Absolutamente sem graça

A notícia já tem algum tempo, mas só agora decidi escrever. Este novo software Smile Check apresentado pela FotoNation (leia nota no Fotosite) que vem embutido nas novas câmaras digitais e só fotografa quando todo mundo estiver sorrindo, é uma verdadeira bobagem. Quem disse que a gente tem que sorrir nas fotografias? Por que? E se eu não quiser? Como fica, não consigo fazer fotos? Esta mania de determinar qual a imagem certa passou dos limites. Até mesmo os olhos vermelhos – horror para vários fotógrafos – podem ser incluídos como linguagem se eu quiser. E como definir a forma de representação? De novo o problema não é que todos fotografam, mas o mau uso da imagem. Cada vez mais a indústria procura determinar qual a forma correta de fotografarmos ou representarmos alguma situação. Com relação às imagens feitas por amadores, nos anos 60, o sociólogo Pierre Bordieu, à pedido da Kodak que estava para lançar a Instamatic, realizou uma grande pesquisa para saber porque as pessoas fotografam e o que fotografam. O resultado foi o livro Fotografia un arte medio”, editora Gustavo Gili, escrito em parceria com outros autores como Luc Boltanski, Robert Castel, Gérard Lagneau entre outros.  O título original em francês é: Un art moyen- Essai sur les usages socieaux de la photographie”Les Edition de Minuit. Neste livro – muito interessante, por sinal – Bordieu e companheiros tentam descobrir o que fascina os amadores, o que os leva a fotografar e chega à conclusão de inúmeras regras que eles se colocam antes do click. Claro que muitas a publicidade  acaba impondo. Agora só fotografar quando todos estiverem sorrindo? Eu particularmente não acho a mínima graça! E vocês?

As vistas de Maurício

Nos últimos tempos cada vez mais temos asistido a exposições cujo tema central é a paisagem. Fruto de um interesse e uma preocupação cada vez maior com a degradação do meio-ambiente, fruto do cansaço de temas urbanos, fragmentos, pedaços, fotos que tem pressa.

E a paisagem é também o tema escolhido por Mauricío Simonetti fotógrafo há mais de 27 anos e que teve desde sempre o mato, a natureza como fonte de inspiração. Imagens gravadas na memória de sua infância quando com o pai pescava às margens do Rio Tietê. Anos mais tarde ao começar na fotografia, seu interesse se voltou para os fenômenos naturais. Não de forma exótica, nem para produzir livros que recobrem mesas e que nunca serão abertos, mas como forma poética . Maurício fotografa como se desse voz à natureza, como se ele fosse um intermediário e pudessemo ouvir o sussuro da água, das plantas e o azul do céu. Um impressionista fotográfico.

Estas imagens podem ser vistas a partir de hoje na Caixa Cultural da Praça da Sé. São 18 fotografias resultado de um trabalho desenvolvido digitalmente nos últimos dois anos. Como já escrevi há alguns dias, que bom recobrarmos o tempo da contemplação. Ver imagens que não gritam, que falam baixo sem deixar de serem contundetes.

Do outro lado do mundo

Muitos de meus ex-alunos continuam mantendo contato comigo, via telefone, e-mail, me convidando para tomar um chopp, me mandando notícias sobre seus feitos e trabalho. Confesso que fico bem feliz, em saber por onde andam e em saber que continuam me mantendo em suas listas. Falam de suas viagens -literais e mentais – de seus desejos, mandam suas fotos, endereços de blogs e escrevem neste blog.

Mas hoje gostaria de destacar três deles que estão literalmente do outro lado do mundo e me mandam notícias de vez em quando.Um é o Diego Lajst que está ha um ano na China. Ele foi convidado por uma universidade línguas para ensinar português. É claro que aproveita para fotografar, fazer seu blog (seu diário) e montar um belíssimo portfólio. Além de ser uma experiência fascinanate. O trabalho dele pode ser visto aqui. Outros dois são o Érico Hiller e o Renato Negrão. Neste momento eles estão no Índia. No começo do ano, mais precisamente em março, fui convidada pelo Érico e pelo pessoal (maravilhoso) do Sesc Vila Mariana, para entrevistar o Érico que apresentava um trabalho sobre “Violência Contra Mulher”. Ele fotografou mulheres agredidas no Brasil e na África. Agora ele está na Índia completando ou ampliando um trabalho que está desenvolvendo sobre  metrópoles. De quebra levou o Renato junto como assistente e como fotógrafo. O Renato mandou o endereço do blog que começou a fazer.  Destaco estes trabalhos hoje mas sem esquecer dos fotoblog, ensaios e trabalhos dos outros. E são muitos! Vale a pena ver os blogs que eles indicam.

Créditos: foto acima Diego; foto ao lado Renato.

De bem com o mundo!

“Um projeto que pretende divulgar imagem que possam trazer conceitos de paz, dignidade, ética é amizade”. Começa assim o release do  ”Imagens da Paz” - lançado oficialmente no último dia 18, em São Paulo, idealizado pelo fotógrafo Eduardo Barcellos. Como uma resposta às inúmeras imagens de violência, agressões, guerras, crimes, etc, etc, etc, a que somos submetidos diariamente. Uma maneira de mostrar o outro lado da moeda. Sim, porque trata-se sempre da mesma moeda. Mas o que seriam imagens da paz? O que seriam imagens que reforçam conceitos positivos? “Imagens da Paz é uma iniciativa inovadora que cria um banco de fotos on-line, disponibilizando gratuitamente, imagens que reflitam mensagens positivas e conceitos ligados à paz, definidos assim pela UNESCO: amor, cooperação, felicidade, honestidade, humildade, liberdade, paz, respeito, responsabilidade, simplicidade, tolerância e união. As imagens serão cedidas por importantes fotógrafos profissionais para campanhas e ações promovidas por ONGs e instituições sem fins lucrativos que compartilhem dos mesmos ideais.”

Não sei. Mas com certeza é algo que precisamos refletir. Perdemos o tempo da contemplação. Ou pelo menos ele se transformou. Portanto imagens que valem hoje tem que ter sempre algo de impactante de sensacionalista que fere, mas não produz reflexão. Ao nos propor novas formas de fotografar, ou melhor de mostrar imagens, porque acredito que esse tipo de imagem sempre foi feita, o projeto “Imagens pela Paz” nos convida a refletir sobre algo que esquecemos que é enxergar, aprofundar, parar e pensar.

A idéia não é nova. Edward Steichen, (1879-1973) nos anos 50,  – mais precisamente em 1955 – ao propor a exposição “The Family of Man”, queria justamente isso: mostrar como somos todos humanos e únicos e que, apesar de tudo, como diz Susan Sontag: “a despeito de todas as suas falhas e vilanias, somos criaturas atraentes”. 503 fotos de 273 fotógrafos de 68 países foram expostas no MOMA de Nova York.  Há tempos procuramos algo que nos devolva a humanidade perdida, a capacidade de nos emocionarmos, de termos compaixão pelo outro, não de forma burlesca ou espetacular (de espetáculo, não de fantástico) mas como uma maneira de me enxargar no outro. A exposição de Steichen foi montada 10 anos após a 2ª Guerra Mundial. O mundo estava procurando se reconstruir. Imgens da Paz surge num momento em que o espetáculo já tomou conta de tudo e talvez seja uma maneira de nos devolver, se não for a paz, a capacidade de contemplar. A idéia já atraiu vários profissionais como Gal Oppido, Cristiano Mascaro, Roberto Linskier, Cássio Vasconcellos, Ana Lúcia Mariz, entre outros.

A utopia brasiliense

Será lançado hoje à noite em Brasília o livro “Luis Humberto-A Luz e a Fúria”, terceiro volume da coleção Brasilienses. Homenagem mais que merecida para o fotógrafo que nos ensinou a pensar fotografia, mais nos ensinou a pensar fotojornalismo e nos tornarmos fotojornalistas, levando para a acadêmia as discussões das redações e vive-versa. 

  Sou fã incondicional de Luis Humberto, de suas fotografias, de seus textos, mas acima de tudo de seu humor, de sua ironia fina, de sua fala – muitas vezes cortante como faca amolada – mas  que sempre nos faz pensar.  Foi Luis Humberto que inaugurou – em 2003 – a Coleção Senac de Fotografia.

Neste livro lançado agora em Brasilia, além de um perfil escrito pela jornalista Nahima Maciel, ainda vamos ter um ensaio especial de Anderson Scheneider, realizado na Universidade Brasília e de textos de críticos da fotografia. Nestes eu me incluo e fiquei muito feliz por poder participar da publicação. Já escrevi isso aqui muitas vezes, mas vale a pena reiterar. Adoro iniciativas como estas que ajudam a escrever a história da fotografia e a resgatam das gavetas, caixas de sapatos ou arquivos esquecidos.

Que venham mais livros como esse. Leia aqui o que o Pictura Pixel escreveu a respeito.

Volto semana que vem!

Meus caros nestas duas semanas vou estar envolvida com um trabalho que eu adoro que é o da pesquisa iconográfica. Há tempos não era chamada para um projeto tão bacana. Vou procurar escrever nos intervalos, mas seu eu sumir….já sabem porque, visto que estou enfurnada nas bibliotecas.

Sempre adorei este tipo de trabalho onde você é paga para aprender, estudar e pesquisar!

Até a próxima semana!

Muita calma nesta hora!

Tenho acompanhado, acredito que como muitos, a busca da garota que se recusou terminantemente em apertar a mão do então presidente do regime militar João Batista Figueiredo. O fato foi registrado pelo Guinaldo Nicoalevsky. A história foi trazida à tona pelo Pictura Pixel e depois ecoou por vários órgãos de imprensa, veja matéria no Estadão, que agora buscam a menina!

Fiquei pensando e tenho algumas questões para dividir, melhor, dúvidas: por que queremos saber quem é a menina?  Será que temos a ilusão de acreditar que uma garota de 5 anos teria uma postura ideologica, não se trataria de birra infantil?

O que quero colocar – que a ídéia está no retrato do Guinaldo. Se não soubessemos que era o fotógrafo, aí sim, valeria a pena correr atrás e saber. O importante nesta história – me parece- é o resgate da obra fundamental do Guinaldo Nicolaevsky e suas contribuições ao jornalismo brasileiro, durante 50 anos. É ele o grande protagonista da imagem e não a garota. Foi ele que teve  olho e a presença de espírito – que tanto falta aos fotojornalistas de hoje – de perceber que algo iria acontecer – ou não –  e que ele teria em mãos uma bela imagem que provavelmente faria história. Tanto que a matéria do Jotabê Medeiros, vai nesta direção, contar a vida do Guinaldo!

Saber quem é a menina…não me parece nada bom. É tirar a fala da imagem, a proposta da imagem. Quando traduzimos em geral ao coisas empobrecem. Vamos deixar a menina de lado e vamos em busca, sim dos precursores do fotojornalismo brasileiro. Uma história que ainda está para ser contada!

 

Ainda em Roma!

Quem também participa do Festival da Fotografia de Roma (leia aqui) é minha prima-irmã Patrizia Savarese (ela é filha da irmã de meu pai). Patrizia, arquiteta por formação, começou fotografando show de música e de rock. Nos anos 80 monta seu próprio estúdio e se dedica à moda e publicidade. Nos últimos anos seus ensaios estão voltados para a questão da água, e da poluição.

savarese1.gif

É este aliás o trabalho que ela vai mostrar agora em Roma: “Panorami Innaturali”, uma denúncia ou crítica à degradação do meio-ambiente. Relaborando suas imagens de arquivo feitas ao redor do mundo Patrizia transforma a natureza e paisagem causando um estranhamento do olhar, na tentativa de – de forma poética – chamar nossa atenção para as transformações ambientais.

Um tema que interessa a todos nós!

Saudades da Itália II

Começa depois de amanhã, dia 4, em Roma, o “FotoFestival-Festival Internazionale di Roma”. O tema deste ano (é o 7º festival da fotografia) é “Vedere la normalita-la fotografia racconta il quotidiano”. Ou, em tradução livre: “Ver a normalidade-a fotografia relato do cotidiano.”. Até dia 25 de maio Roma vai ser invadida – como em todos os festivais de fotografia – por imagens, exposições, encontros, e fotógrafos. Dois brasileiros participam desta edição: Miguel Rio Branco e Claudia Jaguaribe. Miguel apresenta um trabalho já nosso conhecido: “Entre os olhos, o deserto”, já a Claudia nos traz sua visão de Roma (são delas as imagens deste post).

roma1.jpg

Ela partiu da própria idéia de cotidiano- tema do festival – para andar de ônibus pelas ruas da Cidade Eterna (desculpem o clichê, horrível por sinal, mas ando emotiva) e “segue” os passageiros captando o percurso entre a vida privada e o destino final de cada um.

roma2.jpg

Ao mesmo tempo registra a cidade, sues lugares efêmeros, seu olhar de passagem e de passageira. Confira aqui a programação do Festival.

O sonho e a ruína – São Miguel das Missões

felizardo.jpg

 

Título da exposição que  Luiz Carlos Felizardo abre hoje no MARGS (Museu de Arte do Rio Grande do Sul) em conjunto com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IphanO local que abrigou religiosos vindos à região com o objetivo de catequizar os índios guaranis entre os séculos 17 e 18 é tema do trabalho de Felizardo desde 1973. O artista continuou fotografando a região até o ano de 2007, período no qual o projeto foi selecionado pelo Edital Arte e Patrimônio do MinC/IPHAN. O interesse do fotógrafo pela região remonta à história de sua família, com a descoberta de uma carta que o militar Luis Carlos Prestes havia enviado em 1924 ao pai do fotógrafo, seu primo-irmão, na passagem pela região pouco antes do início da Coluna Prestes.Por seu valor histórico-afetivo, a correspondência integra a exposição assim como fotografias das ruínas produzidas por autores desconhecidos na década de 20 e coletadas pelo próprio pai de Felizardo, engenheiro que na época trabalhava no local.

felizardo2.jpg

Sobre este trabalho conversamos com Felizardo:

1.Fale sobre o projeto o projeto. O projeto se refere às ruínas do povo de São Miguel 

(Missões) e é de uma exposição com 50 painéis, 40 deles com minhas fotografias e 10 com textos e imagens analisando a história, a arquitetura e a estatuária missioneiras. Afora as fotografias de minha autoria, vou usar várias imagens antigas, algumas constantes do pequeno acervo que tenho. 2. A reconstrução de nossa memória está em alta. Muitos procuram trazer à tona o passado. Esta é uma das vertentes do projeto?Na verdade, ainda que isso vá ocorrer, não estava entre os meus objetivos. Não tenho a intenção de “trazer à tona o passado”; o que pretendo é mostrar um trabalho que trata um pouco de arquitetura e bastante de RUÍNAS, com toda a carga emotiva que elas podem ter quando vistas plasticamente. Mas São Miguel é um referencial histórico muito importante: além de listado pela UNESCO como Patrimônio Mundial (não só histórico, mas artístico…) foi lá que aconteceu um dos eventos realmente verdadeiros da história gaúcha, muito antes de se criar a figura  — falsa — do gaúcho guerreiro e fanfarrão. E pouca gente conhece aquilo lá e sabe um pouco da sua história. Ou seja, a exposição pretende ter também um papel didático. 3. Por que Missões? Há muitos anos, fiz um trabalho sobre arquitetura histórica no RGS e as Missões foram estudadas e fotografadas. Aí talvez tenha começado a tomar forma a grande atração que desenvolvi por essas ruínas. Participei, também, da exposição “A Visão do Artista”, parte do projeto Missões 300 Anos (em 1987), que me proporcionou a oportunidade de fotografar São Miguel mais extensivamente.

felizardo1.jpg

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 85 other followers