Parabéns! Parabéns!

Saiu a lista dos fotógrafos que ganharam a Bolsa Estímulo da Funarte. Fiquei feliz, pois encontrei entre os vencedores vários amigos: Paula Sampaio, João Lobo, João Castilho, Anderson Schneider (leia entrevista no blog Olha, vê), Luiz Carlos Felizardo e Felipe Prando. A todos, meus mais sinceros parabéns. Lembro que, Luiz Carlos Felizardo, Paula Sampaio e João Lobo, fazem parte da Coleção Senac de Fotografia.

 Segue a lista:

Paula Sampaio: “No Início foi o Mar!”, PA

 

Kamin Carnevali: “Diário de Indefinições Fotográficas”, AM

 

Rodrigo Braga: “Desejo Eremita”, PE

 

João Lobo: “Entrecorpus”, PE

 

Anderson Schneider: “Brasília Concreta”, DF

 

Ana Rita Vidica: “Obra Marginal”, GO

 

João Castilho: “Confluências, suturas, linhas, deslocamentos”, MG

 

Tatiana Altberg: “Faça-se Luz”, RJ

 

Felipe Prando: “Paisagem fronteira”, PR

 

Luiz Carlos Felizardo: “Querência”, RS

 

Mais uma matéria minha no Estadão de hoje

França e Brasil: trocando ”figurinhas”

pierre-verger

 
História e memória do e sobre o Brasil serão os eixos da exposição que entre abril e junho do próximo ano estará na Pinacoteca durante a programação do ano França no Brasil. Pensada e elaborada por Diógenes Moura, curador da Pinacoteca, em parceria com a CulturesFrance e o Consulado Geral da França de São Paulo, a exposição pretende ser um bate-papo entre os diversos artistas selecionados: “Como se eles estivessem numa mesa de bar trocando fotografias entre eles”, exemplifica Diógenes.

O primeiro eixo, histórico, será composto pelas imagens de Pierre Verger, Marcel Gautherot, Jean Manzon e Claude Lévi-Strauss, três franceses que têm em comum o fato de terem vivido no Brasil e registrado o País do ponto de vista humanista, do cotidiano da arte e religiosidade. Nas palavras do curador, o antropólogo Claude Lévi-Strauss (1908) aparece como uma epígrafe da mostra, visto que, enquanto seus conterrâneos terão a oportunidade de mostrar seu olhar com 30 imagens, o antropólogo, um dos fundadores e professores da USP, onde lecionou sociologia de 1935 a 1939, aparece com poucas imagens: “É apenas uma pontuação. Poucas e eficientes imagens.”

Isso se deve ao fato de os três primeiros terem – em épocas, momentos e intencionalidades diferentes – fotografado os mesmos lugares. Coincidentemente, os três autores tiveram suas fotografias publicadas na revista O Cruzeiro numa época em que essa publicação era o sonho de vários fotógrafos e ajudou a criar entre nós a idéia do que era realmente a estética fotojornalística.

Jean Manzon (1915-1990), mais que seus colegas, foi determinante para trazer para o Brasil a modernização do fotojornalismo que nos anos 40 ainda engatinhava entre nós. Devemos a ele – que na Europa já havia trabalhado para as mais importantes revistas ilustradas da época, como por exemplo, a Paris Match – a introdução das câmeras mais ágeis para o trabalho do repórter, e trouxe também o respeito e o reconhecimento da profissão.

Já Marcel Gautherot (1910- 1996) chega ao Brasil em 1939. Na França, ele estava ligado à antropologia visual, sendo um dos responsáveis, em 1936, pela criação do Musée de L?Homme, em Paris. No Brasil, seu interesse se voltou sobretudo para o folclore, arquiteturas e festas brasileiras. Alguns desses seus trabalhos foram publicados na revista O Cruzeiro.

A vida e a obra de Pierre Verger (1932-1996) é há muito nossa conhecida. Seus estudos e viagens sobre o homem, que o levaram a percorrer de 1932 a 1946 o mundo todo, são bastante conhecidos. Desembarca no Brasil em 1946, mais precisamente na Bahia, pela qual – como não podia ser diferente – se encanta e onde decide se estabelecer pelo resto de sua vida. Procurou conhecer em detalhes a vida dos descendentes africanos, seus ritmos, sua religiosidade. Para tanto, durante anos fez a ponte aérea África-Brasil. Em 1948, passou a se dedicar ao estudo do candomblé. E foi na África, onde também estudou a religiosidade, que em 1953 recebeu o título de Fatumbi “nascido de novo graças ao Ifá”.

São essas visões de Brasil, dos marinheiros no porto, dos cultos e do cotidiano, que ele também registra e publica: “Esses nomes, com um período de atuação que atravessa as décadas de 1940 e 1980, reafirmam a importância e a sensibilidade de como um olhar estrangeiro seria incorporado aos mais diferentes temas da nossa cultura, podendo traduzi-la num documento sem precedentes para o entendimento da fotografia no Brasil”, conta o curador. A foto como descoberta do mundo.

Para que esta conversa se amplie e atualize, a Pinacoteca do Estado escolheu três brasileiros que, de alguma forma, décadas depois, também caminharam pelos mesmos lugares fotografados pelo olhar europeu. Luiz Braga, de Belém; Tiago Santana, de Fortaleza; e Mauro Restiffe, de São Paulo, contribuem com seu olhar moderno, ou pós-moderno, sobre o cotidiano brasileiro para o diálogo com o registrado nos anos 40 e 50 em especial, quando o ufanismo se fazia presente e a identidade nacional precisava ser reafirmada.

O olhar dos jovens – em relação aos colegas franceses – fotógrafos muito mais do detalhe, do pequeno, do aprofundamento e da interpretação dos locais desvelados pelos antecessores: “Trinta anos depois, três fotógrafos brasileiros parecem andar e registrar as mesmas imagens realizadas por Pierre Verger e Marcel Gautherot”, explica Diógenes. Claro que não são as mesmas imagens, mas as mesmas necessidades de encontro.

O fotógrafo Tiago Santana está realizando um novo ensaio para essa exposição: panorâmicas realizadas no interior do Ceará. Luiz Braga comparece com seu olhar particular sobre o cotidiano amazonense e Mauro Restiffe, o mais urbano de todos, coloca um ponto final nesta deliciosa conversa.

Mas é então que mais uma surpresa se faz presente: três fotógrafos contemporâneos franceses foram convidados para nos mostrar imageticamente como entendem e imaginam o Brasil. Já estão por aqui Antoine D?Agata, Bruno Barbey e Olivia Gay. Os três fazem parte da agência Magnum e cada um está realizando um ensaio específico para a mostra. D?Agata, preferiu fixar-se em São Paulo, mais precisamente no entorno da própria Pinacoteca, mas também vai trazer imagens do Rio e de Salvador. Ele trabalha sempre com as situações-limite do ser humano, buscando humanidade em lugares onde há muito ela foi esquecida ou abandonada. Barbey resolveu flutuar por São Paulo, Rio, Maranhão e Belém, enquanto que Olivia Gay fixou-se na Bahia, resolveu seguir famílias baianas e acompanhar seu dia-a-dia, em especial no que diz respeito à culinária.

Todas essas imagens – aproximadamente 250 – ocuparão cinco salas da Pinacoteca. Um diálogo franco-brasileiro que deverá viajar por todo o Brasil durante o ano de 2009 para aportar em 2010 na França, em Paris e no festival de Fotografia de Arles.

foto; Pierre Verger

Coincidências…..

Capa da Folha de São Paulo de sábado, 22 de novembro, foto Apu Gomes.

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Capa da Estadão, sábado, 22 de novembro, foto Werther Santana

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Eu já me inscrevi!

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Frase do dia!

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” Fotografar, afiar a navalha no olhos!” – João Cabral de Mello Neto.

esta frase abre o livro de Flávio Damm: “Preto no Branco – Fotos & Fatos”

foto: Eugene Atget

Duas exposições importantes

Hoje no caderno 2 do jornal estado de S. Paulo sairam duas matérias minhas sobre duas belas exposições aqui em São Paulo.

Resolvi reproduzir os dois textos abaixo!

Uma crônica do passado da cidade

034e-baixaFoi no começo do século 20, ainda na primeira década que a cidade de São Paulo se tornou o principal modelo de um fotógrafo italiano que aqui havia acabado de chegar: Aurélio Becherini (1879-1939). Munido de uma câmera fotográfica que ganhou de presente, saiu às ruas da ainda pequena São Paulo e começou a fotografá-la insistentemente, talvez prevendo a futura transformação, talvez fascinado pelas diferenças arquitetônicas com as cidades italianas, em especial as da região da Toscana, de onde veio. Tornou-se então o primeiro fotojornalista paulistano, publicando suas imagens no Estado (essas fotos estão no arquivo do jornal e fazem parte do livro São Paulo de Piratininga – De Pouso de Tropas à Metrópole, publicado pela Editora Terceiro Nome), e o primeiro fotógrafo a organizar uma memória imagética da cidade.

Parte desse seu trabalho pode ser vista na exposição São Paulo em Transição, organizada pelo pesquisador e curador Rubens Fernandes Júnior. A mostra conta com 45 imagens que fazem parte de um lote de mais de 600 pertencentes ao Arquivo do Departamento do Patrimônio Histórico.
328er-baixaSão imagens que nos apresentam uma transformação da cidade seguindo a efervescência daquele momento. Uma cidade que vai aos poucos se “metropolizando”, derrubando casarios para dar conta de uma busca de modernidade. Becherini não se contenta apenas em registrar a arquitetura e vai nos deixando também pistas daquilo que estava fadado a sumir. Mostra então propagandas nas paredes, cartazes, fachadas de lojas, personagens nas ruas. E nos oferece momentos do cotidiano de uma cidade que começa a se impor.

Não se tem notícia de que tenha trabalhado em estúdios. O que se sabe é que era visto perambulando pela cidade, cobrindo todos os eventos, transformações, situações que lhe chamavam a atenção. Suas fotos começam a ser publicadas no Estado e sua produção está concentrada entre 1911 e 1918. O próprio jornal solicitava a contribuição dos leitores e, provavelmente, foi dessa forma que Becherini começou a publicar sua produção. Com o tempo, porém, seu trabalho passou a ser reconhecido: “Becherini é considerado o primeiro repórter fotográfico de São Paulo. Além de sua atuação no Estado, também colaborava para outros órgãos de imprensa, como o Correio Paulistano, Jornal do Comércio e para as revistas Cigarra, Vida Doméstica e Cri-Cri”, nos informa Angela Garcia, que apresentou dissertação de mestrado sobre o fotógrafo.

Suas fotos são responsáveis por ele ter sido contratado pela prefeitura de São Paulo, pelo então prefeito Washington Luís, que queria registrar as transformações que viria a fazer na cidade. Preocupado, Becherini adquire, por conta própria, fotografias que já haviam sido feitas por outros profissionais, também empenhados em registrar a metrópole, tais como Augusto Militão de Azevedo (1837-1905), Guilherme Gaensly (1843-1928) e Valério Vieira (1862-1941). Desta forma, ele pôde elaborar mais um Álbum Comparativo da Cidade de São Paulo. A cidade em obras, tudo por seu olhar nada convencional. “Becherini tem como fotógrafo documental a informação e o estilo que, de alguma forma, caracterizam os profissionais da época: composição harmoniosa, equilíbrio impecável e a necessidade de flagrar um instante fugidio no fluxo inexorável do tempo. Porém, o que o diferencia dos seus pares é a constante busca de singularidades que se tornavam mais importantes que os logradouros fotografados. Suas fotografias proporcionam um encontro inesperado com o passado, pois materializam uma cidade no tempo e propiciam uma fascinante viagem com a sensação de estar presente”, escreve o professor Rubens Fernandes Júnior.

Em 1934, sempre se antecipando, Becherini procura o então prefeito Fábio Prado e lhe oferece seu arquivo, formado por suas fotografias e as que havia adquirido de outros fotógrafos. Será o próprio Mário de Andrade, que dirigia e recém-criado Departamento de Cultura, que mais se entusiasmará com o material e aprovará sua compra. Masvai ser outro fotógrafo, Benedito Junqueira Duarte, que vai encarregar-se de organizar, limpar e identificar o material. É assim que nasce a seção de iconografia do Departamento de Cultura da cidade de São Paulo.

Cronista da cidade, Becherini acompanhou por 30 anos as suas transformações, deixando imagens deliciosas de seu cotidiano, arquitetura, comportamentos e tendências. Sua importância como fotógrafo era tão grande que o Estado lhe dedicou uma extensa nota lamentando a sua morte. Assim como muitos italianos que ajudaram a construir São Paulo, Becherini ajudou-nos a educar o olhar e a conhecer a cidade.

Serviço
Aurélio Becherini. Galeria Olido. Avenida São João, 473, Centro, 3397-0000. 12 h/21h30 (dom. até 20 h; fecha 2.ª). Grátis. Até 30/11

Imagens naif, enriquecidas pelo toque da saudade

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Um resgate visual. Assim pode ser definida a exposição Voltaire Fraga – Abundante Cidade. Dessemelhante Bahia, com curadoria de Diógenes Moura, em comemoração ao mês da Consciência Negra.

 

Fotógrafo baiano desconhecido por muitos, Voltaire Fraga (1912-2006) começou a fotografar nos anos 30. Encontramos em seus retratos e em suas imagens uma busca humanista que ressalta o cotidiano da cidade e das pessoas. Sua estética, muito comum nessas décadas – nós a encontraremos anos mais tarde nas fotografias de Pierre Verger, que chegou ao Brasil em 1946 -, desvela e revela o banal. Como não podia deixar de ser, é no sincretismo religioso, no mar, nos pescadores e trabalhadores braçais, nas ladeiras de Salvador que a fotografia de Voltaire Fraga se faz presente.

Seu encontro com a fotografia se deu por acaso, como ele mesmo deixou escrito: ao passear pela cidade, viu numa vitrine uma câmara fotográfica VAG 9 x12. Foi o que bastou para que sentisse e se decidisse pela vida de fotógrafo. O ano era o de 1927. Três anos depois, enviou algumas fotografias para uma revista no Rio de Janeiro. Não precisou esperar muito para encontrar as mesmas fotografias publicadas nas páginas centrais da revista O Cruzeiro sob o título: As Fotografias da Bahia de Voltaire Fraga.

“Produzidas entre as décadas de 1930 e 1960, essas fotografias nunca esgotam os percursos que fizeram da Bahia um objeto de desejo para fotógrafos viajantes e outros não, desde o início da documentação oitocentista”, escreve no catálogo o curador da mostra.

E, assim como as primeiras imagens do século 19, as fotografias de Voltaire Fraga mais se assemelham ao trabalho de um amador – no sentido daquele que gosta do que faz -, como se ele mesmo ao fotografar estivesse descobrindo a Bahia. Registra o que vê com o olhar atento de quem anota. Caminha a esmo, encontra, registra e guarda. Imagens naïf que se enriqueceram pelo tempo, que adquiriram um tom de saudade, de tempo passado. Registros de uma Bahia idealizada. Não por isso menos interessante e instigante. Uma Bahia que se construiu à imagem e semelhança das inúmeras representações pictóricas que dela fizeram.

voltaireInfelizmente, muitas das imagens se perderam durante um temporal que inundou a casa de Voltaire Fraga e destruiu quase 10 mil negativos. Sobraram poucos, 2 mil, que ele tratou e preservou até o fim de sua vida, em 2006. É parte desse acervo que a Pinacoteca nos mostra. Uma homenagem devida a um profissional que com olhos livres nos ajudou a construir nosso passado.

Serviço
Voltaire Fraga. Pinacoteca. Praça da Luz, 2, tel. 3324 -1000. 10 h/18 h (fecha 2.ª). R$ 4 (sáb. grátis). Até 11/1

A cidade e suas margens!

Particularmente gostei muito das fotografas da Elisa Bracher. De alguma forma me emocionaram. Gostei muito do livro. Por isso decidi escrever sobre ele. Lá vai:

408aUm trabalho que nasceu do acaso e, por acaso. Elisa Bracher nunca pensou na fotografia como sua forma de expressão. Conhecida por suas esculturas magníficas de madeira ou por suas gravuras, a artista plástica, sem querer querendo se viu fotografando. E gostou do que fez! Tanto que, um trabalho que nasceu sem nenhuma pretensão intelectual, acabou por tornar-se sua estréia no mundo da fotografia. Para entender este processo é preciso voltar no tempo. Dona de um espaço fantástico na Vila Leopoldina há mais de 15 anos, há treze em seu ateliê Acaia, ela atende 300 moradores da Favela da Linha e da Favela Norte. Lá, crianças, jovens e adultos vivem em um espaço de convivência e ensino da arte. Ponto! No ano passado, para ajudar os moradores da favela a conseguir o direito de permanecer em suas casas, documentou o local. Uma documentação simples que serviria de base para um juiz decidir o destino de várias famílias. Mas, Elisa Bracher não tem um olho simples. Formado por seus trabalhos e pesquisas nas peças que elabora e expõe no mundo todo, ela se deu conta que não tinha uma documentação formal, mas que aquelas fotos, feitas para um dossiê jurídico, traziam mais. Muito mais.

Embora absolutamente documental – e talvez por causa disso – as fotografias de Elisa, feitas e pensadas de forma naïf – no melhor conceito que tem essa palavra pode ter – se apresentam compostas da mesma maneira de suas esculturas. Ela não fotografou, esculpiu. Um olhar pessoal, dirigido, que encontrava ordem no aparente caos de uma favela, que descobria cores e estética na construção das moradias. Elementos desconhecidos ou não visto pelos próprios moradores: “quando mostrei as imagens da favela para eles, se ficaram alegres com tanta cor”, nos conta Elisa.  Em nenhum momento apologia da miséria, visto que o trabalho não nasceu com esta intencionalidade, mas apenas a descoberta de algo novo, pelo menos para Elisa. Ao contrário ela deu visibilidade para estas pessoas: “acho que este é poder da fotografia. Tem muitas coisas que eu não sabia que eu via, como por exemplo, as cores da favela. A fotografia te ajuda a ver”, comenta

A descoberta destas primeiras imagens a levou então para um segundo momento da produção: “quer a gente queira ou não, muitas vezes somos levados por nossos próprios preconceitos e só conseguimos enxergar a desordem, a bagunça. Quis entender de onde vinha isso e, por isso, decidi falar com as pessoas que freqüentam aqui o ateliê e partir em busca das raízes das cidades que deixaram”, comenta. Nesta segunda etapa mais de seis mil quilômetros foram percorridos por sete cidades do Nordeste. Ela andou por Alagoas, Bahia, Ceará, Fortaleza, Paraíba, Pernambuco e Piauí. Lá também fotografou moradias. São diferentes, mas são a mesma coisa: “o que pude perceber é que a solidão é a mesma. A desordem que existe aqui, também existe lá, com a diferença que lá não existe o resíduo urbano”. Divertida nos conta a história de uma moça que queria sair de sua cidade, pois segundo ela, lá já havia namorado todo mundo e “queria namorar mais. Por isso estava pensando em vir para São Paulo”.

Estranhamente, nas imagens de Elisa, não existe a figura humana: “este trabalho começou como um documento onde as pessoas não deveriam aparecer somente suas casas, então decidi manter.”

Em suas fotografias, a ontologia da imagem, o documental: “acho um privilegio este trabalho não ter nascido com pretensões artísticas. Ele nasce menos armado, menos protegido e com uma doçura que me encantou”. Pela primeira vez ela trabalhou com a mobilidade e liberdade de movimento e ação que só a câmara fotográfica pode te dar: “eu adorei essa experiência. Me senti como se a minha motosserra fosse a câmara. Me senti livre!” Tratado sem técnicas mirabolantes ou de forma a esconder o que a fotografia tem de essencial que é a sua ligação com o real, Elisa se apropriou desta especificidade da imagem para nos trazer um lirismo e uma poética próprios de seu olhar: “o que me incomoda na fotografia é quando ela vira cenário de uma idéia, de uma estetização. Quando ela se torna mais importante do que o assunto que você está fotografando. Acho que o papel dela é ser documental.”

Elisa retoma algo um pouco esquecido pelos artistas que se apropriam da fotografia e que acabam sendo seguidos por fotógrafos que não sabem bem o que fazer e querem de qualquer maneira entrar num mercado que por enquanto, criado por outros, ainda não pertence verdadeiramente à fotografia. Como se voltássemos no tempo, nas discussões do século XIX, que há muito pareciam ultrapassadas. Ao defender a fotografia como documental antes de mais nada, Elisa não descarta a existência da autoria ou da expressão pessoal, que comparece pelo olhar rebuscado ou por uma estética própria. E para refletirmos ela nos lembra de uma frase que ouviu do artista Evandro Carlos Jardim: “você não é maior do que a técnica!”.

Vale a pena o livro de Elisa!

elisa

Mais livros!

capa_gentexmato275_baixaSemana passada fui ao lançamento do livro do Pedro Martinelli, o famoso Pedrão. O livro Gente X Mato, é um manifesto dos quase 3o anos que ele viaja e fotografa a Amazônia. Os primeiros como fotojornalista ligado ás imprensa, os últimos como fotojornalista que decidiu contar à sua maneira a história da Amazônia. Um livro dividido por temas, paisagens, pessoas.

Um tratado que Pedro talvez estivesse devendo à região.

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