e repetitivo) que nos coloca frente à questão de ensinar e aprender e a falta de sentido que muitas vezes o ensino faz para quem aprende. Após o filme lembrei imediatamente do método Paulo Freire e também de uma frase de Leonardo Da Vinci: “só aprendemos o que nos interessa!” A fotografia aparece como forma de integração, de ligação e de discurso, mas é abandonada pela retórica da linguagem falada e escrita. Um filme que faz pensar e que para mim, valeu muito a pena.

Encontros com a fotografia

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Crédito das fotos; Mario Cravo Neto, Christian Cravo, Tiago Santa e Gustavo Moura

Mais uma etapa finalizada. Desta vez foi o Nordeste. Começamos em Salvador, onde entrevistamos Mario Cravo Neto e Christian Cravo. Seguimos para Juazeiro do Norte, onde passamos o dia com Tiago Santana  para seguirmos para o sertão do Carari paraibano onde nos encontramos com Gustavo Moura. Falta só mais uma viagem, agora ao Rio de Janeiro. Depois é  trabalho mesmo! Transcrever e editar as entrevistas, editar o vídeo e o making off. Aguardem, em breve o making off estará aqui no Trama. O diretor de imagem Mauricio Valim já está trabalhando nisso.

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