Curso Lightroom 2.0 em podcasts

Clicio Barroso, fotógrafo de moda e publicidade, mas também conhecido por seus concorridos workshops sobre o Lightroom está disponibilizando agora o curso em podcasts. Clicio respondeu algumas perguntas para explicar melhor este seu mais recente projeto.

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1. Fale sobre este projeto?  O projeto é antigo; permitir acesso irrestrito e gratuito a conteúdos educacionais é o caminho correto e que faz mais sentido nos dias de hoje. No caso específico do Lightroom 2.0, que não tem manual em português, e nem livro escrito (hehehe, eu sei, não deu tempo…), achei que ir postando os casts de quinze em quinze dias ajudaria a muita gente, e democratizaria ainda mais a distribuição de conteúdo. Além disso, eu gosto de gravar os episódios, editar no After Effects, sincronizar. Me divirto bastante.

2. O que é um videocast? Podcasts, originalmente apenas disponíveis em audio, são episódios periódicos comparáveis a programas de rádio, com a vantagem do espectador poder conservá-los em seu computador ou celular, e assisti-los a qualquer momento de sua conveniência. Videocasts, a evolução natural dos podcasts,  tem o seu modelo baseado exatamente nas redes de canais de televisão, tanto as abertas como pagas. São também programas ou episódios em vídeo que também podem ser assistidos a qualquer momento,  o que os torna muito confortáveis para o espectador. No site que hospeda os episódios, também há a possibilidade do usuário/espectador se inscrever, com um simples clique em RSS-Feed, e assim passar a receber avisos automáticos toda a vez em que houver um novo episódio disponível.

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3. Por que isso é bom?  Porque tutoriais de qualidade, gratuitos, que podem ser vistos de três formas, facilitam a vida de muita gente que precisa aprender e não sabe para onde correr.

Os episódios podem ser vistos online, em alta resolução (800x600px), podem ser baixados para os computadores em vários formatos e tamanhos, e podem ser sincronizados pelo iTunes, para iPods, iPhones, TVs e PDAs. Bem conveniente, agora que há de fato um esforço pela inclusão digital; os episódios podem ser acessado e vistos de qualquer lugar.

 

4. Como o aluno pode tirar dúvidas com você? Por e-mail, que respondo pessoalmente, ou pelas listas de discussão, o que acho mais democrático, já que muitos tem sempre as mesmas dúvidas. Há o projeto de se colocar um FAQ no site, assim como a possibilidade de um chat, mas são planos para o futuro.

O importante agora é a facilidade de acesso, o fato do conteúdo ser didático e relevante para os fotógrafos, e a regularidade dos episódios.

 

Para saber mais acesse aqui: http://www.clicio.com.br/portuguese/podcast.html

No iTunes: Buscar por Lightroom em português, na área de podcasts (loja americana), e se subscrever. 

 

Refletores!

 

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créditos: Robert Clark

Finalmente irá ao ar hoje a entrevista feita com os fotógrafos Robert Clark e Greg Gibson para o Roda Viva.Na bancada dos entrevistadores, eu, o Hélio Campos Mello, fotógrafo e diretor da revista Brasileiros, o Cristiano Mascaro e o Todd Benson, correspondente da agência Reuters

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créditos: Greg Gibson

O programa foi gravado no ano passado. Hoje à noite às 22.10, na Tv Cultura.

 

Encontro entre criador e criatura

Foi publicado hoje no caderno Cultura, doEstado de S.Paulo minha resenha do livro “O pintor de batalhas”, um dos livros que gostei de ler na virada do ano. Reproduzo abaixo:

capaO fotógrafo de guerra André Faulques acreditou, ou quis acreditar, que, ao se esconder numa torre e deixar o falso realismo fotográfico para dedicar-se à representação pictórica, estaria livre dos horrores que durante 30 anos fotografou ao mesmo tempo que poderia entender o ser humano e pintar o que não conseguiu fotografar. Mas é nessa metáfora (a torre) que ele encontra seus piores demônios, que se caracterizam pela chegada de um desconhecido ao seu refúgio.

Esse é o mote inicial do livro O Pintor de Batalhas, do espanhol Arturo Pérez-Reverte. A princípio, pode parecer banal, ou mesmo clichê, mas durante a leitura, o autor, ele mesmo um ex-fotógrafo de guerra, coloca questões fundamentais que deveriam ser pensadas. A primeira, sem dúvida, é a questão da ética ou, se quisermos, a ligação entre ética e estética. A segunda questão é a de representação e como as imagens são recebidas pela sociedade contemporânea: tanto a pintura como a fotografia. Os diálogos são densos, profundos, com cortes quase fotográficos. O essencial está dito. Não tem mais, não tem menos. O livro é sobre a guerra, mas usa como pano de fundo a imagem.

Ao criar um mural em sua torre – e o engraçado é que o termo fotografia documentária deriva dos murais mexicanos, na época bastante realistas e que contavam a história da revolução mexicana nos muros -, Faulques reescreve sob sua interpretação os horrores das guerras que fotografou como jornalista, mas ao pintar, ele faz de uma guerra todas as guerras. Suas certezas são questionadas, porém, quando recebe em seu refúgio, onde vive escondido e, portanto, cria na cidade uma onda de mistério a seu respeito, a visita de um ex-soldado croata que foi imortalizado pelas lentes de Faulques.

O primeiro diálogo já é hilário: obviamente o fotógrafo não reconhece o visitante, só depois que o mesmo se apresenta mostrando a capa da revista onde seu rosto foi publicado: “Vira uma infinidade de rostos na vida, a maioria através do visor de uma câmera. Alguns ele havia guardado, muitos, esquecidos: uma visão fugaz, um clique do disparador, um negativo na folha de contato, que só vez por outra merecia o círculo de caneta que o salvaria de ser relegado aos arquivos.” O autor aqui entra no campo dos simulacros e de como a sociedade contemporânea não consegue mais vivenciar as coisas e muitas vezes só as conhece por imagem, ou seja, simulacro. De como nos acostumamos a um conhecimento mediado pela mídia.

A foto em questão teve consequências fundamentais na vida do ex-soldado e na do próprio fotógrafo. E é sobre isso que o livro discorre: um encontro entre criador e criatura. Já que o soldado não é a foto dele estampada na revista. E é a partir de uma fotografia, essa mesma fotografia que o fotógrafo se torna internacionalmente conhecido.

A contemporaneidade do romance se dá no fato de que todas as questões são colocadas por meio de imagens: tanto as fotográficas como as pictóricas e as mentais. Uma conversa sobre imagem e imaginação, narrativa e memória, sobre a busca estética de um autor para contar ou narrar horrores.

Por meio das imagens realizadas e de quadros de batalhas o livro é uma grande discussão sobre a guerra em si. Mas é também uma grande lição sobre o tão comentado poder da imagem. Poder que lhe é conferido pela própria sociedade que se autorretrata compulsivamente. E que gosta de sua representação imagética e quer ser vista ou conhecida da forma como aparece representado.

Um belo texto, um belo romance, embora cheio de citações, de nomes de pintores e fotógrafos. O próprio autor não nega notas biográficas ao texto, mas isso pouco importa. A citação de nomes tenta legitimar uma narrativa, assim como a fotografia, para muitos, confere veracidade a um fato. Arturo Pérez-Reverte, neste livro que ultrapassa as questões da fotografia – não é um texto sobre história da fotografia, mas sobre guerra – nos lembra, porém, que ninguém é igual frente a uma imagem, nem quem a faz nem quem a olha. A intencionalidade está no olhar, assim como a ética e a estética estão nos olhos de quem decodifica uma fotografia.

Belo encontro!

Tuca Vieira, fotógrafo da Folha de São Paulo entrevistou Cristiano Mascaro, que para o Caderno Mais, fez seu primeiro ensaio em digital. A história nasceu depois do texto do Mascaro “Ave Leica” (leia aqui), um dos textos mais comentados em vários blogs. Hoje, no Caderno Mais, belo texto do Tuca. Com autorização do autor reproduzo aqui.

Paulista, avenida por Cristiano Mascaro

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Usando uma câmera digital, fotógrafo clica a via que melhor simboliza são paulo, que está fazendo 455 anos

TUCA VIEIRA
REPÓRTER FOTOGRÁFICO

Quem se dispusesse a percorrer o centro de São Paulo nos anos 1980 correria o risco de encontrar uma solitária figura de barba cheia, tripé nos ombros, mochila nas costas, olhando as sombras alongadas da primeira hora da manhã.
Em cima do tripé provavelmente estaria uma câmera sueca da marca Hasselblad parecida com a que foi à Lua. E dentro da mochila encontraríamos rolos de película fotossensível, dessas que passam por banhos de bórax e sulfito de sódio.
Cristiano Mascaro se lembra de quando “saía de casa antes do amanhecer, com os faróis do carro ainda ligados”, como se tivesse um encontro marcado com a luz no centro de São Paulo. São dessa época algumas das mais importantes imagens da fotografia brasileira.
Quem se dispusesse a percorrer a Avenida Paulista, na tarde da última segunda-feira, encontraria essa mesma figura com a barba já branca, o mesmo tripé nos ombros e a mochila que deixava marcas de suor na camisa.
Mascaro aceitou o convite da Folha para fotografar a Paulista, asfaltada há cem anos: “Nunca vi comemorar asfaltamento de rua, mas tudo bem”. É seu primeiro ensaio fotográfico com câmera digital.

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Do centro velho para a Paulista, muita coisa mudou. Em cima do tripé, “um trambolho de 22 botõezinhos e 21,5 megapixels”; dentro da mochila, um “estojo de maquiagem” onde guarda os cartões de memória.
Mascaro foi motivo de polêmica depois que publicou um artigo no Mais!(de 21/12) em homenagem a Cartier-Bresson, em que lamentava o desuso das técnicas tradicionais.
O artigo circulou pela internet, e Mascaro foi chamado de mestre por uns e antiquado por outros. “Eu só quis fazer uma homenagem a uma época da fotografia que não pode ser apagada. Quero ter o direito de sentir saudade.”
Entre curiosidade e ceticismo, Mascaro vai se entregando à novidade mais por necessidade do que por paixão. “É como tirar um pé de uma canoa para colocar noutra”, define.

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A fotografia é sobretudo uma aventura humana: “A fotografia te levava a conhecer as pessoas. O trabalho de campo passou a ser trabalho de gabinete. Tenho saudades de bater na porta do laboratório. Como vou fazer agora sem tomar café com a Rosangela, que revelou meus filmes por 20 anos?”.
Mudam os tempos, muda a cidade, mas o olhar do fotógrafo permanece. Mascaro veio “tratar” as imagens (como se diz a respeito da pós-produção digital) e não havia nada para ser tratado. Suas fotos digitais, como numa prancha de contatos, precisam de ajustes mínimos de contraste e só.
Aos 64 anos, ele se renova: “Instalei um Photoshop CS4 e comprei um livro passo-a-passo, agora ninguém me segura!”. Parece surgir um novo fotógrafo, 30 anos à nossa frente.

Parabéns São Paulo!

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O presente não poderia ser melhor. A Editora CosacNaify lança hoje, no CCSP, o  livro de Aurélio Beccherini, o primeiro repórter fotográfico da cidade de São Paulo. Com textos de Rubens Fernandes Junior, Angela C. Garcia e José de Souza Martins, as 193 imagens dão conta de uma São Paulo dos anos 20. Cronista social da cidade, Becherini nos deixou uma bela idéia de como era o cotidiano paulistano daquela época.

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Junto com o lançamento será reinaugurada uma exposição com 45 imagens do fotógrafo, exposição esta que jpa havia sido mostrada em novembro na galeria Olida e postada neste blog. (leia aqui).

Vale a pena ir hoje ao centro Cultural São Paulo, à partir das 16 horas.

No meio do caminho havia….muitas pedras!

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Há tempos que André François com seu ImagemMagica se preocupa em realizar trabalhos de cunhos social e com um retorno para as comunidades retratadas. Muito antes disso virar moda, ou no mais das vezes demagogia assistencialista. Eu o conheci ainda no século passado – literalmente – quando estava iniciando e foi se encontrar comigo levado pela Paula Blandy que começava a estagiar com ele e hoje é diretora do ImagemMagica. E ele continua da mesma forma: persistente e fazendo o que acredita, o que acha que é necessário. O trabalho reunido em seu mais recente livro (aqui também uma edição do autor, com patrocínio da Roche Produtos Químicos e Farmacêuticos)  “A curva e o caminho, o acesso à saúde no Brasil“, iniciado em 2005, sintetiza sua busca e sua necessidade de se colocar como cidadão.

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Suas imagens acabam por dar voz àqueles que não recebem um direito básico, fundamental, que é o direito à saúde. Não é um livro sobre doença, mas sobre sobrevivência dos pacientes e dos médicos, por que não? É um complemento de seu livro lançado há dois anos: “Cuidar: um documentário sobre a medicina humanizada no Brasil”. Com edição de fotografia de Eder Chiodetto, a narrativa imagética é completada por textos, frases e depoimentos colhidos pelo fotógrafo em suas andaças, assim como por suas anotações recolhidas provavelmente de seu diário de viagem.

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Andre François é silencioso, suas imagens também o são. Sua fotografia não é jornalismo, não é publicidade nem proselitismo. É narrativa, conto, prosa! Com sua câmara, André, descobriu uma maneira de compreender o mundo, pelo menos o mundo que ele vê. Suas fotografias são vetores de significados, questionam, apontam e não definem. Mas o Brasil foi apenas o começo. Agora,  pretende viajar  o mundo sempre discutindo o mesmo tema. Quando passa André François não deixas suas pegadas, mas deixa seu rastro em forma de imagem.

Ainda sobre a Polaroid!

Carlos  Souza enviou comentário dizendo que leu uma notícia no “The Independent” que dizia exatamente o contrário.

E mandou o link: http://www.independent.co.uk/life-style/gadgets-and-tech/news/smile-polaroid-is-saved-1418929.html.

Achei justo e necessário trazer isso para um post.

Vai saber…..Teremos que aguardar!!!!!

Deu no El País: a Polaroid realmente vai deixar de existir.

 

Desaparecimento dos filmes Polaroid encerra página na história da fotografia

El Pais
Elsa Fernández-Santos
Em Madri

O ritual era simples: apontava-se a objetiva, disparava-se apertando o botão e o filme, acompanhado por um arco ruidoso, saía como uma língua preta das tripas da câmera. Depois vinham os 60 segundos de espera, que às vezes se tornavam eternos, nos quais parecia brotar do nada a imagem que a Polaroid havia captado. Um momento que também se perderá no tempo.

Em 2009 serão definitivamente enterrados os últimos cartuchos de uma câmera que mudou o rumo da história da fotografia, da arte e da vida cotidiana de milhões de pessoas em todo o mundo. “A Polaroid inventou a primeira técnica que dispensava o quarto-escuro, oferecia uma imagem imediata e totalmente documental”, diz o artista Joan Fontcuberta, cuja obra esteve estreitamente ligada a uma técnica que representou uma revolução por dois motivos: “O aspecto lúdico da câmera: é um jogo de mãos. E outro é a grande privacidade que permitiu, ao fazer fotos únicas que ninguém mais precisava ver”.

Foi o capricho de uma menina, em 1944, que mudou o rumo da história da fotografia. A filha de Edwin Land, o criador das câmeras Polaroid, queixava-se de que no verão tinha de esperar muitos dias para ver as fotos das férias. A invenção não demorou. “Foi como se todo o nosso trabalho até então tivesse sido apenas uma preparação para conseguir o processo de uma fotografia seca em um só passo”, escreveu Land.

O modelo mais popular, o S-X 70, chegou nos anos 1970. Em 1972 a revista “Life” lhe dedicou uma capa. O título: “A câmera mágica”. O desenhista Charles Eames escreveu, rodou e realizou um filme de 11 minutos em que explicava o simples uso do aparelho. Os atores mais populares a anunciavam, era uma câmera alegre. E até o Museu do Vaticano a utilizava para mostrar seus trabalhos de restauração nos aposentos de Rafael; também era uma câmera séria. Definitivamente era algo que ninguém podia perder. Em meados da década já haviam sido vendidos mais de 6 milhões. Era só o princípio. Nas mãos de Andy Warhol (que realizou milhares de retratos com ela) se transformaria em mais um ícone pop.

A Polaroid deixou de fabricar em 2007 sua câmera instantânea, diante do sucesso das digitais. A partir de meados dos anos 1990 as vendas milionárias da empresa começaram a cair, até que em 2001 declarou falência. Em 2008 veio o anúncio do fechamento das fábricas de seus carretéis. Diante da onda de fóruns (de http://www.savepolaroid.com a páginas especiais no Facebook e outras redes sociais) que pediam para salvar a vida dos cartuchos, a empresa deixou aberta a possibilidade de vender a licença. Há algumas semanas apresentou seu novo produto: a impressora de revelação instantânea de bolso PoGo.

Rafael Doctor, diretor do Museu de Arte Contemporânea de León (MUSAC) e importante especialista em fotografia, acredita que o fim da velha Polaroid se enquadra no desaparecimento da fotografia analógica, reflexo de um mundo “em que desaparece a magia do objeto cotidiano. E acredito que as pessoas da minha geração, os que beiram os 40, não estávamos acostumadas a enterrar algo tão cotidiano”. Doctor também teve sua Polaroid: “Com ela participamos da magia da fotografia, a surpresa do instantâneo, era um laboratório em uma caixinha”. Como o cineasta Ivan Zulueta, que em uma exposição na Casa Encendida em 2005 reuniu 2 mil de suas 10 mil polaroids. O cineasta comparou o efeito da câmera com a da Super 8: trabalhar sem pretensões comerciais, rodando por rodar e fotografando por fotografar. Zulueta disse então: “Aquela maquininha tinha possibilidades enormes. Bastava ler o prospecto: não faça isso que então acontecerá aquilo. Eu fiz tudo”.

Impelida pela filosofia de seu criador, a Polaroid foi também uma empresa que desde o início quis aproximar sua invenção da arte. “Há tantas coisas que se podiam fazer com uma Polaroid, tantas possibilidades manuais”, indica Barbara Hitchcock, uma das responsáveis pela Fundação Polaroid e autora do livro sobre a mesma publicado pela editora Taschen. Andy Warhol, Helmut Newton, Luciano Castelli, Robert Rauschenberg, Chuck Close, David Hockney, Walker Evans… dezenas de artistas buscaram outras formas de expressão com suas fotos polaroid. “As manipulavam, recortavam, pintavam, eram capazes de inventar mil maneiras de trabalhar com a película. Há algumas semanas em uma conferência em Nova York um de nossos grandes fotógrafos, Ralph Gibson, dizia que hoje temos de falar de fotografia e de fotografia digital, porque a técnica é determinante. Talvez ele esteja mais velho, mas não lhe falta razão.”

Hitchcock lembra como Aaron Siskind, já idoso, encontrou na Polaroid a resposta para seus olhos cansados: “Enxergava mal, não podia enfocar com uma câmera normal, então descobriu a Polaroid, podia fotografar quase sem ver, sem enfocar… é uma coisa bonita, não?”

A Polaroid manteve durante anos um programa cultural que forneceu material para escolas e criadores. “Uma filosofia exemplar”, diz Joan Fontcuberta. “Era um perfil de empresa que cuidava de seus produtos. Eu comecei com uma de bolso, nos anos 1980, que fazia fotos tamanho carteira. Ao manipulá-la, os efeitos eram muito interessantes. Depois trabalhei com a Positive/Negative 55, que era em branco e preto e da qual saía uma cópia em negativo e outra em positivo. Naquele tempo a Polaroid havia ganhado a batalha da patente instantânea da Kodak e com o dinheiro que ganhou começou a levar ao mundo todo as atividades de sua fundação. Trouxeram para a Espanha sua câmera gigante, que tirava instantâneos de grande formato, e com a qual também pude trabalhar”. Para Fontcuberta, o fim da Polaroid faz parte do “darwinismo tecnológico”. “O curioso foi que, ao acabar com essa magia alquímica do quarto-escuro, a Polaroid oferecia algo totalmente imediato e documental. Era uma imagem absolutamente carente de truques e enganos. Era uma câmera capaz de dar o testemunho exato de nossa vida.”

David Hockney conseguiu com a câmera instantânea um diálogo com sua própria pintura. As mesmas paisagens frente a frente. Andy Warhol (que também adorava o jogo de outra relíquia do passado: o automaton) tirava até 60 polaroids de seus modelos antes de retratá-los. Depois escolhia quatro instantâneos e os mandava para o laboratório. Deles ficava com um, o recortava e manipulava até finalmente ampliá-lo em uma serigrafia.

Nos anos 1970, a Polaroid enviou sua popular S-X 70 e caixas de filmes grátis para uma lenda da fotografia: Walker Evans. O fotógrafo que havia retratado como ninguém os rostos da Grande Depressão já era um homem velho, divorciado e de saúde frágil. Em suas mãos as pequenas Polaroids passeavam por uma torta mordida, um a caixa de correio ou um pobre manequim. Evans fez uma seleção de 120 instantâneos para seu livro “Polaroids”, um eloquente exercício de nostalgia documental que hoje representa a viagem sem retorno de um fotógrafo que, obcecado pela perfeição, preferiu se despedir com um brinde à beleza do imperfeito.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Emergentes!

capa_emergentes Érico Hiller é o tipo de pessoa que fica matutando o que vê, o que lê e o que ouve. É o mote para criar um projeto e sair pelo mundo. Foi assim com o trabalho que fez sobre “Violência contra mulher” que foi exposto no Sesc Vila Mariana. É assim com este seu mais recente trabalho lançado em livro no final do ano passado “Emergentes”, (edição do autor, Patrocínio Gerdau, apoio PAC) quando decidiu  fotografar tensões sociais e ambientais em países qu vivem as mesmo tempo situações de extrema riqueza e pobreza. Entre pesquisa e as fotos em si, passaram-se três anos. 2008 foi praticamente passado viajando por seis países: Brasil, Argentina, China, Índia, México e Russia. Érico não é fotojornalista, mas um documentarista. Aliás os grandes documentaristas da história da fotografia não são fotojornalistas, são movidos por outras questões e outros olhares para fotografar. Érico é assim: movido por um interesse social, atual e contemporâneo, mas acima de tudo movido por sua curiosidade de conhecer. Ele decidiu vivenciar em primeira pessoa o que estava absorvendo teoricamente. Ou como ele mesmo diz em seu texto, belo texto, por sinal: “minha idéia era enfrentar as dificuldades que as pessoas enfrentam, ver em que condições trabalham, se locomovem ou moram e sentir nos meus pulmões o mesmo a poluído que respiram. Na prática, transformei-me em personagem do meu próprio documentário”. 

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E é dessa forma que ele fotografou e trouxe para nós as suas impressões de viagens. A edição das imagens nos livros é fundamental para isso, mesmo que em alguns instantes, ele tenha se deixado levar pelo clichê, pelas imagem mais fácil (muito por- do- sol para meu gosto). Mas faz parte. O importante é que a teoria ou a pesquisa não sobressai às imagens, ela é pano de fundo, o que torna a leitura das imagens agradável. 

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Érico nos mostra semelhanças, diferenças, transformações a partir do cotidiano das pessoas. Ele não define, não critica, não julga, nos abre a possibilidade de nossas inúmeras e abrangentes considerações sobre o que ele definiu “as ansiedades das nações”.

Vocês também podem acompanhar o desdobramentos da viagem do Érico Hiller em seu blog

Tentei, juro que tentei!

Fiz de conta que não ouvi, que não li, que não sabia do que as pessoas estavam falando. Mas como todo mundo falou, escreveu, comentou…não pude mais. O texto de hoje no estadão do Roberto da Mata é primordial. Não vou dizer nada. Só reproduzir. Cada um pense o que quiser….

O presidente não lê

Roberto DaMatta

Numa terra de cegos, quem tem um olho é rei. Num país de gente sedenta e carente de leitura, é desanimador e melancólico descobrir que o presidente da República, o sujeito mais importante e poderoso do sistema; a figura a quem devemos respeito e lealdade pelo cargo que ocupa; que representa não só um partido ou posição política e econômica, mas – como supremo magistrado da nação – a todos nós; o homem número 1 do País, não lê. Mais: em entrevista ao jornalista Mario Sergio Conti, para a revista Piauí, ele declara que, quando tenta fazê-lo, tem azia. Ademais, descobrimos que ele fez como o pior presidente que os americanos jamais tiveram, George W. Bush, pois dele veio a cópia de uma estrutura palaciana montada para evitar a leitura. Para um sujeito como eu, que vive para os livros e de livros, e que morreria sem livros; para quem a leitura tem sido um meio de dar sentido à vida e de lidar com o amor, com a perda, com o sucesso, com a raiva, o trabalho e com a morte, saber dessa antipatia à leitura é – digo-o sinceramente e com o coração na mão – chocante, inacreditável, triste, devastador.

Para quem tem na leitura não só uma fonte de informação e sabedoria, mas os motivos para viver, como é o caso dos professores, escritores, educadores, ensaístas, legisladores, pensadores e jornalistas; funcionários e intérpretes das normas legais, cujo trabalho consiste em aplicar regulamentos, decidindo a todo instante o que é correto; descobrir que o presidente não lê é uma bofetada na cara!

Vejam bem, há contradições triviais. O padre pecador, o ateu crédulo, o professor ignorante, o médico hipocondríaco, o economista pobre, o pastor malandro, o jornalista venal, o desembargador corrupto, o policial criminoso e o político sem caráter. Mas todos leem! Todos se informam por meio de amigos e auxiliares, mas não abandonam o contato direto com a fonte: esse foco indispensável ao conhecimento do mundo. Esse mundo feito de representações codificadas, de palavras e algarismos articulados numa determinada intenção e estrutura. Estivesse eu dizendo o que digo por meio de rimas, o efeito seria diferente. É por causa disso que eu não posso me conformar com um presidente que não lê.

O que saiu na revista deve ser um engano. Estou seguro que o presidente lê. Lula estava simplesmente brincando com o entrevistador. Ressentido ou ofendido com alguns jornais e revistas, o presidente usou o manto da ironia e resolveu chocar o estabelecimento jornalístico, dizendo que não lê. Não posso acreditar que o servidor público mais importante do meu país, apreenda o mundo apenas por meio do ouvido. Sendo instruído e informado sobre os eventos e idéias deste nosso mundo conturbado somente por meio de conversas permeadas pelo ponto de vista e emoções dos seus interlocutores. Não posso crer que o presidente se contente em apenas ouvir o canto do galo, sem jamais vê-lo em pessoa. Que ele não tenha nenhum momento a sós consigo mesmo, no qual – com um texto na frente dos olhos – coloque para dentro de seu ser, por meio da leitura solitária e individualizadora, aquilo que o autor da narrativa explicita, revela, ensina, critica, pede, descobre, interpreta, anuncia, reitera, louva, interroga, suspeita, ou condena.

Quando o presidente diz que não lê, ele envia uma poderosa mensagem à sociedade que o elegeu. No fundo, ele diz que o discernimento pode ser alcançado por vias externas. Os laços sociais substituem a experiência da leitura que usualmente vai dos jornais e revistas para os livros. O que impressiona não é apenas o fato do homem não ler. É o fato dele estar seguro de que é mesmo possível saber das coisas por tabela e em segunda mão, por meio de olhos alheios. Sem a visão direta, interiorizada, individualizada e subjetiva dos fatos e problemas, porque eles podem ser assimilados por meio dos outros. E que ele não leva a sério a imprensa livre e contraditória que, como ele mesmo admite, foi decisiva na sua eleição.

A leitura vai muito além da informação. Ela mostra que os fatos são sempre inventados, relativos e determinados por perspectivas. Um mesmo “fato” pode produzir pontos de vista diversos, relativos a um mesmo dilema ou questão. Num mundo permeado por contradições, a leitura é um instrumento privilegiado para entendê-las e eventualmente superá-las.

Em estado de choque, penso na lição daquele Machado de Assis que – diga-se logo – não pode deixar de ser lido, quando ensinou que quem conta um conto aumenta (e necessariamente subtrai) um ponto. As versões pessoais, a apreensão marcante, sempre surgem da leitura em primeira mão. Como um sujeito que morreria sem os livros, como uma pessoa cuja profissão é ensinar a ler e que vive de leitores, eu sou obrigado a imaginar que essa entrevista é, no mínimo, um conto; e, no máximo, uma catastrófica notícia.

 

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